
A menina, essa,
cresceu confiante e bela. Foi, sempre foi, o encanto da mãe. Mas a mãe tinha
perdido um bom pedaço da sua vida, quando, nos braços, lhe morreu o menino para
dar vida à irmã, ainda menina a esse tempo.
A mãe viveu a sua
vida a meio tempo porque o outro meio tinha parado no seu menino. A menina
cresceu cheia de vida. Quase cheia, porque, no intuito de viver tudo, uma parte
dela era ingratidão. Vivia uma vida que lhe fora dada, sem entender que não
viveria de outro modo, sendo que assim, se diria que a vida não era sua mas de
um irmão, pequenino, que morreu para ela viver.
E a mãe, cada dia,
vivia muito por ver a filha crescer e sentir-se feliz, mas cada dia aquela mãe
deixava de viver um pouco por perceber que parte do ser daquela sua filha era
aparência, não correspondia totalmente à verdade do seu ser. No fundo, não era
verdadeira vida. Mas, sabia também que um filho seu era agora, ela tinha bem certa a certeza, um anjo a velar no Céu,
o Céu da vida, onde nada há que não seja felicidade.
E a mãe reza e pensa
e lança pequenos sinais de alerta à filha, para que, sem lhe coarctar a
liberdade, ela se dê conta e seja grata e veja que a vida não é para ser
simplesmente gozada, mas vivida com intensa precaução porque tem o preço da
vida de um filho, um filho seu, e dela um irmão.
E a chora lágrimas
invisíveis por a ver morrer muito devagarinho numa vida de aparente gozo de
felicidade, numa ilusão que só vive quem não sabe ser mãe e ser pai e ser irmão
que dá vida.
E a Mãe chora e sofre
quanto é possível chorar e sofrer, por ver que uma filha sua se pode perder da Vida, num mundo de morte, já quase pedido. Teme que entre num ponto sem ter
volta a dar.
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