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segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Saudades de ti (14)


Não tinha uma flor para lhe oferecer. Só palavras lhe poderiam sair do peito para começar a exprimir o que nesse momento sentia.

Antecipando-se, sem sequer pensar no que poderia ele estar a querer tirar de dentro de si, disse ela, dando um solene tom de entusiasmo ao acontecimento que anunciava. O tão sonhado  momento de poder vir a  estagiar nos Estados Unidos iria concretizar-se: finalmente tinha-lhe sido concedida a bolsa de estudo pela qual sempre lutou e que, em reconhecimento pelas excelentes classificações na faculdade, lhe traria a possibilidade de vir a completar o curso num país estrangeiro. Os Estados Unidos eram o seu sonho: sempre a fascinara a América, sobretudo porque era lá que melhor se poderia preparar para o futuro que para si almejava.

Boquiaberto, ouviu dela tudo sem se atrever a pronunciar palavra como se a fonte das palavras secasse dentro de si. Esboçou um sorriso amarelo e  ficou perdido na desilusão que sentiu ao perceber que iria perder o que ainda nem sequer tinha encontrado. “Como é que eu posso ter andado tão longe, pensou, para não me ter apercebido da beleza, dos sonhos e do encanto, que  há nesta mulher”? Tentou, sem conseguir minimamente, disfarçar em alegria a mágoa que estava a sentir.

A perspicácia feminina, presente em qualquer mulher atenta,  e talvez mais nela, agora, por também ela não estar a ser indiferente à diferença que nele hoje se podia sentir, fê-la pensar. Muitas vezes o olhara e fixara com interesse mas sem qualquer fixação mais forte.

Percebendo a mal disfarçada aflição que vira nele, atalhou rapidamente para dizer que achava que não ia aguentar lá muito tempo sem vir à sua terra ver os seus, sentir a vida e o lugar onde sempre viveu. “E acho que também vou ter saudades tuas” disse, inclinando-se um pouco para diante, como quem quer dizer um segredo, e deixando que  a sua mão perdida descansasse apenas sobre a mão trémula que ele tinha, meio perdida, sobre a mesa do café.
Estava feito. O que ele não teria tido coragem para pronunciar logo ali, ela afirmara-o claramente com meias palavras e um gesto forte de quem ama. 

O toque das duas mãos reacendeu a força e a fé dentro dele e esmagaram as dúvidas que baralhavam, atordoadas, as ideias e os gestos. Embrenhou-se nele a certeza de que o futuro que ela estava a preparar para si poderiam vir a ser futuro vivido a dois. Percebeu-se amado, perdeu o medo e acreditou que a separação de milhares de quilómetros não evitaria o sofrimento da distância mas seria apenas ausência de corpos porque ambos estariam em comunhão de sentimentos.

Olhou-a bem fundo e sorriu...