quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Amo-te Muito (5)


Ela olhou-o bem fixamente nos olhos aguardando com expectativa o que ele iria dizer. Ouviu-lhe sair da boca um “Amo-te muito”. 

Eram eles os únicos filhos daquele casal que, havia já muitos anos, tinham vindo do norte, para se fixarem a trabalhar na periferia de Lisboa.

Com a perspectiva da partida do irmão atrás de amores virtuais e desenraizados da realidade da vida, ela sentia-se aterrorizada com a ideia de ter que vir a cuidar sozinha do pai que, entretanto, tinha já dado fortes sinais de estar a ser dominado pela debilitante doença de Alzheimer. 

Aquele abraço e o “amo-te” traziam a magia reconfortante da certeza de que a família não se estava a esfarelar, pelo contrária, parecia estar mais unida e solidificada na comunhão.

Depois, havia o bebé que estava para nascer. Naquela momento, Raquel sentia-se renascer, depois de atravessar longos dias de amarga solidão, em que tudo parecia escurecer a partir de dentro, porque o coração teimava em perder as suas forças. 

Raquel riu-se e disse - parece que o menino acendeu uma grande lanterna dentro de mim, sinto-me cheia de luz e apaixonada pela vida e por tudo o que gira à minha volta. Vamos dizer aos pais que tu estás cá.

Falaram e riram pelo caminho, como dois adolescentes apaixonados. “espero que não lhes dê nenhum chelique quando te virem aqui - disse ela - para eles tu já partiste, e olha que estávamos todos convencidos de que não voltarias tão depressa”. Deu-lhe um empurrão com uma das mãos enquanto lhe chamava parvo.

Ele sabia que ela não poderia fugir a correr por estar grávida de nove meses. Fingindo que lhe dava uma palmada por ela lhe haver chamado parvo, passou-lhe o braço esquerdo pelos ombros e com a mão direita, acariciou-lhe o ventre, fez cara séria para dizer “acho que não me ia aguentar muitos dias longe de ti, do pai e da mãe... concordo contigo: fui mesmo parvo ao pensar deixar-vos e ir em busca de alguém desconhecido. Como pude pensar isso se tenho a minha mana barriguda que está sempre comigo?” Riram satisfeitos e assim entraram em casa dos pais, a casa que era a sua também. 

Sempre lá encontraram conforto. Muitas vezes aí tinham sido repreendidos e muitas lágrimas aí tinham derramado, mas a verdade é que era aí que se sentiam bem, porque aí viveram sempre amados, porque para aí correram, como ainda agora fazem, sempre que se sentiam no desconforto da dúvida, do medo e dos fracassos. Foi aí que sempre foram reconfortados. Foi aí que construíram a família que continua a ser a razão e a base da sua segurança.

Na parede uma imagem da Sagrada Família, estrategicamente pendurada, parecia acolher todos aqueles que na porta entrassem. Por baixo, sentado numa cadeira, e com a esposa a animá-lo, no meio de lágrimas teimosas, o pai rezava para que o filho voltasse. E voltou, nem chegara a sair da estação. 

Ao vê-lo as lágrimas correram mais, mas a fonte era agora a emoção e a alegria…    

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