domingo, 1 de outubro de 2017

Amar Sem Palavras

Richard Back deixou num dos seus livros uma frase que muitas vezes recordo e que muitas vezes me tem dado oportunidade para partilha de reflexão: "Quando uma mulher diz que me ama deixo de acreditar nela".

Trago, hoje, à luz do dia a expressão para a revestir com uma das parábolas  que apontam para a essencial diferença entre a palavra e a ação, o ser e o não ser. Dois filhos e o trabalho na vinha: um diz que vai mas não vai e o outros afirma não ir mas vai. Compreende-se, sem necessidade de grandes ações de raciocínio, que o que diz que não vai, mas que acaba por ir, não é homem de palavra, mas é-o de ação. Já o outro não o é de palavra nem de ação.

Somos uma sociedade de palavras, em que por tudo e por menos que nada, dizemos palavras, fazemos barulhos e temos reações que são facilmente percetiveis com manifestação de se não estar bem. Porque não concordamos, não aceitamos e porque não aceitamos, os outros têm que concordar e aceitar ser como nós somos e queremos que sejam. Daí nascem as críticas negativas, que em tempos idos passávamos de boca em boca e que, agora, colamos em redes chamadas sociais (que são, muitas vezes, anti-sociais) criando chafurda para que venham os outros deixar-nos palavras de concordância que nos farão sentir  quentinhos, aquecidos pelo consolo da opinião dos demais.

Somos mas não fazemos, não praticamos. Mais não é que dizer "vou" mas de facto "não vou". Somos homens e mulheres que dizemos amar mas não o sabemos dizer senão com palavras, deixando que as ações falem, por sim mesmas, e digam o contrário. Pode dizer-se, diz-se, da nossa falta de coerência cristã, mas com a mesma razão se diz do nosso sermos gente que vive em sociedade. 

Uma mulher não tem que dizer que me ama, diria Richard Back, isso pode aparecer como justificativa para a sua falta de amor. Eu preciso simplesmente ver e sentir que suas palavras, ações e reações, me digam no silêncio da sua linguagem que ela quer o melhor para mim e que o que faz tem em vista o meu bem. Então verei que me ama e ela terá tudo de mim.

Pegando no pensamento e elevando-o para além de nós mesmos perceberemos que em Deus assim é também. Tudo tem Dele aquele que O ama e nada Dele pode exigir aquele que O não traz no pensamento, na vida e na vontade. (01-10-17)

sábado, 16 de setembro de 2017

Mal Que Recai Sobre Nós

Uma, duuas, trêêês... e se tivermos conseguido chegar aí, é uma sorte muito grande, o passar além disso é obra divina, só pode mesmo ser. Quem de nós conseguirá ultrapassar o "às três é de vez" e perdoar uma quarta vez? Sendo o 7 um número que indica perfeição, o perdoar 70x7 é mesmo a plenitude de perdão. Usemos os meios que quisermos e não nos livramos do mandamento que nos manda perdoar sempre, sempre mesmo, à imagem e semelhança de Deus.

Ainda que seja preciso apenas uma vez, perdoar é sempre ato divino, é capacidade, força e graça que nos vem Dele.  Podemos, talvez encontrar mil e mais umas poucas de razões para não perdoar, esquecendo que sofre mais, bem mais, aquele que não perdoa que aquele que, tendo pedido perdão, não é perdoado. Vem geralmente a expressão do "perdoo mas não esqueço". Ótimo, isso é de dar graças a Deus porque esquecer não é perdoar é amnésia, e isso é doença. Perdoar é lembrar sem ficar magoado, ferido. 

Acerca de Deus há algo que é importante ter em conta: Deus perdoa sempre. sabemos isso. Esquece? Não. Nós não esquecemos e, magoados, vamos contabilizando as vezes que perdoámos. Estragámos tudo: ao contabilizar mostramos não ter perdoado. Deus perdoa, e perdoa de vez, mas... a pena continua lá. Vamos entender: se me dão uma bofetada, eu posso perdoar a bofetada, como se não tivesse existido, mas isso não retira a dor (a pena) e é preciso que o outro repare o mal. O perdão exige, naturalmente, a reparação: "a reposição do bem". Não é perdoar e deixar que tudo continue na mesma.

Deus perdoa sempre, é certo, mas pode não acontecer sempre o perdão: acontece apenas quando há arrependimento, emenda ou, ao menos, desejo de emenda de vida, conversão. Pedir perdão é também comprometer-se a repor o bem.

Sem pensarmos sequer no mal que fazemos, procuramos ocultá-lo e a culpa que conscientemente recai sobre nós atiramo-la para cima do outro, fazendo, assim, com que aquele que é nossa duplique. Mal sobre mal a recair sobre nós mesmos.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Sem Amor Perfeito

A palavra é uma, os sentidos são muitos, a sua utilização é de vezes sem conta. Tanto, e tão mal, utilizada é que se lhe perdeu o sentido. E amor passou a designar tantas coisas que acabou por definir até o que lhe é profundamente oposto. Um ato de amor perde a sua pureza amorosa quando é marcado por algum interesse, por mais pequenino que possa ser.

Percebemos que não há um ato de puro amor humano. Por muito que amemos e o queiramos fazer com puro altruísmo, perturbamo-nos se percebemos um ato menos grato da parte da pessoa amada. A mãe ama e tudo faz por seu filho mas chega a cansar-se de tanta  vez o fazer. Aí, perde parte do amor com que amou. A enfermeira cuida com o maior carinho deste mundo o doente que lhe está confiado, mas pensa no ordenado que lhe é confiado no fim de um mês de trabalho. Porque "não há almoços grátis" o convite para "beber um copo" espera sempre um ato de recompensa. Puro só o amor com que fomos, e somos, eternamente amados por Deus, que não precisa de nós, a Quem não acrescentamos nem retiramos nada porque Ele é o Tudo. Ama-nos em perfeito ato de amor porque tem em vista unicamente a nossa felicidade. Se ela é posta em causa ou em risco isso deve-se só a nós.

Porque não amamos perfeitamente, vamos deixar de amar? Não, precisamos teimar em amar sempre mais e melhor. Aqui está a questão: eu não amo em ato puro, não aceito o outro em ato de pura aceitação: Como, então, conseguir? Aqui entra Deus, que preenche com seu infinito amor o que falta em mim de amor e de aceitação. Daí que a salvação seja ato de Deus, em dom que exige de mim aquilo que eu posso e consigo ser. Tenho eu que fazer e dar o que posso, não podendo deixar de o fazer porque o dom de Deus não preenche o que me compete a mim preencher, sendo que o que faltar é sempre ato de ausência da minha parte.


Não, não amamos perfeitamente, mas porque somos amados em perfeição, Deus supre e completa o que não somos capazes de fazer, no ato de amar os irmãos, a Deus ou a nós mesmos. Quer dizer que o nosso amor se torna, podemos dizê-lo, perfeito quando amamos em Deus. Esse amor sim, dá vida, é altruísta e nunca põe em causa a vida dos outros. O que não for assim vem do maligno.

sábado, 26 de agosto de 2017

Por Linhas Direitas

Diz-se que "quem nasce torto tarde  ou nunca se endireita". Já de Deus, diz-se que "escreve direito por linhas tortas".

Tortos, bem tortinhos, nascemos nós, uns mais que outros, dependendo da planta de onde rebentámos, mas também da educação que recebemos, o ramo em que fomos enxertados. Alguns teremos sido "enxertados em corno de cabra", tal a "tortice" que nos vai dentro.

Deixemos o grande leque de pessoas  mais ou menos tortas ou direitas que possamos ser e acreditemos que ninguém, nenhum de  nós,  está,  à partida, condenado a ser  eternamente torto. Cuidem-se os  direitos para que não caiam e tortos se tornem.

Adentrando-nos um pouco na história do Povo de Israel, que, no fundo, é a história de cada um de nós, ficamos de olhos arregalados pela forma "reta" como Deus "construiu e escreveu" séculos de vida de um povo que persistia em manter-se caminhando segundo "linhas tortas". Duas pinceladas de tinta, apenas, para pensarmos no quanto isto é verdade: nas origens, depois da desobediência vem, imediatamente, a certeza de que a Descendência da Mulher esmagará a cabeça do Maligno; a inveja dos filhos de Jacob leva-os a vender o irmão mais novo, o José, que, indo parar ao Egipto, se tornou-se ministro do Faraó,  e livrou da morte, pela fome, a sua família, que cresceu numerosíssima no Egipto. Depois vem a história da vida "oculta" de Moisés e a libertação do Povo através dele. A história de Rute, mulher estrangeira, de quem nasceu Obed, avô do Rei David.

Demos um salto até João Batista e Jesus, e sintamos como em momentos cruciais da história de um Povo, Deus opera a salvação.

Agora, entremos na nossa vida para, com atenta verdade, olharmos as maravilhas que Deus vai escrevendo em nossas vidas, tão distantes Dele, muitas vezes. Pode-mos não ver muito porque tortos são nossos olhares e nossos sentires de coração.

Felizes aqueles que podem apercebe-se de Deus presente em suas vidas.
É nossa a história do Povo de Israel...

                                                                                                                                26 agosto 2017

sábado, 19 de agosto de 2017

Acordo Necessário

Tiro e Sidónia são duas bonitas cidades a sul do Líbano, nas margens do Mediterrâneo, bem próximas do atual Estado de Israel. Também por aí Jesus passou anunciando a proximidade do Reino de Deus.

Uma cananea, sendo que Cananeus e Judeus eram figadais inimigos, vem atrás de Jesus a gritar pedindo que cure a sua filha "cruelmente atormentada por um demónio". Jesus atende-a porque os discípulos insistem que o faça, porque ela não se calava.

A reação de Jesus não foi propriamente a mais acolhedora (os Judeus tratavam os inimigos por cães). A mulher não se ofendeu e deu "luta" retribuindo com uma atitude de acordo com Jesus: "É verdade, Senhor...". Apresenta-se a Jesus com toda a humildade, mas com profunda fé e confiança. Não quis tudo, não exigiu de Deus. Pediu "migalhas", um pedacinho só. Consciente de que não era do seu povo, pediu pouco. Recebeu tudo.

Jesus foi "vencido". Porque lhe encontrou muita fé, fez-se como ela desejava. Deus é assim mesmo, dá tudo e dá-se todo a quem, com fé, a Ele se confia e pede um pouquinho. É assim mesmo a oração. Orar é estar de acordo com Deus. Queiramos ou não, Ele tem sempre razão e tudo conhece, por isso, se "desfaz" apenas no que é bom e no que é melhor. Deus deixa-se vencer por pouco e com pouco, contanto que estejamos de acordo com Ele na sua vontade.

Pode, por outro lado, ser bom o que queremos e pode Deus querê-lo também e, no entanto, não o conceder se não lho pedimos. Como lho pediremos se não pararmos em oração?

Claro que Deus sabe o que precisamos e queremos, mas não faz por fazer, quer a nossa tomada de consciência de que precisamos e Dele dependemos. Deus é altamente cavalheiro: cria em nós o desejo de Si, mas não se impõe, entra em nossa casa e em nós se for convidado e se Lhe forem abertas as portas em atitude de acolhimento. Orar é isso mesmo: querer o que Deus quer, acolhê-Lo em nós e apresentar a nossa vontade à Sua, para que ambas se tornem uma apenas.

                                                                                                                19 agosto 2017


                                                                                               

sábado, 12 de agosto de 2017

Vida de Glória

De forma "ligeira" vamos até ao Livro dos Génesis para percebermos que a morte é consequência do pecado (Cap 2,17). Para aqueles que acreditam em Deus, o Deus verdadeiro, há "três" vidas e uma ou duas mortes. Não, não falo de reencarnação, essa não acontece. Falo 1) de vida humana, que tem um começo e um fim; 2) de vida espiritual, que tem um começo (somos corpo e alma), mas não tem fim; 3) de vida divina, que tem um começo, no Batismo, e pode ter um fim, se acontecer a condenação. Esta, a condenação, é terrível e, ela sim, é a consequência do pecado. Além de terrível é eterna. O Livro do Apocalipse, no capítulo 20, fala de uma primeira e de uma segunda morte, de uma primeira e de uma segunda ressurreição.

Na próxima terça feira, dia 15 (agosto 2015), celebramos a Assunção de Nossa Senhora ao Céu. Nela não aconteceu o pecado, por isso não aconteceu a morte. O seu corpo, terminado o "tempo físico", foi, glorioso, elevado ao Céu.

Este é o fim a que somos chamados: a vida na Glória, com Deus. O pecado faz parte intrínseca de cada um de nós, nascemos com o pecado, a que chamamos de original. Por ocasião da morte do nosso corpo, seremos julgados e a alma será levada para a Glória, para a Purificação ou para a condenação, consoante o que buscámos ao longo da nossa existência terrena.

Acontece que somos corpo e alma e Jesus salvou tudo em nós, não apenas a alma. No Credo professamos acreditar que Jesus há de voltar para julgar os vivos e os mortos e professamos também acreditar na ressurreição da carne. Quer dizer que haverá um segundo julgamento. A alma unir-se-á ao corpo espiritual e, em julgamento final, será dada à pessoa (corpo e alma) a Vida ou a Morte. Esta será a segunda morte ou a segunda Ressurreição de que fala o Apocalipse.

Maria foi concebida, Imaculada, para dar Deus à humanidade e assim, por seu intermédio, aconteceu a nossa salvação. Agora, do Céu, Ela nos atrai e chama para  dar a Humanidade a Deus. Ela é um "encurtar caminho", porque é Mãe,  para chegar a Jesus e, por Ele, ao Pai.
Percebemos por que a invocamos de Senhora da Boa Morte. Porque nos atrai a uma santa morte, do corpo, em Deus, para que Nele haja Vida de Glória para nós.

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Um Burro Inteiro


São João Maria Vianney, nascido em 1786, no sul de França, foi um grande santo, mas intelectualmente era um estudante muito fraco. Em determinada ocasião,no seminário, de onde foi mandado embora, por não conseguir aprender,  o responsável disse-lhe: “João, os professores não o consideram apto para a sagrada ordenação ao sacerdócio. Alguns chamam-lhe ‘burro que nada sabe de teologia’. Como podemos promovê-lo ao sacramento da Ordem?”.

A resposta que São João Maria Vianney lhe deu tornou-se célebre: “Monsenhor, Sansão matou cem filisteus (foram mil, ver Livro dos Juízes 15,15-17) com a queixada de um burro. O que acha que Deus poderia fazer com um burro inteiro?”.    

Esta é a verdadeira confiança em Deus. São vários os aspetos a considerar: o sentir-se pequenino diante de Deus (um burro inteiro); a confiança de que Deus atua, também, nos fracos; e a mais importante: a obra e a ação são de Deus, não nossas. É Ele que opera em nós e através de nós (O que acha que Deus poderia fazer...).

Naturalmente, é de profunda importância o canal por onde passa a graça. Não passa graça o canal que não está em graça. O sacerdote é, por natureza do seu chamamento, canal "especial" de graça de Deus para a humanidade. A graça não depende dele mas poderemos dizer que a a "quantidade", a "qualidade" e a "eficácia" da graça dependem do seu estado de fidelidade. Quando digo que é canal "especial" é porque é chamado e enviado por Deus, atuando in persona Christi (na pessoa de Cristo), na administração dos sacramentos, particularmente nos da Eucaristia e da Penitência. Não são seus, nem obra sua, mas sem eles, os sacerdotes, estes sacramentos não acontecem.

Se a ação da graça de Deus depende, em certa medida, do canal por onde passa, ela depende essencialmente de quem a recebe. Aqui sim,  ainda que Deus derrame toda a graça, ainda que os canais sejam os mais perfeitos, se o recetor não estiver em ato de acolhimento, tal ação é nula. Porque batizados, todos somos recetores e canais da graça para os outros. Ela passa pela santidade de vida, não pela sabedoria da mente. Quanto Deus podia fazer se estivéssemos ao Seu dispor para que atuasse em nós e por nós!...

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Já Não é Segredo

Na descrição da terceira parte do segredo revelado por Nossa Senhora, em julho, a Irmã Lúcia diz: "Depois ... vimos ao lado esquerdo de Nossa Senhora, um pouco mais alto, um anjo com uma espada de fogo na mão esquerda. Ao cintilar despedia chamas que pareciam incendiar o mundo. Mas apagavam-se com o contacto do brilho que da mão direita expedia Nossa 
Senhora ao seu encontro. O anjo, apontando com a mão direita para a terra, com voz forte dizia: Penitência, penitência, penitência." 

Ao pensarmos na Mensagem de Fátima corremos o risco de não ir mais longe que sabermos os nomes dos videntes, a data das aparições e que Nossa Senhora pediu que rezássemos o terço. Talvez nem, ao menos, o terço sejamos capazes de rezar.

Lancemos o olhar sobre o o texto inicial: um Anjo com uma espada de figo na mão a lançar chamas sobre a terra. Temos dúvidas de que é sinal de que Deus fará justiça ao mundo dando-lhe aquilo que merecemos pelo pecado em que o mundo, a humanidade, vive? A chama apagava-se no contacto com o brilho que saia as mãos de Nossa Senhora. Temos dúvidas de que é sinal de que Nossa Senhora nos está a proteger e a "segurar" a mão de Deus, dando-nos mais tempo para a conversão? Temos dúvidas de que Nossa Senhora é Mãe que protejo os filhos dos "castigos" do pai? O Anjo apontava para terra e com voz forte dizia: penitência, penitência, penitência. Temos dúvidas de o tempo que nos está a ser dado exige penitência, conversão, abandono dos caminhos do pecado? Temos dúvidas de que a repetição da palavra é sinal da gravidade da situação? Com voz forte. Temos dúvidas de que o tom de voz aponta severidade e exigência de que assim se faça? Sim Deus é um Deus Misericordioso, mas a misericórdia cumpre-se na Justiça.

Em 100 anos passados que transformação houve nos caminhos que a humanidade tem percorrido? A humanidade está a desintegrar-se cada vez mais e a sua entrega aos poderes do mal é cada vez mais claro e evidente. Deus continua a ser profundamente ultrajado. Estamos à espera de quê para mudarmos de vida e nos voltarmos para Deus, com confiança, acolhendo e aceitado as propostas de caminho que nos faz. Não, não é para termos medo, é para tomarmos consciência  da situação da humanidade e da pessoa que cada um de nós é.