sábado, 10 de novembro de 2012

Nunca tinha reparado que eras tão bela (12)


Sentia-se com uma capacidade incrível de mudar o mundo todo de uma só vez. Era realmente um homem novo, cheio de sonhos e entusiasmos. Caminhava de cabeça erguida e batida por uma leve brisa, que lhe dava um ar de frescura. Tudo dava a entender que quase voava.

Um pensamento. A mão levada ao bolso. A carteira que lá não estava. Esquecera-se dela em casa. A ideia de ir beber um café, e a constatação de que não levava carteira, despoletara nele uma resma de sentimentos. Inverteu caminho enquanto invertia também o seu humor.

Uma topada numa pedra e um quase cair no chão. Uma palavra, dessas que sua avó tantas vezes tinha chamado de feias. Se antes parecia voar, agora já tinha perdido as asas que o faziam planar de entusiasmo. “Porque diabo, havia de haver sempre alguma coisa a correr mal?” Voltou a casa. Barafustava por dentro e por fora.

Um gafanhoto pousou-lhe sobre o peito. Olhou-o sorrindo e num gesto brusco apanhou-o. Percebeu a força que um tão pequeno bicho exercia com um único intuito: libertar-se das agigantadas mãos que o haviam aprisionado. Abriu a mão e viu-o voar para longe.

A aragem trouxe-lhe pensamentos novos: num momento o gafanhoto está preso e noutro voa para longe. Num momento, ele estava fervilhando de alegria e no outro estava a dizer “palavras feias”, simplesmente porque se tinha esquecido das moedas com que havia de pagar o café. Em simultâneo nasceu-lhe no rosto um inquieto sorriso e a lembrança certa de que a vida é como uma roseira. Belas flores e sonhos que brotam lá no alto e espinhos e dores que impedem que sejam alcançadas num ápice. “O que é belo e bom, leva tempo a conseguir-se”  pensou.

Já saía de casa, novamente, enquanto meditava na certeza de que Deus dá pão e peixe mas não nos isenta a nós de participarmos na elaboração da refeição. Quer os nossos pães e os nossos peixes para que a refeição, como a vida, tenha um sabor humano-divino.

Mergulhado em desabituais pensamentos não se apercebeu de que a Ninfa, alcunha por que era mais conhecida, chegara bem perto dele. Percebeu, isso sim, que estava, hoje, bonita como nunca. Fez-lhe perceber isso. Ela reagiu, franzido o sobrolho, chamando-lhe tonto e garantindo que estava muito normal, até porque nem tinha feito maquilhagem. “Nunca tinha reparado que eras tão bela”, disse-lhe ele, escondendo o facto de que ele é que, nesse momento, se sentia como nunca.

Olhou-a nos olhos, desviou dela o olhar, tinha mesmo que ser, e convidou-a para beber um café. “Não há dúvida de que olhamos sempre os outros segundo o nosso estado de espírito interior”, pensou.

Entravam no café. A porta, apenas semi-aberta,…           

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Viveria com intensidade (11)


Era diferente o sentimento que o preenchia desde a morte do pai. Os momentos de dolorosos calafrios por que fora obrigado a passar fizeram-no revolver o pensamento e a forma de ver e assumir as coisas: sem saber por que força era movido, os dias tornaram-se mais solarengos e as pessoas pareciam mais alegres. 

Vivia uma fé de forma um tanto quanto morna e quando lhe falavam em aprofundá-la, em vivê-la com um pouco mais de intensidade, achava, embora na maior parte das vezes o não dissesse, que isso era pura demagogia e, mentalmente, concordava com Karl Marx, que afirmava que “A religião é o ópio do povo”. Meia dúzia de conversas e tretas que meio mundo inventa para manter alienados os pensamentos e ideias dos mais doutos. Embora não renegasse, também não defendia que a fé, como a oração, tivesse qualquer valor no viver feliz do ser humano.

“És muito tolo” exclamou ao fixar os seus próprios olhos enquanto, nessa manhã, se barbeava diante de um espelho salpicado de pequenas gotas de água. Falou de si para si, como se um outro eu o estivesse a censurar por ter vivido uma data de anos longe de si mesmo e da fé que, pais e catequistas, haviam tentado incutir-lhe desde a mais tenra infância.

Sorriu por sentir que esses tempos já lá iam e que o importante era o agora, o hoje em que se sente cheio de força e ânimo para achar que muitas das coisas do passado, sem deixarem de ser minimamente boas, podiam ter sido bem mais entusiasmantes e ter sido fonte de uns bons sorriso, gargalhadas mesmo, e umas “patifarias” num qualquer grupo de jovens, de vários, para os quais foi convidado a participar. “Que me interessa isso, agora?”- pensou.

Tinha razão. O passado era passado e passaria a ser mera reminiscência no futuro porque o presente iria abafar o que de menos bom pudesse haver dos tempos idos. E isso que lera um dia num livro que, por breves momentos, folheara enquanto aguardava que uma colega de escola viesse com meia dúzias de cábulas que ele lhe pedira para um teste de matemática?

Recordou que a ideia impressa naquelas páginas lhe gravara levemente a certeza de que a vida somos nós que a construímos e que não há que lamentar passados nem que empolar futuros porque o que importa mesmo é o momento presente, porque é esse que importa, porque é esse, simplesmente esse, que existe. “Tinha razão Chiara Lubich”- pensou. 

Sentia, agora, que importava o muito que ainda teria para viver. Fá-lo-ia com intensidade, e não deixaria de se manifestar positivamente diante fosse de quem fosse.

Pegou na chave do carro, alisou o cabelo e, em passo de dança, saiu.

sábado, 20 de outubro de 2012

O Céu falou (10)


Noite de sábado para domingo. O vendaval fez-se presente com frio chuva e vento. Noite terrível. O dia de domingo amanheceu chuvoso. O funeral estava marcado. O tempo parecia não querer colaborar. Os amigos vieram às centenas. Era um homem benquisto lá na terra. Uma da tarde, chegam as primeiras pessoas. A chuva pára. Tudo está preparado para o  momento da última despedida cá na terra. Uma hora depois, o padre vem e o silêncio torna-se ainda maior: inicia-se a celebração. A chuva, como em momento de graça, tinha parado. 

É a última vez que o seu corpo está na casa que, em muitos anos, foi o templo do sofrimento e das alegrias do casamento. Duas filas se organizam e o cortejo avança. Céu nublado. 

O nosso homem do banco de madeira olha o céu em jeito de implorar dele um sinal. E ele aconteceu: o céu de nuvens abriu-se em acto de milagre, as nuvens romperam-se e um nesga de sol brilhou por uma questão de segundos. Mais ninguém viu, mais ninguém sentiu, mais ninguém olhou, mas essa era a certeza de que, lá do céu, com uma ternura de mãe, aquele pai olhava os seus filhos. Os raios de sol tocaram-lhe o coração, que, embora a tristeza se mantivesse, deixou cair a amargura e se encheu de esperança. A caminhada para a igreja, e mais tarde para o cemitério, tornou-se leve e a escuridão deu lugar a uma luz doce.

Terra fria. Terra molhada. Terra danada e agre cobre a urna. O seu corpo desaparece para sempre. O regresso tranquilo de todos a suas casas, a chuva permitira isso, para depois voltar a cair, desalmadamente, sobre tudo e todos. O milagre acontecera, a sua oração fora ouvida, o tempo parou para permitir que o funeral decorresse sem quaisquer percalços.

Voltou a casa. Trazia agora a certeza que em tempos de catequese apreendera das palavras da sua catequista: Deus existe. Deus é Pai. Deus é Misericordioso. Deus olha por nós, em qualquer momento e situação.

Confortou-o a esperança de que seu pai estava vivo, agora na intimidade de Deus, agora ainda mais próximo de seus filhos. As lágrimas não corriam já, pois haviam dado lugar a um sentimento de gratidão. Deus chamara seu pai porque o queria junto de Si, porque o não queria ver sofrer mais, porque tinha um lugar preparado pare ele na Eternidade, porque Ele assim quis. Sentia agora seu pai bem mais próximo que quando o podia tocar, sentir e beijar. Sorriu fundo, sem nada dizer a ninguém, mas sabendo ser agraciado por Deus. A vida acabava de ganhar um sentido novo, seu pai estava ressuscitado em Deus.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Silêncio Sepulcral (9)


... saiu com uma alegria semi-contida, eu diria, mais interior que exterior: pensamentos e sentimentos tristes numa mistura de alegria por saber que não tinha embarcado na ideia de dinheiro fácil que o homem gordo e feio do jornal lhe havia, aparentemente, mostrado.
O dia iria ser longo, muito longo mesmo, na história dos anos futuros. Não tinha ainda virado a esquina do café. Depois de ter levantado o braço para saudar alguém que passava de carro e lhe tinha feito o mesmo, sem que ele tivesse tido tempo de saber quem era, viu uma sua prima caminhando em direcção a ele.

Sem que pudesse controlá-lo, um arrepio gelado percorreu-lhe o corpo de alto abaixo. Ao vê-la, percebeu que alguma coisa de diferente se passava, aquele não era o sentimento normal que tinha quando a via, conheciam-se muito bem, ou não tivessem eles crescido a partilhar uma amizade séria e bela.

Interrogando-se, caminhou em sua direcção.

Ao perceber nela um olhar fundo e frio e a ausência do sorriso que, usualmente, lhe transborda do rosto, o coração apertou-se-lhe no peito: inevitavelmente, aquele seria um momento dramático. Sem perceber ainda porquê, recebeu o abraço da prima e acolheu-lhe as lágrimas  com o ombro, esse a que se chama de ombro amigo.

Da boca não saiam as palavras e ela ficou ali, num abraço parado, buscando forças para dizer o que tinha que ser dito, mas que lhe tinha também bloqueado a voz. Afastou-se para o olhar nos olhos. Ainda de rosto pesado fixando o chão, como se não quisesse que ele visse que chorava, passou os dedos das mãos pelos olhos e pelo rosto para limpar as lágrimas que caiam teimosas.

Olhar vermelho, não de ódio, porque esse só os maquiavélicos o conseguem alcançar, mas de tristeza e medo. Olhou-o, respirou fundo para ir buscar as palavras lá bem no fundo do peito, e carregando-as de força para que não se ficassem pelo caminho. “O teu pai...” disse ela em sufoco. Mais nada saiu, apenas novo abraço um soluço sonoro e lágrimas. “Morreu?” perguntou ele com uma certeza absoluta de que era verdade.  Sentiu o queixo dela no seu ombro dizer sim num abanar lento de cabeça porque as palavras voltaram a não sair.

Ele era filho e ela era como se o fosse também. Muito do tempo e muitas das histórias da sua infância tinham sido passadas em casa dos tios, nas brincadeiras com os primos, em algaraviada de pôr os nervos em franja a quem deles se ocupava. Percebia, agora que grande parte da sua vida fora passada ali, por isso sentia que com a morte do tio lhe morria um pai.

O silêncio tornou-se sepulcral. Só o fungar de narizes entupidos se fazia ouvir.

Sem palavra, lado a lado, caminharam rumo a casa. Era estranho, muito estranho, aqueles dois estarem juntos em silêncio.

domingo, 7 de outubro de 2012

Mundo de explorados (8)


… Uma caiu-lhe sobre a camisa azul-bebé e deixou-lhe uma marca.
Recordou-se, como se estivesse em dia de más memórias, de quando ouviu comentar, lá na sua terra, que uma jovem dos seus tempos de escola havia sido violentada fisicamente, numa tentativa de abuso por parte de dois desconhecidos. Marcou-o tanto o facto, simplesmente porque nutria, nesse tempo, um sentimento profundo de amizade a que ele não hesitava em chamar amor. Nesse dia uma semelhante lágrima lhe banhara o peito.
O Carlos partiu: despediu-se e  saiu sem, graças a  Deus, se ter apercebido do que perpassava na memória do homem do banco de madeira.
      
     Voltou, sem querer evitar, a pensar na Clara, na mistura de sentimentos com que ele mesmo a olhou depois daquele dia: um misto de compaixão e ódio fervilhava dentro de si. Compaixão para com ela, e asco que nutria para com aqueles que dela quiseram retirar prazer. Meditou em todas as situações que  lhe vieram à mente e lhe fizeram aquecer e dilatar mais o ódio para com todos os que, de qualquer modo usavam os outros para crescer na vida ou neles assentavam bases para uma desregrada busca de prazer.

       Agora, que estava sozinho sentado à mesa do café, teve tempo para uma reflexão diferente. Por acaso parara-lhe, dois ou três dias antes, nas mãos, um episódio bíblico referente à jovem e aos velhos que, por vingança, pediam a morte para ela. Percorria o mundo à sua volta, as notícias e a publicidade dos meios de comunicação social.

       Percebeu, em momentos, que vivemos num mundo que cresce à base da exploração, tanto dos sentimentos como dos bens dos outros: exploram-se as crianças exigindo-se-lhes que cresçam depressa demais e sem tempo nem espaço para viverem com intensidade todos, e cada um, dos momentos ou etapas da vida; exploram-se os adolescentes levando-os a experiências novas e “radicais” que os puxam para fora de si mesmos, e não para a vivência radical da vida, seguindo slogans que chamam a usar a vida e não a vivê-la; exploram-se os jovens a quem, muitas vezes, não se dão oportunidades de trabalho, nem motivos ou espaço para repartirem a sua generosidade; exploram-se os pais a quem tudo se exige para que os filhos não caminhem sem o mesmo (e falso) nível de vida dos outros que comungam da mesma idade; exploram-se os sentimentos para os usar em proveito próprio, como se até eles fossem descartáveis; explora-se a natureza a quem tudo se pede em questões de matérias-primas e a quem de agradece depositando nela o lixo que a intoxica e destrói.

        Atirar a primeira pedra por parte de quem não tem pecados? Quem? Pensou: ainda que o quiséssemos não poderíamos livrar-nos desta sociedade de exploração. Mas poderíamos, pelo menos ser diferente e limpar o mundo de tudo o que é lixeira humana.

        Levantou-se, pegou no jornal, pagou o café, agradeceu e…                      

domingo, 30 de setembro de 2012

Costas voltadas a quem ama (7)


De telemóvel ao ouvido, escutava a “tuuu… tuuu” indicador de que a chamada estava a efectuar-se normalmente segundo as leis do mundo digital.

O tremor e o suor do corpo faziam-no sentir-se inquieto e perturbado, como se um sonoro despertador abanasse dentro dele. Por graça de algum anjo que o acompanhasse, do outro lado ninguém o atendeu. Desligou. Percorreu-o a certeza de que esse era o sinal positivo de que o que estava prestes a fazer lhe traria dificuldades.

“Eh pá, tas por aqui?!” Ouviu inesperadamente. A palmada que levava nos lombos, a voz, alegre e bem conhecida, fazia-o olvidar aquele momento. Carlos era o nome do jovem que se sentava a seu lado. Há muito não se encontravam e o tempo foi passando naquela tarde de feriado.

Passaram muitos meses pelas conversas cruzadas que foram trocando ao longo das quase duas horas que se mantiveram ali bebericando cerveja puxada por uns pistáchios salgados. Mulheres e homens, férias e trabalhos, dinheiro e falta dele… mas uma das conversas bateu lá fundo gravando-se nas entranhas daquele homem que sonhara partir para uma mulher desconhecida e acabara de fazer um telefonema no intuito de ganhar algum dinheiro fácil.
Falou-lhe, o Carlos, de um amigo comum que em momento de ressabiado sentimento por uma atitude dos pais resolveu deixá-los e partir em busca de um mundo de novo sonho. Não sabia que queria, não sabia que iria encontrar e não sabia que fazer. Simplesmente partiu.
Lá longe, em terras da Guiana Francesa, no mundo da América do Sul, empregou-se na construção civil. O calor implacável do Verão trazia-lhe dores de cabeça agudas. A fome chegou a apertar, porque o ordenado ganho com muito suor não chegou sempre a tempo e horas, ficando mesmo muito do seu valor perdido naquele submundo de ilegalidade laboral.
Quis voltar uma e outra vez, mas o bilhete de avião não se comprava só com o desejo intenso de voltar. Em muitos tempos ter-se-ia dirigido a uma agência de viagem para comprar o bilhete de regresso.

Engoliria os sapos que fosse necessário, espremeria o coração orgulhoso, mas não tinha outro remédio. Voltar era a única solução. Solução dolorosa, mas a única que lhe permitia restaurar a dignidade de homem. Voltar com humildade, explicar as razões da volta e aceitar o acolhimento com que sabia ser recebido. Conhecia bem os corações de seu pai e de sua mãe. Sabia perfeitamente que, apesar da mágoa que lhes provocara, das lágrimas de sangue que lhes fizera gemer em silêncio, eles se lhe abririam num abraço do tamanho do mundo e a sua dignidade, ferida pelo orgulho egoísta de querer ser único e chegar onde lhe não era possível, ficaria plenamente curada.

O homem do “banco de madeira” engoliu em seco por se rever em muitos dos momentos da história do seu amigo. Pensou que andava, talvez, demasiado distante daqueles que eram parte de si. Lágrimas caíram-lhe, emocionadas, do olhar… 

domingo, 16 de setembro de 2012

Um sonho e uma ilusão (6)


…Três dias depois nascia o bebé. A notícia não demorou a divulgar-se. Era um menino esperado.
       O sonho da mãe, que não teria mais que 23 anos, assim se realizava. Mas aquele menino foi o encanto não só dela, mas de toda a família.
       Haviam passado já 20 anos, que mais pareciam uma eternidade, sem que se sentisse a alegria do nascimento de uma criança naquela família.
       A bisavó, uma velhinha simpática de rosto bonito, na casa dos 80, dizia sentir o coração desfalecer por permanentemente lhe aflorar a ideia de que morreria sem ver o seu “netinho”. A notícia fê-la rejuvenescer, como a fez encher de felicidade e deixar correr uma ou outra lágrima solitária a presença daquele grupo de gente nova.
       Por vezes sentia-se só. A presença de cada um deles era mais preciosa que a mirra, o incenso ou ouro que os Magos tinham oferecido ao Menino Jesus. Cada presença, ela sentia-o, era o melhor dos presentes que poderia receber.

       “Um café se faz favor”. Enquanto ele lhe não chegava, pegou no jornal e folheou meia dúzia de páginas que lhe deixavam o negro da tinta na ponta dos dedos. Obrigado, respondeu, olhando de soslaio a menina que lhe veio trazer a chávena do bem desejado café.
       Numa das páginas  apareceu-lhe a foto de um homem negro e com um boné, tipo tupperware, enfiando na cabeça gorda. Era feio mas a mensagem que por baixo dele se apresentava era tentadora. Solução barata para os problemas de dinheiro, que não abunda na sua conta bancária e que quer sempre diminuir, mais ainda em tempos de crise; solução barata e cem por cento garantida para os problemas de amor e de atracão de parceiros.
        O trago de café que engoliu nesse momento tornou-se gelado e amargo diante da imagem que a recordação de um segundo lhe trouxe à mente. Ela estava lá de olhos semi-cerrados a impregnar-lhe a mente com perfume sedutor. Repentinamente voltou a desejá-la.
       Sacudiu a cabeça como quem quer forçar uma ideia a sair. Mas os cem por cento de garantia anunciados pelas palavras do homem gordo do jornal caíram-lhe fundo na vontade. Pôs-se a fazer contas à vida e num sopro de razão pensou que era tudo uma patranha para lhe fazer minguar ainda mais a conta do banco.
       Pensou em como as tentações ligeiras podem tornar-se drama ao recordar a sobrinha que, anos antes, lhe confidenciara que gostaria de experimentar fumar droga para saber como era. Agora restava-lhe um rosto triste, desmaiado de cor e vazio de expressão. A sua vida tinha-se arruinado e a de seus pais estava a crescer regada pelas lágrimas.
       Recordou o que na adolescência lhe falaram no grupo de jovens e, ao sorrir por recordar os “bons velhos tempos”, embora apenas dois ou três anos se tivessem passado, em que corria de lado para lado para não faltar a nenhuma das actividades daquele grupo em que estava inserido.
        E recordou que se sentira rejeitado quando tinha falado em namoro à Ana.      
         Voltou a ficar triste e do coração subiu-lhe a ideia de que não tinha sorte na sua relação com mulheres.
        Não fazia mal nenhum e ninguém tinha que saber! E se telefonasse, só para saber como era, para o número de telefone que parecia florescer naquela folha de papel escuro de um jornal diário? Mas… e a irmã que ele tanto amava, e a mãe que continuava a carregar a cruz, desgastando a vida do seu corpo e acumulando “créditos” para a eternidade, cuidando do pai, que piorava na sua doença? Que pensariam… que diriam… que sentiriam eles se soubessem que ele estava ali tentando a voltar a correr atrás da ilusão?
       “Vai dar tudo certo”, disse de si para si enquanto marcava um número de telefone. Sinal de chamada. O seu corpo tremia...

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Amo-te Muito (5)


Ela olhou-o bem fixamente nos olhos aguardando com expectativa o que ele iria dizer. Ouviu-lhe sair da boca um “Amo-te muito”. 

Eram eles os únicos filhos daquele casal que, havia já muitos anos, tinham vindo do norte, para se fixarem a trabalhar na periferia de Lisboa.

Com a perspectiva da partida do irmão atrás de amores virtuais e desenraizados da realidade da vida, ela sentia-se aterrorizada com a ideia de ter que vir a cuidar sozinha do pai que, entretanto, tinha já dado fortes sinais de estar a ser dominado pela debilitante doença de Alzheimer. 

Aquele abraço e o “amo-te” traziam a magia reconfortante da certeza de que a família não se estava a esfarelar, pelo contrária, parecia estar mais unida e solidificada na comunhão.

Depois, havia o bebé que estava para nascer. Naquela momento, Raquel sentia-se renascer, depois de atravessar longos dias de amarga solidão, em que tudo parecia escurecer a partir de dentro, porque o coração teimava em perder as suas forças. 

Raquel riu-se e disse - parece que o menino acendeu uma grande lanterna dentro de mim, sinto-me cheia de luz e apaixonada pela vida e por tudo o que gira à minha volta. Vamos dizer aos pais que tu estás cá.

Falaram e riram pelo caminho, como dois adolescentes apaixonados. “espero que não lhes dê nenhum chelique quando te virem aqui - disse ela - para eles tu já partiste, e olha que estávamos todos convencidos de que não voltarias tão depressa”. Deu-lhe um empurrão com uma das mãos enquanto lhe chamava parvo.

Ele sabia que ela não poderia fugir a correr por estar grávida de nove meses. Fingindo que lhe dava uma palmada por ela lhe haver chamado parvo, passou-lhe o braço esquerdo pelos ombros e com a mão direita, acariciou-lhe o ventre, fez cara séria para dizer “acho que não me ia aguentar muitos dias longe de ti, do pai e da mãe... concordo contigo: fui mesmo parvo ao pensar deixar-vos e ir em busca de alguém desconhecido. Como pude pensar isso se tenho a minha mana barriguda que está sempre comigo?” Riram satisfeitos e assim entraram em casa dos pais, a casa que era a sua também. 

Sempre lá encontraram conforto. Muitas vezes aí tinham sido repreendidos e muitas lágrimas aí tinham derramado, mas a verdade é que era aí que se sentiam bem, porque aí viveram sempre amados, porque para aí correram, como ainda agora fazem, sempre que se sentiam no desconforto da dúvida, do medo e dos fracassos. Foi aí que sempre foram reconfortados. Foi aí que construíram a família que continua a ser a razão e a base da sua segurança.

Na parede uma imagem da Sagrada Família, estrategicamente pendurada, parecia acolher todos aqueles que na porta entrassem. Por baixo, sentado numa cadeira, e com a esposa a animá-lo, no meio de lágrimas teimosas, o pai rezava para que o filho voltasse. E voltou, nem chegara a sair da estação. 

Ao vê-lo as lágrimas correram mais, mas a fonte era agora a emoção e a alegria…