domingo, 10 de março de 2013

Uma Lágrima Furtiva (21)


Voltou-se e viu atrás de si, um homem enorme, fardado, e percebeu uma voz que dizia “are you crazy”?. Pensou: “estou feita”.. Mas que é que foi”? Num inglês de americano zangado, o polícia manifesta bem a insensatez que ela estava a cometer ao atravessar uma passadeira com semáforo vermelho para peões. Tinha consciência de que de nada lhe valeria a pena estar a tentar explicações.

Aquele homem, mal encarado e a debitar “perdigotos” da boca à mistura com um linguajar stressado, dava bem a entender que não havia lugar para qualquer tipo de desculpas. Ainda disse, para não ficar calada, que por distracção, não tinha reparado, mas não se livrava de uma multa, que acolheu com um simpático “I’m sorry”.

Esperou, ao lado do americano, que o sinal passasse a verde e, de porte elevado e nariz alçado, em jeito de humor, atravessou a rua muito direitinha enquanto sorria e pensava “tinha-me feito jeito a oferta do galã da ponte. Vai bem o dia: um que, fazendo-se ao piso, me oferece mundos e fundos e outro que, logo a seguir, me tira algum do pouco que vou tendo. Estes gajos não existem”.

Continuou, passeio a cima. O telefone que toca. Pára e procura-o na bolsa. O medo de perder a chamada sem sequer ver de quem era fá-la mexer rapidamente todas as coisas.

Reinicia a caminhada e prime a tecla verde do telemóvel. Um encontrão no braço de alguém deixa-a parada e a rir-se: mais um americano, agora um com uma caixinha de comida “fast food” na mão e, certamente, tão distraído como ela. “Já não se fazem americanos como os portugueses” disse ela para o telefone, sentindo a saudade entrar-lhe na alma.

Do outro lado do oceano escutou um “que é que se passa?”  e viu, sem ver com o olhar, um sorriso aberto e cheio de ternura. “não importa, nada de jeito, só me interessa que te estou a ouvir”. Parou. Encostou-se ao mastro da bandeira de Portugal no Rockfeller Center e deixou-se encantar pela voz e pela conversa. Uma criança que cai na pista de gelo, umas gargalhadas silenciosas e uma mão de mãe que a levanta para que continue a patinar naquele pedaço de gelo artificial.

Uma paz que desliza lenta e profunda pela alma e se transmite ao corpo vai-se apoderando dela. Uma lágrima furtiva que sai e a tecla vermelha premida. Uma chamada desligada. Um beijo no telefone. Um coração cheio e uma paz divina que sente dentro de si.

Está em Nova York, a cidade que não dorme. Milhões de pessoas stressadas e impacientes que não reparam nela, que não sabem o que é ter paz interior e sentir-se amado e amar de verdade, e “é tão bom!”, pensa.

Cai a noite. Um dos milhares de sem-abrigo que rastejam pela vida, está ali…

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