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segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Viveria com intensidade (11)


Era diferente o sentimento que o preenchia desde a morte do pai. Os momentos de dolorosos calafrios por que fora obrigado a passar fizeram-no revolver o pensamento e a forma de ver e assumir as coisas: sem saber por que força era movido, os dias tornaram-se mais solarengos e as pessoas pareciam mais alegres. 

Vivia uma fé de forma um tanto quanto morna e quando lhe falavam em aprofundá-la, em vivê-la com um pouco mais de intensidade, achava, embora na maior parte das vezes o não dissesse, que isso era pura demagogia e, mentalmente, concordava com Karl Marx, que afirmava que “A religião é o ópio do povo”. Meia dúzia de conversas e tretas que meio mundo inventa para manter alienados os pensamentos e ideias dos mais doutos. Embora não renegasse, também não defendia que a fé, como a oração, tivesse qualquer valor no viver feliz do ser humano.

“És muito tolo” exclamou ao fixar os seus próprios olhos enquanto, nessa manhã, se barbeava diante de um espelho salpicado de pequenas gotas de água. Falou de si para si, como se um outro eu o estivesse a censurar por ter vivido uma data de anos longe de si mesmo e da fé que, pais e catequistas, haviam tentado incutir-lhe desde a mais tenra infância.

Sorriu por sentir que esses tempos já lá iam e que o importante era o agora, o hoje em que se sente cheio de força e ânimo para achar que muitas das coisas do passado, sem deixarem de ser minimamente boas, podiam ter sido bem mais entusiasmantes e ter sido fonte de uns bons sorriso, gargalhadas mesmo, e umas “patifarias” num qualquer grupo de jovens, de vários, para os quais foi convidado a participar. “Que me interessa isso, agora?”- pensou.

Tinha razão. O passado era passado e passaria a ser mera reminiscência no futuro porque o presente iria abafar o que de menos bom pudesse haver dos tempos idos. E isso que lera um dia num livro que, por breves momentos, folheara enquanto aguardava que uma colega de escola viesse com meia dúzias de cábulas que ele lhe pedira para um teste de matemática?

Recordou que a ideia impressa naquelas páginas lhe gravara levemente a certeza de que a vida somos nós que a construímos e que não há que lamentar passados nem que empolar futuros porque o que importa mesmo é o momento presente, porque é esse que importa, porque é esse, simplesmente esse, que existe. “Tinha razão Chiara Lubich”- pensou. 

Sentia, agora, que importava o muito que ainda teria para viver. Fá-lo-ia com intensidade, e não deixaria de se manifestar positivamente diante fosse de quem fosse.

Pegou na chave do carro, alisou o cabelo e, em passo de dança, saiu.

sábado, 20 de outubro de 2012

O Céu falou (10)


Noite de sábado para domingo. O vendaval fez-se presente com frio chuva e vento. Noite terrível. O dia de domingo amanheceu chuvoso. O funeral estava marcado. O tempo parecia não querer colaborar. Os amigos vieram às centenas. Era um homem benquisto lá na terra. Uma da tarde, chegam as primeiras pessoas. A chuva pára. Tudo está preparado para o  momento da última despedida cá na terra. Uma hora depois, o padre vem e o silêncio torna-se ainda maior: inicia-se a celebração. A chuva, como em momento de graça, tinha parado. 

É a última vez que o seu corpo está na casa que, em muitos anos, foi o templo do sofrimento e das alegrias do casamento. Duas filas se organizam e o cortejo avança. Céu nublado. 

O nosso homem do banco de madeira olha o céu em jeito de implorar dele um sinal. E ele aconteceu: o céu de nuvens abriu-se em acto de milagre, as nuvens romperam-se e um nesga de sol brilhou por uma questão de segundos. Mais ninguém viu, mais ninguém sentiu, mais ninguém olhou, mas essa era a certeza de que, lá do céu, com uma ternura de mãe, aquele pai olhava os seus filhos. Os raios de sol tocaram-lhe o coração, que, embora a tristeza se mantivesse, deixou cair a amargura e se encheu de esperança. A caminhada para a igreja, e mais tarde para o cemitério, tornou-se leve e a escuridão deu lugar a uma luz doce.

Terra fria. Terra molhada. Terra danada e agre cobre a urna. O seu corpo desaparece para sempre. O regresso tranquilo de todos a suas casas, a chuva permitira isso, para depois voltar a cair, desalmadamente, sobre tudo e todos. O milagre acontecera, a sua oração fora ouvida, o tempo parou para permitir que o funeral decorresse sem quaisquer percalços.

Voltou a casa. Trazia agora a certeza que em tempos de catequese apreendera das palavras da sua catequista: Deus existe. Deus é Pai. Deus é Misericordioso. Deus olha por nós, em qualquer momento e situação.

Confortou-o a esperança de que seu pai estava vivo, agora na intimidade de Deus, agora ainda mais próximo de seus filhos. As lágrimas não corriam já, pois haviam dado lugar a um sentimento de gratidão. Deus chamara seu pai porque o queria junto de Si, porque o não queria ver sofrer mais, porque tinha um lugar preparado pare ele na Eternidade, porque Ele assim quis. Sentia agora seu pai bem mais próximo que quando o podia tocar, sentir e beijar. Sorriu fundo, sem nada dizer a ninguém, mas sabendo ser agraciado por Deus. A vida acabava de ganhar um sentido novo, seu pai estava ressuscitado em Deus.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Silêncio Sepulcral (9)


... saiu com uma alegria semi-contida, eu diria, mais interior que exterior: pensamentos e sentimentos tristes numa mistura de alegria por saber que não tinha embarcado na ideia de dinheiro fácil que o homem gordo e feio do jornal lhe havia, aparentemente, mostrado.
O dia iria ser longo, muito longo mesmo, na história dos anos futuros. Não tinha ainda virado a esquina do café. Depois de ter levantado o braço para saudar alguém que passava de carro e lhe tinha feito o mesmo, sem que ele tivesse tido tempo de saber quem era, viu uma sua prima caminhando em direcção a ele.

Sem que pudesse controlá-lo, um arrepio gelado percorreu-lhe o corpo de alto abaixo. Ao vê-la, percebeu que alguma coisa de diferente se passava, aquele não era o sentimento normal que tinha quando a via, conheciam-se muito bem, ou não tivessem eles crescido a partilhar uma amizade séria e bela.

Interrogando-se, caminhou em sua direcção.

Ao perceber nela um olhar fundo e frio e a ausência do sorriso que, usualmente, lhe transborda do rosto, o coração apertou-se-lhe no peito: inevitavelmente, aquele seria um momento dramático. Sem perceber ainda porquê, recebeu o abraço da prima e acolheu-lhe as lágrimas  com o ombro, esse a que se chama de ombro amigo.

Da boca não saiam as palavras e ela ficou ali, num abraço parado, buscando forças para dizer o que tinha que ser dito, mas que lhe tinha também bloqueado a voz. Afastou-se para o olhar nos olhos. Ainda de rosto pesado fixando o chão, como se não quisesse que ele visse que chorava, passou os dedos das mãos pelos olhos e pelo rosto para limpar as lágrimas que caiam teimosas.

Olhar vermelho, não de ódio, porque esse só os maquiavélicos o conseguem alcançar, mas de tristeza e medo. Olhou-o, respirou fundo para ir buscar as palavras lá bem no fundo do peito, e carregando-as de força para que não se ficassem pelo caminho. “O teu pai...” disse ela em sufoco. Mais nada saiu, apenas novo abraço um soluço sonoro e lágrimas. “Morreu?” perguntou ele com uma certeza absoluta de que era verdade.  Sentiu o queixo dela no seu ombro dizer sim num abanar lento de cabeça porque as palavras voltaram a não sair.

Ele era filho e ela era como se o fosse também. Muito do tempo e muitas das histórias da sua infância tinham sido passadas em casa dos tios, nas brincadeiras com os primos, em algaraviada de pôr os nervos em franja a quem deles se ocupava. Percebia, agora que grande parte da sua vida fora passada ali, por isso sentia que com a morte do tio lhe morria um pai.

O silêncio tornou-se sepulcral. Só o fungar de narizes entupidos se fazia ouvir.

Sem palavra, lado a lado, caminharam rumo a casa. Era estranho, muito estranho, aqueles dois estarem juntos em silêncio.

domingo, 7 de outubro de 2012

Mundo de explorados (8)


… Uma caiu-lhe sobre a camisa azul-bebé e deixou-lhe uma marca.
Recordou-se, como se estivesse em dia de más memórias, de quando ouviu comentar, lá na sua terra, que uma jovem dos seus tempos de escola havia sido violentada fisicamente, numa tentativa de abuso por parte de dois desconhecidos. Marcou-o tanto o facto, simplesmente porque nutria, nesse tempo, um sentimento profundo de amizade a que ele não hesitava em chamar amor. Nesse dia uma semelhante lágrima lhe banhara o peito.
O Carlos partiu: despediu-se e  saiu sem, graças a  Deus, se ter apercebido do que perpassava na memória do homem do banco de madeira.
      
     Voltou, sem querer evitar, a pensar na Clara, na mistura de sentimentos com que ele mesmo a olhou depois daquele dia: um misto de compaixão e ódio fervilhava dentro de si. Compaixão para com ela, e asco que nutria para com aqueles que dela quiseram retirar prazer. Meditou em todas as situações que  lhe vieram à mente e lhe fizeram aquecer e dilatar mais o ódio para com todos os que, de qualquer modo usavam os outros para crescer na vida ou neles assentavam bases para uma desregrada busca de prazer.

       Agora, que estava sozinho sentado à mesa do café, teve tempo para uma reflexão diferente. Por acaso parara-lhe, dois ou três dias antes, nas mãos, um episódio bíblico referente à jovem e aos velhos que, por vingança, pediam a morte para ela. Percorria o mundo à sua volta, as notícias e a publicidade dos meios de comunicação social.

       Percebeu, em momentos, que vivemos num mundo que cresce à base da exploração, tanto dos sentimentos como dos bens dos outros: exploram-se as crianças exigindo-se-lhes que cresçam depressa demais e sem tempo nem espaço para viverem com intensidade todos, e cada um, dos momentos ou etapas da vida; exploram-se os adolescentes levando-os a experiências novas e “radicais” que os puxam para fora de si mesmos, e não para a vivência radical da vida, seguindo slogans que chamam a usar a vida e não a vivê-la; exploram-se os jovens a quem, muitas vezes, não se dão oportunidades de trabalho, nem motivos ou espaço para repartirem a sua generosidade; exploram-se os pais a quem tudo se exige para que os filhos não caminhem sem o mesmo (e falso) nível de vida dos outros que comungam da mesma idade; exploram-se os sentimentos para os usar em proveito próprio, como se até eles fossem descartáveis; explora-se a natureza a quem tudo se pede em questões de matérias-primas e a quem de agradece depositando nela o lixo que a intoxica e destrói.

        Atirar a primeira pedra por parte de quem não tem pecados? Quem? Pensou: ainda que o quiséssemos não poderíamos livrar-nos desta sociedade de exploração. Mas poderíamos, pelo menos ser diferente e limpar o mundo de tudo o que é lixeira humana.

        Levantou-se, pegou no jornal, pagou o café, agradeceu e…