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domingo, 26 de agosto de 2018

Caminhos de Vida

Não nos apercebemos da verdadeira realidade da situação em que vivemos. Um pouco te atenção ao que do mundo vamos vendo, e para aqueles que dão uma vista de olhos a algumas das redes sociais de que está coberta a nossa internet, percebemos que nesta sociedade e neste tempo se manifesta uma terrível e impressionante Cristofobia (medo de Cristo).

Mais do que nunca a Igreja está a ser perseguida a ferro e fogo. Mais do que nunca os valores de vida estão a ser arrasados. Não estranhemos que a situação seja esta. Acredito que estamos a caminhar para o auge da perseguição, que vem sendo preparada há bem mais de um século. Infiltrações de mal,  para que a destruição viesse de dentro, aconteceram deliberadamente. Mas a perseguição não é contra a Igreja, essa não faz mossa, é contra Deus. Vai piorar? Vai. Podemos fazer alguma coisa? Sim. Muito? Sim. o Quê? Rezar e viver com coerência nossa relação com Deus. Está tudo perdido? Não, muito longe disso! Está tudo ganho para aqueles que são fiéis e assim se mantiverem ao longo da vida e até ao seu momento final. Estávamos avisados por Jesus de que isto aconteceria.

Estamos habituados a pensar que acontece lá longe, em países muçulmanos ou similares, mas não! Acontece nos países mais tradicionalmente cristãos, acontece neste país que é nosso, e de forma bem aguerrida, mas muito dissimulada. 

A ação é esta, a reação não pode ser nos mesmos moldes. Foi-nos mandado que amemos os nossos inimigos. E o amor passa pela oração de reparação do mal feito a Deus e pela conversão, nunca por palavras, gestos ou atitudes que incitem à violência, porque ela se enraíza dentro de nós e faz-nos semelhantes a eles. Essa é a vontade da criatura que está por trás de tudo isto.
Há muito "trabalho" a fazer no silêncio íntimo dos nossos quartos e no silêncio terno dos nossos sacrários. Se há 100 anos, em Fátima, Deus se manifestava como "horrivelmente ultrajado" e "já muito ofendido", que dirá hoje? E Deus continua a suportar-nos. Reparação e desagravo, conversão e penitência, oração e sacrifício... são caminhos para a salvação, nossa e dos demais. 

"Vigiai e orai, para não caírdes em tentação" (Lc 26,41)

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Somos Migrantes


O mês de agosto é, tradicionalmente, mês de férias, abundando, por isso mesmo, o número e emigrantes que regressam às origens, àquelas terras e "momentos" onde nasceram e que viveram. As nossas origens marcam-nos indelevelmente. É por isso também que nos fascinam as músicas e demais coisas do "nosso tempo", essas sim estão-nos no coração e -las, delas falando, com muito gosto.

Faz-me isto pensar na realidade em que acreditamos e no quanto ela nos leva a ansiar por, mesmo não o pensando, vivermos um contacto permanente e definitivo com as nossas origens. Viemos de Deus, por Ele pensados desde sempre, e a imagem e semelhança que Dele somos são-nos intrínsecas. Não 'descansaremos' enquanto não retornamos a Ele e, por Graça e Misericórdia, deixarmos de ser imperfeita imagem e semelhança para sermos, Nele, perfeição.

A saudade do que interiormente somos mas não podemos viver em determinado momento é apenas uma mera sombra da ânsia interior em nos encontrarmos na casa do Pai. Esse é o anseio profundo que nos marca a vida e trespassa todo o ser.

Nascemos de Deus e para Ele fomos criados. O "não" da desobediência original, que nos assinalou a todos com marca de pecado, faz-nos viver desterrados, fora de nossa  'casa' e perdidos por caminhos errantes e em escuridão de dúvidas e de medos. No meio das incertezas do caminho, o Inimigo vai-nos fazendo aparecer luzes que não são mais que ilusões e miragens. O Segui-las só deixa mais incerteza, dúvida e ânsia, uma vez que nos afastam do caminho para a casa do Pai, esse caminho que interiormente nos é apresentado pela Espírito Santo.

Quando de eterno descanso falamos, não se fala de um 'parar' definitivamente, mas do ser tudo em Deus, porque só Ele é nossa paz, só Nele se preenche nosso ser porque só para Ele fomos criados. O inferno é exatamente o oposto: a ânsia, o pavor, o medo e a absoluta certeza de eterna infelicidade, que advêm da recusa em caminhar para Deus. Ao descanso eterno contrapõe-se a angústia eterna por nada se ter de Deus, por se estar em absoluta ausência de qualquer referência à 'casa do Pai'.

terça-feira, 26 de junho de 2018

É Preciso Mais...


Recordo facilmente como vivi uma infância assente em ritmos muito próprios e definidos. Nas aldeias, não imagino como seria nos grandes aglomerados populacionais, os dias dividiam-se claramente em dia e noite, sendo que um tempo era para trabalhar, brincar, e o outro para dormir, descansar. O ritmo do trabalho assentava em seis por um, seis dias para trabalhar e um para rezar e descansar. Por férias contavam-se pelo tempo que as escolas nos permitiam ficar em casa, sem aulas, tornando-se ocasião para os trabalhos que os pais se encarregavam de arranjar para os filhos, recheados ainda com o que da escola nos era mandado fazer nesse tempo de férias.

Os tempos e as mentalidades mudaram à velocidade do voo. Para muitos, as noites transformaram-se em "dia" e os dias em "noite". O pijama tira-se ao final da tarde porque se aproxima o tempo de sair da cama, ou do computador, e de casa. Claro que para muitos isto soa a exagero, e é-o, mas é a imagem do estilo de vida que esta sociedade vai assumindo.

Como se esbatem os tempos de trabalho e de descanso, se dia e de noite, esbatem-se também os "tempos" do mundo e os de Deus, como se esbate a diferença entre o bem e o mal. Estão aí os tempos de férias, tempos de uma maior dispersão das famílias, que procuram, na medida do possível, novas paragens para passar alguns dias.

Distantes ou por cá, muitos perdem o já pouco interesse que vão sentindo por Deus e pelas suas "coisas", como se de férias se tratasse também. Direi o que pode não ser entendido e, naturalmente, a muitos não interessa: o tempo de férias deve ser, porque é preciso ser, tempo de intensificação de oração e relação com Deus, na oração. A maior disponibilidade de tempo, os grupos dos amigos, as festas e festivais, o excesso nos consumos de álcool e drogas, o entusiasmo desmedido na condução, a falta de descanso, a falta de oração... aumentam, em muito, o risco de nos perdermos, particularmente os mais jovens, os nossos filhos, os filhos dos nossos amigos. É preciso mais oração por nós mesmos e pelos demais. Quanto mais precisamos menos tempo lhe dispensamos.

quarta-feira, 30 de maio de 2018

Filha, Esposa e Mãe

Em dia de celebração da Santíssima Trindade (27-05-2018), aproximamo-nos do fim do mês de maio, o mês da Mãe. 

Tão absorvidos que andamos com as coisas, de muita ou de nenhuma impor-tância, não temos tempo, sobretudo não temos disponibilidade interior, para tomarmos a consciência que nos é possível, da realidade que é Deus, e da absoluta necessidade na nossa relação com Ele.

Não podemos alcançar a intensidade  da relação de Nossa Senhora com a Santíssima Trindade. É-nos possível, ao menos, refletir um pouco na questão:

Filha de Deus, porque sendo criatura só pode ter sido criada por Deus. Criada em estado de perfeição, Deus deu-Lhe tudo o que podia dar. Essa é a mais perfeita intimidade;
Esposa de Deus, porque sob a ação do Espírito Nela foi gerado Jesus. Nela se gerou plena vida divina. Essa é a mais perfeita intimidade;

Mãe de Deus, porque a humanização de Deus só era possível com a intervenção de um ser humano. E Deus chamou-A de Mãe, porque o era de facto. Essa é a mais perfeita intimidade.

Ser filha, ser esposa e ser mãe, são os mais profundos elos de relação e de intimidade do ser humano, sendo que cada uma destas dimensões é diferente, percebamos que o acontecerem em ato único e sendo intimidade relacional de Deus com um ser humano vai infinitamente para além da nossa compreensão, mas é Maravilha das Maravilhas.

É desta divina maravilha que recebe-mos a Vida e para a Vida plena somos  chamados e atraídos. Deixemo-nos envolver por Ela.

segunda-feira, 21 de maio de 2018

Guerra a Si Mesmo

É, talvez, a realidade mais difícil de alcançar. É, também, das coisas mais dependentes de nós mesmos para que a ela se chegue. Falar de paz reporta-nos, geralmente, para um mundo distante do nosso, pois, aparentemente, é na paz que vivemos. Parece pensarmos que a paz é apenas a ausência de grandes conflitos.

Atiramos, nisto e em muitos outros campos, as culpas e os motivos para cima de alguém que não sejamos nós mesmos, simplesmente porque não nos envolvemos em diálogo com a consciência interior. Aliás, se se manifesta um pouco mais, cuidamos de a silenciar.

É intensa a falta de paz quando no silêncio de nós mesmos há falta de tranquilidade pelo que fazemos e não devemos, pelo que maquinamos e decidimos sabendo que não nos faz bem, pelo que julgamos ser bom e fazer bem quando, interiormente, nos é dito que se trata de algo mau. Abafa-se a paz da voz interior para dar espaço a um disfarçado sistema de guerra pessoal.

Não pode ter paz quem não busca intensa intimidade com a voz interior que há dentro de si, o Espírito que, por sermos semelhança de Deus, nos atrai, inclina  e move para a Verdade. Não pode ter, nem fazer, paz quem é conflito interior.

Drama maior é ainda o facto de a falta de paz pessoal crescer como bola de neve. Torna-se sempre maior, e cresce mais, porque a um conflito não resolvido leva sempre, necessariamente, a mais conflitos geradores de falta de paz, porque o mal e o bem crescem dentro de nós, na sua essência não nos vêm de fora, nascem e crescem em nós, embora possam ser lançados do exterior, mas só se instalam se em nós há clima e ambiente preparado para tal.

Terei e serei paz se, e quando, eu quiser, apenas quando o meu ser em cada momento formar um ato de harmonia com a consciência que seu sou também. Se estou em paz interior, é porque estou em paz exterior também. O que acontecer à minha volta faz-me sofrer, inquieta-me e exige a minha ação, mas não me tira a paz. Ela está dentro de mim.

Trágico é quando me deixo iludir por falsa sensação de paz. Em Semana da Vida" devo perceber que tudo, tudo mesmo, o que vai contra a vida, não nos deixa paz. O conflito, mesmo o interior, é um estado de morte, de "não vida".                 

terça-feira, 1 de maio de 2018

Especial Para Deus

Quanto medo e quantas maquinações de mal nascem quando uma criança, ainda que na sua inocência diga que quer ser padre! Se na adolescência ou na juventude alguém assim se manifesta, tornam-se mais severas tais maquinações por parte daqueles que se deixam ser instrumentos do Mal, assim como os medos dos pais que, tornando-se pequeninos não veem além do medo e perdem a o olhar da grandeza do dom e da graça que é vocação sacerdotal de um filho seu. Não perde, porque Deus nada deixaria perder a quem Lhe consagra um filho.

O sacerdote é escolhido por Deus, é eleito, não por mérito ou valor seu, mas por puro dom de Deus, para integrar a porção mais dignificante da sua vinha. Não há, repito, não há estado mais dignificante para o ser humano, como o ser humano, como este de ser escolhido pelo próprio Deus para ser dispensador dos seus dons e graças. Porque é especial para Deus, porque e Ele é consagrado, o sacerdócio é também a realidade mais odiada, mais perseguida, a mais atacada pelas forças do mal, que atuam no mundo subtil ou claramente.

Só a força da oração e a confiante certeza da permanente graça de Deus, a que se aliam os frutos do ministério, embora não sendo seus mas de Deus, dão ao sacerdote a força e o ânimo para caminhar. "Bem-aventurados sereis quando vos insultarem, e perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós, por minha causa. Exultai e alegrai-vos, pois é grande nos céus a vossa recompensa" (Mt 5,11-12).

É verdadeiramente dom, graça, e felicidade que o sacerdote se sinta despojado de si mesmo e, no meio dos seus muitos pecados, se saiba amado e instrumento de Deus para Ele realize a Salvação. Saber que, quando atua in persona Christi (na pessoa de Cristo) são suas as palavras e os gestos, mas que é do próprio Deus a ação e a força que têm! Saber que a Graça passa por si, que Deus se faz realmente presente quando pronuncia as palavras da Consagração, que Deus se faz perdão, quando pronuncia as palavras da Absolvição!

Porque a graça é dom gratuito, ela é oferecida não apenas ao sacerdote, àquele que diz "sim" ao chamamento, mas à família que disse o seu "sim", na consagração de um filho, como também à comunidade que o ajuda a crescer. Naturalmente a graça atua tanto quanto a abertura que se tem a ela. Se conhecêssemos o Dom de Deus!!!                                                                                          (22-4-18)

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Açao de Deus


Somos batizados e queremos o batismo para os nossos. Talvez não percebamos muito bem porquê nem para quê, mas que queremos, queremos. Mais, ainda, queremos que no funeral seja celebrada missa, ainda que ao longo da vida ela tenha sido arredada dos afazeres do defunto.

O Papa Francisco dizia, há dias, que era preciso batizar as crianças para que o Espírito Santo entre em suas vidas e atue nelas. Esta expressão tem bem mais que se lhe diga do que aquilo que no primeiro momento possamos pensar: o Espírito Santo atua independentemente da nossa ação. Quanto aos frutos dessa ação, esses sim, dependem da nossa aceitação e atuação.

A vocação, o chamamento, à vida sacerdotal, e estamos em Semana de Vocações, é um estado, não uma profissão. Como o ser cristão, é uma forma de viver e de ser. Deus quer que a sua ação no mundo e na história aconteça através de pessoas, não de Anjos. Por isso escolheu homens e mulheres por quem atua e realiza a Salvação.

O sacerdócio ministerial é apenas exercido por homens. Esse é o ponto que menos interessa nesta reflexão. Importa pensar que Deus atua através do sacerdote. Queiramos ou não, atua. Seja o sacerdote muito ou pouco pecador (ninguém é pouco), Deus atua por ele. A Graça e os frutos dessa ação de Deus dependem do sacerdote, sem dúvida que sim, mas os seus efeitos dependem essencialmente daqueles sobre, em função de quem, atua.

Entenda-se, assim, que a oração, o ânimo que procura dar-se, pelo sacerdote frutifica nele mas atua, de imediato, sobre quem reza e anima, e sobre a comunidade. O sacerdote não atua em função de si mesmo, é instrumento de Deus para que Ele atue sobre a humanidade e, particularmente, sobre as comunidades que ao sacerdote foram confiadas.

Não se julgue que quando se pede oração pelos sacerdotes é em função dele. Não, é em função da Igreja, para glória de Deus e bem das almas. Assim também, quando, por mal, se diz e faz alguma coisa aos sacerdotes, está a cortar-se a ação de Deus sobre a comunidade que por eles são servidas. Não estou a defender os sacerdotes, estou a tentar fazer perceber o que perdem e ganham as nossas almas.

sábado, 18 de novembro de 2017

Tempo da Justiça

Falávamos de Misericórdia, na última semana, hoje pensaremos um pouco no tempo da Justiça de Deus, o "tempo" de purificação no Purgatório. Santa Faustina escreveu que Jesus lhe disse que o sofrimento do Purgatório não é do seu agrado, mas que a Justiça assim o exige.

Tentando compreender um pouco, pensemos que não mal que não tenha suas consequências e que tudo o que em nós ocorre que não seja vontade de Deus tem culpa e tem uma pena (castigo) a "pagar". A culpa, havendo arrependimento, será perdoada pelo sacramento da Reconciliação (Confissão), e deixará de existir. A pena continuará a existir, sendo amenizada, diminuída e apagada através da penitência, a conversão a Deus e a vivência de atos que Lhe sejam agradáveis.

Vamos supor que (em linguagem completamente terrena e contabilística) uma atitude minha tem uma escala de 5 pontos de maldade. Se me arrependo e confesso é-me perdoada a culpa, mas preciso de atitudes boas numa escala de 5 ou 6 pontos para superar o ato mau. Se tenho apenas 4 pontos de bondade é preciso que reponha ainda aquele 1 que falta, o que, depois da morte, acontecerá em Purgatório. Atenção que estamos a falar numa linguagem completamente inadequada mas para podermos pensar um pouquinho.

A alma que está no Purgatório não pode fazer nada por si, porque está a cumprir pena, podemos nós, como advogados, interceder por ela junto de Deus, o Juiz. Por outro lado ela pode, ainda que em "prisão", interceder, ser advogada, por nós junto desse mesmo Juiz. Não corte de relação entre as almas do Purgatório e Deus, como não entre nós e elas ou entre nós e Deus. As Almas do Purgatório  têm uma visão e aproximação de Deus infinitamente mais intensa que a nossa. Por isso mesmo também, o sofrimento de, em vida, O não terem amado é muito mais penoso que o nosso de não O amarmos agora.


Diremos que por muito que Jesus queira as Almas do Purgatório junto de Si na Glória, não Lhe "é possível" porque a Justiça Divina tem que cumprir-se e só seres "absolutamente perfeitos" podem contemplar a Santíssima Trindade em toda a sua glória e esplendor (12 nov 17)

sábado, 4 de novembro de 2017

Tempo da Misericórdia

Falando de Deus, falaremos sempre conforme as nossas capacidades e entendimento. Falamos de tempo e de eternidade: o tempo é o que medeia entre um momento e outro, a eternidade é o que não tem principio nem fim. Vivemos no tempo e, pela morte, seremos integrados na eternidade de Deus. Tivemos um princípio, fomos criados, não teremos fim, porque viveremos em Deus ou no estado de ausência de Deus.

Se o viver em Deus, o viver a que Ele nos chama e atrai, é de plena felicidade, o viver na Sua ausência é a plena infelicidade. Não conseguimos, ao menos, conceber a ideia do que é sofrimento, solidão, em plenitude, sem qualquer sensação de bem, como não conseguimos ter a ideia da felicidade plena, sem qualquer sensação de mal-estar. Fazemos apenas pequenas experiências de um e de outro estados. Um deles será definitivamente eterno para cada um.

É aqui que Deus intervém, querendo para nós o estado de pleno bem. Para que tal nos seja possível entregou o Seu Filho ao mais alto estado de sofrimento até, lentamente, chegar à morte. Fez o que, na sua Misericórdia, tinha que ser feito. Agora está em nossas mãos seguir um ou outro caminho, o da vida ou o da morte, sendo que na eternidade em que entraremos há "dois tempos", falemos assim para nos entendermos, um da Justiça divina ("temporário"), o da pena, o Purgatório, e um outro "definitivamente eterno": o Céu, a Vida, ou o Inferno, a Morte. Proximamente dedicaremos algum tempo ao "Tempo da Justiça". Agora falemos do tempo da Misericórdia, este em que vivemos.


Sendo tempo de escolha, de opção por aceitar ou recusar Deus, vamos acumulando frutos de bem ou de mal, e a "sentença final" vais sendo "escrita". Atua, então a Misericórdia divina na medida em que, depois de atos merecedores de consequências castigadoras, estamos ainda a tempo de reparar o atos maus com atos bons e de pedir a Deus que tenha compaixão e que, no seu Amor e perante o nosso querer não voltar a fazer o mesmo, ainda que a queda aconteça, uma, duas... mil vezes, nos perdoe e mude a pena a cumprir. Por misericórdia fá-lo-á e a "sentença" estará permanentemente a ser reescrita até ao momento da morte, até que termine o tempo da Misericórdia. (05-11-17)

domingo, 1 de outubro de 2017

Amar Sem Palavras

Richard Back deixou num dos seus livros uma frase que muitas vezes recordo e que muitas vezes me tem dado oportunidade para partilha de reflexão: "Quando uma mulher diz que me ama deixo de acreditar nela".

Trago, hoje, à luz do dia a expressão para a revestir com uma das parábolas  que apontam para a essencial diferença entre a palavra e a ação, o ser e o não ser. Dois filhos e o trabalho na vinha: um diz que vai mas não vai e o outros afirma não ir mas vai. Compreende-se, sem necessidade de grandes ações de raciocínio, que o que diz que não vai, mas que acaba por ir, não é homem de palavra, mas é-o de ação. Já o outro não o é de palavra nem de ação.

Somos uma sociedade de palavras, em que por tudo e por menos que nada, dizemos palavras, fazemos barulhos e temos reações que são facilmente percetiveis com manifestação de se não estar bem. Porque não concordamos, não aceitamos e porque não aceitamos, os outros têm que concordar e aceitar ser como nós somos e queremos que sejam. Daí nascem as críticas negativas, que em tempos idos passávamos de boca em boca e que, agora, colamos em redes chamadas sociais (que são, muitas vezes, anti-sociais) criando chafurda para que venham os outros deixar-nos palavras de concordância que nos farão sentir  quentinhos, aquecidos pelo consolo da opinião dos demais.

Somos mas não fazemos, não praticamos. Mais não é que dizer "vou" mas de facto "não vou". Somos homens e mulheres que dizemos amar mas não o sabemos dizer senão com palavras, deixando que as ações falem, por sim mesmas, e digam o contrário. Pode dizer-se, diz-se, da nossa falta de coerência cristã, mas com a mesma razão se diz do nosso sermos gente que vive em sociedade. 

Uma mulher não tem que dizer que me ama, diria Richard Back, isso pode aparecer como justificativa para a sua falta de amor. Eu preciso simplesmente ver e sentir que suas palavras, ações e reações, me digam no silêncio da sua linguagem que ela quer o melhor para mim e que o que faz tem em vista o meu bem. Então verei que me ama e ela terá tudo de mim.

Pegando no pensamento e elevando-o para além de nós mesmos perceberemos que em Deus assim é também. Tudo tem Dele aquele que O ama e nada Dele pode exigir aquele que O não traz no pensamento, na vida e na vontade. (01-10-17)

sábado, 16 de setembro de 2017

Mal Que Recai Sobre Nós

Uma, duuas, trêêês... e se tivermos conseguido chegar aí, é uma sorte muito grande, o passar além disso é obra divina, só pode mesmo ser. Quem de nós conseguirá ultrapassar o "às três é de vez" e perdoar uma quarta vez? Sendo o 7 um número que indica perfeição, o perdoar 70x7 é mesmo a plenitude de perdão. Usemos os meios que quisermos e não nos livramos do mandamento que nos manda perdoar sempre, sempre mesmo, à imagem e semelhança de Deus.

Ainda que seja preciso apenas uma vez, perdoar é sempre ato divino, é capacidade, força e graça que nos vem Dele.  Podemos, talvez encontrar mil e mais umas poucas de razões para não perdoar, esquecendo que sofre mais, bem mais, aquele que não perdoa que aquele que, tendo pedido perdão, não é perdoado. Vem geralmente a expressão do "perdoo mas não esqueço". Ótimo, isso é de dar graças a Deus porque esquecer não é perdoar é amnésia, e isso é doença. Perdoar é lembrar sem ficar magoado, ferido. 

Acerca de Deus há algo que é importante ter em conta: Deus perdoa sempre. sabemos isso. Esquece? Não. Nós não esquecemos e, magoados, vamos contabilizando as vezes que perdoámos. Estragámos tudo: ao contabilizar mostramos não ter perdoado. Deus perdoa, e perdoa de vez, mas... a pena continua lá. Vamos entender: se me dão uma bofetada, eu posso perdoar a bofetada, como se não tivesse existido, mas isso não retira a dor (a pena) e é preciso que o outro repare o mal. O perdão exige, naturalmente, a reparação: "a reposição do bem". Não é perdoar e deixar que tudo continue na mesma.

Deus perdoa sempre, é certo, mas pode não acontecer sempre o perdão: acontece apenas quando há arrependimento, emenda ou, ao menos, desejo de emenda de vida, conversão. Pedir perdão é também comprometer-se a repor o bem.

Sem pensarmos sequer no mal que fazemos, procuramos ocultá-lo e a culpa que conscientemente recai sobre nós atiramo-la para cima do outro, fazendo, assim, com que aquele que é nossa duplique. Mal sobre mal a recair sobre nós mesmos.

sábado, 26 de agosto de 2017

Por Linhas Direitas

Diz-se que "quem nasce torto tarde  ou nunca se endireita". Já de Deus, diz-se que "escreve direito por linhas tortas".

Tortos, bem tortinhos, nascemos nós, uns mais que outros, dependendo da planta de onde rebentámos, mas também da educação que recebemos, o ramo em que fomos enxertados. Alguns teremos sido "enxertados em corno de cabra", tal a "tortice" que nos vai dentro.

Deixemos o grande leque de pessoas  mais ou menos tortas ou direitas que possamos ser e acreditemos que ninguém, nenhum de  nós,  está,  à partida, condenado a ser  eternamente torto. Cuidem-se os  direitos para que não caiam e tortos se tornem.

Adentrando-nos um pouco na história do Povo de Israel, que, no fundo, é a história de cada um de nós, ficamos de olhos arregalados pela forma "reta" como Deus "construiu e escreveu" séculos de vida de um povo que persistia em manter-se caminhando segundo "linhas tortas". Duas pinceladas de tinta, apenas, para pensarmos no quanto isto é verdade: nas origens, depois da desobediência vem, imediatamente, a certeza de que a Descendência da Mulher esmagará a cabeça do Maligno; a inveja dos filhos de Jacob leva-os a vender o irmão mais novo, o José, que, indo parar ao Egipto, se tornou-se ministro do Faraó,  e livrou da morte, pela fome, a sua família, que cresceu numerosíssima no Egipto. Depois vem a história da vida "oculta" de Moisés e a libertação do Povo através dele. A história de Rute, mulher estrangeira, de quem nasceu Obed, avô do Rei David.

Demos um salto até João Batista e Jesus, e sintamos como em momentos cruciais da história de um Povo, Deus opera a salvação.

Agora, entremos na nossa vida para, com atenta verdade, olharmos as maravilhas que Deus vai escrevendo em nossas vidas, tão distantes Dele, muitas vezes. Pode-mos não ver muito porque tortos são nossos olhares e nossos sentires de coração.

Felizes aqueles que podem apercebe-se de Deus presente em suas vidas.
É nossa a história do Povo de Israel...

                                                                                                                                26 agosto 2017

sábado, 19 de agosto de 2017

Acordo Necessário

Tiro e Sidónia são duas bonitas cidades a sul do Líbano, nas margens do Mediterrâneo, bem próximas do atual Estado de Israel. Também por aí Jesus passou anunciando a proximidade do Reino de Deus.

Uma cananea, sendo que Cananeus e Judeus eram figadais inimigos, vem atrás de Jesus a gritar pedindo que cure a sua filha "cruelmente atormentada por um demónio". Jesus atende-a porque os discípulos insistem que o faça, porque ela não se calava.

A reação de Jesus não foi propriamente a mais acolhedora (os Judeus tratavam os inimigos por cães). A mulher não se ofendeu e deu "luta" retribuindo com uma atitude de acordo com Jesus: "É verdade, Senhor...". Apresenta-se a Jesus com toda a humildade, mas com profunda fé e confiança. Não quis tudo, não exigiu de Deus. Pediu "migalhas", um pedacinho só. Consciente de que não era do seu povo, pediu pouco. Recebeu tudo.

Jesus foi "vencido". Porque lhe encontrou muita fé, fez-se como ela desejava. Deus é assim mesmo, dá tudo e dá-se todo a quem, com fé, a Ele se confia e pede um pouquinho. É assim mesmo a oração. Orar é estar de acordo com Deus. Queiramos ou não, Ele tem sempre razão e tudo conhece, por isso, se "desfaz" apenas no que é bom e no que é melhor. Deus deixa-se vencer por pouco e com pouco, contanto que estejamos de acordo com Ele na sua vontade.

Pode, por outro lado, ser bom o que queremos e pode Deus querê-lo também e, no entanto, não o conceder se não lho pedimos. Como lho pediremos se não pararmos em oração?

Claro que Deus sabe o que precisamos e queremos, mas não faz por fazer, quer a nossa tomada de consciência de que precisamos e Dele dependemos. Deus é altamente cavalheiro: cria em nós o desejo de Si, mas não se impõe, entra em nossa casa e em nós se for convidado e se Lhe forem abertas as portas em atitude de acolhimento. Orar é isso mesmo: querer o que Deus quer, acolhê-Lo em nós e apresentar a nossa vontade à Sua, para que ambas se tornem uma apenas.

                                                                                                                19 agosto 2017


                                                                                               

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Um Burro Inteiro


São João Maria Vianney, nascido em 1786, no sul de França, foi um grande santo, mas intelectualmente era um estudante muito fraco. Em determinada ocasião,no seminário, de onde foi mandado embora, por não conseguir aprender,  o responsável disse-lhe: “João, os professores não o consideram apto para a sagrada ordenação ao sacerdócio. Alguns chamam-lhe ‘burro que nada sabe de teologia’. Como podemos promovê-lo ao sacramento da Ordem?”.

A resposta que São João Maria Vianney lhe deu tornou-se célebre: “Monsenhor, Sansão matou cem filisteus (foram mil, ver Livro dos Juízes 15,15-17) com a queixada de um burro. O que acha que Deus poderia fazer com um burro inteiro?”.    

Esta é a verdadeira confiança em Deus. São vários os aspetos a considerar: o sentir-se pequenino diante de Deus (um burro inteiro); a confiança de que Deus atua, também, nos fracos; e a mais importante: a obra e a ação são de Deus, não nossas. É Ele que opera em nós e através de nós (O que acha que Deus poderia fazer...).

Naturalmente, é de profunda importância o canal por onde passa a graça. Não passa graça o canal que não está em graça. O sacerdote é, por natureza do seu chamamento, canal "especial" de graça de Deus para a humanidade. A graça não depende dele mas poderemos dizer que a a "quantidade", a "qualidade" e a "eficácia" da graça dependem do seu estado de fidelidade. Quando digo que é canal "especial" é porque é chamado e enviado por Deus, atuando in persona Christi (na pessoa de Cristo), na administração dos sacramentos, particularmente nos da Eucaristia e da Penitência. Não são seus, nem obra sua, mas sem eles, os sacerdotes, estes sacramentos não acontecem.

Se a ação da graça de Deus depende, em certa medida, do canal por onde passa, ela depende essencialmente de quem a recebe. Aqui sim,  ainda que Deus derrame toda a graça, ainda que os canais sejam os mais perfeitos, se o recetor não estiver em ato de acolhimento, tal ação é nula. Porque batizados, todos somos recetores e canais da graça para os outros. Ela passa pela santidade de vida, não pela sabedoria da mente. Quanto Deus podia fazer se estivéssemos ao Seu dispor para que atuasse em nós e por nós!...

domingo, 9 de abril de 2017

Não Ofendam Mais

Hoje o domingo é de "Ramos na Paixão do Senhor". Podemos não nos dar conta, mas falar de paixão é falar de sofrimento, de dor, de morte. Habituados que estamos a viver as coisas muito superficialmente, não é com facilidade que conseguimos entrar um pouquinho no mistério do sofrimento de Jesus. Não entramos no facto de todo o seu sofrimentos, em entrega de vida, ter acontecido por nós, por mim, para nos libertar das consequências do pecado, a morte eterna. Ele recuperou-nos para a vida.

"Não ofendam mais a Deus Nosso Senhor que já está muito ofendido". Este é mais um pedido, uma súplica, de Nossa Senhora, na aparição de setembro em Fátima. Quanto cresceram em ofensas em quantidade e gravidade! Consta que morreríamos de pavor se pudéssemos contemplar, ver, as ofensas com que cada um de nós ofende o infinito Amor de Deus, nós que somos cristãos e muitos dos quais ousam dizer "não tenho pecados". Pensemos nos pecados da humanidade e no quão facilmente nos identificamos com eles.

Para glória de Deus, bem nosso e da humanidade, à urgência de conversão, para não ofendermos mais a Deus, acresce a urgente reparação pelo pecado, o nosso e o de toda a humanidade. É com este apelo que se marca o início das Aparições em Fátima. Na 3ª aparição do Anjo ele reza com os Pastorinhos: "Santíssima Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, adoro-Vos profundamente e ofereço-Vos o preciosíssimo Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Jesus Cristo, presente em todos os sacrários da terra, em reparação dos ultrajes, sacrilégios e indiferenças com que Ele mesmo é ofendido. E pelos méritos infinitos do Seu Santíssimo Coração e do Coração Imaculado de Maria, peço-Vos a conversão dos pobres pecadores". E o Anjo continuou, depois de lhes dar a comunhão: "Tomai e bebei o Corpo e o Sangue de Jesus Cristo horrivelmente ultrajado pelos homens ingratos. Reparai os seus crimes e consolei o vosso Deus".

A semana que iniciamos é de profunda meditação e tomada de consciência da necessidade de glorificar Deus, e de Lhe confiarmos a vida, nos sacrifícios que tem, tornando-Lha agradável. Entregar-se a Deus, no sacrifício e na oração, nunca é demais. É preciso fazê-lo por nós, e por aqueles que o não fazem.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Olhares Cruzados

Um menino nasceu. Estranhamente recusado entre os seus familiares, tendo em conta que São José era originário de Belém, foi numa gruta que que viu a luz do mundo, o mundo que era seu. 

Foi o silêncio da gruta, o silêncio do coração de sua mãe, a escuridão da noite e o brilho da alma e do olhar de Nossa Senhora, se aperceberam da Luz do Mundo que nascia. Almas emocionadas a de S. José e de Nossa Senhora vertiam lágrimas de alegria e gratidão pela misericórdia de Deus, que se manifestava. Parecia um sonho. Verdade que era um sonho, uma esperança de séculos de história e de vidas de um Povo.

Um "sonho" que faz acordar para a realidade. O menino chora, tem fome. E o Menino é Deus. De alma cheia de emoção, Maria alimenta com seu leite materno o filho que é seu e que é de Deus, o filho que que é Deus, que nasceu não para ser filho para Maria mas para toda a humanidade. 

Deus Pai pôs nas mãos de Maria a salvação de todos e de cada um de nós. Deus, fazendo-se quase nada, habitou no meio de nós para que possamos nós ser tudo, vivendo Nele. É assim o infinito amor de Deus.

Maria tinha essa certeza, a de que era portadora de Deus na infinitude dos seus dons. Vemo-la cheia de graça, de lágrimas de alegria por ser escolhida por Deus, mas não lhe medimos as dores, as orações ou as lágrimas provocadas por uma espada de dor que lhe trespassou a alma ao longo de toda a vida. Basta pensar na dor de lhe  ser recusada hospedagem, cidade de Belém, a dor de não poder dar um aconchego "digno" ao filho que nascia, que é Deus (mas a gruta de Belém era o mais digno, pois foi esse que Ele escolheu e quis). Espada que deixou de ferir apenas no momento da sua Assunção, e no encontro absoluto e pleno na Santíssima Trindade.

Olhemos Maria, na gruta de Belém, ternamente emudecida ao olhar o Deus alimentar-se do seu peito. Olhemos os olhares do Menino e dEla, cruzados numa total entrega: Ele, Deus, confiando-se totalmente nas mãos dEla, e Ela, Mãe humilde, sentindo que por si só nada pode, confiando-se absolutamente a si mesma nas mãos dEle, porque Ela é Mãe e filha de Deus. E nós estamos nas suas mãos também.
(8 de janeiro 2017 - Epifania)

domingo, 11 de dezembro de 2016

Um Deus Obediente

Em tempos de Natal talvez valha a pena parar um pouco e pensar no valor que estamos a dar ao mistério que celebramos. Deus, sem deixar de o ser, fez-se um de nós para nos tornar seus, resgatando-nos a preço de sangue, o sangue de Seu Filho, o seu sangue.

Por termos, dois dedos de capacidade e inteligência, dom de Deus, arvoramo-nos a ousadia e o direito de nos colocarmos no lugar de Deus, sem perceber o quanto Ele manifestou de entrega de Si mesmo, 

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Perfeita Criatura


Especial? Sem dúvida, muito especial. Com liberdade? Sem dúvida com toda a liberdade dos filhos de Deus. Uma vez que sem o olhar da fé não descortinamos mais que aquilo que veem os nossos olhos, é preciso olhar com o sentido de Deus para entrar um pouquinho no mistério da Conceição Imaculada de Maria.

Tinha que ser, não podia ser de outra forma. Aliás, Deus não pactua

terça-feira, 11 de outubro de 2016

E DEUS DISSE: OBRIGADO

O trecho do Evangelho que foi posto à nossa reflexão, no passado domingo, 09 outubro 2016, deixou em mim um pensamento que me tem afluído à mente e que me leva a partilhar uma breve reflexão.

Algures, entre a Galileia e a Samaria, em certa povoação onde Jesus ia entrar, vieram ao seu encontro 10 leprosos, que se mantiveram a distância, invocando para eles a sua a Misericórdia. Foram curados e um deles, apenas um, um samaritano, voltou para agradecer. Jesus ficou sentido pela falta de gratidão dos outros, que não se dignaram, voltar para dar Glória a Deus.

Este mesmo Jesus que aqui reage, perante a ingratidão, é o mesmo que nos diz que o que fazemos deve ser feito por amor, com total gratuidade e sem esperar qualquer recompensa.

Porquê esta atitude de Jesus? Tendo em conta a intensidade com que Deus espera, deseja e quer que vivamos unidos a Ele, em comunhão de vida plena, porque nos criou para Si. Tendo em conta o facto de nos ter dado o seu Filho, que sofreu os horrores da Paixão, ao ponto de jamais ter havido ou poder haver sofrimento semelhante ao Seu, e de estar completamente desfigurado, sendo tratado como um verme; tendo em conta o facto de o sofrimento de um pai, de uma mãe, ser mais insuportável num filho que amam, do que em si mesmos; tendo em conta que tudo aconteceu para recuperar para a vida a humanidade, mais, para me recuperar a mim para essa vida, para que não acontecesse, a não ser por opção pessoal, um indizível sofrimento pleno e eterno; tendo em conta isso e muito mais, cabe-me pensar que, não precisando Deus da minha gratidão para aumentar ou intensificar a sua Glória, porque Ele é a Plenitude, acredito que, no seu infinito Amor e misericordiosa Humildade, é Ele que me diz a mim: “Obrigado”. Obrigado porque nesta manhã elevaste o teu pensamento para Mim; obrigado pelo sorriso com que disseste bom dia ao teu filho; obrigado porque Me deste um pedaço de pão, porque Eu estava naquele sem abrigo; obrigado porque pediste a Minha força; obrigado porque pensaste em Mim, abandonado, no Sacrário; obrigado porque foste à missa; obrigado porque Me disseste obrigado pelo alimento que te dei; obrigado porque a Glória que Me deste te aproxima de Mim.

É tão intenso o “Tenho sede" que Jesus disse na Cruz, porque manifesta a sede que Deus tem de nós, que se Ele se torna infinitamente grato pelo mais pequeno pensamento meu que Lhe dê Glória, Porque Deus me (nos) quer a viver em vida plena, e um pequeno gesto vivido segundo a sua Vontade é um grande passo dado por mim para a Vida Nele.

Porquê, então, a reação de Jesus? Por um lado, para nos manifestar que a fé, a gratidão, se vivem a partir de dentro, do coração. Foi um estrangeiro que voltou para agradecer, não um judeu. Por outro lado, Deus quer a minha gratidão, não, não me estou a contradizer, e ela é absolutamente necessária na minha relação com Ele, porque é sinal de que há comunhão entre nós e é também caminho para que ela se intensifique cada vez mais. Vamos pensar como Jesus terá pensado: gente ingrata, esta, que honra Deus com os lábios e cumprimento exterior mas não adere de coração; incapazes de reconhecer a ação e a graça de Deus em suas vidas, vivem como se fossem os senhores da vida e se tudo estivesse nas suas mãos; gente longe de Deus a percorrer caminho de perdição.

A gratidão é querida por Deus porque faz bem não a Ele, mas a quem é realmente grato. É atitude que aproxima a criatura do Criador. A gratidão faz melhor a quem agradece que a quem se é grato. A tristeza de Jesus advém do facto de aqueles doentes curados não terem sabido aproveitar o facto e o momento para se aproximarem de Deus.