domingo, 3 de maio de 2015

Ser Mãe

Foto J. B. 











Ser mãe é já ser-se flor
de um jardim belo, colorido,
onde o sofrimento e a dor
por um filho se enchem de sentido.

Ser mãe é já ser-se rosa
de espinhos que ferem dentro,
de pétalas radiosas
que brotam sempre, sem tempo.

Ser mãe é já ser-se beijo,
lábios que amam em piedade
e mostram único desejo
de matar o que é saudade.

Ser mãe é já ser-se vida
de corpo, alma e mente,
em entrega sempre sentida
e em sinal de eterno presente.
                            J.Baptista (3-5-15)

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Olhares com cor

Vivia numa terra estranha, segundo os nossos olhos podem ver e o pensamento pensar. Era um sítio lá longe, muito longe, onde nem os foguetões grandes conseguem ir. Tão longe, que a luz do sol, um sol mais bonito do que o nosso, nunca se apaga porque lá todos vivem sempre a sorrir e não há luas que escondam o sol da vida das pessoas, nem zangas que apaguem o brilho dos sorrisos, porque as pessoas são pequeninas por fora e muito grandes por dentro. 

O “S”, vamos chamar-lhe assim para falarmos dele, porque lá, na terra onde vive, ninguém tem nome, porque não precisam de ter nome pois não falam uns dos outros e todos se conhecem pelo brilho do sorriso e pela cor do olhar. Sim porque o sorriso tem brilho e o olhar tem cor, mesmo cá entre nós, por isso é que há sorrisos bonitos e feios e olhares que que são uma coisa ou outra, também.  O “S”, estávamos a  dizer, fechou os olhos, não para descansar porque lá as pessoas não se cansam, para ver mais fundo. E viu. Viu, lá longe, muito longe, uma bola grande dentro dos seus olhos pequeninos. Era feita de sombra. Fechou mais os olhos e viu que afinal era de uma cor azul, um azul bonito, mas nada tão bonito como o azul do olhar da sua irmã.

Fechou mais os olhos pequeninos e o olhar levou-o a voar para aquela bola. Voou, voou e foi parar ao pé de uma árvore grande, muito grande. Olhou para cima e achou que ela chegava até ao céu, e ele sorriu porque era uma árvore toda cheia de luzes a acender e a apagar e ele sorriu ainda mais porque na terra dele a luz nunca se apaga. Olhou à sua volta e viu muita escuridão, era de noite e ele não sabia o que era a noite. Recuou alguns passinhos e ficou debaixo da árvore que dava luz.

Olhou uma lâmpada pequenina. Ela brilhou e ele perguntou e os dois falaram com palavras de luz: “Olá, que mundo é este?”. “É a terra, o mundo dos humanos”. “Tão escuro!”. “Sim, nesta época acendem muitas luzes, alguns, porque outros gostam mais de andar na escuridão”. “Mas porquê?”. “Porque é Natal”. “E o que é o Natal?”. “Não sei, prenderam-me a estes fios para segurarem a minha luz. Eu queria sair e descobrir o que é mas não posso”. “Eu vou descobrir e depois passo para te contar”.

E o “S” saiu a querer encontrar e saber o que era o Natal. Andou e perguntou,  mas não conseguiu perceber tudo. Continuou a andar dando passos muito rápidos com o pensamento. E Disseram-lhe que o Natal, era tempo de alegria, e ele viu tantas crianças sem o afeto de um pai e uma mãe; disseram-lhe que o Natal é paz e ele viu maridos e esposa a discutir; disseram-lhe que o Natal é partilha de vida e ele viu gente deitada nas ruas, sem nada, quase sem vida; disseram-lhe que o natal é luz e ele viu os olhares escuros dos velhinhos tristes porque os filhos se esqueceram deles sozinhos em casa; disseram-lhe que o Natal é o nascimento de Deus e ele viu gente cheia de ódio  e ouviu dizer mal dos outros e ouviu músicas bonitas a sair de corações tristes, e viu igrejas onde Deus estava sozinho; disseram-lhe que o natal é numa noite, a noite mais mágica, e ele encontrou essa noite e sentiu-a a noite mais triste, porque não viu gente nas ruas e viu jantares ricos e achou que o Natal ia acabar quando acabassem os jantares.

E chorou, nessa noite. Chorou lágrimas de tristeza, e ele só conhecia as lágrimas de alegria. E ficou mais triste porque as lágrimas de tristeza sabem mal, porque são salgadas. E o vento, o vento que se levantou ligeiro, trouxe-lhe um pedaço de papel e ele deitou-se em cima dele porque estava cansado. Neste mundo as pessoas cansam-se. Adormeceu. As letras pretas daquele papel, um pedaço de jornal, entraram-lhe na mente e ele leu uma notícia, mesmo a dormir: “Jovem apresentadora de televisão, com 24 anos, morreu de cancro, um mês depois de dar à luz, por se recusar a fazer quimioterapia para não prejudicar o bebé”. Pensou que estava a sonhar, mas outra notícia entrou a correr e interrompeu-lhe o pensamento: “Em Londres, jovem estudante pede a um mendigo dinheiro para o autocarro e ele dá-lhe as 3 libras que tinha”. E outras, e outras noticias que leu, deixaram-no a sorrir por dentro, mesmo a  dormir.  

E acordou, acordou quando um raio de luz, do sol da terra dos humanos, lhe aqueceu a vontade de correr, e correr ainda mais, para ir contar à pequenina lâmpada presa na árvore de natal o que era realmente o Natal. Mas ela estava sem luz, era dia, e ele percebeu que a luz só voltaria a estar presa naquela lâmpada num próximo Natal, porque os humanos só pensam no Natal quando é dezembro. Estava tão feliz que pediu à lâmpada que no próximo ano dissesse à luz que ele iria voltar.

Sentiu um afago de mão de mãe, daqueles que só as mães sabem dar. Abriu os olhos e naquele mesmo instante estava lá na terra dele, lá muito longe, onde a luz do sol nunca se apaga e as pessoas não têm nome e não falam das outras. Sorriu com o olhar e disse: “Sabes mãe, encontrei o Natal da terra dos humanos, mas acho que muitos deles ainda não o viram.

                                                                                                                                                       Natal de 2014

sábado, 15 de junho de 2013

Acabei com a Minha Vida (25)

Carinhosamente pousou a mão sobre a dela e sentiu-a agarrada e apertada como se aquela jovem encontrasse, finalmente, algo em que lançar âncora no mar revolto da sua vida.
Mãos que falam, mas os olhares não se cruzaram. Bastava-lhe, pensou a Ninfa, sentir que tinha alguém que lhe desse a mão.  “Hi” - disse. A resposta foi um olhar fixo e mais lágrimas a correr.

“My father is…” disse, parando a frase ao ver que na bolsa da Ninfa figurava um pequeno emblema com a bandeira de Portugal.  Olhou-a bem nos olhos, apertou-lhe a mão e perguntou: “És portuguesa?” ao ouvir um sim envolvido num sorriso, tentou um sorriu também e continuou: “Também sou, vim, há dois anos, com meus pais.

Somos da zona das Caldas da Rainha, de um lugarzinho de Alvorninha. Tinhamos uma vida tranquila, sem grandes posses, mas vivíamos do pouco que nos era possível, nunca nos faltando nada se não a paz, que o meu pai nunca  nos conseguiu dar. Era um homem ganancioso, ávido de ter sempre mais, sem perceber que nem mesmo a nós, a minha mãe e os meus irmãos, ainda tinha.  Quando surgiu a hipótese de vir para os EUA, não pensou duas vezes, só via dólares diante dele, esquecendo que não era só ele, mas que tinha uma família e que todos nós tínhamos um olhar  diferente sobre o mundo e a vida.

Viemos, porque ele praticamente nos forçou a vir. Tinham conseguido trabalho para ele e para a minha mãe. Nós, os filhos, viemos por arrasto, deixando  em Portugal as nossas vidas, que eram feitas de trabalho, de escola, de amigos, de alegria.

Aqui, meu pai não via mais nada que trabalho. Não parava para descansar, não sabia o que era recusar um pequeno trabalho  por precisar de descansar ou para estar com a família, ou para vir  passar um dia connosco aqui em Nova York, simplesmente para estarmos juntos.
Em dois anos nunca fomos à Estátua da Liberdade porque era caro e porque ele tinha que trabalhar e porque era preciso poupar e porque (as lágrimas voltaram abruptas) nos não sabia amar.

Há dias, quando, de noite, voltavas cansado e esgotado pelo trabalho, num cruzamento de estradas, a falta de os reflexos impediu-o de evitar um camião  que rodava, barulhento, na 95, e, num instante, o meu pai perdeu até a vida, a pouca vida, que tantas vezes nós lhe dissemos que ele tinha.

Sabes, tantas vezes pensei que não tinha um pai, tantas vezes me não senti amada, tantas vezes tive vontade de desistir de tudo… e agora estou completamente perdida, não sei como lutar, não sei como aguentar, não sei como conseguir.


”Baixou a cabeça e chorou desconsoladamente.  Depois, a voz saiu-lhe frágil, sumida, apavorada, afogada: “Há 5 meses, «acabei» com a minha vida.”

domingo, 19 de maio de 2013

Gente Caída (24)


Caminhou em direção à estação Central do Metropolitano.

Acompanhava-a a solidão, uma solidão desejada e querida. Saiu simplesmente para observar e pensar. Pelo caminho viu gente agitada e apressada, jovens barulhentos em grupo, gente cansada de trabalho, homens e mulheres  a rir, gente de gravata e ricamente vestida, homens e mulheres vestidos de trapos e despidos de dignidade.

Dentro do mundo que é a cidade Nova Iorque, uma portuguesa caminha na noite, nunca saíra de casa tão tarde desde que estava nos EUA, e mede com o pensamento tudo o que acontece à sua volta:  enquanto se sente feliz por se saber amada, mesmo num país longe do seu, das suas coisas e suas gentes, pensa em quanta daquela gente que ali vive na noite se sentirá como ela, imagina quanta daquela gente se sentirá ser simplesmente um corpo sem alma, vazio de amor e distante de alguém que os ame!

Pais de família agarrados pelo álcool, que, ao longo dos anos, lhes veio apodrecendo a vontade de caminhar por sendas direitas. Jovens enganados pelo prazer que lhes é ministrado em límpidos cálices de gozo instantâneo que não passa além de ilusão de sentido. Crianças maltrapilhas agarradas ao nada dos contentores de lixo em busca de um pedaço de pão.

Pensou no mundo e na força dos dólares despejados  a “resmas” no mundo e no submundo da Broadway e de outros espaços de barulho, luz, cor e prazer. Mundos e vidas a viver em lados opostos e a roçar-se permanentemente por tão próximas se encontrarem.

“Porque é que Deus permite que tal aconteça se é Pai e Bom?” A resposta resvalou para compreensões de tempos passados quando, desde criança, ouviu dizer, vezes sem conta, que livres é que fomos criados, o ser humano em geral, e cada pessoa em particular. Livres para construir, mas com capacidade para destruir; livres para amar, mas com capacidade para odiar; livres para oferecer a vida por um filho que chora na noite do tempo ou da vida, mas com capacidade para recusar  um filho que nasce ou pede pão; livres para partilhar, mas com capacidade para o egoísmo.

Sentada a uma das mesas de um dos restaurantes “fast-food” da estação, uma jovem limpa os olhos com os dedos da mão com que segura a cabeça, como se quisesse estancar e abafar as lágrimas amargas que insistiam em não parar.

A Ninfa percebeu que era sofrimento real aquele. Tocada por uma força  impulsiva, vinda, não sabe de onde, sentou-se na cadeira diante dela e ficou, silenciosa, a olhá-la…      

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Pegou um Pedaço de Ar (23)


A pergunta instalou-se  e, teimosamente, foi-se-lhe aflorando ao pensamento, como se tivesse vida e não quisesse ser esquecida. Em jeito de quem exige uma resposta, insistia em não abandonar o seu pensamento. “Que estou eu a fazer da minha vida?”, era a mensagem que pesava em sua mente quando se sentou no sofá, desligou a televisão e fechou os olhos para pensar.

Deslizando como fantasmas, as memórias do passado dançaram-lhe em confuso movimento de fuga rápida. Por momentos, algumas delas paravam e o rosto da Ninfa manifestava o que lhe diziam, mais exactamente, o que lhe faziam recordar: sorrisos espontâneos e claros, bem como tristes tensões de face, e até mesmo algumas furtivas lágrimas.

O tempo passou e o filme da sua vida continuava a ser-lhe projectado por dentro: as traquinices com direito a umas palmadas duras por parte da mãe; as maçãs roubadas e as fugas de quem não quer ser visto, muito menos apanhado; as vinganças de criança sentida e magoada; os temas tabu, que nem o silêncio barulhento da mente fechada em si mesma permitia que viessem muito à baila; a presença da mãe e a compreensão magoada do pai, quando se viu metida em apuros; os sem-abrigo de Nova York ou de Lisboa… tudo foi ocasião para crescer e ser hoje a mulher que é. 

Sabia-se forte, sensível, decidida e palpitante de vida. Tinha consciência também de que muito do tempo da sua vida havia sido passado, mesmo desperdiçado, em coisas fúteis, vãs ou simplesmente menos essenciais, acabando, em muitas delas,  por se sentir vazia e pouco satisfeita consigo própria.

Tinha a impressão, quase pura, de que muitas correrias de lado para lado, muitos desejos de querer chegar lá bem longe, muita vontade de querer chegar depressa, a tinham feito caminhar mais ou menos sozinha, embora o barulho que ouvia de tanta outra gente a “correr” da mesma forma, lhe transmitisse a ilusão de que corria num pelotão de inúmeros corredores que buscam a vitória.

Os minutos longos, muito longos, que passou de olhos cerrados, absorta de tudo o mais, sentada no sofá a desfolhar a vida dos anos idos, deixaram-na mais leve, parecia, agora, ter pequenas asas e respirar um ar diferente, mas puro. Tinha escutado, tinha-se escutado a si mesma e à voz que, não sabe de onde, parecia fazer-se ouvir dentro de si.

A noite ia já adiantada, mas as luzes da rua criavam a ilusão de um dia quase de sol. Pegou numa bolsa com documentos e num pedaço de ar, ar que inspirou profundamente, e saiu para a rua e para o mundo..

sábado, 20 de abril de 2013

Das Origens do Souto da Carpalhosa


Das Origens do Souto da Carpalhosa
Igreja Paroquial (foto J. Baptista)
De origem sempre duvidosa,
É Souto de carvalho ou castanho.
Uma certeza: é a Carpalhosa
Que em diversas teses se emaranha.

Em tempo ido, foi terra de Azenha
Marginando o Chão da Laranjeira,
Onde, se espera, S. Bento tenha
Pão para a terra Camarneira.

Relvinha verde no campo vicosa,
Donde em Estremo d’ Ouro o sol reveste
O Vale de Pedra, onde crescem rosas
Com Sargaços de sabor agreste.

Corre da Carpalhosa a ribeira.
Vê-a São Miguel, de trás do Penedo,
Entrar, preguiçosa, na Carreira,
Como Criança levantada cedo!

Sai a moura bela da mina funda
E sobe, só, o Picoto, cansada.
Observa o Liz e, em um segundo,
Brotam lágrimas em fonte salgada.

Da Várzea o comboio faz cama,
E deita-se nela com o rio.
De ciúme a Arroteia se inflama,
E em noite de lua geme de frio.

Se fez de uma Moita grande Roda,
Afirmam os velhos bem certeiros,
Como dizem outros, também, ser
Do mar uma ilha os Conqueiros.

Em anos passados, muitos são,
Sorrateiras, sorrindo airosas,
Se afastaram, levando um brasão,
As vizinhas terras ortigosas.

                        Janeiro 2013

domingo, 7 de abril de 2013

Cai a Noite em Nova Iorque (22)


Cai a noite. Um dos milhares de sem-abrigo que rastejam pela vida, está ali  deitado dentro de uma caixa de papelão suja.

Quando chegou transportava em si a imagem de que os Estados Unidos seriam o paraíso na terra e uma das desilusões que apanhara foi o facto de encontrar gente sem número vagueando pela noite escura dos  sem esperança, gente cheia de nada e com mil razões para nunca esboçar um sorriso.

Haviam perdido o sabor dos sorrisos, da alegria e mesmo da vida. Diante deles não há placas a indicar direcções  ou caminhos. O destino para que se sentem chamados é vazio e por isso seus olhares só mostram o nada, são apagados.

Desde o primeiro dia, em que pisara aquelas paragens, que se sentia impressionada por essa certeza de que no país do Tio Sam também havia muitos milhões de pobres.

Enquanto caminhava saboreando o doce das palavras que escutara encostada ao mastro da bandeira de Portugal, parecia ter-se tornado ainda mais sensível àquela miséria adormecida nos vãos de escadas dos escritórios ricos de Nova York. Ela tinha quase tudo o que era preciso para se ser feliz, para se sentir única no mundo e na história.

Bem sabia que muitos outros tinham mais, mas o que tinha lhe bastava e nunca se sentiu desejosa de muito mais. Tinha uma família, inteligência e um curso que a encantava por se sentir atraída pelo que fazia, amigos sem número, embora os de peito fossem apenas um pequeno número, porque assim escolhera e não precisava de mais.

Tinha receio de dar esmola fosse a quem fosse, porque sempre ouvira dizer  que muitas vezes os mendigos não precisavam, que o que recebiam era para gastar em vícios, e que até mesmo o que se dava para instituições servia, em muitos casos, para ir enchendo bolsos de dirigentes. Já uma vez ou outra tinha discutido essas questões mas sempre sem aclarar ideias dentro de si.

Agora, caminhando, pensava que todos têm o direito de ser felizes, se não sempre, o maior de tempo possível. Se podia partilhar com aquela gente alguma coisa, porque é que havia de estar a pôr em causa o destino que dariam às suas ofertas? E não será que pudesse fazer alguém feliz dando um pouco de si, mesmo que não desse dinheiro?  Mas não tinha tempo…
O curso absorvia-a demasiado, e porque queria dar tudo para que a nota final dos seus estudos fosse realmente brilhante, sempre foi considerada a melhor aluna por onde passou na escola. Tinha medo de poder agarrar-se demasiado às suas coisas e a si mesma perdendo as oportunidades de estar mais próxima daqueles de quem ninguém se aproxima. Ousou pensar que era preciso arriscar.

Entrou em casa, ligou a televisão e recebeu a notícia de que duas crianças tinham morrido queimadas em casa, onde a mãe as deixara para ir trabalhar sem ter oportunidade económica para as deixar à guarda de alguém. Também ela não tinha tempo para seus filhos e perdera-os de uma só vez. Não queria acreditar que o dia terminasse assim. Ficou especada na sala, quase sem reacção. 

Perguntou-se: “que estou e u a fazer à minha vida?”  

domingo, 10 de março de 2013

Uma Lágrima Furtiva (21)


Voltou-se e viu atrás de si, um homem enorme, fardado, e percebeu uma voz que dizia “are you crazy”?. Pensou: “estou feita”.. Mas que é que foi”? Num inglês de americano zangado, o polícia manifesta bem a insensatez que ela estava a cometer ao atravessar uma passadeira com semáforo vermelho para peões. Tinha consciência de que de nada lhe valeria a pena estar a tentar explicações.

Aquele homem, mal encarado e a debitar “perdigotos” da boca à mistura com um linguajar stressado, dava bem a entender que não havia lugar para qualquer tipo de desculpas. Ainda disse, para não ficar calada, que por distracção, não tinha reparado, mas não se livrava de uma multa, que acolheu com um simpático “I’m sorry”.

Esperou, ao lado do americano, que o sinal passasse a verde e, de porte elevado e nariz alçado, em jeito de humor, atravessou a rua muito direitinha enquanto sorria e pensava “tinha-me feito jeito a oferta do galã da ponte. Vai bem o dia: um que, fazendo-se ao piso, me oferece mundos e fundos e outro que, logo a seguir, me tira algum do pouco que vou tendo. Estes gajos não existem”.

Continuou, passeio a cima. O telefone que toca. Pára e procura-o na bolsa. O medo de perder a chamada sem sequer ver de quem era fá-la mexer rapidamente todas as coisas.

Reinicia a caminhada e prime a tecla verde do telemóvel. Um encontrão no braço de alguém deixa-a parada e a rir-se: mais um americano, agora um com uma caixinha de comida “fast food” na mão e, certamente, tão distraído como ela. “Já não se fazem americanos como os portugueses” disse ela para o telefone, sentindo a saudade entrar-lhe na alma.

Do outro lado do oceano escutou um “que é que se passa?”  e viu, sem ver com o olhar, um sorriso aberto e cheio de ternura. “não importa, nada de jeito, só me interessa que te estou a ouvir”. Parou. Encostou-se ao mastro da bandeira de Portugal no Rockfeller Center e deixou-se encantar pela voz e pela conversa. Uma criança que cai na pista de gelo, umas gargalhadas silenciosas e uma mão de mãe que a levanta para que continue a patinar naquele pedaço de gelo artificial.

Uma paz que desliza lenta e profunda pela alma e se transmite ao corpo vai-se apoderando dela. Uma lágrima furtiva que sai e a tecla vermelha premida. Uma chamada desligada. Um beijo no telefone. Um coração cheio e uma paz divina que sente dentro de si.

Está em Nova York, a cidade que não dorme. Milhões de pessoas stressadas e impacientes que não reparam nela, que não sabem o que é ter paz interior e sentir-se amado e amar de verdade, e “é tão bom!”, pensa.

Cai a noite. Um dos milhares de sem-abrigo que rastejam pela vida, está ali…