domingo, 24 de fevereiro de 2013

Se o Nosso Amor Permanecer... (20)


Pegou o livro e saiu tentando não ser muito agressiva nesse retirar forçado livraria onde foi procurar um livro que lhe desse umas luzes sobre o problema da bipolaridade. Queria embrenhar-se um pouco mais nessa questão, de que  ouvira falar numa das aulas quando ainda estava em Portugal. Sabia que tinha a ver com o humor de algumas pessoas que, de um momento para outro, sem ninguém perceber como nem porquê, muda radicalmente o seu proceder, ao ponto de nunca se saber bem de que lado estão.

Saiu e foi seguida. O jovem, bem parecido, vestido com roupas de marca e um sorriso luminoso a inundar-lhe o rosto apressou o passo e foi no seu encalço numa tentativa clara e, pelo menos na aparência, sincera de a conhecer. A aura que dela emanava encantou-o, como disse.

Ela, numa descrente dúvida, parou e esforçou-se por que não saísse de dentro de si qualquer pequeno sinal de acolhimento, como também não queria que ele se sentisse recusado à partida. Tentou, e conseguiu, ser terna porque isso lhe estava no sangue e os seus gestos eram disso sinal. Aura? De que estaria ele a falar? Para mais num inglês rápido que lhe causava insegurança pelo receio de não se fazer entender ou de não entender aquilo que por outros fosse dito.

A Estátua da Liberdade em fundo e os barcos deslizando na agua parada que banha a cidade, dão ao ambiente um tom de acalmia geral. Uma brisa  bafejara-os, fresca, como se tivesse atravessado a Brooklyn Bridge e refrescado com a água do canal. Um odor a Água Brava preenche-lhe as narinas e invade-lhe o corpo numa recordação quente de um passado recente.

Por momentos, esqueceu completamente que tinha uma pessoa diante de si e a sua mente pairou em terras lusas na recordação de um Homem que amava.

Abriu os olhos à realidade e viu diante de si um jovem encantador e a Estátua da Liberdade lá mais ao fundo. Sorriu e pediu desculpa, depois de ouvir uma declaração e uma data de promessas de mundos e fundos. Disse estar comprometida e não ter a mínima intenção de mudar o seu modo de lhe querer bem.

Com um sorriso aberto, despediu-se e caminhou para casa, parecendo agora que as ruas de Nova York eram menos pesadas no meio dos mamarrachos que as ladeiam. Passando em plena Wall Street recordou as promessas que acabara de ouvir de um jovem que parecia ser o dono da bolsa de valores ali ao lado.

Sorriu sozinha e disse de si para si. “Estou muito bem assim. Pode não ter muito mais que um banco de madeira para me oferecer, e se só isso ele tiver, ficaremos os dois, um dia, aí sentados, lado a lado, a olhar a vida a acontecer. Se o nosso amor permanecer isso me basta”.

Atravessou a rua encantada sem reparar num semáforo vermelho. Um briiiii de apito furioso, atrás de si, assustou-a.  

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Olhar Cheio de Luz (19)

Umas braçadas na água. A água fria arrepiou-o por momentos. Água parada num tom de cor cinzento-azulado. Muitas vezes ali havia tomado banho e naquele momento recordou muitos dos momentos de pura felicidade que as gargalhadas de criança que pareciam continuar ali perpetuando-se no tempo. 

Entrou dentro da água o mais que pôde e deixou que o corpo aliviado do stress subisse à tona e amortecido ali se manteve. Os olhos fechados e a respiração funda encheram de oxigénio e felicidade o sangue e o espírito. Desejou, nesse momento, transformar-se em nada ou em água e deixar que uma onda o transferisse sem tempo para o outro mundo. 

Encheu, forte, os pulmões e aliviou-os da pressão esvaziando-os lentamente meditando no seu sonho. Esboçou um sorriso ao pensar no sonho americano, o dele, que era tão diferente do das histórias de cowboys que na adolescência devorara. Simplesmente queria estar perto da pessoa que insistia em lhe invadir a mente e o coração. Abriu os olhos e voltou a cerrá-los porque o sol os inundara de luz directa. 

Saiu da água, deixou-se secar por momentos, ansioso por que a água se evaporasse quanto antes, não fosse chegar alguém e o encontrasse ali praticamente nu. Sabia que sendo feriado alguém poderia ter escolhido aquele espaço para passear à beira rio. O sol foi generoso e enxugou-o num ápice. 

Sentia-se pairar de felicidade. O amor era isso mesmo, pensava, estar longe de quem se ama mas não deixar de viver cada momento de coração palpitante. Amar exige morte de si mesmo  para que a pessoa amada possa sentir-se livre para fazer escolhas, para crescer, para fazer caminho, mas sentindo-se sempre protegida por um escudo invisível e de alta segurança, a energia positiva a que se chama amor. O sentido da palavra tão pronunciada e banalizada, hoje em dia, despe-se completamente de sentido de cada vez que quem julga amar se busca mais a sim mesmo, aos seus desejos, apetites e vontades, que ao outro. É por isso que o amor não se faz mas se constrói e se vive: se constrói subindo, degrau a degrau, as escadas de encanto ou desencanto, apoiando-se sempre  na certeza de se viver para o outro e por causa dele. Hoje sabia-se consciente de que amava verdadeiramente. 

Desembrulhou algumas das memórias na sua mente guardadas e viu a diferença do que agora sentia e de tantas outras vezes em que disse amar, mais sentindo prazer na voz, no olhar e no corpo, de algumas outras mulheres, que no querer que elas fossem livres e caminhassem com ele, a seu lado, não como ele queria. 

Sentiu-se despida por um olhar indiscreto. Rangeu os dentes. Pegou o livro…

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Atirou-se ao Rio (18)


Saíra de casa com ar de galhofeiro pela partida que pregara à mãe. Era feriado e por isso não tinha que ter ido trabalhar. Fez o que, desde a morte do pai, fazia, sempre que não tinha que ir trabalhar: umas saídas de casa, uns dedos de conversa com um ou outro amigo, umas cervejas frescas, que apelidava de loiras.

Na conversa, com “os três jeitosos”, como lhes chamou quando os vira descambou para a má língua. Palavra puxa palavra, e Gaby, roída de inveja, e sempre de língua preparada para cortar na vida fosse de quem fosse, lança a farpa do mal.

Não imaginando sequer que alguém ali presente se estivesse a sentir morrer de paixão pela Ninfa, lançou para o ar o viperino veneno dizendo que ela tinha partido para as Américas para fugir de uma gravidez indesejada. “Tás doida?” pergunta-lhe a Andreia, enquanto o Henrique franze o sobrolho e pensa “lá volta ela a atacar quem consegue singrar na vida”.

As entranhas revolveram-se-lhe e sentiu um ódio frio subir-lhe o corpo. Os olhos humedeceram-se, os lábios semi-cerrados deram ênfase ao “v” quando lhe disse: “Víbora. Tens tanto veneno, Gabriela, que sem te dares conta a tua vida acabará afogada nele” e saiu para não arrancar um par de estalos e lhe marcar a cara com eles para sempre.

Chorou, caminhando sem reparar onde punha os pés, nos odores que as flores exalavam, ou na vida que continuava a acontecer. Pensava no rancor que sentia pela Gabriela: se já a não “gramava”, acabava-se de vez, nunca mais lhe dirigiria a palavra.

Estava decidido a nunca falar mal de ninguém “como se pode ser tão injusto, que interesse tem esta gente em criticar, em fazer mal? Como é que as pessoas não têm coragem ou capacidade para julgar, em princípio, bem as pessoas? Será que alguém lucra alguma coisa com o mal que, entre dentes, ou descaradamente se levanta sobre os outros? Gente hipócrita…” pensava.

O coração só acalmou o ritmo das batidas ao pensar na certeza que tinha de que ela, a mulher que amava, partira por ter tido capacidade, por ter lutado e conseguido chegar um pouco mais longe na vida que ”aquela parva” que nunca foi capaz de sair da cepa torta”  O ritmo cardíaco voltou a acelerar.

Como era seu hábito desde a transformação que nele se operara pela morte do pai, rebuscou a memória o procurou a Palavra de Deus e que lhe diria ela sobre o que estava a viver. 

Pensou na mulher adúltera, na trama que se gerou à sua volta e na reacção de Jesus. Ficou aliviado. Olhou à volta, ninguém via, ganhou coragem, preparou-se e atirou-se ao rio.



terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Nem ele se entendia a si mesmo (17)


Ela partira havia um pouco mais de oito dias. Desde então, ele não parecia o mesmo. No dizer de uma vizinha, aquele rapaz era muito fácil em deixar-se ir abaixo rapidamente, na tristeza, mas com qualquer boa notícia, parecia subir aos céus como se a vida não tivesse quase a obrigação de nos ir cravando na carne uns espinhos que façam lembrar o quanto se é pequeno e limitado.

De um entusiasmo esfuziante passou a uma tristeza melancólica. Ninguém o entendia, pensava ele, como sentia também não se entender ele a si próprio. Ela partia na busca da realização de um sonho seu, porque haveria ele de ficar a lamentar-se pelos cantos como se isso representasse quase o fim do mundo?

O olhar e o beijo com que, no aeroporto, se tinham despedido gravou nele a certeza de que, naquele momento, tudo sentiam um pelo outro. Mas o levantar sonoro do avião levou para longe, bem longe, um pedaço de si. O coração, meio lamechas, tinha-se partido e metade fora com ela para os Estados Unidos e o espaço que dele ficou tornou-se vazio e escurecido pela saudade.

“Levanta-te, homem!” ouviu a mãe dizer, quando chegou a casa vinda de uma consulta médica. “Andas para aí meio morto, olha que um homem é um homem e um bicho é um bicho! Vais ficar eternamente anestesiado de saudades só porque a mulher que amas foi estudar para longe? Ai filho - continuou - o que seria de ti se fosses tu a estar nas minhas vezes quando o meu pai, o teu avô foi alistado para o Ultramar! Sabes que são as mágoas que arreigam as forças humanas, espetam-nos as raízes no coração e na vida e nós ficamos mais fortes! Vá lá, deixa arribar essa alegria e em vez de pensares em ti agora acredita em vocês os dois daqui a meia dúzia de anos. Se o amor existir, nada vos pode separar.”

Atirou-lhe com o resto da água que ficava no copo em que acabava de beber. Molhou-a, deu uma gargalhada sonora e, enquanto se esquivava a umas simpáticas palmadas com que a mãe parecia ameaça-lo por tê-la molhado, disse: “tenho a  melhor mãe do mundo.” E esgueirou-se porta fora.                             

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Estava viva e amava-o (16)

Num momento passou-lhe pela mente a imagem de morte numa certeza absoluta de que ela era real e numa certeza absoluta e confusa de que estaria a sonhar porque esse momento não podia ser real. Envolveu-o  a imagem de uma ninfa esmagada pelos rodados grossos do camião.

Parou petrificado e assim ficou até ao momento em que o roncar daquele mostro se fizeram ouvir mais intenso, enquanto  negras massas de fumo se iam desvanecendo para trás. Ela caminhava com o cabelo esvoaçando ao vento  e essa imagem fê-lo readquirir forças e, num passo hesitante, caminhar no sentido em que ia antes.

Queria sentir-se em paz, e a paz só era possível porque sabia que ela estava viva e que o levava dentro de si, e que iria para longe, mas que voltaria, e que, lá longe, não deixaria de o lembrar e que, se o lembrava era porque ele não lhe era indiferentes e que isso era a prova provada de que ela o amava.

Mas a vida continuava e o tempo não era de se ficar parado a ver passar a história, porque o amor move os corações, faz ferver de energia, e transforma a vida de quem ama.

A Paz voltara a descer sobre ele. Eram mil e uma emoções fortes, bem fortes, as que estava a viver nos últimos dias: a morte de um ente bem querido e a certeza de que ele faz parte da eternidade, a certeza de que alguém o ama, a certeza de que, pelo menos aparentemente, nada pode destruir tanta felicidade. Era quase palpável a energia que se fazia sentir sobre ele.

Era essa força, essa energia, que havia de segurá-lo tantas vezes de pé sem sucumbir diante do fracasso, do medo e de tantas dores que pelo tempo além a vida havia de trazer-lhe. Mas isso não importava.

Um pontapé numa pedra, que rolou rapidamente estrada além, e um pequeno passarinho assustado que levantou voo. Um sorriso vivo e o esquecimento definitivo de algumas mulheres que fizeram parte da sua história e do seu imaginário. Um salto por cima de um marco e um ramo verde que arranca, traiçoeiro, de um arbusto.

Entrou em casa a trautear uma melodia de Strauss. A ponta da camisa fora do sítio, desfraldado, como lhe  dizia, tantas vezes, a mãe.

Sentido novo, vida nova, encanto marcado por um espírito diferente.  “É o Espírito Santo que anda muito atento comigo”, brincou ele interiormente ao perceber-se assim feliz. Ficou mais feliz por dentro ao pensar-se amado por Deus. 

Fazia-lhe bem, muito bem, a fé que mantinha desde a infância.                        

domingo, 9 de dezembro de 2012

Corações Ardentes (15)


Estava decido. Ela iria partir e ele, por muita vontade que tivesse, não iria sequer manifestar-lhe o desejo de que não fosse. Sabia que o amor não era fazer o que ele queria, era mais o ele querer o que ela desejava para si mesma, o estar presente junto dela. E havia tantos modos de o fazer!

Sairam do café de coração a arder. Foram poucos, mal imaginavam que isso iria acontecer mil e uma vez daí em diante, os momentos que estiveram juntos, mas tinham sido intensos e só o nervosismo e o bloqueio que advinha do respeito que ali sentiram um pelo outro os impediram de manifestar tudo aquilo que de dentro queria sair em catadupa.

Estranho, mas depois de perceberem que se desejavam um ao outro o silêncio pairou e pousou sobre aquela mesa de café, onde duas chávenas sujas, marcadas pelos lábios de um e de outro, permaneciam frias e serenas. Só os olhos e os sorrisos falavam, cúmplices de mensagem que se não podiam ouvir.

Faltavam poucos dias. Teria que organizar muita coisa em pouco tempo. Uma carta havia marcado a mudança de rumo da sua vida. Ía partir para longe, e agora parecia doer, ainda, um pouquinho mais.
Quando parecia que os amigos e a família iam ficar para trás, encontrou mais alguém a quem, como por magia, se agarrou como uma lapa de águas salgadas. Pararam. Olharam. Calaram e sentiram energia e força que se cruzava como vertigem que atrai para o abismo.
Ela percebeu sofrimento no olhar dele. Com uma mão acariciou-lhe o rosto enquanto dizia: “eu vou mas levo-te comigo, acredita, e vou voltar sem te esquecer porque quero que estejas onde eu estou como quero estar onde  tu estás. Não fiques triste porque não me vais perder. 
Hoje ganhámo-nos um ao outro e, certamente, o tempo e a distância não vão causar separação” Ele sorriu e ela brincou: “estou a falar bem, nem sei onde fui tirar estas palavras.”

Abraçaram-se por momentos e ele percebeu o quanto ela o amava, ainda que a palavra amor não tenha saído de seus lábios. Um e outro, sem saberem, sentiam ser quase sagrada essa palavra, por isso a não pronunciaram para que acontecesse em momento ainda mais especial.
Seguiram, cada qual para sua casa, a rebentar de felicidade. Voltaram-se, num derradeiro cruzar de olhares e sorrisos.
Pneus de um camião chiaram na estrada. Aterrado pelo medo o corpo tornou-se frio. Voltou-se num gesto brusco e louco de pavor. Não a viu. 

As pernas tremeram. No peito, o coração quis rebentar. Sentiu-se desfalecer…


segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Saudades de ti (14)


Não tinha uma flor para lhe oferecer. Só palavras lhe poderiam sair do peito para começar a exprimir o que nesse momento sentia.

Antecipando-se, sem sequer pensar no que poderia ele estar a querer tirar de dentro de si, disse ela, dando um solene tom de entusiasmo ao acontecimento que anunciava. O tão sonhado  momento de poder vir a  estagiar nos Estados Unidos iria concretizar-se: finalmente tinha-lhe sido concedida a bolsa de estudo pela qual sempre lutou e que, em reconhecimento pelas excelentes classificações na faculdade, lhe traria a possibilidade de vir a completar o curso num país estrangeiro. Os Estados Unidos eram o seu sonho: sempre a fascinara a América, sobretudo porque era lá que melhor se poderia preparar para o futuro que para si almejava.

Boquiaberto, ouviu dela tudo sem se atrever a pronunciar palavra como se a fonte das palavras secasse dentro de si. Esboçou um sorriso amarelo e  ficou perdido na desilusão que sentiu ao perceber que iria perder o que ainda nem sequer tinha encontrado. “Como é que eu posso ter andado tão longe, pensou, para não me ter apercebido da beleza, dos sonhos e do encanto, que  há nesta mulher”? Tentou, sem conseguir minimamente, disfarçar em alegria a mágoa que estava a sentir.

A perspicácia feminina, presente em qualquer mulher atenta,  e talvez mais nela, agora, por também ela não estar a ser indiferente à diferença que nele hoje se podia sentir, fê-la pensar. Muitas vezes o olhara e fixara com interesse mas sem qualquer fixação mais forte.

Percebendo a mal disfarçada aflição que vira nele, atalhou rapidamente para dizer que achava que não ia aguentar lá muito tempo sem vir à sua terra ver os seus, sentir a vida e o lugar onde sempre viveu. “E acho que também vou ter saudades tuas” disse, inclinando-se um pouco para diante, como quem quer dizer um segredo, e deixando que  a sua mão perdida descansasse apenas sobre a mão trémula que ele tinha, meio perdida, sobre a mesa do café.
Estava feito. O que ele não teria tido coragem para pronunciar logo ali, ela afirmara-o claramente com meias palavras e um gesto forte de quem ama. 

O toque das duas mãos reacendeu a força e a fé dentro dele e esmagaram as dúvidas que baralhavam, atordoadas, as ideias e os gestos. Embrenhou-se nele a certeza de que o futuro que ela estava a preparar para si poderiam vir a ser futuro vivido a dois. Percebeu-se amado, perdeu o medo e acreditou que a separação de milhares de quilómetros não evitaria o sofrimento da distância mas seria apenas ausência de corpos porque ambos estariam em comunhão de sentimentos.

Olhou-a bem fundo e sorriu...

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Amor e Paixão (13)

A porta semi-aberta do café forçou a que, cavalheirescamente, ele recuasse um passo para deixar a Ninfa entrar primeiro. Uma fragrância com tom de uma qualquer especiaria, para ele desconhecida, penetrou-lhe as narinas para se embrenhar no cérebro, agora aliviado e disponível para se deixar marcar por novas experiências de vida. 

A atracão que minutos antes tinha sentido pela Ninfa, de seu nome próprio, Cristina, parecia intensificar-se a cada passo e em cada gesto daquela Mulher, de quem sempre viveu tão próximo, mas também, percebia agora, tão distante.As palavras paixão e amor cruzaram-se-lhe na mente, enquanto ajeitava uma cadeira para que ela se sentasse. Sempre lhe causaram confusão aquelas palavras. Sabia que não significavam o mesmo. Uma e outra vez foi portador de sentimentos diferentes em relação ás mulheres que vinham fazendo parte da sua vida. Amor era  termo demasiado forte para definir o que sentia por uma qualquer mulher. Tinha consciência de que isso era o que sentia por sua mãe e por sua irmã. 

Sensações parecidas sentira-as algumas vezes por outras mulheres, mas aí havia mais confusão porque estava muito atento também fosse ao modo e vestir, ao jeito de andar, ao perfume usado, às palavras que diziam ou ao corpo que tinham. Já antes pensara como era estranhamente interessante e belo que aquelas, a mãe e a irmã, eram mulheres diferentes. Crescera com elas, conhecia-as  ao ponto de não precisar de nada que comprovasse que as amava, bastava-lhe sentir que tudo faria, que a vida daria, se necessário, para que uma e outra estivessem bem. 

Conhecia-lhes o sorriso de alegria, o sorriso disfarçado, o sorriso de dor. Muitas vezes as vira chorar por dentro sem deixarem que as lágrimas  saíssem para fora. Sabia perfeitamente que, como ele, elas dariam a vida para que ele estivesse bem.Agora estava meio perdido ao perceber interiormente que alguns desses sentimentos se manifestavam, mais que tenuemente, pela mulher de sorriso claro que, na sua frente, bebia um café dulcificado por meio pacote de açúcar. Olhou-a nos olhos e sentiu medo, vergonha e encanto. Será que a amava? Atracção sentira-a muita vez. Seriam, agora, apenas sentimentos passageiros. Que fazer?

Um quadro com flores pintadas fazia de fundo, como que emoldurando a cabeça da ninfa. Pensou nas rosas, e no que sentia, quando, no Dia da Mãe, as oferecia à mulher que verdadeiramente amava. Amar era bem mais que oferecer uma rosa, mas a rosa era um pequeno sinal do que sentia por sua mãe. Apeteceu-lhe ter uma rosa para oferecer à Ninfa.

Desejou muito, nesse momento, ouvir o som “quefrô?”…