terça-feira, 11 de outubro de 2016

E DEUS DISSE: OBRIGADO

O trecho do Evangelho que foi posto à nossa reflexão, no passado domingo, 09 outubro 2016, deixou em mim um pensamento que me tem afluído à mente e que me leva a partilhar uma breve reflexão.

Algures, entre a Galileia e a Samaria, em certa povoação onde Jesus ia entrar, vieram ao seu encontro 10 leprosos, que se mantiveram a distância, invocando para eles a sua a Misericórdia. Foram curados e um deles, apenas um, um samaritano, voltou para agradecer. Jesus ficou sentido pela falta de gratidão dos outros, que não se dignaram, voltar para dar Glória a Deus.

Este mesmo Jesus que aqui reage, perante a ingratidão, é o mesmo que nos diz que o que fazemos deve ser feito por amor, com total gratuidade e sem esperar qualquer recompensa.

Porquê esta atitude de Jesus? Tendo em conta a intensidade com que Deus espera, deseja e quer que vivamos unidos a Ele, em comunhão de vida plena, porque nos criou para Si. Tendo em conta o facto de nos ter dado o seu Filho, que sofreu os horrores da Paixão, ao ponto de jamais ter havido ou poder haver sofrimento semelhante ao Seu, e de estar completamente desfigurado, sendo tratado como um verme; tendo em conta o facto de o sofrimento de um pai, de uma mãe, ser mais insuportável num filho que amam, do que em si mesmos; tendo em conta que tudo aconteceu para recuperar para a vida a humanidade, mais, para me recuperar a mim para essa vida, para que não acontecesse, a não ser por opção pessoal, um indizível sofrimento pleno e eterno; tendo em conta isso e muito mais, cabe-me pensar que, não precisando Deus da minha gratidão para aumentar ou intensificar a sua Glória, porque Ele é a Plenitude, acredito que, no seu infinito Amor e misericordiosa Humildade, é Ele que me diz a mim: “Obrigado”. Obrigado porque nesta manhã elevaste o teu pensamento para Mim; obrigado pelo sorriso com que disseste bom dia ao teu filho; obrigado porque Me deste um pedaço de pão, porque Eu estava naquele sem abrigo; obrigado porque pediste a Minha força; obrigado porque pensaste em Mim, abandonado, no Sacrário; obrigado porque foste à missa; obrigado porque Me disseste obrigado pelo alimento que te dei; obrigado porque a Glória que Me deste te aproxima de Mim.

É tão intenso o “Tenho sede" que Jesus disse na Cruz, porque manifesta a sede que Deus tem de nós, que se Ele se torna infinitamente grato pelo mais pequeno pensamento meu que Lhe dê Glória, Porque Deus me (nos) quer a viver em vida plena, e um pequeno gesto vivido segundo a sua Vontade é um grande passo dado por mim para a Vida Nele.

Porquê, então, a reação de Jesus? Por um lado, para nos manifestar que a fé, a gratidão, se vivem a partir de dentro, do coração. Foi um estrangeiro que voltou para agradecer, não um judeu. Por outro lado, Deus quer a minha gratidão, não, não me estou a contradizer, e ela é absolutamente necessária na minha relação com Ele, porque é sinal de que há comunhão entre nós e é também caminho para que ela se intensifique cada vez mais. Vamos pensar como Jesus terá pensado: gente ingrata, esta, que honra Deus com os lábios e cumprimento exterior mas não adere de coração; incapazes de reconhecer a ação e a graça de Deus em suas vidas, vivem como se fossem os senhores da vida e se tudo estivesse nas suas mãos; gente longe de Deus a percorrer caminho de perdição.

A gratidão é querida por Deus porque faz bem não a Ele, mas a quem é realmente grato. É atitude que aproxima a criatura do Criador. A gratidão faz melhor a quem agradece que a quem se é grato. A tristeza de Jesus advém do facto de aqueles doentes curados não terem sabido aproveitar o facto e o momento para se aproximarem de Deus.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Terrível Mancha

Criados à imagem e semelhança de Deus. Vamos lá refletir um pouquinho sobre isso mesmo e tentar, humanamente, perceber tal graça. Sempre com a absoluta certeza de que a Palavra de Deus é verdadeira e eficaz. Verdade também, é o facto de que é humanamente, e para humanos, escritas, por isso mesmo colhendo em si todas as limitações de texto e contexto.

Imagem e semelhança de Deus… Isso mesmo, carregados de liberdade e amor. Liberdade que nos leva a escolher o que é bom e amor que é capacidade de entrega de si mesmo ao outro.

Depois de ter preparado o mundo, um belo jardim, criou o ser humano, homem e mulher. Criou-os cheios de graça, de vida, porque sem manha de pecado original. Essa deve-se a à origem da humanidade, porque as primeiras pessoas (seres humanos) cederam à tentação do demónio. Ele, orgulhos do poder e beleza que Deus lhe tinha concedido (era um Anjo), sentiu inveja da criatura que seria imagem e semelhança de Deus. Precipitado nas trevas infernais, porque a ausência de Deus é verdadeiro inferno, quis arrastar consigo a humanidade, destruindo assim o plano criador de Deus.

Projetou no íntimo da liberdade humana o malfadada ideia de querer ser como Deus. É exatamente essa marca que continua patente em nós. Aquilo que queria para ele, e que o precipitou nas trevas, incutiu-o em nós arrastando-nos consigo, provocando a perda da graça e a consequente expulsão do jardim belo para nós criado.

Pensemos que tínhamos tudo, toda a Graça de Deus, a plena felicidade por participação da Sua imagem e semelhança. Numa ideia: quisemos apoderar-nos e ter como nosso aquilo que, de facto tínhamos, mas como dom de Deus.

A obra da criação, pela nossa desobediência, estava irremediavelmente manchada e todas as criaturas a sofrer as consequências porque geradas  por criaturas manchadas.

Mas o demónio não vence, não vencerá. Deus estabelece uma nova criação. Por graça extraordinária e perfeito dom de Deus Maria é concebida sem essa marca, essa mancha. É concebida cheia de graça, verdadeira imagem de Deus. Em consequência, também Jesus, filho de Maria (sem pecado original) e do próprio Deus, é nova criatura. Ambos com liberdade e capacidade para querer ser como Deus, fizeram-se servos, pondo Deus acima de todas as coisa em suas vidas. Aliás, pondo unicamente Deus como razão de seu viver.

Em virtude desta nova criação, participando da Vida de Deus, por Jesus, Seu Filho, tornámo-nos filhos. Filhos, não cheios de graça, porque marcado pelo pecado das origens, mas com graça e capacitados para caminhar, para o Eterno Jardim, por participação na Graça de Jesus.

Não por nós, que pecadores somos, mas por Ele, que se oferece em Graça e permanece em nós, e atraídos e guiados por Maria, a Mãe que, querendo nós, faz caminho conosco. 


A ação do demónio continua, mas não nos atinge mortalmente se a nossa confiança de mantém na Divina Misericórdia.


domingo, 3 de maio de 2015

Ser Mãe

Foto J. B. 











Ser mãe é já ser-se flor
de um jardim belo, colorido,
onde o sofrimento e a dor
por um filho se enchem de sentido.

Ser mãe é já ser-se rosa
de espinhos que ferem dentro,
de pétalas radiosas
que brotam sempre, sem tempo.

Ser mãe é já ser-se beijo,
lábios que amam em piedade
e mostram único desejo
de matar o que é saudade.

Ser mãe é já ser-se vida
de corpo, alma e mente,
em entrega sempre sentida
e em sinal de eterno presente.
                            J.Baptista (3-5-15)

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Olhares com cor

Vivia numa terra estranha, segundo os nossos olhos podem ver e o pensamento pensar. Era um sítio lá longe, muito longe, onde nem os foguetões grandes conseguem ir. Tão longe, que a luz do sol, um sol mais bonito do que o nosso, nunca se apaga porque lá todos vivem sempre a sorrir e não há luas que escondam o sol da vida das pessoas, nem zangas que apaguem o brilho dos sorrisos, porque as pessoas são pequeninas por fora e muito grandes por dentro. 

O “S”, vamos chamar-lhe assim para falarmos dele, porque lá, na terra onde vive, ninguém tem nome, porque não precisam de ter nome pois não falam uns dos outros e todos se conhecem pelo brilho do sorriso e pela cor do olhar. Sim porque o sorriso tem brilho e o olhar tem cor, mesmo cá entre nós, por isso é que há sorrisos bonitos e feios e olhares que que são uma coisa ou outra, também.  O “S”, estávamos a  dizer, fechou os olhos, não para descansar porque lá as pessoas não se cansam, para ver mais fundo. E viu. Viu, lá longe, muito longe, uma bola grande dentro dos seus olhos pequeninos. Era feita de sombra. Fechou mais os olhos e viu que afinal era de uma cor azul, um azul bonito, mas nada tão bonito como o azul do olhar da sua irmã.

Fechou mais os olhos pequeninos e o olhar levou-o a voar para aquela bola. Voou, voou e foi parar ao pé de uma árvore grande, muito grande. Olhou para cima e achou que ela chegava até ao céu, e ele sorriu porque era uma árvore toda cheia de luzes a acender e a apagar e ele sorriu ainda mais porque na terra dele a luz nunca se apaga. Olhou à sua volta e viu muita escuridão, era de noite e ele não sabia o que era a noite. Recuou alguns passinhos e ficou debaixo da árvore que dava luz.

Olhou uma lâmpada pequenina. Ela brilhou e ele perguntou e os dois falaram com palavras de luz: “Olá, que mundo é este?”. “É a terra, o mundo dos humanos”. “Tão escuro!”. “Sim, nesta época acendem muitas luzes, alguns, porque outros gostam mais de andar na escuridão”. “Mas porquê?”. “Porque é Natal”. “E o que é o Natal?”. “Não sei, prenderam-me a estes fios para segurarem a minha luz. Eu queria sair e descobrir o que é mas não posso”. “Eu vou descobrir e depois passo para te contar”.

E o “S” saiu a querer encontrar e saber o que era o Natal. Andou e perguntou,  mas não conseguiu perceber tudo. Continuou a andar dando passos muito rápidos com o pensamento. E Disseram-lhe que o Natal, era tempo de alegria, e ele viu tantas crianças sem o afeto de um pai e uma mãe; disseram-lhe que o Natal é paz e ele viu maridos e esposa a discutir; disseram-lhe que o Natal é partilha de vida e ele viu gente deitada nas ruas, sem nada, quase sem vida; disseram-lhe que o natal é luz e ele viu os olhares escuros dos velhinhos tristes porque os filhos se esqueceram deles sozinhos em casa; disseram-lhe que o Natal é o nascimento de Deus e ele viu gente cheia de ódio  e ouviu dizer mal dos outros e ouviu músicas bonitas a sair de corações tristes, e viu igrejas onde Deus estava sozinho; disseram-lhe que o natal é numa noite, a noite mais mágica, e ele encontrou essa noite e sentiu-a a noite mais triste, porque não viu gente nas ruas e viu jantares ricos e achou que o Natal ia acabar quando acabassem os jantares.

E chorou, nessa noite. Chorou lágrimas de tristeza, e ele só conhecia as lágrimas de alegria. E ficou mais triste porque as lágrimas de tristeza sabem mal, porque são salgadas. E o vento, o vento que se levantou ligeiro, trouxe-lhe um pedaço de papel e ele deitou-se em cima dele porque estava cansado. Neste mundo as pessoas cansam-se. Adormeceu. As letras pretas daquele papel, um pedaço de jornal, entraram-lhe na mente e ele leu uma notícia, mesmo a dormir: “Jovem apresentadora de televisão, com 24 anos, morreu de cancro, um mês depois de dar à luz, por se recusar a fazer quimioterapia para não prejudicar o bebé”. Pensou que estava a sonhar, mas outra notícia entrou a correr e interrompeu-lhe o pensamento: “Em Londres, jovem estudante pede a um mendigo dinheiro para o autocarro e ele dá-lhe as 3 libras que tinha”. E outras, e outras noticias que leu, deixaram-no a sorrir por dentro, mesmo a  dormir.  

E acordou, acordou quando um raio de luz, do sol da terra dos humanos, lhe aqueceu a vontade de correr, e correr ainda mais, para ir contar à pequenina lâmpada presa na árvore de natal o que era realmente o Natal. Mas ela estava sem luz, era dia, e ele percebeu que a luz só voltaria a estar presa naquela lâmpada num próximo Natal, porque os humanos só pensam no Natal quando é dezembro. Estava tão feliz que pediu à lâmpada que no próximo ano dissesse à luz que ele iria voltar.

Sentiu um afago de mão de mãe, daqueles que só as mães sabem dar. Abriu os olhos e naquele mesmo instante estava lá na terra dele, lá muito longe, onde a luz do sol nunca se apaga e as pessoas não têm nome e não falam das outras. Sorriu com o olhar e disse: “Sabes mãe, encontrei o Natal da terra dos humanos, mas acho que muitos deles ainda não o viram.

                                                                                                                                                       Natal de 2014

sábado, 15 de junho de 2013

Acabei com a Minha Vida (25)

Carinhosamente pousou a mão sobre a dela e sentiu-a agarrada e apertada como se aquela jovem encontrasse, finalmente, algo em que lançar âncora no mar revolto da sua vida.
Mãos que falam, mas os olhares não se cruzaram. Bastava-lhe, pensou a Ninfa, sentir que tinha alguém que lhe desse a mão.  “Hi” - disse. A resposta foi um olhar fixo e mais lágrimas a correr.

“My father is…” disse, parando a frase ao ver que na bolsa da Ninfa figurava um pequeno emblema com a bandeira de Portugal.  Olhou-a bem nos olhos, apertou-lhe a mão e perguntou: “És portuguesa?” ao ouvir um sim envolvido num sorriso, tentou um sorriu também e continuou: “Também sou, vim, há dois anos, com meus pais.

Somos da zona das Caldas da Rainha, de um lugarzinho de Alvorninha. Tinhamos uma vida tranquila, sem grandes posses, mas vivíamos do pouco que nos era possível, nunca nos faltando nada se não a paz, que o meu pai nunca  nos conseguiu dar. Era um homem ganancioso, ávido de ter sempre mais, sem perceber que nem mesmo a nós, a minha mãe e os meus irmãos, ainda tinha.  Quando surgiu a hipótese de vir para os EUA, não pensou duas vezes, só via dólares diante dele, esquecendo que não era só ele, mas que tinha uma família e que todos nós tínhamos um olhar  diferente sobre o mundo e a vida.

Viemos, porque ele praticamente nos forçou a vir. Tinham conseguido trabalho para ele e para a minha mãe. Nós, os filhos, viemos por arrasto, deixando  em Portugal as nossas vidas, que eram feitas de trabalho, de escola, de amigos, de alegria.

Aqui, meu pai não via mais nada que trabalho. Não parava para descansar, não sabia o que era recusar um pequeno trabalho  por precisar de descansar ou para estar com a família, ou para vir  passar um dia connosco aqui em Nova York, simplesmente para estarmos juntos.
Em dois anos nunca fomos à Estátua da Liberdade porque era caro e porque ele tinha que trabalhar e porque era preciso poupar e porque (as lágrimas voltaram abruptas) nos não sabia amar.

Há dias, quando, de noite, voltavas cansado e esgotado pelo trabalho, num cruzamento de estradas, a falta de os reflexos impediu-o de evitar um camião  que rodava, barulhento, na 95, e, num instante, o meu pai perdeu até a vida, a pouca vida, que tantas vezes nós lhe dissemos que ele tinha.

Sabes, tantas vezes pensei que não tinha um pai, tantas vezes me não senti amada, tantas vezes tive vontade de desistir de tudo… e agora estou completamente perdida, não sei como lutar, não sei como aguentar, não sei como conseguir.


”Baixou a cabeça e chorou desconsoladamente.  Depois, a voz saiu-lhe frágil, sumida, apavorada, afogada: “Há 5 meses, «acabei» com a minha vida.”

domingo, 19 de maio de 2013

Gente Caída (24)


Caminhou em direção à estação Central do Metropolitano.

Acompanhava-a a solidão, uma solidão desejada e querida. Saiu simplesmente para observar e pensar. Pelo caminho viu gente agitada e apressada, jovens barulhentos em grupo, gente cansada de trabalho, homens e mulheres  a rir, gente de gravata e ricamente vestida, homens e mulheres vestidos de trapos e despidos de dignidade.

Dentro do mundo que é a cidade Nova Iorque, uma portuguesa caminha na noite, nunca saíra de casa tão tarde desde que estava nos EUA, e mede com o pensamento tudo o que acontece à sua volta:  enquanto se sente feliz por se saber amada, mesmo num país longe do seu, das suas coisas e suas gentes, pensa em quanta daquela gente que ali vive na noite se sentirá como ela, imagina quanta daquela gente se sentirá ser simplesmente um corpo sem alma, vazio de amor e distante de alguém que os ame!

Pais de família agarrados pelo álcool, que, ao longo dos anos, lhes veio apodrecendo a vontade de caminhar por sendas direitas. Jovens enganados pelo prazer que lhes é ministrado em límpidos cálices de gozo instantâneo que não passa além de ilusão de sentido. Crianças maltrapilhas agarradas ao nada dos contentores de lixo em busca de um pedaço de pão.

Pensou no mundo e na força dos dólares despejados  a “resmas” no mundo e no submundo da Broadway e de outros espaços de barulho, luz, cor e prazer. Mundos e vidas a viver em lados opostos e a roçar-se permanentemente por tão próximas se encontrarem.

“Porque é que Deus permite que tal aconteça se é Pai e Bom?” A resposta resvalou para compreensões de tempos passados quando, desde criança, ouviu dizer, vezes sem conta, que livres é que fomos criados, o ser humano em geral, e cada pessoa em particular. Livres para construir, mas com capacidade para destruir; livres para amar, mas com capacidade para odiar; livres para oferecer a vida por um filho que chora na noite do tempo ou da vida, mas com capacidade para recusar  um filho que nasce ou pede pão; livres para partilhar, mas com capacidade para o egoísmo.

Sentada a uma das mesas de um dos restaurantes “fast-food” da estação, uma jovem limpa os olhos com os dedos da mão com que segura a cabeça, como se quisesse estancar e abafar as lágrimas amargas que insistiam em não parar.

A Ninfa percebeu que era sofrimento real aquele. Tocada por uma força  impulsiva, vinda, não sabe de onde, sentou-se na cadeira diante dela e ficou, silenciosa, a olhá-la…      

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Pegou um Pedaço de Ar (23)


A pergunta instalou-se  e, teimosamente, foi-se-lhe aflorando ao pensamento, como se tivesse vida e não quisesse ser esquecida. Em jeito de quem exige uma resposta, insistia em não abandonar o seu pensamento. “Que estou eu a fazer da minha vida?”, era a mensagem que pesava em sua mente quando se sentou no sofá, desligou a televisão e fechou os olhos para pensar.

Deslizando como fantasmas, as memórias do passado dançaram-lhe em confuso movimento de fuga rápida. Por momentos, algumas delas paravam e o rosto da Ninfa manifestava o que lhe diziam, mais exactamente, o que lhe faziam recordar: sorrisos espontâneos e claros, bem como tristes tensões de face, e até mesmo algumas furtivas lágrimas.

O tempo passou e o filme da sua vida continuava a ser-lhe projectado por dentro: as traquinices com direito a umas palmadas duras por parte da mãe; as maçãs roubadas e as fugas de quem não quer ser visto, muito menos apanhado; as vinganças de criança sentida e magoada; os temas tabu, que nem o silêncio barulhento da mente fechada em si mesma permitia que viessem muito à baila; a presença da mãe e a compreensão magoada do pai, quando se viu metida em apuros; os sem-abrigo de Nova York ou de Lisboa… tudo foi ocasião para crescer e ser hoje a mulher que é. 

Sabia-se forte, sensível, decidida e palpitante de vida. Tinha consciência também de que muito do tempo da sua vida havia sido passado, mesmo desperdiçado, em coisas fúteis, vãs ou simplesmente menos essenciais, acabando, em muitas delas,  por se sentir vazia e pouco satisfeita consigo própria.

Tinha a impressão, quase pura, de que muitas correrias de lado para lado, muitos desejos de querer chegar lá bem longe, muita vontade de querer chegar depressa, a tinham feito caminhar mais ou menos sozinha, embora o barulho que ouvia de tanta outra gente a “correr” da mesma forma, lhe transmitisse a ilusão de que corria num pelotão de inúmeros corredores que buscam a vitória.

Os minutos longos, muito longos, que passou de olhos cerrados, absorta de tudo o mais, sentada no sofá a desfolhar a vida dos anos idos, deixaram-na mais leve, parecia, agora, ter pequenas asas e respirar um ar diferente, mas puro. Tinha escutado, tinha-se escutado a si mesma e à voz que, não sabe de onde, parecia fazer-se ouvir dentro de si.

A noite ia já adiantada, mas as luzes da rua criavam a ilusão de um dia quase de sol. Pegou numa bolsa com documentos e num pedaço de ar, ar que inspirou profundamente, e saiu para a rua e para o mundo..

sábado, 20 de abril de 2013

Das Origens do Souto da Carpalhosa


Das Origens do Souto da Carpalhosa
Igreja Paroquial (foto J. Baptista)
De origem sempre duvidosa,
É Souto de carvalho ou castanho.
Uma certeza: é a Carpalhosa
Que em diversas teses se emaranha.

Em tempo ido, foi terra de Azenha
Marginando o Chão da Laranjeira,
Onde, se espera, S. Bento tenha
Pão para a terra Camarneira.

Relvinha verde no campo vicosa,
Donde em Estremo d’ Ouro o sol reveste
O Vale de Pedra, onde crescem rosas
Com Sargaços de sabor agreste.

Corre da Carpalhosa a ribeira.
Vê-a São Miguel, de trás do Penedo,
Entrar, preguiçosa, na Carreira,
Como Criança levantada cedo!

Sai a moura bela da mina funda
E sobe, só, o Picoto, cansada.
Observa o Liz e, em um segundo,
Brotam lágrimas em fonte salgada.

Da Várzea o comboio faz cama,
E deita-se nela com o rio.
De ciúme a Arroteia se inflama,
E em noite de lua geme de frio.

Se fez de uma Moita grande Roda,
Afirmam os velhos bem certeiros,
Como dizem outros, também, ser
Do mar uma ilha os Conqueiros.

Em anos passados, muitos são,
Sorrateiras, sorrindo airosas,
Se afastaram, levando um brasão,
As vizinhas terras ortigosas.

                        Janeiro 2013