quinta-feira, 1 de março de 2018
segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018
Limpando o Pó
Devagar, muito devagarinho e sem que alguém se dê conta.
Percebe-se quando a luz do sol bate de feição, ou quando um dedo passa e a
passagem deixa marca. O pó, esse permanente infiltrado, a exigir que
frequentemente se passe o pano, se se quer que não se acumule e entranhe de vez
a deixar marca não de pó mas de real sujidade. Pó não é imundície mas nela pode
transformar-se.
"Não tenho pecados" é expressão de adolescente que, sem nada fazer, garante à
mãe que "a prateleira não té pó". Estamos em Quaresma, e não ter
pecados é o caminho mais seguro e certo para que as falhas, os
"pequenos" pecados se vão acumulando na alma e ainda que se não
transformem e imundície de pecado grave, abrem-lhe caminho e estendem-lhe a passadeira
por forma a que possa entrar tranquilamente e a instalar-se na alma e na vida
sem ser notado.
O pó cria habituação, não se vê, e quando nele se vive
até o asseio mete impressão. O corpo adapta-se e a mente vai-lhe no encalço.
Claro que se fica com a sensação, certa, de que os demais não se adaptam àquele
que é o nosso pó, o nosso lixo, o que leva a que nos vamos isolando no nosso
mundo e fechando-nos num ambiente se sujidade onde crescem vermes que corroem e
nos impedem de ver o bem e a harmonia do que está realmente limpo.
O pecado cria habituação, não se vê, e quando nele se
vive até a santidade mete impressão. Corpo e mente adaptam-se e a alma
retorce-se de inquietação interior, porque não se adapta, o Espírito geme
interiormente e move a pessoa para o bem, confiando-a à sua liberdade pessoal
para que possa optar pelo pecado ou pela Graça.
O pecado, ainda que leve, vai fragilizando a ação da
graça que Deus oferece e derrama sobre cada um de seus filhos, e o mal grassa
sempre mais na vida do pecador. Naturalmente, a vida não é feita só de pecados,
também momentos bons, frutos do acolhimento dos dons de Deus. Esses são
momentos de graça que destroem o mal que se vem impondo. Diria que são panos
que limpam o pó do pecado instalado na alma e na vida.
Sejam mais os momentos, as ocasiões, purificadores, mas não fique por fazer uma limpeza geral, sempre que se sinta ser necessária, para que o "pó" não ofusque o brilho da alma.
sábado, 10 de fevereiro de 2018
O outro lado do jejum
Já percebemos como o "tempo corre" e como, de um momento para o outro, vão chegando os tempos marcantes da vida litúrgica da Igreja. Está aí a Páscoa e com ela o tempo de preparação que lhe é inerente: a Quaresma.
A muitos não diz nada, a outros pouco mais que nada, consoante a formação e o espírito cristão de que se está marcado. Talvez a olhemos apenas como tempo de jejum e abstinência. São tão poucos os dias a que a isso somos convidados e tão camuflados na exigência de os viver, que se diluem facilmente em desculpas e justificações para serem esquecidos.
Jejum é "comer menos", e abstinência o "não comer carne", por forma a poupar um pouco para partilhar com aqueles a quem falta o essencial para sobreviver. Ameniza-se o desagradável da questão, o não comer o quanto, ou o que, o mero prazer pede, com desculpas de que "o importante é...".
O certo é que jejum é não comer (comer menos) e a abstinência é o não consumir aquilo que dá mais gosto e prazer. Porquê? Se for só porque sim, não tem grande resultado, se for porque se poupa para oferecer, é bom, mas se for por (e para) uma tomada de consciência de que não vivemos para comer, nem para o prazer, é muito bom e dá todo o sentido ao que possamos fazer.
O comer e o prazer fazem parte do bem viver, mas não deveriam, por motivo algum, ocupar a meta do viver nem o meio de a alcançar.
Sentir "fome" e desejo de alguma coisa que me sacie e console e dela abdicar com consciência e vontade, leva-me a pensar que sou espiritual também; filho de Deus; que Nele tenho origem e fim; que Ele se fez, para mim, caminho verdade e vida; que sou apenas uma pequena criatura a fazer caminho, atraída para a eternidade. Abdicar de mim mesmo para que Deus ocupe o centro do meu ser.
Vivendo e gozando tudo em função do tempo e da matéria que sou, limito-me completamente ao pouco tempo que viver e ao querer encher-me do engano de vida que julgo ter. Vivendo e gozando tudo em função da eternidade e da vida do Espírito de que, pelo batismo e por graça de Deus, participo, limitar-me-ei a olhar-me como dependente de Deus e dos outros para me encher de real Vida a que sou chamado e que só depende do caminho que, por livre opção, escolher.
sábado, 3 de fevereiro de 2018
Misericórdia - Pobreza - Comunidade
Não, não olhemos a imagem assim como nos
parece, mas como ela é...
A igreja do Carmelo tornou-se pequena para
acolher todos aqueles que acorreram para participar na celebração de Profissão de
votos perpétuos da Irmã Emília Maria da santíssima Trindade. Pensei no que
pedem e aceitam as irmãs para se consagrarem a Deus: misericórdia, pobreza e
comunidade.
Que o Senhor seja misericordioso diante da
fragilidade humana, tão propensa ao pecado, que se manifesta nas mais pequenas
coisas. O pecado não tem que ser grave para ser recusa de Deus e deixar suas marcas
na pessoa.
Pobreza, que se manifesta no deixar para trás
tudo aquilo, por pequeno que seja, que é impedimento ao estar com Deus e em
Deus, a começar no abdicar de si mesma para acolher a vontade de Deus, que se
manifesta na pessoa da madre. Pobreza que é verdadeiro morrer para si mesma,
para ser só de Deus.
Comunidade na qual caminhe com as demais
irmãs no sentido da santidade. Porque ninguém se santifica sozinho, mas em
comunhão, em igreja.
Que pedem senão aquilo que pediram e a que se
comprometeram, elas e cada um de nós, no batismo. Nele, por pura misericórdia
divina, recebemos a graça do perdão do pecado original. Nele nos comprometemos,
recusando o príncipe do mundo e as suas seduções, a uma aceitação e entrega
total a Deus, fazendo-nos verdadeiramente pobres para nos enchermos só de Deus.
Nele somos acolhidos e nos integramos numa comunidade, a comunidade dos filhos
de Deus, a Igreja, para nela caminharmos e nos santificarmos.
Vivemos esta consagração com diferente
intensidade, cada um a seu modo e segundo o chamamento que sente de Deus. Não
estranhemos no entanto que mulheres e homens, escolhidos e chamados por Deus, a
Ele se consagrem totalmente, retirando-se do mundo não como fuga, mas para uma
maior e mais sublime entrega de si, buscando a glória de Deus e oferecendo-se
pela santificação daqueles que no mundo continuam a buscar caminhos de
santificação.
Não, não olhemos a imagem assim como nos
parece, mas como ela é... a entrega à clausura não é fechar-se mas abrir-se a
Deus e ao mundo pela entrega pessoal. E não é verdade que quem vive em clausura
não pode sair, nós é que não podemos entrar, porque não entendemos, porque o
mundano não entende. Quem está, está porque assim o escolheu, e é, geralmente,
de "invejar" sua felicidade.
segunda-feira, 1 de janeiro de 2018
Envolvidos Num Abraço
13:41
2017, abraço, Carpalhosa, Família, Jesus, José, Maria, natal, sagrada, sagrada familia, Souto
No comments
Era pequenino, apenas uma criança, um bebé. Era
moreninho, de olhos grandes e cheios de vida. Saía à mãe. Um bebé lindo. E ela
olhou-O. Olhou-O, adormecido em seu colo. Ficaram rasos seus olhos e o olhar
toldou-se de lágrimas. O coração, esse estremecia de gratidão só de O olhar tão
cheio de paz, tão tranquilo, tão divino.
O pai, adotivo porque o Menino era de outro pai gerado,
olhou Mãe e Filho e sentou-se porque fraquejaram as pernas de emoção. Não
falou, não pensou, apenas se sentiu indigno da missão para que fora escolhido,
velar pelo filho e pela mãe. Elevou os olhos ao Céu e numa prece pediu luz e
força para ser capaz. E o Menino chamou-lhes pai e mãe. E Ele era Deus. E Ele é
Deus.
Não temos tempo para contemplar as crianças pequeninas,
tranquilas a dormir e não sabemos medir e ver os sinais da paz, os caminhos da
Vida. Temos os olhos turvados não de lágrimas de emoção mas de pó dos caminhos,
de desejos de prazer e poder, de cheiro a dinheiro e a egoísmo. E o Menino Deus
cai-nos dos braços porque não sabemos segurá-lO em nossas vidas. Perdendo-O, perdemos não a Ele
mas a nós mesmos, e pode ser para sempre.
Podemos tê-lO em nossos braços porque Ele mesmo disse:
"Todo o que fizer a vontade de meu Pai... esse é meu irmão, minha irmã e
minha mãe" (Mt 12,50). E estamos nas mãos da Mãe, a Sua Mãe, porque Ele
no-la ofereceu" (Jo 19,27). Insensatos e ingratos é o que facilmente
conseguimos ser. Insensatos porque deixamos perder o maior tesouro que temos em
mãos, o próprio Deus que se fez homem, para nos cativar como criança, para nos
salvar dando a vida por nós. Insensatos que não abrimos os olhos à Vida que há
em nós, que está em nossas mãos, em nossa liberdade. Ingratos por isso mesmo, e
porque pela frieza de nosso viver, pela indiferença de filhos que somos,
ferimos a Mãe ao escaparmo-nos de seus braços, de seu colo, de seu abraço
materno e divino. (30-12-17)
quinta-feira, 28 de dezembro de 2017
Ainda é Natal


É Natal. Cada um o vive à sua maneira e medida. Para muitos não passará de um único dia, talvez uma noite. Para nos cristãos é um tempo que começa com o nascimento de Jesus e termina, apenas, na celebração da Festa do seu Batismo (este ano, no dia 8 de janeiro).
As celebrações na paróquia são vividas da forma habitual.No próximo domingo faremos o Jubileu das famílias, 24 casais que celebram bodas matrimoniais, já disseram estar presentes.
Ficam algumas fotos, de baixa qualidade, foram feitas com telemóvel. São o pre´sepio e a capela mor da igreja paroquial
segunda-feira, 25 de dezembro de 2017
Noite de Silêncio
A noite é de muita, demasiada, azáfama. É noite de Natal e o
silêncio impõe-se nas ruas. Tudo parece deserto. Mas o barulho não deixou de
acontecer. Fechou-se dentro de portas, nas nossas casas, sentou-se à mesa e
escondeu-se em papéis de embrulho que quando são rasgados fazem explodir
expressões de gratidão, quem dera que não fosse falsa tantas vezes, para logo
terminar no silêncio do travesseiro, se a comida e a bebida foram com sentido.
É noite de Natal, noite em que Deus nasce se encontra corações
revestidos de acolhimento, como o foram as palhinhas de Belém. Não, não é a
celebração do aniversário de Jesus, embora muitos, cristãos mesmo, o pensem e
digam. É bom mesmo que não seja um simples aniversário, porque seria o mais
triste de todos, por ser o aniversário de alguém que é completamente esquecido
e atirado para fora da memória, da mente da grande maioria daqueles que,
supostamente, o celebram. Eu não quereria tal festa e acredito que Deus também
não.
Não foi por acaso que Deus se retirou do rebuliço da cidade,
da estalagem e mesmo de numerosa família, para nascer. Só assim o poderia fazer
em verdadeira festa e alegria, porque não foram humanos os cantares e as vozes
que celebraram, mas divinas as vozes e espirituais os cantores. Só os pobres,
os silenciosos da sociedade, nas pessoas dos pastores, aqueles que perante tal
boa notícia pasmaram sem conseguir falar e diante da visão do Salvador fizeram
nascer lágrimas de gratidão. Finalmente Deus veio salvar o seu povo.
A cidade continua em rebuliço, as estalagens empanturram-se
de barulhos de música e luz na mira de conseguirem lucrar. E Deus continua a
retirar-se para nascer, permanecer, crescer e viver, no silêncio. Não que não
possa estar na confusa agitação, mas porque só entra e está onde for convidado
e acolhido. A tal agitação e barulho interior preenchem tanto o coração que
transbordam para a alma, e uma alma sem recatado silêncio não ouve nem acolhe
Deus, porque Deus fala baixinho e atua em rumor, sem ressoar de tambores.
Talvez seja esta a noite para começar a fazer Natal, a
esvaziar corações, a preparar as palhinhas da humildade, da oração... para o
Menino nascer. (24-12-18)
quarta-feira, 6 de dezembro de 2017
Maria em Espera
O que acreditamos é o que
queremos, aquilo por que ansiamos e pelo qual lutamos. Conscientemente ou não,
os desejos que temos, o sentido de vida e o caminho que percorremos, vão dar
àquilo que é tesouro do coração.
Um egoísta concentra-se em si
mesmo. Ainda que o seu olhar passe pelos outros, a profundidade e os fins de
suas ações, embora possam parecer altruístas, não se dirigem senão a si mesmas,
buscando e sentindo consolo no que faz. Quer consolação pessoal e para tal
"serve-se" da ideia de fazer bem aos demais. Verdade que pode ter
feito muito bem, mas fê-lo em autorrealização.
Um altruísta, aquele que sai
de si para encontrar a felicidade dos outros, não busca realização pessoal, o
que faz fá-lo com o sentido dos outros, mais ainda, com o sentido de Deus. Não
se buscando a si mesmo, acaba por encontrar uma realização e felicidade
interiores muitos maiores que aquelas que alcança atua a pensar em si mesmo. A
verdadeira felicidade está, de facto e sem dúvida, no facto que fazermos que os
outros sejam felizes.
Claro que é preciso estar-se
atento e fazer da entrega de si mesmo um ato contínuo, tanto quanto o
permitirem as nossas limitações e amor próprio. Fazer pelo outro é já largo
caminho para se alcançar aquela felicidade por que profundamente se anseia.
Fazer por Deus é caminho de perfeição, o único que realmente pode conduzir a
esse estado de plena harmonia interior. Não, humanamente não se consegue, por isso
o Céu começa a acontecer nesta vida, mas so se alcança após a morte.
Depois deste longo preâmbulo,
talvez possamos entender um pouquinho mais o amor com que Maria se confiou à
vontade de Deus: Ela, mais que ninguém, e isso recebeu-o de seus pais e como
graça de Deus, ansiava a libertação, a salvação, da humanidade. tendo sido
criada, sem o saber, isenta de qualquer mancha de pecado, vivia, por graça de
Deus, em estado de perfeição, sendo a sua vida uma plena oferta de si mesma
pela salvação de cada pessoa das garras da morte. Por especial dom de Deus esta
salva e, naturalmente, queria (quer) a salvação de todos. Mais que qualquer um
de nós, mais que todos nós juntos, esperou, ansiou e, por isso, Nela se
realizou e aconteceu a salvação do género humano. (03-12-17)










