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sábado, 15 de junho de 2013

Acabei com a Minha Vida (25)

Carinhosamente pousou a mão sobre a dela e sentiu-a agarrada e apertada como se aquela jovem encontrasse, finalmente, algo em que lançar âncora no mar revolto da sua vida.
Mãos que falam, mas os olhares não se cruzaram. Bastava-lhe, pensou a Ninfa, sentir que tinha alguém que lhe desse a mão.  “Hi” - disse. A resposta foi um olhar fixo e mais lágrimas a correr.

“My father is…” disse, parando a frase ao ver que na bolsa da Ninfa figurava um pequeno emblema com a bandeira de Portugal.  Olhou-a bem nos olhos, apertou-lhe a mão e perguntou: “És portuguesa?” ao ouvir um sim envolvido num sorriso, tentou um sorriu também e continuou: “Também sou, vim, há dois anos, com meus pais.

Somos da zona das Caldas da Rainha, de um lugarzinho de Alvorninha. Tinhamos uma vida tranquila, sem grandes posses, mas vivíamos do pouco que nos era possível, nunca nos faltando nada se não a paz, que o meu pai nunca  nos conseguiu dar. Era um homem ganancioso, ávido de ter sempre mais, sem perceber que nem mesmo a nós, a minha mãe e os meus irmãos, ainda tinha.  Quando surgiu a hipótese de vir para os EUA, não pensou duas vezes, só via dólares diante dele, esquecendo que não era só ele, mas que tinha uma família e que todos nós tínhamos um olhar  diferente sobre o mundo e a vida.

Viemos, porque ele praticamente nos forçou a vir. Tinham conseguido trabalho para ele e para a minha mãe. Nós, os filhos, viemos por arrasto, deixando  em Portugal as nossas vidas, que eram feitas de trabalho, de escola, de amigos, de alegria.

Aqui, meu pai não via mais nada que trabalho. Não parava para descansar, não sabia o que era recusar um pequeno trabalho  por precisar de descansar ou para estar com a família, ou para vir  passar um dia connosco aqui em Nova York, simplesmente para estarmos juntos.
Em dois anos nunca fomos à Estátua da Liberdade porque era caro e porque ele tinha que trabalhar e porque era preciso poupar e porque (as lágrimas voltaram abruptas) nos não sabia amar.

Há dias, quando, de noite, voltavas cansado e esgotado pelo trabalho, num cruzamento de estradas, a falta de os reflexos impediu-o de evitar um camião  que rodava, barulhento, na 95, e, num instante, o meu pai perdeu até a vida, a pouca vida, que tantas vezes nós lhe dissemos que ele tinha.

Sabes, tantas vezes pensei que não tinha um pai, tantas vezes me não senti amada, tantas vezes tive vontade de desistir de tudo… e agora estou completamente perdida, não sei como lutar, não sei como aguentar, não sei como conseguir.


”Baixou a cabeça e chorou desconsoladamente.  Depois, a voz saiu-lhe frágil, sumida, apavorada, afogada: “Há 5 meses, «acabei» com a minha vida.”

domingo, 19 de maio de 2013

Gente Caída (24)


Caminhou em direção à estação Central do Metropolitano.

Acompanhava-a a solidão, uma solidão desejada e querida. Saiu simplesmente para observar e pensar. Pelo caminho viu gente agitada e apressada, jovens barulhentos em grupo, gente cansada de trabalho, homens e mulheres  a rir, gente de gravata e ricamente vestida, homens e mulheres vestidos de trapos e despidos de dignidade.

Dentro do mundo que é a cidade Nova Iorque, uma portuguesa caminha na noite, nunca saíra de casa tão tarde desde que estava nos EUA, e mede com o pensamento tudo o que acontece à sua volta:  enquanto se sente feliz por se saber amada, mesmo num país longe do seu, das suas coisas e suas gentes, pensa em quanta daquela gente que ali vive na noite se sentirá como ela, imagina quanta daquela gente se sentirá ser simplesmente um corpo sem alma, vazio de amor e distante de alguém que os ame!

Pais de família agarrados pelo álcool, que, ao longo dos anos, lhes veio apodrecendo a vontade de caminhar por sendas direitas. Jovens enganados pelo prazer que lhes é ministrado em límpidos cálices de gozo instantâneo que não passa além de ilusão de sentido. Crianças maltrapilhas agarradas ao nada dos contentores de lixo em busca de um pedaço de pão.

Pensou no mundo e na força dos dólares despejados  a “resmas” no mundo e no submundo da Broadway e de outros espaços de barulho, luz, cor e prazer. Mundos e vidas a viver em lados opostos e a roçar-se permanentemente por tão próximas se encontrarem.

“Porque é que Deus permite que tal aconteça se é Pai e Bom?” A resposta resvalou para compreensões de tempos passados quando, desde criança, ouviu dizer, vezes sem conta, que livres é que fomos criados, o ser humano em geral, e cada pessoa em particular. Livres para construir, mas com capacidade para destruir; livres para amar, mas com capacidade para odiar; livres para oferecer a vida por um filho que chora na noite do tempo ou da vida, mas com capacidade para recusar  um filho que nasce ou pede pão; livres para partilhar, mas com capacidade para o egoísmo.

Sentada a uma das mesas de um dos restaurantes “fast-food” da estação, uma jovem limpa os olhos com os dedos da mão com que segura a cabeça, como se quisesse estancar e abafar as lágrimas amargas que insistiam em não parar.

A Ninfa percebeu que era sofrimento real aquele. Tocada por uma força  impulsiva, vinda, não sabe de onde, sentou-se na cadeira diante dela e ficou, silenciosa, a olhá-la…      

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Pegou um Pedaço de Ar (23)


A pergunta instalou-se  e, teimosamente, foi-se-lhe aflorando ao pensamento, como se tivesse vida e não quisesse ser esquecida. Em jeito de quem exige uma resposta, insistia em não abandonar o seu pensamento. “Que estou eu a fazer da minha vida?”, era a mensagem que pesava em sua mente quando se sentou no sofá, desligou a televisão e fechou os olhos para pensar.

Deslizando como fantasmas, as memórias do passado dançaram-lhe em confuso movimento de fuga rápida. Por momentos, algumas delas paravam e o rosto da Ninfa manifestava o que lhe diziam, mais exactamente, o que lhe faziam recordar: sorrisos espontâneos e claros, bem como tristes tensões de face, e até mesmo algumas furtivas lágrimas.

O tempo passou e o filme da sua vida continuava a ser-lhe projectado por dentro: as traquinices com direito a umas palmadas duras por parte da mãe; as maçãs roubadas e as fugas de quem não quer ser visto, muito menos apanhado; as vinganças de criança sentida e magoada; os temas tabu, que nem o silêncio barulhento da mente fechada em si mesma permitia que viessem muito à baila; a presença da mãe e a compreensão magoada do pai, quando se viu metida em apuros; os sem-abrigo de Nova York ou de Lisboa… tudo foi ocasião para crescer e ser hoje a mulher que é. 

Sabia-se forte, sensível, decidida e palpitante de vida. Tinha consciência também de que muito do tempo da sua vida havia sido passado, mesmo desperdiçado, em coisas fúteis, vãs ou simplesmente menos essenciais, acabando, em muitas delas,  por se sentir vazia e pouco satisfeita consigo própria.

Tinha a impressão, quase pura, de que muitas correrias de lado para lado, muitos desejos de querer chegar lá bem longe, muita vontade de querer chegar depressa, a tinham feito caminhar mais ou menos sozinha, embora o barulho que ouvia de tanta outra gente a “correr” da mesma forma, lhe transmitisse a ilusão de que corria num pelotão de inúmeros corredores que buscam a vitória.

Os minutos longos, muito longos, que passou de olhos cerrados, absorta de tudo o mais, sentada no sofá a desfolhar a vida dos anos idos, deixaram-na mais leve, parecia, agora, ter pequenas asas e respirar um ar diferente, mas puro. Tinha escutado, tinha-se escutado a si mesma e à voz que, não sabe de onde, parecia fazer-se ouvir dentro de si.

A noite ia já adiantada, mas as luzes da rua criavam a ilusão de um dia quase de sol. Pegou numa bolsa com documentos e num pedaço de ar, ar que inspirou profundamente, e saiu para a rua e para o mundo..

sábado, 20 de abril de 2013

Das Origens do Souto da Carpalhosa


Das Origens do Souto da Carpalhosa
Igreja Paroquial (foto J. Baptista)
De origem sempre duvidosa,
É Souto de carvalho ou castanho.
Uma certeza: é a Carpalhosa
Que em diversas teses se emaranha.

Em tempo ido, foi terra de Azenha
Marginando o Chão da Laranjeira,
Onde, se espera, S. Bento tenha
Pão para a terra Camarneira.

Relvinha verde no campo vicosa,
Donde em Estremo d’ Ouro o sol reveste
O Vale de Pedra, onde crescem rosas
Com Sargaços de sabor agreste.

Corre da Carpalhosa a ribeira.
Vê-a São Miguel, de trás do Penedo,
Entrar, preguiçosa, na Carreira,
Como Criança levantada cedo!

Sai a moura bela da mina funda
E sobe, só, o Picoto, cansada.
Observa o Liz e, em um segundo,
Brotam lágrimas em fonte salgada.

Da Várzea o comboio faz cama,
E deita-se nela com o rio.
De ciúme a Arroteia se inflama,
E em noite de lua geme de frio.

Se fez de uma Moita grande Roda,
Afirmam os velhos bem certeiros,
Como dizem outros, também, ser
Do mar uma ilha os Conqueiros.

Em anos passados, muitos são,
Sorrateiras, sorrindo airosas,
Se afastaram, levando um brasão,
As vizinhas terras ortigosas.

                        Janeiro 2013

domingo, 7 de abril de 2013

Cai a Noite em Nova Iorque (22)


Cai a noite. Um dos milhares de sem-abrigo que rastejam pela vida, está ali  deitado dentro de uma caixa de papelão suja.

Quando chegou transportava em si a imagem de que os Estados Unidos seriam o paraíso na terra e uma das desilusões que apanhara foi o facto de encontrar gente sem número vagueando pela noite escura dos  sem esperança, gente cheia de nada e com mil razões para nunca esboçar um sorriso.

Haviam perdido o sabor dos sorrisos, da alegria e mesmo da vida. Diante deles não há placas a indicar direcções  ou caminhos. O destino para que se sentem chamados é vazio e por isso seus olhares só mostram o nada, são apagados.

Desde o primeiro dia, em que pisara aquelas paragens, que se sentia impressionada por essa certeza de que no país do Tio Sam também havia muitos milhões de pobres.

Enquanto caminhava saboreando o doce das palavras que escutara encostada ao mastro da bandeira de Portugal, parecia ter-se tornado ainda mais sensível àquela miséria adormecida nos vãos de escadas dos escritórios ricos de Nova York. Ela tinha quase tudo o que era preciso para se ser feliz, para se sentir única no mundo e na história.

Bem sabia que muitos outros tinham mais, mas o que tinha lhe bastava e nunca se sentiu desejosa de muito mais. Tinha uma família, inteligência e um curso que a encantava por se sentir atraída pelo que fazia, amigos sem número, embora os de peito fossem apenas um pequeno número, porque assim escolhera e não precisava de mais.

Tinha receio de dar esmola fosse a quem fosse, porque sempre ouvira dizer  que muitas vezes os mendigos não precisavam, que o que recebiam era para gastar em vícios, e que até mesmo o que se dava para instituições servia, em muitos casos, para ir enchendo bolsos de dirigentes. Já uma vez ou outra tinha discutido essas questões mas sempre sem aclarar ideias dentro de si.

Agora, caminhando, pensava que todos têm o direito de ser felizes, se não sempre, o maior de tempo possível. Se podia partilhar com aquela gente alguma coisa, porque é que havia de estar a pôr em causa o destino que dariam às suas ofertas? E não será que pudesse fazer alguém feliz dando um pouco de si, mesmo que não desse dinheiro?  Mas não tinha tempo…
O curso absorvia-a demasiado, e porque queria dar tudo para que a nota final dos seus estudos fosse realmente brilhante, sempre foi considerada a melhor aluna por onde passou na escola. Tinha medo de poder agarrar-se demasiado às suas coisas e a si mesma perdendo as oportunidades de estar mais próxima daqueles de quem ninguém se aproxima. Ousou pensar que era preciso arriscar.

Entrou em casa, ligou a televisão e recebeu a notícia de que duas crianças tinham morrido queimadas em casa, onde a mãe as deixara para ir trabalhar sem ter oportunidade económica para as deixar à guarda de alguém. Também ela não tinha tempo para seus filhos e perdera-os de uma só vez. Não queria acreditar que o dia terminasse assim. Ficou especada na sala, quase sem reacção. 

Perguntou-se: “que estou e u a fazer à minha vida?”  

domingo, 10 de março de 2013

Uma Lágrima Furtiva (21)


Voltou-se e viu atrás de si, um homem enorme, fardado, e percebeu uma voz que dizia “are you crazy”?. Pensou: “estou feita”.. Mas que é que foi”? Num inglês de americano zangado, o polícia manifesta bem a insensatez que ela estava a cometer ao atravessar uma passadeira com semáforo vermelho para peões. Tinha consciência de que de nada lhe valeria a pena estar a tentar explicações.

Aquele homem, mal encarado e a debitar “perdigotos” da boca à mistura com um linguajar stressado, dava bem a entender que não havia lugar para qualquer tipo de desculpas. Ainda disse, para não ficar calada, que por distracção, não tinha reparado, mas não se livrava de uma multa, que acolheu com um simpático “I’m sorry”.

Esperou, ao lado do americano, que o sinal passasse a verde e, de porte elevado e nariz alçado, em jeito de humor, atravessou a rua muito direitinha enquanto sorria e pensava “tinha-me feito jeito a oferta do galã da ponte. Vai bem o dia: um que, fazendo-se ao piso, me oferece mundos e fundos e outro que, logo a seguir, me tira algum do pouco que vou tendo. Estes gajos não existem”.

Continuou, passeio a cima. O telefone que toca. Pára e procura-o na bolsa. O medo de perder a chamada sem sequer ver de quem era fá-la mexer rapidamente todas as coisas.

Reinicia a caminhada e prime a tecla verde do telemóvel. Um encontrão no braço de alguém deixa-a parada e a rir-se: mais um americano, agora um com uma caixinha de comida “fast food” na mão e, certamente, tão distraído como ela. “Já não se fazem americanos como os portugueses” disse ela para o telefone, sentindo a saudade entrar-lhe na alma.

Do outro lado do oceano escutou um “que é que se passa?”  e viu, sem ver com o olhar, um sorriso aberto e cheio de ternura. “não importa, nada de jeito, só me interessa que te estou a ouvir”. Parou. Encostou-se ao mastro da bandeira de Portugal no Rockfeller Center e deixou-se encantar pela voz e pela conversa. Uma criança que cai na pista de gelo, umas gargalhadas silenciosas e uma mão de mãe que a levanta para que continue a patinar naquele pedaço de gelo artificial.

Uma paz que desliza lenta e profunda pela alma e se transmite ao corpo vai-se apoderando dela. Uma lágrima furtiva que sai e a tecla vermelha premida. Uma chamada desligada. Um beijo no telefone. Um coração cheio e uma paz divina que sente dentro de si.

Está em Nova York, a cidade que não dorme. Milhões de pessoas stressadas e impacientes que não reparam nela, que não sabem o que é ter paz interior e sentir-se amado e amar de verdade, e “é tão bom!”, pensa.

Cai a noite. Um dos milhares de sem-abrigo que rastejam pela vida, está ali…

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Se o Nosso Amor Permanecer... (20)


Pegou o livro e saiu tentando não ser muito agressiva nesse retirar forçado livraria onde foi procurar um livro que lhe desse umas luzes sobre o problema da bipolaridade. Queria embrenhar-se um pouco mais nessa questão, de que  ouvira falar numa das aulas quando ainda estava em Portugal. Sabia que tinha a ver com o humor de algumas pessoas que, de um momento para outro, sem ninguém perceber como nem porquê, muda radicalmente o seu proceder, ao ponto de nunca se saber bem de que lado estão.

Saiu e foi seguida. O jovem, bem parecido, vestido com roupas de marca e um sorriso luminoso a inundar-lhe o rosto apressou o passo e foi no seu encalço numa tentativa clara e, pelo menos na aparência, sincera de a conhecer. A aura que dela emanava encantou-o, como disse.

Ela, numa descrente dúvida, parou e esforçou-se por que não saísse de dentro de si qualquer pequeno sinal de acolhimento, como também não queria que ele se sentisse recusado à partida. Tentou, e conseguiu, ser terna porque isso lhe estava no sangue e os seus gestos eram disso sinal. Aura? De que estaria ele a falar? Para mais num inglês rápido que lhe causava insegurança pelo receio de não se fazer entender ou de não entender aquilo que por outros fosse dito.

A Estátua da Liberdade em fundo e os barcos deslizando na agua parada que banha a cidade, dão ao ambiente um tom de acalmia geral. Uma brisa  bafejara-os, fresca, como se tivesse atravessado a Brooklyn Bridge e refrescado com a água do canal. Um odor a Água Brava preenche-lhe as narinas e invade-lhe o corpo numa recordação quente de um passado recente.

Por momentos, esqueceu completamente que tinha uma pessoa diante de si e a sua mente pairou em terras lusas na recordação de um Homem que amava.

Abriu os olhos à realidade e viu diante de si um jovem encantador e a Estátua da Liberdade lá mais ao fundo. Sorriu e pediu desculpa, depois de ouvir uma declaração e uma data de promessas de mundos e fundos. Disse estar comprometida e não ter a mínima intenção de mudar o seu modo de lhe querer bem.

Com um sorriso aberto, despediu-se e caminhou para casa, parecendo agora que as ruas de Nova York eram menos pesadas no meio dos mamarrachos que as ladeiam. Passando em plena Wall Street recordou as promessas que acabara de ouvir de um jovem que parecia ser o dono da bolsa de valores ali ao lado.

Sorriu sozinha e disse de si para si. “Estou muito bem assim. Pode não ter muito mais que um banco de madeira para me oferecer, e se só isso ele tiver, ficaremos os dois, um dia, aí sentados, lado a lado, a olhar a vida a acontecer. Se o nosso amor permanecer isso me basta”.

Atravessou a rua encantada sem reparar num semáforo vermelho. Um briiiii de apito furioso, atrás de si, assustou-a.  

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Olhar Cheio de Luz (19)

Umas braçadas na água. A água fria arrepiou-o por momentos. Água parada num tom de cor cinzento-azulado. Muitas vezes ali havia tomado banho e naquele momento recordou muitos dos momentos de pura felicidade que as gargalhadas de criança que pareciam continuar ali perpetuando-se no tempo. 

Entrou dentro da água o mais que pôde e deixou que o corpo aliviado do stress subisse à tona e amortecido ali se manteve. Os olhos fechados e a respiração funda encheram de oxigénio e felicidade o sangue e o espírito. Desejou, nesse momento, transformar-se em nada ou em água e deixar que uma onda o transferisse sem tempo para o outro mundo. 

Encheu, forte, os pulmões e aliviou-os da pressão esvaziando-os lentamente meditando no seu sonho. Esboçou um sorriso ao pensar no sonho americano, o dele, que era tão diferente do das histórias de cowboys que na adolescência devorara. Simplesmente queria estar perto da pessoa que insistia em lhe invadir a mente e o coração. Abriu os olhos e voltou a cerrá-los porque o sol os inundara de luz directa. 

Saiu da água, deixou-se secar por momentos, ansioso por que a água se evaporasse quanto antes, não fosse chegar alguém e o encontrasse ali praticamente nu. Sabia que sendo feriado alguém poderia ter escolhido aquele espaço para passear à beira rio. O sol foi generoso e enxugou-o num ápice. 

Sentia-se pairar de felicidade. O amor era isso mesmo, pensava, estar longe de quem se ama mas não deixar de viver cada momento de coração palpitante. Amar exige morte de si mesmo  para que a pessoa amada possa sentir-se livre para fazer escolhas, para crescer, para fazer caminho, mas sentindo-se sempre protegida por um escudo invisível e de alta segurança, a energia positiva a que se chama amor. O sentido da palavra tão pronunciada e banalizada, hoje em dia, despe-se completamente de sentido de cada vez que quem julga amar se busca mais a sim mesmo, aos seus desejos, apetites e vontades, que ao outro. É por isso que o amor não se faz mas se constrói e se vive: se constrói subindo, degrau a degrau, as escadas de encanto ou desencanto, apoiando-se sempre  na certeza de se viver para o outro e por causa dele. Hoje sabia-se consciente de que amava verdadeiramente. 

Desembrulhou algumas das memórias na sua mente guardadas e viu a diferença do que agora sentia e de tantas outras vezes em que disse amar, mais sentindo prazer na voz, no olhar e no corpo, de algumas outras mulheres, que no querer que elas fossem livres e caminhassem com ele, a seu lado, não como ele queria. 

Sentiu-se despida por um olhar indiscreto. Rangeu os dentes. Pegou o livro…

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Atirou-se ao Rio (18)


Saíra de casa com ar de galhofeiro pela partida que pregara à mãe. Era feriado e por isso não tinha que ter ido trabalhar. Fez o que, desde a morte do pai, fazia, sempre que não tinha que ir trabalhar: umas saídas de casa, uns dedos de conversa com um ou outro amigo, umas cervejas frescas, que apelidava de loiras.

Na conversa, com “os três jeitosos”, como lhes chamou quando os vira descambou para a má língua. Palavra puxa palavra, e Gaby, roída de inveja, e sempre de língua preparada para cortar na vida fosse de quem fosse, lança a farpa do mal.

Não imaginando sequer que alguém ali presente se estivesse a sentir morrer de paixão pela Ninfa, lançou para o ar o viperino veneno dizendo que ela tinha partido para as Américas para fugir de uma gravidez indesejada. “Tás doida?” pergunta-lhe a Andreia, enquanto o Henrique franze o sobrolho e pensa “lá volta ela a atacar quem consegue singrar na vida”.

As entranhas revolveram-se-lhe e sentiu um ódio frio subir-lhe o corpo. Os olhos humedeceram-se, os lábios semi-cerrados deram ênfase ao “v” quando lhe disse: “Víbora. Tens tanto veneno, Gabriela, que sem te dares conta a tua vida acabará afogada nele” e saiu para não arrancar um par de estalos e lhe marcar a cara com eles para sempre.

Chorou, caminhando sem reparar onde punha os pés, nos odores que as flores exalavam, ou na vida que continuava a acontecer. Pensava no rancor que sentia pela Gabriela: se já a não “gramava”, acabava-se de vez, nunca mais lhe dirigiria a palavra.

Estava decidido a nunca falar mal de ninguém “como se pode ser tão injusto, que interesse tem esta gente em criticar, em fazer mal? Como é que as pessoas não têm coragem ou capacidade para julgar, em princípio, bem as pessoas? Será que alguém lucra alguma coisa com o mal que, entre dentes, ou descaradamente se levanta sobre os outros? Gente hipócrita…” pensava.

O coração só acalmou o ritmo das batidas ao pensar na certeza que tinha de que ela, a mulher que amava, partira por ter tido capacidade, por ter lutado e conseguido chegar um pouco mais longe na vida que ”aquela parva” que nunca foi capaz de sair da cepa torta”  O ritmo cardíaco voltou a acelerar.

Como era seu hábito desde a transformação que nele se operara pela morte do pai, rebuscou a memória o procurou a Palavra de Deus e que lhe diria ela sobre o que estava a viver. 

Pensou na mulher adúltera, na trama que se gerou à sua volta e na reacção de Jesus. Ficou aliviado. Olhou à volta, ninguém via, ganhou coragem, preparou-se e atirou-se ao rio.



terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Nem ele se entendia a si mesmo (17)


Ela partira havia um pouco mais de oito dias. Desde então, ele não parecia o mesmo. No dizer de uma vizinha, aquele rapaz era muito fácil em deixar-se ir abaixo rapidamente, na tristeza, mas com qualquer boa notícia, parecia subir aos céus como se a vida não tivesse quase a obrigação de nos ir cravando na carne uns espinhos que façam lembrar o quanto se é pequeno e limitado.

De um entusiasmo esfuziante passou a uma tristeza melancólica. Ninguém o entendia, pensava ele, como sentia também não se entender ele a si próprio. Ela partia na busca da realização de um sonho seu, porque haveria ele de ficar a lamentar-se pelos cantos como se isso representasse quase o fim do mundo?

O olhar e o beijo com que, no aeroporto, se tinham despedido gravou nele a certeza de que, naquele momento, tudo sentiam um pelo outro. Mas o levantar sonoro do avião levou para longe, bem longe, um pedaço de si. O coração, meio lamechas, tinha-se partido e metade fora com ela para os Estados Unidos e o espaço que dele ficou tornou-se vazio e escurecido pela saudade.

“Levanta-te, homem!” ouviu a mãe dizer, quando chegou a casa vinda de uma consulta médica. “Andas para aí meio morto, olha que um homem é um homem e um bicho é um bicho! Vais ficar eternamente anestesiado de saudades só porque a mulher que amas foi estudar para longe? Ai filho - continuou - o que seria de ti se fosses tu a estar nas minhas vezes quando o meu pai, o teu avô foi alistado para o Ultramar! Sabes que são as mágoas que arreigam as forças humanas, espetam-nos as raízes no coração e na vida e nós ficamos mais fortes! Vá lá, deixa arribar essa alegria e em vez de pensares em ti agora acredita em vocês os dois daqui a meia dúzia de anos. Se o amor existir, nada vos pode separar.”

Atirou-lhe com o resto da água que ficava no copo em que acabava de beber. Molhou-a, deu uma gargalhada sonora e, enquanto se esquivava a umas simpáticas palmadas com que a mãe parecia ameaça-lo por tê-la molhado, disse: “tenho a  melhor mãe do mundo.” E esgueirou-se porta fora.