sábado, 12 de agosto de 2017

Vida de Glória

De forma "ligeira" vamos até ao Livro dos Génesis para percebermos que a morte é consequência do pecado (Cap 2,17). Para aqueles que acreditam em Deus, o Deus verdadeiro, há "três" vidas e uma ou duas mortes. Não, não falo de reencarnação, essa não acontece. Falo 1) de vida humana, que tem um começo e um fim; 2) de vida espiritual, que tem um começo (somos corpo e alma), mas não tem fim; 3) de vida divina, que tem um começo, no Batismo, e pode ter um fim, se acontecer a condenação. Esta, a condenação, é terrível e, ela sim, é a consequência do pecado. Além de terrível é eterna. O Livro do Apocalipse, no capítulo 20, fala de uma primeira e de uma segunda morte, de uma primeira e de uma segunda ressurreição.

Na próxima terça feira, dia 15 (agosto 2015), celebramos a Assunção de Nossa Senhora ao Céu. Nela não aconteceu o pecado, por isso não aconteceu a morte. O seu corpo, terminado o "tempo físico", foi, glorioso, elevado ao Céu.

Este é o fim a que somos chamados: a vida na Glória, com Deus. O pecado faz parte intrínseca de cada um de nós, nascemos com o pecado, a que chamamos de original. Por ocasião da morte do nosso corpo, seremos julgados e a alma será levada para a Glória, para a Purificação ou para a condenação, consoante o que buscámos ao longo da nossa existência terrena.

Acontece que somos corpo e alma e Jesus salvou tudo em nós, não apenas a alma. No Credo professamos acreditar que Jesus há de voltar para julgar os vivos e os mortos e professamos também acreditar na ressurreição da carne. Quer dizer que haverá um segundo julgamento. A alma unir-se-á ao corpo espiritual e, em julgamento final, será dada à pessoa (corpo e alma) a Vida ou a Morte. Esta será a segunda morte ou a segunda Ressurreição de que fala o Apocalipse.

Maria foi concebida, Imaculada, para dar Deus à humanidade e assim, por seu intermédio, aconteceu a nossa salvação. Agora, do Céu, Ela nos atrai e chama para  dar a Humanidade a Deus. Ela é um "encurtar caminho", porque é Mãe,  para chegar a Jesus e, por Ele, ao Pai.
Percebemos por que a invocamos de Senhora da Boa Morte. Porque nos atrai a uma santa morte, do corpo, em Deus, para que Nele haja Vida de Glória para nós.

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Um Burro Inteiro


São João Maria Vianney, nascido em 1786, no sul de França, foi um grande santo, mas intelectualmente era um estudante muito fraco. Em determinada ocasião,no seminário, de onde foi mandado embora, por não conseguir aprender,  o responsável disse-lhe: “João, os professores não o consideram apto para a sagrada ordenação ao sacerdócio. Alguns chamam-lhe ‘burro que nada sabe de teologia’. Como podemos promovê-lo ao sacramento da Ordem?”.

A resposta que São João Maria Vianney lhe deu tornou-se célebre: “Monsenhor, Sansão matou cem filisteus (foram mil, ver Livro dos Juízes 15,15-17) com a queixada de um burro. O que acha que Deus poderia fazer com um burro inteiro?”.    

Esta é a verdadeira confiança em Deus. São vários os aspetos a considerar: o sentir-se pequenino diante de Deus (um burro inteiro); a confiança de que Deus atua, também, nos fracos; e a mais importante: a obra e a ação são de Deus, não nossas. É Ele que opera em nós e através de nós (O que acha que Deus poderia fazer...).

Naturalmente, é de profunda importância o canal por onde passa a graça. Não passa graça o canal que não está em graça. O sacerdote é, por natureza do seu chamamento, canal "especial" de graça de Deus para a humanidade. A graça não depende dele mas poderemos dizer que a a "quantidade", a "qualidade" e a "eficácia" da graça dependem do seu estado de fidelidade. Quando digo que é canal "especial" é porque é chamado e enviado por Deus, atuando in persona Christi (na pessoa de Cristo), na administração dos sacramentos, particularmente nos da Eucaristia e da Penitência. Não são seus, nem obra sua, mas sem eles, os sacerdotes, estes sacramentos não acontecem.

Se a ação da graça de Deus depende, em certa medida, do canal por onde passa, ela depende essencialmente de quem a recebe. Aqui sim,  ainda que Deus derrame toda a graça, ainda que os canais sejam os mais perfeitos, se o recetor não estiver em ato de acolhimento, tal ação é nula. Porque batizados, todos somos recetores e canais da graça para os outros. Ela passa pela santidade de vida, não pela sabedoria da mente. Quanto Deus podia fazer se estivéssemos ao Seu dispor para que atuasse em nós e por nós!...

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Já Não é Segredo

Na descrição da terceira parte do segredo revelado por Nossa Senhora, em julho, a Irmã Lúcia diz: "Depois ... vimos ao lado esquerdo de Nossa Senhora, um pouco mais alto, um anjo com uma espada de fogo na mão esquerda. Ao cintilar despedia chamas que pareciam incendiar o mundo. Mas apagavam-se com o contacto do brilho que da mão direita expedia Nossa 
Senhora ao seu encontro. O anjo, apontando com a mão direita para a terra, com voz forte dizia: Penitência, penitência, penitência." 

Ao pensarmos na Mensagem de Fátima corremos o risco de não ir mais longe que sabermos os nomes dos videntes, a data das aparições e que Nossa Senhora pediu que rezássemos o terço. Talvez nem, ao menos, o terço sejamos capazes de rezar.

Lancemos o olhar sobre o o texto inicial: um Anjo com uma espada de figo na mão a lançar chamas sobre a terra. Temos dúvidas de que é sinal de que Deus fará justiça ao mundo dando-lhe aquilo que merecemos pelo pecado em que o mundo, a humanidade, vive? A chama apagava-se no contacto com o brilho que saia as mãos de Nossa Senhora. Temos dúvidas de que é sinal de que Nossa Senhora nos está a proteger e a "segurar" a mão de Deus, dando-nos mais tempo para a conversão? Temos dúvidas de que Nossa Senhora é Mãe que protejo os filhos dos "castigos" do pai? O Anjo apontava para terra e com voz forte dizia: penitência, penitência, penitência. Temos dúvidas de o tempo que nos está a ser dado exige penitência, conversão, abandono dos caminhos do pecado? Temos dúvidas de que a repetição da palavra é sinal da gravidade da situação? Com voz forte. Temos dúvidas de que o tom de voz aponta severidade e exigência de que assim se faça? Sim Deus é um Deus Misericordioso, mas a misericórdia cumpre-se na Justiça.

Em 100 anos passados que transformação houve nos caminhos que a humanidade tem percorrido? A humanidade está a desintegrar-se cada vez mais e a sua entrega aos poderes do mal é cada vez mais claro e evidente. Deus continua a ser profundamente ultrajado. Estamos à espera de quê para mudarmos de vida e nos voltarmos para Deus, com confiança, acolhendo e aceitado as propostas de caminho que nos faz. Não, não é para termos medo, é para tomarmos consciência  da situação da humanidade e da pessoa que cada um de nós é.

sábado, 15 de julho de 2017

Ser Homem, Ser Mulher

Dão fruto, as sementes, conforme a qualidade que têm, a qualidade do terreno onde semeadas forem, e o cuidado a ter com o terreno e com as sementes. Não é novidade nenhuma que assim seja, que se colhe o futuro do que se semeia.

A notícia saiu nestes dias: no Metro de Londres os avisos já aos serão dados a "ladies and gentlemen" (senhoras e senhores) mas a "Hello Everyone" (Olá a todos). Porquê? Para que a saudação seja de género

terça-feira, 16 de maio de 2017

Jesus, uma Autoestrada


Mais que um simples caminho diria que Jesus é uma verdadeira autoestrada por onde circulam nossos corações, como se de automóveis vermelhos se tratasse. 

Estrada   ------------------------

Autoestrada
Separadores centrais e protetores laterais Automóvel
Saídas
Postos de abastecimento
Combustível
Restaurantes
Placas de trânsito

Carro fraco em bom caminho chega longe, mesmo devagar; carro bom em caminho mau pode não chegar a lado nenhum, se o caminho o não permitir. 

“Caminho”, via rápida, única, sem buracos, lombas ou cruzamentos. Controle de velocidade mínima e máxima.

Com separadores centrais e barras laterais, protetores que geram confiança nos que nelas passam e ajudam na condução segura. Seguindo as regras avança com segurança, sem risco de perda ou acidente. 

Os excessos de velocidade, o não cumprimento das regras de trânsito, levam a que separadores e protetores sejam barreiras que provocam acidentes e mortes. 

Caminho com um único sentido, o sentido inverso faz-se por vias opostas. Não se passa “automaticamente” de um para outro. 

É preciso sair e voltar a entrar. Prestar atenção máxima às indicações, para não perder a entrada, o sentido a tomar e a saída desejada no destino. 

A existência de postos de abastecimento a espaços regulares para que os veículos possam ser abastecidos rolar sem percalços e paragens desnecessárias por falha de combustível. Pneus calibrados mantêm adequada aderência à estrada. 

Áreas de descanso permitem relaxamento de músculos, alívio do sono e stress gerado pela velocidades, pelo cuidado a ter na condução, pelo cansaço que gera irritabilidade e torna mais perigosa a condução. 

Porque são longas as distâncias, é preciso que de espaços a espaços haja lugares e momentos para recuperar forças físicas através de uma refeição, momento de os ocupantes do veículo, e da mesma estrada, se olharem olhos nos olhos e partilharem risos, alegrias e dores, encantos e desencantos.

Não deve pôr-se a caminho um automóvel com danos internos de motor, e sem todos os óleos, necessários e líquidos de sistemas de arrefecimento, sem garantias de poder vir a chegar ao fim da viagem. Por mais polida e encerada que esteja a chapa, se o motor não for observado, cuidado, reparado, por um bom mecânico, de um momento para o outro gripa e toda a viagem se perde. Só um automóvel bem cuidado, ainda que riscado e amolgado chegará ao fim da longa viagem. 

Pode conduzir-se na faixa da direita, ainda que seja proibido, mas não fazer-se no meio da autoestrada, os separadores centrais estão lá e não nos deixam fazê-lo. Ou vamos num sentido ou vamos no outro.

É caminho, que não vai a lado nenhum, fica estático, para ser percorrido.

“Eu sou o Caminho”, é a resposta de Jesus à pergunta de Tomé: “Não sabemos para onde vais, como podemos nós saber o caminho? (Jo 14,5). Em 1Pedro 2,6-8 lemos: “Vou pôr em Sião uma pedra angular, escolhida e preciosa; e quem nela puser a sua confiança não será confundido». (…) Para os incrédulos, porém, «a pedra que os construtores rejeitaram tornou se pedra angular», «pedra de tropeço e pedra de escândalo». (note-se que é liturgia da Palavra do V Domingo Pascal do Ano A).

E jeito de paráfrase comparativa


Jesus   ---------------------------

Caminho
Pedra de confiança e de tropeço
Coração 
Conversão 
Sacramentos 
Oração 
Eucaristia 
Palavra de Deus 

Questionadas algumas crianças sobre o que é mais importante para chegar longe, se um bom caminho se um bom carro, a resposta foi direta e sem hesitação: o caminho. 

Jesus não se compadece com meias medidas: Quem não O preferir a tudo o mais, não é digno de ser seu discípulo. 

Pedra angular, escolhida, preciosa, única para garantir que se chega a bom porto, sendo que o lugar em vista é a eternidade, no Céu. “Quem nela puser a sua confiança não será confundido”, segue no caminho certo. 

“Pedra de tropeço e pedra de escândalo” para os incrédulos. Porque não acreditaram na sua Palavra. A Palavra ajuda a discernir entre o bem e o mal, a vida e a morte. 

Quem não é por Jesus é contra Ele. “Quem não está comigo está contra mim; e quem não junta comigo, dispersa” (Lc 11,23).

A Conversão, a mudança de sentido dado à vida , acontece na meditação, na descoberta do Pai, no abandona das vias do pecado e no acolhimento da vida da Graça. 

Caminhar em Jesus exige paragens momentos regulares de frequência dos sacramentos para que não esmoreça a fé e não se deixe vencer pelo desânimo. A oração pessoal é elo que mantém a pessoa em comunhão relacional com Deus. 

A meditação, o silêncio, o retirar-se do dos afazeres constantes, do stress e dos barulhos interiores, levam a uma tomada de consciência de que estamos em Deus, fonte segura de tranquilidade e paz. 

A Eucaristia, o entrar no Mistério da paixão, Morte e Ressurreição de Jesus, vivida na união de toda a comunidade e na comunhão do Corpo e Sangue de Jesus, é fundamento sem a qual não há vida. Quem crê não caminha só, fá-lo em comunhão de vida com os outros que percorrem o mesmo caminho. 

Um coração desesperado, um coração que não esteja envolto e lubrificado com a força do Espírito, com a certeza do Amor de Deus, não consegue caminhar. Se envolvido no egoísmo do pecado, por mais que brilhem os óleos de beleza corporais, por mais que se cuide da imagem exterior, é coração que estoura porque lhe falta a vida. Só a Misericórdia Divina garante que uma vida, mesmo escurecida pelo pecado, levará o Homem à alegria plena no fim ddesta caminhada na terra. 

Pode seguir-se o mal, ainda que não aconselhável, mas não pode andar-se com Jesus e contra Ele. Está lá o “Sim, sim; não não” (Mt 5,37). Por isso é que não há católicos “não praticantes”.

É caminho que caminha com o caminhante e com ele faz caminhada.

16-5-2017

domingo, 14 de maio de 2017

Temos Mãe!

Um "Temos Mãe!" repetido e emocionante do Papa Francisco na homilia deste dia 13 de maio, pode ser a base para o desenvolvimento do temas da Semana da Vida, a decorrer de hoje até ao próximo domingo. O tema é "Com Maria Cuidar da Alegria da Vida". Não há vida sem que haja uma mãe. Vivendo num tempo de profunda cultura de morte, somos desafiados a encontrar em Nossa Senhora os motivos e as razões para sentir alegria por em viver. Nascemos para viver. Se a morte do corpo faz parte da condição humana, a vida em eternidade faz parte da condição divina de que, pelo Batismo, participamos. 
Parece termos medo de viver e por isso, com diabólica ligeireza praticamos a morte, fazendo passar a ideia de que nela há bondade e bem. Tornamos legar a morte, a começar no aborto, julgando poder ilibar esse que é o mais graves dos crimes da culpa que lhe é inerente, sem nos consciencializarmos de que são de morte para nós as consequências da morte que causamos, particularmente aos inocentes.
Em Maria aprendemos a ser filhos, mães e esposas. Porque a vida humana é dom, um dom inviolável, o dom maior e mais belo que qualquer criatura pode ter e por que anseia, dom divino que razão nenhuma pode justificadamente destruir.
"Temos Mãe!". É belo e profundo o sentimento que estas duas palavras, quando entendidas, nos transmitem. "Ainda que uma mãe possa esquecer o filho que amamenta? (...) Ainda que ela o esquecesse, Eu nunca te esqueceria", é Palavra de Deus em Isaías 49,15. Porque se fez Homem, Deus teve uma Mãe. Essa mesma Mãe que, no momento da morte na Cruz, Ele nos deu, elevando-nos à condição de nos tornarmos "filhos da Mãe de Deus". Temos realmente Mãe, Mãe com letra grande, a mais excelsa de todas as criaturas. Se temos uma Mãe que é Mãe de Deus, temos uma Mãe que nos atrai, nos guia, nos aponta o caminho do Pai, de Deus e da sua Glória. Temos Mãe!" ou seja: "Temos Vida". Porquê continuarmos e a desperdiçá-la, a destruí-la, a perdê-la? É tão belo viver! E viver eternamente...

domingo, 23 de abril de 2017

Pastorinhos da Misericórdia

O domingo é, hoje (23-04-2017), de Pascoela. Este, o domingo depois da Páscoa, é Domingo da Misericórdia. Instituído por S. João Paulo II reforça o sentido e a certeza do Amor Misericordioso de Deus pela humanidade a atrai para Ele cada um de nós humanos. A hora da morte de Jesus (as 3 da tarde) é hora da Misericórdia, porque esse é momento de morte para Jesus, momento em que "abdica" de si mesmo e se confia nas mãos do Pai levando ao extremo o seu Amor, para que o seu aniquilamento fosse vida, momento de início de eternidade para nós.

Temos medo, repugna-nos o falar de sofrimento, de entrega de "perder a vida" porque o mundo nos ensina que temos que a ganhar a todo o custo. Somos cristãos e acreditamos que a Vida verda-deira a recebemos como dom e na medida em que confiamos esta, que é terrena, nas mãos de Deus, por seu Filho. Ele morreu por nós e vivendo  Nele a nossa vida torna-se Vida Divina. Só morre quem pelo caminho da morte optar.

Olhando os Pastorinhos de Fátima aprendemos  que, porque deixaram de viver para si mesmos, eles estão no Céu desfrutando da Vida plena, essa que não tem fim, essa que é total e absoluta. Vemos neles o coração misericordioso de Deus. A Jacinta, disposta a viver mais tempo para "sofrer mais pela conversão dos pecadores" acolheu uma vida de sofrimento pondo-o todo nas mãos de Deus, para que a vida que vivia fosse ato de entrega não de si, mas dos que ofendem a Deus. Era tal o seu amor para com os pecadores, e o desejo de que não se condenassem, que a curta vida que viveu neste mundo foi plena e agradável a Deus, não por ser de sofrimento, mas por ser de entrega total. O Francisco o pequeno gigante da contemplação viveu a sua, também  curta, vida terrena num ato total de reparação, de "consolar a Deus Nosso senhor", fazendo tudo, amando tudo, tanto quanto podia, por amor a Deus "que já está muito ofendido". 

Vamos sentir e dizer que a Jacinta ama Deus e os pecadores, querendo que estes não se percam, e o Francisco ama os pecadores e Deus, querendo que Este seja amado e glorificado porque é Deus e porque toda a glória lhe pertence.

domingo, 9 de abril de 2017

Não Ofendam Mais

Hoje o domingo é de "Ramos na Paixão do Senhor". Podemos não nos dar conta, mas falar de paixão é falar de sofrimento, de dor, de morte. Habituados que estamos a viver as coisas muito superficialmente, não é com facilidade que conseguimos entrar um pouquinho no mistério do sofrimento de Jesus. Não entramos no facto de todo o seu sofrimentos, em entrega de vida, ter acontecido por nós, por mim, para nos libertar das consequências do pecado, a morte eterna. Ele recuperou-nos para a vida.

"Não ofendam mais a Deus Nosso Senhor que já está muito ofendido". Este é mais um pedido, uma súplica, de Nossa Senhora, na aparição de setembro em Fátima. Quanto cresceram em ofensas em quantidade e gravidade! Consta que morreríamos de pavor se pudéssemos contemplar, ver, as ofensas com que cada um de nós ofende o infinito Amor de Deus, nós que somos cristãos e muitos dos quais ousam dizer "não tenho pecados". Pensemos nos pecados da humanidade e no quão facilmente nos identificamos com eles.

Para glória de Deus, bem nosso e da humanidade, à urgência de conversão, para não ofendermos mais a Deus, acresce a urgente reparação pelo pecado, o nosso e o de toda a humanidade. É com este apelo que se marca o início das Aparições em Fátima. Na 3ª aparição do Anjo ele reza com os Pastorinhos: "Santíssima Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, adoro-Vos profundamente e ofereço-Vos o preciosíssimo Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Jesus Cristo, presente em todos os sacrários da terra, em reparação dos ultrajes, sacrilégios e indiferenças com que Ele mesmo é ofendido. E pelos méritos infinitos do Seu Santíssimo Coração e do Coração Imaculado de Maria, peço-Vos a conversão dos pobres pecadores". E o Anjo continuou, depois de lhes dar a comunhão: "Tomai e bebei o Corpo e o Sangue de Jesus Cristo horrivelmente ultrajado pelos homens ingratos. Reparai os seus crimes e consolei o vosso Deus".

A semana que iniciamos é de profunda meditação e tomada de consciência da necessidade de glorificar Deus, e de Lhe confiarmos a vida, nos sacrifícios que tem, tornando-Lha agradável. Entregar-se a Deus, no sacrifício e na oração, nunca é demais. É preciso fazê-lo por nós, e por aqueles que o não fazem.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Quem Vive Não Morrerá

“Eu sou a ressurreição e a vida. Quem acredita em Mim, ainda que tenha morrido, viverá; e todo aquele que vive e acredita em Mim, nunca morrerá. Acreditas nisto?” (Jo 11,25-26) As afirmações e a pergunta de Jesus fazem parte do diálogo com Marta, por ocasião da ressurreição de Lázaro.

No profeta Ezequiel lemos: “Vou abrir os vossos túmulos e deles vos farei ressuscitar…” (Ez 37,12). Professamos, no Credo, a fé na descida de Jesus à mansão dos mortos. O pecado tinha reduzido o ser humano à condição de condenado à morte, uma morte eterna, cortando-lhe a possibilidade de total comunhão com Deus, a possibilidade da eternidade no Céu, para a qual havia sido criado.

A ação de Deus, na entrega do Filho para reverter a situação do Homem, altera o rumo que este escolhera ao optar pela rejeição do Criador na original tentação demoníaca.

A oferta que Jesus, o Homem-Deus, faz de si, da sua vontade, da sua vida, ao Pai recupera a humanidade para a vida junto de Deus, deixando no ser humano a opção de escolha. Entre o bem e o mal, a vida e a morte, a decisão está nas suas (nossas) mãos.

“Quem acredita em Mim, ainda que tenha morrido, viverá”. Na morte de Jesus cumpre-se a profecia de Ezequiel e torna-se clara a sua afirmação à Marta, em Betânia. No morrer do corpo a alma entra na morte. Entenda-se por morte da alma, porque o é, o estado de ausência de Deus. Sendo que a alma não morre, “vivia” em estado de morte porque longe de Deus, uma vez que não tinha lugar junto Dele, em consequência do pecado. Ao morrer, Jesus entrou na morte, na “mansão dos mortos”, mas porque é Deus abriu as portas de saída e, ao ressuscitar, retirou dela todas as almas que, tendo vivido em comunhão com Deus, esperavam o momento da redenção para serem elevadas ao céu. “Vou abrir os vossos túmulos e deles vos farei ressuscitar”. Aconteceu: um Homem-Deus entrou na morte e o mesmo Homem-Deus venceu-a ressurgindo dela. A morte foi vencida, satanás perdeu. Por isso tanto se afadiga por, na recuperada liberdade dos seres humanos, os atrair a si.

“E todo aquele que vive e acredita em Mim, nunca morrerá”. Porquê? Porque as portas da morte estão fechadas para aqueles que acreditam e vivem em Jesus. Continuam abertas para aqueles que, conhecendo Deus, O recusam nesta vida terrena, que é “sala de espera” da eternidade. Compreende-se assim, que a morte do corpo seja passagem para Deus. O corpo morre mas a alma “nunca morrerá” porque não entra na “mansão dos mortos”, o seu lugar é nas “moradas eternas de Deus”.

Questionamo-nos sobre o Purgatório. Sem ser morte da alma, é uma experiência de morte, porque, tendo já visto Deus em todo o seu Esplendor, ela se vê apartada Dele, mas por um “tempo determinado” – uso a palavra tempo para me poder exprimir – e tendo já a certeza da vida em Deus.

Porque a Vida é absoluta vivência de comunhão de Amor. Já a morte, por seu lado, é absoluta falta de esperança e pleno desespero, absoluta falta de amor e plena vivência de ódio, absoluta falta de relação de comunhão e plena solidão. 

J. B. 04-04-2017

sábado, 1 de abril de 2017

Nascer é Graça

"A desgraça foi ter nascido". Ouvi há dias a expressão, que me fez pensar e me leva a crer que é realmente assim que algumas pessoas, levadas por determinadas situações, veem a vida. Não posso levar a peito o conteúdo das palavras porque refletem geralmente uma visão  sofredora da vida.

Olhar o nascimento como desgraça leva ver a vida como uma realidade sem graça. Não se percebe o dom que ela é, e o quanto Deus pôs de amor ao conceder-nos a vida e ao chamar-nos a viver.

terça-feira, 28 de março de 2017

Próximos do Fim

Os tempos correm. Parece que cada vez mais, no avanço da idade, os anos se tornam mais curtos. São apenas 40 dias. Começou a contagem há pouco tempo e temo-los quase passados.
A Quaresma é tempo que Deus nos dá para abrirmos os olhos e olharmos com olhos de ver o passado que fomos, o presente que

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Assumir é Carácter

"Errar é humano" é expressão por todos nós mais que ouvida e conhecida. Usada sobretudo para desculpar erros nossos ou daqueles que nos são próximos, pode levar-nos a não assumir o erro. Assumi-lo é carácter. 

Se errar é humano, é preciso que se torne divinamente assumido para ser oportunidade de aprender. A tragédia acontece mais pelo não

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Olhares Cruzados

Um menino nasceu. Estranhamente recusado entre os seus familiares, tendo em conta que São José era originário de Belém, foi numa gruta que que viu a luz do mundo, o mundo que era seu. 

Foi o silêncio da gruta, o silêncio do coração de sua mãe, a escuridão da noite e o brilho da alma e do olhar de Nossa Senhora, se aperceberam da Luz do Mundo que nascia. Almas emocionadas a de S. José e de Nossa Senhora vertiam lágrimas de alegria e gratidão pela misericórdia de Deus, que se manifestava. Parecia um sonho. Verdade que era um sonho, uma esperança de séculos de história e de vidas de um Povo.

Um "sonho" que faz acordar para a realidade. O menino chora, tem fome. E o Menino é Deus. De alma cheia de emoção, Maria alimenta com seu leite materno o filho que é seu e que é de Deus, o filho que que é Deus, que nasceu não para ser filho para Maria mas para toda a humanidade. 

Deus Pai pôs nas mãos de Maria a salvação de todos e de cada um de nós. Deus, fazendo-se quase nada, habitou no meio de nós para que possamos nós ser tudo, vivendo Nele. É assim o infinito amor de Deus.

Maria tinha essa certeza, a de que era portadora de Deus na infinitude dos seus dons. Vemo-la cheia de graça, de lágrimas de alegria por ser escolhida por Deus, mas não lhe medimos as dores, as orações ou as lágrimas provocadas por uma espada de dor que lhe trespassou a alma ao longo de toda a vida. Basta pensar na dor de lhe  ser recusada hospedagem, cidade de Belém, a dor de não poder dar um aconchego "digno" ao filho que nascia, que é Deus (mas a gruta de Belém era o mais digno, pois foi esse que Ele escolheu e quis). Espada que deixou de ferir apenas no momento da sua Assunção, e no encontro absoluto e pleno na Santíssima Trindade.

Olhemos Maria, na gruta de Belém, ternamente emudecida ao olhar o Deus alimentar-se do seu peito. Olhemos os olhares do Menino e dEla, cruzados numa total entrega: Ele, Deus, confiando-se totalmente nas mãos dEla, e Ela, Mãe humilde, sentindo que por si só nada pode, confiando-se absolutamente a si mesma nas mãos dEle, porque Ela é Mãe e filha de Deus. E nós estamos nas suas mãos também.
(8 de janeiro 2017 - Epifania)

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Não Tenhas Medo

Ele, São José, é, sem dúvida, um homem fora de série, não deixando de pensar que muitos outros há, nenhum como, ele é claro.

Noivo de uma jovem bela, nem ele sabia o quanto, sem qualquer mancha que lhe pudesse apontar a mais pequena culpa. Um dia percebe que Ela está grávida. Ele não entende, não pode ser, mas está. Ele é um Homem, um Homem de verdade, um Homem justo. Não compreende, não sabe como, não sabe porquê, mas também não pode expor a mulher que ama, não pode condenar, não há nada em que possa apontar.

domingo, 11 de dezembro de 2016

Um Deus Obediente

Em tempos de Natal talvez valha a pena parar um pouco e pensar no valor que estamos a dar ao mistério que celebramos. Deus, sem deixar de o ser, fez-se um de nós para nos tornar seus, resgatando-nos a preço de sangue, o sangue de Seu Filho, o seu sangue.

Por termos, dois dedos de capacidade e inteligência, dom de Deus, arvoramo-nos a ousadia e o direito de nos colocarmos no lugar de Deus, sem perceber o quanto Ele manifestou de entrega de Si mesmo, 

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Perfeita Criatura


Especial? Sem dúvida, muito especial. Com liberdade? Sem dúvida com toda a liberdade dos filhos de Deus. Uma vez que sem o olhar da fé não descortinamos mais que aquilo que veem os nossos olhos, é preciso olhar com o sentido de Deus para entrar um pouquinho no mistério da Conceição Imaculada de Maria.

Tinha que ser, não podia ser de outra forma. Aliás, Deus não pactua

terça-feira, 11 de outubro de 2016

E DEUS DISSE: OBRIGADO

O trecho do Evangelho que foi posto à nossa reflexão, no passado domingo, 09 outubro 2016, deixou em mim um pensamento que me tem afluído à mente e que me leva a partilhar uma breve reflexão.

Algures, entre a Galileia e a Samaria, em certa povoação onde Jesus ia entrar, vieram ao seu encontro 10 leprosos, que se mantiveram a distância, invocando para eles a sua a Misericórdia. Foram curados e um deles, apenas um, um samaritano, voltou para agradecer. Jesus ficou sentido pela falta de gratidão dos outros, que não se dignaram, voltar para dar Glória a Deus.

Este mesmo Jesus que aqui reage, perante a ingratidão, é o mesmo que nos diz que o que fazemos deve ser feito por amor, com total gratuidade e sem esperar qualquer recompensa.

Porquê esta atitude de Jesus? Tendo em conta a intensidade com que Deus espera, deseja e quer que vivamos unidos a Ele, em comunhão de vida plena, porque nos criou para Si. Tendo em conta o facto de nos ter dado o seu Filho, que sofreu os horrores da Paixão, ao ponto de jamais ter havido ou poder haver sofrimento semelhante ao Seu, e de estar completamente desfigurado, sendo tratado como um verme; tendo em conta o facto de o sofrimento de um pai, de uma mãe, ser mais insuportável num filho que amam, do que em si mesmos; tendo em conta que tudo aconteceu para recuperar para a vida a humanidade, mais, para me recuperar a mim para essa vida, para que não acontecesse, a não ser por opção pessoal, um indizível sofrimento pleno e eterno; tendo em conta isso e muito mais, cabe-me pensar que, não precisando Deus da minha gratidão para aumentar ou intensificar a sua Glória, porque Ele é a Plenitude, acredito que, no seu infinito Amor e misericordiosa Humildade, é Ele que me diz a mim: “Obrigado”. Obrigado porque nesta manhã elevaste o teu pensamento para Mim; obrigado pelo sorriso com que disseste bom dia ao teu filho; obrigado porque Me deste um pedaço de pão, porque Eu estava naquele sem abrigo; obrigado porque pediste a Minha força; obrigado porque pensaste em Mim, abandonado, no Sacrário; obrigado porque foste à missa; obrigado porque Me disseste obrigado pelo alimento que te dei; obrigado porque a Glória que Me deste te aproxima de Mim.

É tão intenso o “Tenho sede" que Jesus disse na Cruz, porque manifesta a sede que Deus tem de nós, que se Ele se torna infinitamente grato pelo mais pequeno pensamento meu que Lhe dê Glória, Porque Deus me (nos) quer a viver em vida plena, e um pequeno gesto vivido segundo a sua Vontade é um grande passo dado por mim para a Vida Nele.

Porquê, então, a reação de Jesus? Por um lado, para nos manifestar que a fé, a gratidão, se vivem a partir de dentro, do coração. Foi um estrangeiro que voltou para agradecer, não um judeu. Por outro lado, Deus quer a minha gratidão, não, não me estou a contradizer, e ela é absolutamente necessária na minha relação com Ele, porque é sinal de que há comunhão entre nós e é também caminho para que ela se intensifique cada vez mais. Vamos pensar como Jesus terá pensado: gente ingrata, esta, que honra Deus com os lábios e cumprimento exterior mas não adere de coração; incapazes de reconhecer a ação e a graça de Deus em suas vidas, vivem como se fossem os senhores da vida e se tudo estivesse nas suas mãos; gente longe de Deus a percorrer caminho de perdição.

A gratidão é querida por Deus porque faz bem não a Ele, mas a quem é realmente grato. É atitude que aproxima a criatura do Criador. A gratidão faz melhor a quem agradece que a quem se é grato. A tristeza de Jesus advém do facto de aqueles doentes curados não terem sabido aproveitar o facto e o momento para se aproximarem de Deus.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Terrível Mancha

Criados à imagem e semelhança de Deus. Vamos lá refletir um pouquinho sobre isso mesmo e tentar, humanamente, perceber tal graça. Sempre com a absoluta certeza de que a Palavra de Deus é verdadeira e eficaz. Verdade também, é o facto de que é humanamente, e para humanos, escritas, por isso mesmo colhendo em si todas as limitações de texto e contexto.

Imagem e semelhança de Deus… Isso mesmo, carregados de liberdade e amor. Liberdade que nos leva a escolher o que é bom e amor que é capacidade de entrega de si mesmo ao outro.

Depois de ter preparado o mundo, um belo jardim, criou o ser humano, homem e mulher. Criou-os cheios de graça, de vida, porque sem manha de pecado original. Essa deve-se a à origem da humanidade, porque as primeiras pessoas (seres humanos) cederam à tentação do demónio. Ele, orgulhos do poder e beleza que Deus lhe tinha concedido (era um Anjo), sentiu inveja da criatura que seria imagem e semelhança de Deus. Precipitado nas trevas infernais, porque a ausência de Deus é verdadeiro inferno, quis arrastar consigo a humanidade, destruindo assim o plano criador de Deus.

Projetou no íntimo da liberdade humana o malfadada ideia de querer ser como Deus. É exatamente essa marca que continua patente em nós. Aquilo que queria para ele, e que o precipitou nas trevas, incutiu-o em nós arrastando-nos consigo, provocando a perda da graça e a consequente expulsão do jardim belo para nós criado.

Pensemos que tínhamos tudo, toda a Graça de Deus, a plena felicidade por participação da Sua imagem e semelhança. Numa ideia: quisemos apoderar-nos e ter como nosso aquilo que, de facto tínhamos, mas como dom de Deus.

A obra da criação, pela nossa desobediência, estava irremediavelmente manchada e todas as criaturas a sofrer as consequências porque geradas  por criaturas manchadas.

Mas o demónio não vence, não vencerá. Deus estabelece uma nova criação. Por graça extraordinária e perfeito dom de Deus Maria é concebida sem essa marca, essa mancha. É concebida cheia de graça, verdadeira imagem de Deus. Em consequência, também Jesus, filho de Maria (sem pecado original) e do próprio Deus, é nova criatura. Ambos com liberdade e capacidade para querer ser como Deus, fizeram-se servos, pondo Deus acima de todas as coisa em suas vidas. Aliás, pondo unicamente Deus como razão de seu viver.

Em virtude desta nova criação, participando da Vida de Deus, por Jesus, Seu Filho, tornámo-nos filhos. Filhos, não cheios de graça, porque marcado pelo pecado das origens, mas com graça e capacitados para caminhar, para o Eterno Jardim, por participação na Graça de Jesus.

Não por nós, que pecadores somos, mas por Ele, que se oferece em Graça e permanece em nós, e atraídos e guiados por Maria, a Mãe que, querendo nós, faz caminho conosco. 


A ação do demónio continua, mas não nos atinge mortalmente se a nossa confiança de mantém na Divina Misericórdia.


domingo, 3 de maio de 2015

Ser Mãe

Foto J. B. 











Ser mãe é já ser-se flor
de um jardim belo, colorido,
onde o sofrimento e a dor
por um filho se enchem de sentido.

Ser mãe é já ser-se rosa
de espinhos que ferem dentro,
de pétalas radiosas
que brotam sempre, sem tempo.

Ser mãe é já ser-se beijo,
lábios que amam em piedade
e mostram único desejo
de matar o que é saudade.

Ser mãe é já ser-se vida
de corpo, alma e mente,
em entrega sempre sentida
e em sinal de eterno presente.
                            J.Baptista (3-5-15)

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Olhares com cor

Vivia numa terra estranha, segundo os nossos olhos podem ver e o pensamento pensar. Era um sítio lá longe, muito longe, onde nem os foguetões grandes conseguem ir. Tão longe, que a luz do sol, um sol mais bonito do que o nosso, nunca se apaga porque lá todos vivem sempre a sorrir e não há luas que escondam o sol da vida das pessoas, nem zangas que apaguem o brilho dos sorrisos, porque as pessoas são pequeninas por fora e muito grandes por dentro. 

O “S”, vamos chamar-lhe assim para falarmos dele, porque lá, na terra onde vive, ninguém tem nome, porque não precisam de ter nome pois não falam uns dos outros e todos se conhecem pelo brilho do sorriso e pela cor do olhar. Sim porque o sorriso tem brilho e o olhar tem cor, mesmo cá entre nós, por isso é que há sorrisos bonitos e feios e olhares que que são uma coisa ou outra, também.  O “S”, estávamos a  dizer, fechou os olhos, não para descansar porque lá as pessoas não se cansam, para ver mais fundo. E viu. Viu, lá longe, muito longe, uma bola grande dentro dos seus olhos pequeninos. Era feita de sombra. Fechou mais os olhos e viu que afinal era de uma cor azul, um azul bonito, mas nada tão bonito como o azul do olhar da sua irmã.

Fechou mais os olhos pequeninos e o olhar levou-o a voar para aquela bola. Voou, voou e foi parar ao pé de uma árvore grande, muito grande. Olhou para cima e achou que ela chegava até ao céu, e ele sorriu porque era uma árvore toda cheia de luzes a acender e a apagar e ele sorriu ainda mais porque na terra dele a luz nunca se apaga. Olhou à sua volta e viu muita escuridão, era de noite e ele não sabia o que era a noite. Recuou alguns passinhos e ficou debaixo da árvore que dava luz.

Olhou uma lâmpada pequenina. Ela brilhou e ele perguntou e os dois falaram com palavras de luz: “Olá, que mundo é este?”. “É a terra, o mundo dos humanos”. “Tão escuro!”. “Sim, nesta época acendem muitas luzes, alguns, porque outros gostam mais de andar na escuridão”. “Mas porquê?”. “Porque é Natal”. “E o que é o Natal?”. “Não sei, prenderam-me a estes fios para segurarem a minha luz. Eu queria sair e descobrir o que é mas não posso”. “Eu vou descobrir e depois passo para te contar”.

E o “S” saiu a querer encontrar e saber o que era o Natal. Andou e perguntou,  mas não conseguiu perceber tudo. Continuou a andar dando passos muito rápidos com o pensamento. E Disseram-lhe que o Natal, era tempo de alegria, e ele viu tantas crianças sem o afeto de um pai e uma mãe; disseram-lhe que o Natal é paz e ele viu maridos e esposa a discutir; disseram-lhe que o Natal é partilha de vida e ele viu gente deitada nas ruas, sem nada, quase sem vida; disseram-lhe que o natal é luz e ele viu os olhares escuros dos velhinhos tristes porque os filhos se esqueceram deles sozinhos em casa; disseram-lhe que o Natal é o nascimento de Deus e ele viu gente cheia de ódio  e ouviu dizer mal dos outros e ouviu músicas bonitas a sair de corações tristes, e viu igrejas onde Deus estava sozinho; disseram-lhe que o natal é numa noite, a noite mais mágica, e ele encontrou essa noite e sentiu-a a noite mais triste, porque não viu gente nas ruas e viu jantares ricos e achou que o Natal ia acabar quando acabassem os jantares.

E chorou, nessa noite. Chorou lágrimas de tristeza, e ele só conhecia as lágrimas de alegria. E ficou mais triste porque as lágrimas de tristeza sabem mal, porque são salgadas. E o vento, o vento que se levantou ligeiro, trouxe-lhe um pedaço de papel e ele deitou-se em cima dele porque estava cansado. Neste mundo as pessoas cansam-se. Adormeceu. As letras pretas daquele papel, um pedaço de jornal, entraram-lhe na mente e ele leu uma notícia, mesmo a dormir: “Jovem apresentadora de televisão, com 24 anos, morreu de cancro, um mês depois de dar à luz, por se recusar a fazer quimioterapia para não prejudicar o bebé”. Pensou que estava a sonhar, mas outra notícia entrou a correr e interrompeu-lhe o pensamento: “Em Londres, jovem estudante pede a um mendigo dinheiro para o autocarro e ele dá-lhe as 3 libras que tinha”. E outras, e outras noticias que leu, deixaram-no a sorrir por dentro, mesmo a  dormir.  

E acordou, acordou quando um raio de luz, do sol da terra dos humanos, lhe aqueceu a vontade de correr, e correr ainda mais, para ir contar à pequenina lâmpada presa na árvore de natal o que era realmente o Natal. Mas ela estava sem luz, era dia, e ele percebeu que a luz só voltaria a estar presa naquela lâmpada num próximo Natal, porque os humanos só pensam no Natal quando é dezembro. Estava tão feliz que pediu à lâmpada que no próximo ano dissesse à luz que ele iria voltar.

Sentiu um afago de mão de mãe, daqueles que só as mães sabem dar. Abriu os olhos e naquele mesmo instante estava lá na terra dele, lá muito longe, onde a luz do sol nunca se apaga e as pessoas não têm nome e não falam das outras. Sorriu com o olhar e disse: “Sabes mãe, encontrei o Natal da terra dos humanos, mas acho que muitos deles ainda não o viram.

                                                                                                                                                       Natal de 2014