quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Os homens também choram (3)

Passos sonoros de tacão longo, chamado de salto alto, fazem-se ouvir na laje fria da estação. 

Uma criança pequenina corre curiosa e pára, à entrada, para percorrer tudo com o olhar como que a descobrir o mundo ali dentro. Terá talvez menos de dois anos, uns olhitos bem abertos e a respirar vida. Como qualquer criança pensa que todo aquele espaço está ao seu dispor. Num movimento rápido e ainda meio descoordenado, corre e pára diante de uma montra de bonecos. A mão no vido, o olhar cruzado entre os bonecos feios e a mãe, aquela que é a melhor do mundo, um novo olhar para a montra e nova corrida.

Um homem estava sentado e curvado num banco de madeira, parecia só então ter reparado nele. Parou, aproximou-se, voltou a parar, curvou-se um pouco e olhou. Ele estava a chorar. 

A mão pequenina pousou no joelho do homem buscando um apoio para que ela pudesse curvar-se mais e ver melhor, questionando-se se era verdade e porque razão aquele homem, um homem tão grande, estava a chorar. As lágrimas caíram mais pesadas quando ele sentiu a mão pequenina tocar-lhe como um carinho e olhou os seus olhitos bem lá no fundo. 

A criança, arregalou os olhos, franziu a testa, perdeu o sorriso e caminhou, lenta, para a mãe. Descobrira o que acreditara não poder ser verdade, que os homens também choram, alguns, pelo menos, porque o pai que a abraçava e beijava era forte, não tinha medo de nada, o seu colo era o lugar mais seguro no mundo.

A mãe afagou-lhe os cabelos e, num instante, a criança recuperou toda a sua segurança: os homens choram, mas a mãe, embora chore também, porque ela já a havia visto chorar algumas vezes, é forte e segura e sabe que fazer em cada momento para a proteger. Não houve palavras, mas também ela, a mãe, vira que o homem chorava.
Hesitou, pensou, repensou, caminhou, sentou-se e saudou o homem. Na resposta, perguntou se poderia ajudar.

Eram 17h19 em ponto, um comboio partiu, rumava a Handaye. Cruzaria terras de Espanha, paisagens verdes de Donostia, San Sebastián em linguagens castelhanas. Uma mudança, e um TGV levaria aquelas gentes a Paris.

Um comboio partiu e um homem ficou. Sentado no banco de madeira, levantou mais o olhar, e limpando o rosto com um lenço branco disse: “Obrigado, mas nem eu sei o que quero, procuro não sei o quê nem quem, cruzo-me entre um mundo desconhecido e virtual e um outro que tenho, conheço e é real. Queria partir e ficar, o meu coração gemia e dizia que não fosse, a imagem dela atraía-me como íman e chamava por mim numa voz de sereia.

Chorei porque hesitei, morria por dentro, mas uma mão pequenina no meu joelho e um rosto curioso no meu olhar, num instante me fizeram decidir”. 

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

O Vazio (2)




Um homem veio. Tinha saído do comboio que por momentos parara e num instante retomara a viagem sob a ordem da bandeira vermelha, suja e enrolada num pedaço de madeira velha. O olhar lançou-se sobre o homem sentado no banco: a ponta do atacador de um dos sapatos estendia-se no chão dando a perceber que a ordem e a desordem se debatiam na sua mente. O olhar vago dirigia-se para o infinito e por isso não enxergava o mundo que à sua volta girava em cada dia. Quem o conhece mais de perto sabe que vive a vida como um zumbi, meio alheado na ilusão virtual de uma vida entre o real e a ficção, ao jeito da mulher que lhe toldou a razão e contrai o coração.


O homem que acabara de chegar, depois de passar o olhar pelo relógio, abriu o fecho do saco que trazia ao ombro e tirou um jornal que, por momentos atirou sobre o banco de madeira, para se sentar, pesadamente, logo de seguida.

Um olhar fugidio sobre as parangonas do jornal, permitiu ver em título que o “défice custa 1380,00€ a cada português”. “Uma vergonha, pensou, afinal de contas para onde vai este país? Insegurança, pobreza, justiça tardia e inconclusiva sobretudo quando estão em causa os grandes, os poderosos”. Abanou a cabeça e fechou os olhos como se quisesse sacudir e esquecer o que acabava de ler e pensar. “Bom dia” - Ouviu a saudação que lhe era dirigida e respondeu com um “bom dia” morno e arrastado, em jeito de quem não parece minimamente interessado em estabelecer qualquer tipo de comunicação com aquele desconhecido transeunte de barba por aparar e sorriso que lhe sai mais da expressão que dos lábios.

Voltando aos seus negativos pensamentos, vociferou em silenciosa antipatia “Como é que esta gente tem disposição para dizer bom dia a gente que nunca viu mais gorda nem mais magra?”. Sentiu-se ainda mais cheio de si mesmo e fechado num mundo onde nada mais cabia, além dele próprio e da desconhecida beldade, por causa de quem estava ali taciturnamente sentado num banco de madeira e à espera de um comboio que o levaria não se sabe onde e, sinceramente, nem porquê.

O outro levantou-se, anónimo, e partiu com o jornal debaixo do braço. Levava no rosto o seu sorriso, que não pôde partilhar, e no coração, mais que na mente, um ranchinho de três filhos e uma esposa que há seis meses não via. Saiu e já os braços se abriam em arco e a voz os envolvia num quente “Oláááá” revelador de um amor e saudade que a distância e o tempo não apagam, antes solidificam e enraízam.

E ele continuou ali sentado à espera do que não encontrava, à escuta do que não se ouvia.

Som estridente de ferro contra ferro, um comboio parou. 

terça-feira, 6 de março de 2012

A Espera (1)


A Espera

Um dia à espera. Chegou pela manhã, sentou-se no banco de madeira no interior da estação. Esperava o comboio que o havia de levar a Paris. Era lá que estava a namorada, e ele sonhava cada dia e cada noite com o momento de a conhecer.
Tinham tido o primeiro contacto via internet. Ela apenas lhe tinha mandado uma foto em que a máquina a apanhara um pouco de lado. Percebiam-se feições belas no jogo de luz que o fotógrafo artisticamente havia conseguido.

O olhar, esse olhar que ele imaginava sedutor, num misto de tristeza e encanto no reflexo dos olhos que ela tinha dito serem de um verde esbatido. Ele imaginava-a de olhos grandes, abertos e rodeados por um fino fio de tom escurecido com que cada manhã ela procurava enaltecer a beleza natural com que Deus a bafejara no momento da sua concepção, olhos com luz brilhando na noite dos seus sonhos.

Sim, todas as noites ele a via no seu pensamento, mas nunca pôde descortinar-lhe o olhar ou qualquer outra feição do corpo, porque, por mais que a buscasse em sua mente, ela estava lá, distante, e as imagens que criara no pensamento eram fugidias como raios de luz que vão e vêm deixando apenas reflexos e algumas marcas de dor gravadas pela saudade.

A voz, tinha-a escutado uma vez, apenas, e numa má ligação, num desses dias em que o programa de comunicação do computador, para mal dos seus pecados, parecia estar entupido. Ouviu-a e quase não disse nada. As lágrimas correram-lhe pelo rosto. Traziam do coração o que nele encontraram: uma alegria onde borbulhava a certeza de que lá longe alguém o amava e uma saudade escura onde a tristeza nascia, essa tristeza que lhe trazia vontade de deitar mãos à cabeça e arrancar os cabelos um a um como se cada um deles fosse um pedaço de vida a morrer.

As lágrimas saíram quando o aveludado da voz lhe chegou aos ouvidos e um arrepio frio lhe subiu o corpo e o fez tremer num suspiro quente. Por momentos pôde sentir o aroma do perfume de côco com que, nos sonhos de cada noite, ele a impregnava.

Um sorriso lhe saíra dos lábios quando percebeu que estava de novo dentro da realidade e que aquilo não fora mais que um rápido momento de encanto. Sorriu por se sentir uma criança a viver um mundo de ilusão. Mas, a voz dela ainda se fazia ouvir expressando um português atraiçoado pelo facto de ter nascido em França e de ter aprendido a língua dos pais numas curtas lições de escola e nas brincadeiras com os primos, durante as férias. Barafustou quando a ligação caiu. Nunca mais tinham falado de viva voz.

De cabeça baixa, no banco da estação, espera.