domingo, 7 de outubro de 2012

Mundo de explorados (8)


… Uma caiu-lhe sobre a camisa azul-bebé e deixou-lhe uma marca.
Recordou-se, como se estivesse em dia de más memórias, de quando ouviu comentar, lá na sua terra, que uma jovem dos seus tempos de escola havia sido violentada fisicamente, numa tentativa de abuso por parte de dois desconhecidos. Marcou-o tanto o facto, simplesmente porque nutria, nesse tempo, um sentimento profundo de amizade a que ele não hesitava em chamar amor. Nesse dia uma semelhante lágrima lhe banhara o peito.
O Carlos partiu: despediu-se e  saiu sem, graças a  Deus, se ter apercebido do que perpassava na memória do homem do banco de madeira.
      
     Voltou, sem querer evitar, a pensar na Clara, na mistura de sentimentos com que ele mesmo a olhou depois daquele dia: um misto de compaixão e ódio fervilhava dentro de si. Compaixão para com ela, e asco que nutria para com aqueles que dela quiseram retirar prazer. Meditou em todas as situações que  lhe vieram à mente e lhe fizeram aquecer e dilatar mais o ódio para com todos os que, de qualquer modo usavam os outros para crescer na vida ou neles assentavam bases para uma desregrada busca de prazer.

       Agora, que estava sozinho sentado à mesa do café, teve tempo para uma reflexão diferente. Por acaso parara-lhe, dois ou três dias antes, nas mãos, um episódio bíblico referente à jovem e aos velhos que, por vingança, pediam a morte para ela. Percorria o mundo à sua volta, as notícias e a publicidade dos meios de comunicação social.

       Percebeu, em momentos, que vivemos num mundo que cresce à base da exploração, tanto dos sentimentos como dos bens dos outros: exploram-se as crianças exigindo-se-lhes que cresçam depressa demais e sem tempo nem espaço para viverem com intensidade todos, e cada um, dos momentos ou etapas da vida; exploram-se os adolescentes levando-os a experiências novas e “radicais” que os puxam para fora de si mesmos, e não para a vivência radical da vida, seguindo slogans que chamam a usar a vida e não a vivê-la; exploram-se os jovens a quem, muitas vezes, não se dão oportunidades de trabalho, nem motivos ou espaço para repartirem a sua generosidade; exploram-se os pais a quem tudo se exige para que os filhos não caminhem sem o mesmo (e falso) nível de vida dos outros que comungam da mesma idade; exploram-se os sentimentos para os usar em proveito próprio, como se até eles fossem descartáveis; explora-se a natureza a quem tudo se pede em questões de matérias-primas e a quem de agradece depositando nela o lixo que a intoxica e destrói.

        Atirar a primeira pedra por parte de quem não tem pecados? Quem? Pensou: ainda que o quiséssemos não poderíamos livrar-nos desta sociedade de exploração. Mas poderíamos, pelo menos ser diferente e limpar o mundo de tudo o que é lixeira humana.

        Levantou-se, pegou no jornal, pagou o café, agradeceu e…                      

domingo, 30 de setembro de 2012

Costas voltadas a quem ama (7)


De telemóvel ao ouvido, escutava a “tuuu… tuuu” indicador de que a chamada estava a efectuar-se normalmente segundo as leis do mundo digital.

O tremor e o suor do corpo faziam-no sentir-se inquieto e perturbado, como se um sonoro despertador abanasse dentro dele. Por graça de algum anjo que o acompanhasse, do outro lado ninguém o atendeu. Desligou. Percorreu-o a certeza de que esse era o sinal positivo de que o que estava prestes a fazer lhe traria dificuldades.

“Eh pá, tas por aqui?!” Ouviu inesperadamente. A palmada que levava nos lombos, a voz, alegre e bem conhecida, fazia-o olvidar aquele momento. Carlos era o nome do jovem que se sentava a seu lado. Há muito não se encontravam e o tempo foi passando naquela tarde de feriado.

Passaram muitos meses pelas conversas cruzadas que foram trocando ao longo das quase duas horas que se mantiveram ali bebericando cerveja puxada por uns pistáchios salgados. Mulheres e homens, férias e trabalhos, dinheiro e falta dele… mas uma das conversas bateu lá fundo gravando-se nas entranhas daquele homem que sonhara partir para uma mulher desconhecida e acabara de fazer um telefonema no intuito de ganhar algum dinheiro fácil.
Falou-lhe, o Carlos, de um amigo comum que em momento de ressabiado sentimento por uma atitude dos pais resolveu deixá-los e partir em busca de um mundo de novo sonho. Não sabia que queria, não sabia que iria encontrar e não sabia que fazer. Simplesmente partiu.
Lá longe, em terras da Guiana Francesa, no mundo da América do Sul, empregou-se na construção civil. O calor implacável do Verão trazia-lhe dores de cabeça agudas. A fome chegou a apertar, porque o ordenado ganho com muito suor não chegou sempre a tempo e horas, ficando mesmo muito do seu valor perdido naquele submundo de ilegalidade laboral.
Quis voltar uma e outra vez, mas o bilhete de avião não se comprava só com o desejo intenso de voltar. Em muitos tempos ter-se-ia dirigido a uma agência de viagem para comprar o bilhete de regresso.

Engoliria os sapos que fosse necessário, espremeria o coração orgulhoso, mas não tinha outro remédio. Voltar era a única solução. Solução dolorosa, mas a única que lhe permitia restaurar a dignidade de homem. Voltar com humildade, explicar as razões da volta e aceitar o acolhimento com que sabia ser recebido. Conhecia bem os corações de seu pai e de sua mãe. Sabia perfeitamente que, apesar da mágoa que lhes provocara, das lágrimas de sangue que lhes fizera gemer em silêncio, eles se lhe abririam num abraço do tamanho do mundo e a sua dignidade, ferida pelo orgulho egoísta de querer ser único e chegar onde lhe não era possível, ficaria plenamente curada.

O homem do “banco de madeira” engoliu em seco por se rever em muitos dos momentos da história do seu amigo. Pensou que andava, talvez, demasiado distante daqueles que eram parte de si. Lágrimas caíram-lhe, emocionadas, do olhar… 

domingo, 16 de setembro de 2012

Um sonho e uma ilusão (6)


…Três dias depois nascia o bebé. A notícia não demorou a divulgar-se. Era um menino esperado.
       O sonho da mãe, que não teria mais que 23 anos, assim se realizava. Mas aquele menino foi o encanto não só dela, mas de toda a família.
       Haviam passado já 20 anos, que mais pareciam uma eternidade, sem que se sentisse a alegria do nascimento de uma criança naquela família.
       A bisavó, uma velhinha simpática de rosto bonito, na casa dos 80, dizia sentir o coração desfalecer por permanentemente lhe aflorar a ideia de que morreria sem ver o seu “netinho”. A notícia fê-la rejuvenescer, como a fez encher de felicidade e deixar correr uma ou outra lágrima solitária a presença daquele grupo de gente nova.
       Por vezes sentia-se só. A presença de cada um deles era mais preciosa que a mirra, o incenso ou ouro que os Magos tinham oferecido ao Menino Jesus. Cada presença, ela sentia-o, era o melhor dos presentes que poderia receber.

       “Um café se faz favor”. Enquanto ele lhe não chegava, pegou no jornal e folheou meia dúzia de páginas que lhe deixavam o negro da tinta na ponta dos dedos. Obrigado, respondeu, olhando de soslaio a menina que lhe veio trazer a chávena do bem desejado café.
       Numa das páginas  apareceu-lhe a foto de um homem negro e com um boné, tipo tupperware, enfiando na cabeça gorda. Era feio mas a mensagem que por baixo dele se apresentava era tentadora. Solução barata para os problemas de dinheiro, que não abunda na sua conta bancária e que quer sempre diminuir, mais ainda em tempos de crise; solução barata e cem por cento garantida para os problemas de amor e de atracão de parceiros.
        O trago de café que engoliu nesse momento tornou-se gelado e amargo diante da imagem que a recordação de um segundo lhe trouxe à mente. Ela estava lá de olhos semi-cerrados a impregnar-lhe a mente com perfume sedutor. Repentinamente voltou a desejá-la.
       Sacudiu a cabeça como quem quer forçar uma ideia a sair. Mas os cem por cento de garantia anunciados pelas palavras do homem gordo do jornal caíram-lhe fundo na vontade. Pôs-se a fazer contas à vida e num sopro de razão pensou que era tudo uma patranha para lhe fazer minguar ainda mais a conta do banco.
       Pensou em como as tentações ligeiras podem tornar-se drama ao recordar a sobrinha que, anos antes, lhe confidenciara que gostaria de experimentar fumar droga para saber como era. Agora restava-lhe um rosto triste, desmaiado de cor e vazio de expressão. A sua vida tinha-se arruinado e a de seus pais estava a crescer regada pelas lágrimas.
       Recordou o que na adolescência lhe falaram no grupo de jovens e, ao sorrir por recordar os “bons velhos tempos”, embora apenas dois ou três anos se tivessem passado, em que corria de lado para lado para não faltar a nenhuma das actividades daquele grupo em que estava inserido.
        E recordou que se sentira rejeitado quando tinha falado em namoro à Ana.      
         Voltou a ficar triste e do coração subiu-lhe a ideia de que não tinha sorte na sua relação com mulheres.
        Não fazia mal nenhum e ninguém tinha que saber! E se telefonasse, só para saber como era, para o número de telefone que parecia florescer naquela folha de papel escuro de um jornal diário? Mas… e a irmã que ele tanto amava, e a mãe que continuava a carregar a cruz, desgastando a vida do seu corpo e acumulando “créditos” para a eternidade, cuidando do pai, que piorava na sua doença? Que pensariam… que diriam… que sentiriam eles se soubessem que ele estava ali tentando a voltar a correr atrás da ilusão?
       “Vai dar tudo certo”, disse de si para si enquanto marcava um número de telefone. Sinal de chamada. O seu corpo tremia...

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Amo-te Muito (5)


Ela olhou-o bem fixamente nos olhos aguardando com expectativa o que ele iria dizer. Ouviu-lhe sair da boca um “Amo-te muito”. 

Eram eles os únicos filhos daquele casal que, havia já muitos anos, tinham vindo do norte, para se fixarem a trabalhar na periferia de Lisboa.

Com a perspectiva da partida do irmão atrás de amores virtuais e desenraizados da realidade da vida, ela sentia-se aterrorizada com a ideia de ter que vir a cuidar sozinha do pai que, entretanto, tinha já dado fortes sinais de estar a ser dominado pela debilitante doença de Alzheimer. 

Aquele abraço e o “amo-te” traziam a magia reconfortante da certeza de que a família não se estava a esfarelar, pelo contrária, parecia estar mais unida e solidificada na comunhão.

Depois, havia o bebé que estava para nascer. Naquela momento, Raquel sentia-se renascer, depois de atravessar longos dias de amarga solidão, em que tudo parecia escurecer a partir de dentro, porque o coração teimava em perder as suas forças. 

Raquel riu-se e disse - parece que o menino acendeu uma grande lanterna dentro de mim, sinto-me cheia de luz e apaixonada pela vida e por tudo o que gira à minha volta. Vamos dizer aos pais que tu estás cá.

Falaram e riram pelo caminho, como dois adolescentes apaixonados. “espero que não lhes dê nenhum chelique quando te virem aqui - disse ela - para eles tu já partiste, e olha que estávamos todos convencidos de que não voltarias tão depressa”. Deu-lhe um empurrão com uma das mãos enquanto lhe chamava parvo.

Ele sabia que ela não poderia fugir a correr por estar grávida de nove meses. Fingindo que lhe dava uma palmada por ela lhe haver chamado parvo, passou-lhe o braço esquerdo pelos ombros e com a mão direita, acariciou-lhe o ventre, fez cara séria para dizer “acho que não me ia aguentar muitos dias longe de ti, do pai e da mãe... concordo contigo: fui mesmo parvo ao pensar deixar-vos e ir em busca de alguém desconhecido. Como pude pensar isso se tenho a minha mana barriguda que está sempre comigo?” Riram satisfeitos e assim entraram em casa dos pais, a casa que era a sua também. 

Sempre lá encontraram conforto. Muitas vezes aí tinham sido repreendidos e muitas lágrimas aí tinham derramado, mas a verdade é que era aí que se sentiam bem, porque aí viveram sempre amados, porque para aí correram, como ainda agora fazem, sempre que se sentiam no desconforto da dúvida, do medo e dos fracassos. Foi aí que sempre foram reconfortados. Foi aí que construíram a família que continua a ser a razão e a base da sua segurança.

Na parede uma imagem da Sagrada Família, estrategicamente pendurada, parecia acolher todos aqueles que na porta entrassem. Por baixo, sentado numa cadeira, e com a esposa a animá-lo, no meio de lágrimas teimosas, o pai rezava para que o filho voltasse. E voltou, nem chegara a sair da estação. 

Ao vê-lo as lágrimas correram mais, mas a fonte era agora a emoção e a alegria…    

domingo, 26 de agosto de 2012

O menino saltou (4)



O homem levantou-se, olhou a criança, depois a mãe, encheu de ar o peito e disse em tom decidido e carregado de alívio: - vou para casa, tenho gente que me ama e me espera. No momento de partir não consegui escutar ninguém, a nenhum deles dei ouvidos. Parei a tempo, não sei que força me prendeu a este banco - disse fixando o olhar frio no banco de madeira - mas isso não é importante, o que interessa é que agora estou decidido a voltar para trás, para casa.

Olhou a mulher, em tom jovial e notoriamente feliz, agradeceu com um obrigado e um sorriso largo, curvou-se, pegou na pequena mala depositada a seus pés. Ao sair ainda teve tempo para, com a costa da mão, fazer uma carícia no rostinho da criança pequenina enquanto recordava que fora a sua mãozita que o fizera tomar consciência da insana atitude que estava a tomar.

Saiu e dirigiu-se apressadamente para um dos taxistas que estavam ali parados, pacientemente aguardando que alguém precisasse dos seus serviços. Trocaram algumas palavras. Entrou no carro, que arrancou vomitando breves nuvens de fumo negro.

Dezassete minutos foi o tempo necessário para reencontrar a casa e os que teimosamente tinha decidido deixar, sem saber para onde ir nem porquê sair. À mãe perguntou pela irmã. Estava grávida, prestes a ver o rebento que no seu seio se gerava e que, dentro de pouco tempo, poderia ver de olho vivo e não apenas pelas imagens ecográficas com que, havia meses já, tinha podido ver que se tratava de um menino.

Olhou o irmão e a emoção percorreu-lhe a espinha, afinal ele não tinha partido e ela sentia que o não tinha perdido. Sentia-se quase ser mãe duas vezes ao mesmo tempo: um irmão que não parte e um filho que vai nascer.

Também a este parece ter agradado a ideia de que o tio não tenha partido: sem parecer querer sair do materno ambiente em que fora gerado, estremeceu ao sentir a emoção da mãe. - Até o menino saltou quando te viu - disse a mãe, como se realmente o bebé não tivesse simplesmente reagido a uma forte emoção.

Ele, o homem do banco de madeira, reagiu passando a mão pela barriga prenhe da irmã e num tom suave de voz exclamou, em jeito de condenação: - como pode alguém querer poder justificar a morte provocada de um ser como esse que tens aí dentro de ti? Não se trata de dois simples corpos independentes, ele não poderia ter sido gerado sem ti, ele dependeu sempre de ti, como pode uma mãe ousar dizer que faz do seu corpo o que muito bem entender?!

Num misto de dor e alegria, as lágrimas saíram dos olhos dela porque, nesse momento, e em jeito de flash de luz tenebrosa, recordou as horas longas que passou em branco no meio da noite escura depois de o médico lhe dizer que corria risco de perder o bebé.

           Apertou o irmão num abraço forte. Ele afastou-a um pouco, olhou-a nos olhos e disse: - sabes uma coisa mana?...  

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Os homens também choram (3)

Passos sonoros de tacão longo, chamado de salto alto, fazem-se ouvir na laje fria da estação. 

Uma criança pequenina corre curiosa e pára, à entrada, para percorrer tudo com o olhar como que a descobrir o mundo ali dentro. Terá talvez menos de dois anos, uns olhitos bem abertos e a respirar vida. Como qualquer criança pensa que todo aquele espaço está ao seu dispor. Num movimento rápido e ainda meio descoordenado, corre e pára diante de uma montra de bonecos. A mão no vido, o olhar cruzado entre os bonecos feios e a mãe, aquela que é a melhor do mundo, um novo olhar para a montra e nova corrida.

Um homem estava sentado e curvado num banco de madeira, parecia só então ter reparado nele. Parou, aproximou-se, voltou a parar, curvou-se um pouco e olhou. Ele estava a chorar. 

A mão pequenina pousou no joelho do homem buscando um apoio para que ela pudesse curvar-se mais e ver melhor, questionando-se se era verdade e porque razão aquele homem, um homem tão grande, estava a chorar. As lágrimas caíram mais pesadas quando ele sentiu a mão pequenina tocar-lhe como um carinho e olhou os seus olhitos bem lá no fundo. 

A criança, arregalou os olhos, franziu a testa, perdeu o sorriso e caminhou, lenta, para a mãe. Descobrira o que acreditara não poder ser verdade, que os homens também choram, alguns, pelo menos, porque o pai que a abraçava e beijava era forte, não tinha medo de nada, o seu colo era o lugar mais seguro no mundo.

A mãe afagou-lhe os cabelos e, num instante, a criança recuperou toda a sua segurança: os homens choram, mas a mãe, embora chore também, porque ela já a havia visto chorar algumas vezes, é forte e segura e sabe que fazer em cada momento para a proteger. Não houve palavras, mas também ela, a mãe, vira que o homem chorava.
Hesitou, pensou, repensou, caminhou, sentou-se e saudou o homem. Na resposta, perguntou se poderia ajudar.

Eram 17h19 em ponto, um comboio partiu, rumava a Handaye. Cruzaria terras de Espanha, paisagens verdes de Donostia, San Sebastián em linguagens castelhanas. Uma mudança, e um TGV levaria aquelas gentes a Paris.

Um comboio partiu e um homem ficou. Sentado no banco de madeira, levantou mais o olhar, e limpando o rosto com um lenço branco disse: “Obrigado, mas nem eu sei o que quero, procuro não sei o quê nem quem, cruzo-me entre um mundo desconhecido e virtual e um outro que tenho, conheço e é real. Queria partir e ficar, o meu coração gemia e dizia que não fosse, a imagem dela atraía-me como íman e chamava por mim numa voz de sereia.

Chorei porque hesitei, morria por dentro, mas uma mão pequenina no meu joelho e um rosto curioso no meu olhar, num instante me fizeram decidir”. 

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

O Vazio (2)




Um homem veio. Tinha saído do comboio que por momentos parara e num instante retomara a viagem sob a ordem da bandeira vermelha, suja e enrolada num pedaço de madeira velha. O olhar lançou-se sobre o homem sentado no banco: a ponta do atacador de um dos sapatos estendia-se no chão dando a perceber que a ordem e a desordem se debatiam na sua mente. O olhar vago dirigia-se para o infinito e por isso não enxergava o mundo que à sua volta girava em cada dia. Quem o conhece mais de perto sabe que vive a vida como um zumbi, meio alheado na ilusão virtual de uma vida entre o real e a ficção, ao jeito da mulher que lhe toldou a razão e contrai o coração.


O homem que acabara de chegar, depois de passar o olhar pelo relógio, abriu o fecho do saco que trazia ao ombro e tirou um jornal que, por momentos atirou sobre o banco de madeira, para se sentar, pesadamente, logo de seguida.

Um olhar fugidio sobre as parangonas do jornal, permitiu ver em título que o “défice custa 1380,00€ a cada português”. “Uma vergonha, pensou, afinal de contas para onde vai este país? Insegurança, pobreza, justiça tardia e inconclusiva sobretudo quando estão em causa os grandes, os poderosos”. Abanou a cabeça e fechou os olhos como se quisesse sacudir e esquecer o que acabava de ler e pensar. “Bom dia” - Ouviu a saudação que lhe era dirigida e respondeu com um “bom dia” morno e arrastado, em jeito de quem não parece minimamente interessado em estabelecer qualquer tipo de comunicação com aquele desconhecido transeunte de barba por aparar e sorriso que lhe sai mais da expressão que dos lábios.

Voltando aos seus negativos pensamentos, vociferou em silenciosa antipatia “Como é que esta gente tem disposição para dizer bom dia a gente que nunca viu mais gorda nem mais magra?”. Sentiu-se ainda mais cheio de si mesmo e fechado num mundo onde nada mais cabia, além dele próprio e da desconhecida beldade, por causa de quem estava ali taciturnamente sentado num banco de madeira e à espera de um comboio que o levaria não se sabe onde e, sinceramente, nem porquê.

O outro levantou-se, anónimo, e partiu com o jornal debaixo do braço. Levava no rosto o seu sorriso, que não pôde partilhar, e no coração, mais que na mente, um ranchinho de três filhos e uma esposa que há seis meses não via. Saiu e já os braços se abriam em arco e a voz os envolvia num quente “Oláááá” revelador de um amor e saudade que a distância e o tempo não apagam, antes solidificam e enraízam.

E ele continuou ali sentado à espera do que não encontrava, à escuta do que não se ouvia.

Som estridente de ferro contra ferro, um comboio parou. 

terça-feira, 6 de março de 2012

A Espera (1)


A Espera

Um dia à espera. Chegou pela manhã, sentou-se no banco de madeira no interior da estação. Esperava o comboio que o havia de levar a Paris. Era lá que estava a namorada, e ele sonhava cada dia e cada noite com o momento de a conhecer.
Tinham tido o primeiro contacto via internet. Ela apenas lhe tinha mandado uma foto em que a máquina a apanhara um pouco de lado. Percebiam-se feições belas no jogo de luz que o fotógrafo artisticamente havia conseguido.

O olhar, esse olhar que ele imaginava sedutor, num misto de tristeza e encanto no reflexo dos olhos que ela tinha dito serem de um verde esbatido. Ele imaginava-a de olhos grandes, abertos e rodeados por um fino fio de tom escurecido com que cada manhã ela procurava enaltecer a beleza natural com que Deus a bafejara no momento da sua concepção, olhos com luz brilhando na noite dos seus sonhos.

Sim, todas as noites ele a via no seu pensamento, mas nunca pôde descortinar-lhe o olhar ou qualquer outra feição do corpo, porque, por mais que a buscasse em sua mente, ela estava lá, distante, e as imagens que criara no pensamento eram fugidias como raios de luz que vão e vêm deixando apenas reflexos e algumas marcas de dor gravadas pela saudade.

A voz, tinha-a escutado uma vez, apenas, e numa má ligação, num desses dias em que o programa de comunicação do computador, para mal dos seus pecados, parecia estar entupido. Ouviu-a e quase não disse nada. As lágrimas correram-lhe pelo rosto. Traziam do coração o que nele encontraram: uma alegria onde borbulhava a certeza de que lá longe alguém o amava e uma saudade escura onde a tristeza nascia, essa tristeza que lhe trazia vontade de deitar mãos à cabeça e arrancar os cabelos um a um como se cada um deles fosse um pedaço de vida a morrer.

As lágrimas saíram quando o aveludado da voz lhe chegou aos ouvidos e um arrepio frio lhe subiu o corpo e o fez tremer num suspiro quente. Por momentos pôde sentir o aroma do perfume de côco com que, nos sonhos de cada noite, ele a impregnava.

Um sorriso lhe saíra dos lábios quando percebeu que estava de novo dentro da realidade e que aquilo não fora mais que um rápido momento de encanto. Sorriu por se sentir uma criança a viver um mundo de ilusão. Mas, a voz dela ainda se fazia ouvir expressando um português atraiçoado pelo facto de ter nascido em França e de ter aprendido a língua dos pais numas curtas lições de escola e nas brincadeiras com os primos, durante as férias. Barafustou quando a ligação caiu. Nunca mais tinham falado de viva voz.

De cabeça baixa, no banco da estação, espera.