quinta-feira, 5 de abril de 2018

Vida Oprimida


O sol estava tão bonito! É verdade que fazia um bocadinho de frio, mas que me interessava isso? A porta estava aberta, puseram a fechadura alta e eu não lhe chego para a abrir, saí de pés descalços, porque é assim  que  gosto de andar. Não percebo porquê, mas já me tinham vestido uma camisola que me deixa a perecer uma tartaruga e me faz sentir parvo. Aproveitei e fui fazer um xixizito alí junto de uma árvore. Continuar a ler AQUI

terça-feira, 3 de abril de 2018

MORREU PARA VIVERMOS (Páscoa)

Os três últimos dias haviam sido dolorosos, muitos dolorosos, tanto que, humanamente, não é possível perceber o quanto. Mas o importante é que Deus tenha "contabilizado" e sentido o quanto houve de entrega naquela morte, como tinha havido já em vida.

Nada poderia dar razões para uma restea de ânimo. Só a Esperança de Mãe e Filho, conhecedores de Deus e da missão a que eram chamados, puderam manter a esperança da humanidade. Tudo estava, humanamente, perdido. Mas havia Neles, que se tinham entregue plenamente á vontade do Pai, a certeza de que tudo estava, divinamente, ganho.

O jogo continua. O maligno adversário sabe que perderá definitivamente a batalha final, por isso se arrasta num esforço descomunal, por marcar o mais possível. A vitória não será nossa, sim de Deus. Mas o prémio será entregue em nossas mãos porque a derrota foi assumida por Jesus, mas Ele é Deus e Deus não perde nunca porque o Mal não tem poder sobre Ele.

E o prémio já está em nossas mãos, guardado em nossa liberdade. Ele morreu para vivermos nós. A nós é dado escolher entre a Vida e a Morte, sabendo que não cegaremos à Ressurreição se não passarmos pela cruz, não chegaremos à vida se não passarmos pela morte de nós mesmos, entregando a vida, vivendo-a segundo a vontade de Deus.

Cristo ressuscitou. Está ressuscitado e é assim que precisamos vê-lO. É, no entanto, ilusório pensarmos que O descobriremos, de facto, se não nos deixarmos atrair por Ele na cruz. Aí se manifesta e aí, só aí, veremos o seu Amor. Ainda que sem pensar dizemos o que sentimos ao afirmar "O Cristo antigo já passou, o de agora é moderno". Cristo não muda, ainda que queiramos fazê-lO à nossa maneira.

VIVER PARA MORRER (Quaresma)

Os tempos são difíceis, as exigências do mundo mais que muitas. Não temos disponibilidade interior para o sofrimento ou a contrariedade. É por isso, porque não queremos dispor do prazer e gosto pessoal, que aceitamos, e defendemos a morte dos outros, ainda que sejam crianças inocentes.

Não abdicamos do prazer e gosto pessoal que aceitamos e defendemos a eutanásia, para levar á morte os que sofrem, ainda que eles queiram viver.

Não geramos filhos para que não sofram, sobretudo para que nos não façam sofrer, razões também pelas quais queremos acabar com os doentes e idosos. As razões são fáceis de encontrar: não queremos perder um momento de gozo e prazer de nossa própria vida, ainda que não esteja nas nossas mãos e num momento termine.

É Mãe. Teve um, apenas um, Filho. Um e outro tinham plena consciência do sofrimento e dores a que eram chamados. Disseram Sim, abdicando de si mesmos para, até ao limite da vida, se entregarem pelos outros, por todos, pela humanidade.

Foi criada, a Mãe, para gerar o Filho. Foi gerado, sob condição mortal, o Filho para dar a sua vida, morrendo para si mesmo, para que possamos nós viver.

Vivemos, muitos de nós, esta vida, apenas pensando no que dela, momentaneamente, podemos desfrutar porque, dizemos, a morte não é senão o fim. Viveram-na Eles, Maria e Jesus, apenas pensando no que dela podiam dar para que, eternamente, nós possamos desfrutar da glória de Deus porque, sabemos, a morte não é senão passagem para a Vida, vida que não vai mais acabar porque é eterna. Eles viveram para que nós possamos Viver.

Nós vivemos esta vida terrena para dela desfrutar como se fosse um momento, mas para por ela subirmos e caminharmos para Deus, a Vida, a única que tem sentido e sentido dá ao que agora somos chamados a ser e a viver.

O caminho é um, um só, o da cruz. Por ser cruz não é só dor e sofrimento, muito pelo contrário, é o que dá razão de ser à dor e sofrimento que acontecem nesta vida, humana, bela, cheia de alegrias e graças. A cruz é escada e ponte para do nada que somos chegarmos ao tudo que somos chamados a ser. Não passar por ela, recusando-a, é caminho fácil para a Morte a que somos tentados.

terça-feira, 6 de março de 2018

FÉ DE VENDILHÕES

Tudo vivemos a meio termo. Ainda que nem todos o façam, a maioria sim, é assim que vive nesta sociedade descafeinada, que se delicia com uma coisa que não é café, nem deixa de o ser; que bebe água mas com sabor a limão, ou com pós do aroma de uma outra qualquer fruta; onde se afirmam e aqueles que não são nem homens nem mulheres e que, como pessoas, dificilmente serão alguma coisa na vida; que veste de casaco os cães e deixa morrer de frio e fome milhões de pessoas; que se diz cristã, católica, mas não praticante; que se queixa porque está dia de inverno e se não lembra de milhões que, por causa da guerra, vivem verdadeiro inferno; que nada  quer com Deus, além daquilo que, muitas vezes por mesquinhas razões, exige dele, para si, como se Deus fosse a todos devedor e mau pagador.

O cheiro a vómito sai da "caneta" de São João, no Apocalipse: " Assim, porque és morno - e não és frio nem quente - vou vomitar-te da minha boca" (Ap 3,16). A sentença recai sobre a humanidade morna, na certeza de que ela é cada um de nós, que não é nem deixa de ser de Deus, e porque assim é, não deixa de ser um "não" ao Deus Criador, que nos quer ativos. Ser bom não e não fazer mal, mas fazer o bem.

Somos light em praticamente tudo. Não o somos, garantidamente, nas nossas ideias, nas nossas lutas, porque dessas fazemos forte finca-pé, tendo razão pelo simples facto de serem nossas as ideias e as lutas, e os outros não podem muito mais que concordar connosco.

Encontramos Jesus a "deitar por terra" os sonhos e ganhos daqueles que vendiam no Templo. O zelo pela casa de Deus fê-lO explodir diante dos que, a diversos pretextos, se aproveitavam da fé das gentes. Não são vendilhões aqueles que vendem, somo-lo nós, aqueles que nos deixamos vender na hipocrisia da fé que dizemos ter; somo-lo nós que vivemos uma relação com Deus na base do "dever - haver", sendo que Deus é o devedor e nós os credores que tudo Lhe exigimos sem nada Lhe dar; ; somo-lo nós que nos calamos diante do desfazer do mundo em guerras atrozes, como se nada tivéssemos a ver ou a fazer por eles. Se mais nada houver que façamos, ao menos ofereçamos os nossos sacrifícios, a nossa oração e conversão por eles e pela paz.

Por quê as minhas guerrinhas pessoais, quando o mundo está em estado de guerra? (03-03-18)

quinta-feira, 1 de março de 2018

Via Sacra

Via Sacra
 AQUI

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Limpando o Pó

Devagar, muito devagarinho e sem que alguém se dê conta. Percebe-se quando a luz do sol bate de feição, ou quando um dedo passa e a passagem deixa marca. O pó, esse permanente infiltrado, a exigir que frequentemente se passe o pano, se se quer que não se acumule e entranhe de vez a deixar marca não de pó mas de real sujidade. Pó não é imundície mas nela pode transformar-se.

"Não tenho pecados" é expressão  de adolescente que, sem nada fazer, garante à mãe que "a prateleira não té pó". Estamos em Quaresma, e não ter pecados é o caminho mais seguro e certo para que as falhas, os "pequenos" pecados se vão acumulando na alma e ainda que se não transformem e imundície de pecado grave, abrem-lhe caminho e estendem-lhe a passadeira por forma a que possa entrar tranquilamente e a instalar-se na alma e na vida sem ser notado.

O pó cria habituação, não se vê, e quando nele se vive até o asseio mete impressão. O corpo adapta-se e a mente vai-lhe no encalço. Claro que se fica com a sensação, certa, de que os demais não se adaptam àquele que é o nosso pó, o nosso lixo, o que leva a que nos vamos isolando no nosso mundo e fechando-nos num ambiente se sujidade onde crescem vermes que corroem e nos impedem de ver o bem e a harmonia do que está realmente limpo.

O pecado cria habituação, não se vê, e quando nele se vive até a santidade mete impressão. Corpo e mente adaptam-se e a alma retorce-se de inquietação interior, porque não se adapta, o Espírito geme interiormente e move a pessoa para o bem, confiando-a à sua liberdade pessoal para que possa optar pelo pecado ou pela Graça.

O pecado, ainda que leve, vai fragilizando a ação da graça que Deus oferece e derrama sobre cada um de seus filhos, e o mal grassa sempre mais na vida do pecador. Naturalmente, a vida não é feita só de pecados, também momentos bons, frutos do acolhimento dos dons de Deus. Esses são momentos de graça que destroem o mal que se vem impondo. Diria que são panos que limpam o pó do pecado instalado na alma e na vida.

Sejam mais os momentos, as ocasiões, purificadores, mas não fique por fazer uma limpeza geral, sempre que se sinta ser necessária, para que o "pó" não ofusque o brilho da alma. 

sábado, 10 de fevereiro de 2018

O outro lado do jejum

Já percebemos como o "tempo corre" e como, de um momento para o outro, vão chegando os tempos marcantes da vida litúrgica da Igreja. Está aí a Páscoa e com ela o tempo de preparação que lhe é inerente: a Quaresma.

A muitos não diz nada, a outros pouco mais que nada, consoante a formação e o espírito cristão de que se está marcado. Talvez a olhemos apenas como tempo  de jejum e abstinência. São tão poucos os dias a que a isso somos convidados e tão camuflados na exigência de os viver, que se diluem facilmente em desculpas e justificações para serem esquecidos.

Jejum é "comer menos", e abstinência o "não comer carne", por forma a poupar um pouco para partilhar com aqueles a quem falta o essencial para sobreviver. Ameniza-se o desagradável da questão, o não comer o quanto, ou o que, o mero prazer pede, com desculpas de que "o importante é...". 

O certo é que jejum é não comer (comer menos) e a abstinência é o não consumir aquilo que dá mais gosto e prazer. Porquê? Se for só porque sim, não tem grande resultado, se for porque se poupa para oferecer, é bom, mas se for por (e para) uma tomada de consciência de que não vivemos para comer, nem para o prazer, é muito bom e dá todo o sentido ao que possamos fazer.
O comer e o prazer fazem parte do bem viver, mas não deveriam, por motivo algum, ocupar a meta do viver nem o meio de a alcançar.

Sentir "fome" e desejo de alguma coisa que me sacie e console e dela abdicar com consciência e vontade, leva-me a pensar que sou espiritual também; filho de Deus; que Nele tenho origem e fim; que Ele se fez, para mim, caminho verdade e vida; que sou apenas uma pequena criatura a fazer caminho, atraída para a eternidade. Abdicar de mim mesmo para que Deus ocupe o centro do meu ser.

Vivendo e gozando tudo em função do tempo e da matéria que sou, limito-me completamente ao pouco tempo que viver e ao querer encher-me do engano de vida que julgo ter. Vivendo e gozando tudo em função da eternidade e da vida do Espírito de que, pelo batismo e por graça de Deus, participo, limitar-me-ei a olhar-me como dependente de Deus e dos outros para me encher de real Vida a que sou chamado e que só depende do caminho que, por livre opção, escolher.

sábado, 3 de fevereiro de 2018

Misericórdia - Pobreza - Comunidade

Não, não olhemos a imagem assim como nos parece, mas como ela é...

A igreja do Carmelo tornou-se pequena para acolher todos aqueles que acorreram para participar na celebração de Profissão de votos perpétuos da Irmã Emília Maria da santíssima Trindade. Pensei no que pedem e aceitam as irmãs para se consagrarem a Deus: misericórdia, pobreza e comunidade.

Que o Senhor seja misericordioso diante da fragilidade humana, tão propensa ao pecado, que se manifesta nas mais pequenas coisas. O pecado não tem que ser grave para ser recusa de Deus e deixar suas marcas na pessoa.

Pobreza, que se manifesta no deixar para trás tudo aquilo, por pequeno que seja, que é impedimento ao estar com Deus e em Deus, a começar no abdicar de si mesma para acolher a vontade de Deus, que se manifesta na pessoa da madre. Pobreza que é verdadeiro morrer para si mesma, para ser só de Deus.
Comunidade na qual caminhe com as demais irmãs no sentido da santidade. Porque ninguém se santifica sozinho, mas em comunhão, em igreja.

Que pedem senão aquilo que pediram e a que se comprometeram, elas e cada um de nós, no batismo. Nele, por pura misericórdia divina, recebemos a graça do perdão do pecado original. Nele nos comprometemos, recusando o príncipe do mundo e as suas seduções, a uma aceitação e entrega total a Deus, fazendo-nos verdadeiramente pobres para nos enchermos só de Deus. Nele somos acolhidos e nos integramos numa comunidade, a comunidade dos filhos de Deus, a Igreja, para nela caminharmos e nos santificarmos.

Vivemos esta consagração com diferente intensidade, cada um a seu modo e segundo o chamamento que sente de Deus. Não estranhemos no entanto que mulheres e homens, escolhidos e chamados por Deus, a Ele se consagrem totalmente, retirando-se do mundo não como fuga, mas para uma maior e mais sublime entrega de si, buscando a glória de Deus e oferecendo-se pela santificação daqueles que no mundo continuam a buscar caminhos de santificação.

Não, não olhemos a imagem assim como nos parece, mas como ela é... a entrega à clausura não é fechar-se mas abrir-se a Deus e ao mundo pela entrega pessoal. E não é verdade que quem vive em clausura não pode sair, nós é que não podemos entrar, porque não entendemos, porque o mundano não entende. Quem está, está porque assim o escolheu, e é, geralmente, de "invejar" sua felicidade.