O
sonho da mãe, que não teria mais que 23 anos, assim se realizava. Mas aquele
menino foi o encanto não só dela, mas de toda a família.
Haviam passado já 20 anos, que mais
pareciam uma eternidade, sem que se sentisse a alegria do nascimento de uma
criança naquela família.
A bisavó, uma velhinha simpática de
rosto bonito, na casa dos 80, dizia sentir o coração desfalecer por
permanentemente lhe aflorar a ideia de que morreria sem ver o seu “netinho”. A
notícia fê-la rejuvenescer, como a fez encher de felicidade e deixar correr uma
ou outra lágrima solitária a presença daquele grupo de gente nova.
Por vezes sentia-se só. A presença de
cada um deles era mais preciosa que a mirra, o incenso ou ouro que os Magos
tinham oferecido ao Menino Jesus. Cada presença, ela sentia-o, era o melhor dos
presentes que poderia receber.

Numa das páginas apareceu-lhe a
foto de um homem negro e com um boné, tipo tupperware, enfiando na cabeça
gorda. Era feio mas a mensagem que por baixo dele se apresentava era tentadora.
Solução barata para os problemas de dinheiro, que não abunda na sua conta
bancária e que quer sempre diminuir, mais ainda em tempos de crise; solução
barata e cem por cento garantida para os problemas de amor e de atracão de
parceiros.
O trago de café que engoliu nesse momento tornou-se gelado e amargo
diante da imagem que a recordação de um segundo lhe trouxe à mente. Ela estava
lá de olhos semi-cerrados a impregnar-lhe a mente com perfume sedutor.
Repentinamente voltou a desejá-la.
Sacudiu a cabeça como quem quer forçar uma ideia a sair. Mas os cem por
cento de garantia anunciados pelas palavras do homem gordo do jornal caíram-lhe
fundo na vontade. Pôs-se a fazer contas à vida e num sopro de razão pensou que
era tudo uma patranha para lhe fazer minguar ainda mais a conta do banco.
Pensou em como as tentações ligeiras podem tornar-se drama ao recordar a
sobrinha que, anos antes, lhe confidenciara que gostaria de experimentar fumar
droga para saber como era. Agora restava-lhe um rosto triste, desmaiado de cor
e vazio de expressão. A sua vida tinha-se arruinado e a de seus pais estava a
crescer regada pelas lágrimas.
Recordou o que na adolescência lhe falaram no grupo de jovens e, ao
sorrir por recordar os “bons velhos tempos”, embora apenas dois ou três anos se
tivessem passado, em que corria de lado para lado para não faltar a nenhuma das
actividades daquele grupo em que estava inserido.
E recordou que se sentira rejeitado quando tinha falado em namoro à Ana.
Voltou a ficar triste e do coração
subiu-lhe a ideia de que não tinha sorte na sua relação com mulheres.
Não fazia mal nenhum e ninguém tinha que saber! E se telefonasse, só
para saber como era, para o número de telefone que parecia florescer naquela
folha de papel escuro de um jornal diário? Mas… e a irmã que ele tanto amava, e
a mãe que continuava a carregar a cruz, desgastando a vida do seu corpo e
acumulando “créditos” para a eternidade, cuidando do pai, que piorava na sua
doença? Que pensariam… que diriam… que sentiriam eles se soubessem que ele
estava ali tentando a voltar a correr atrás da ilusão?
“Vai dar tudo certo”, disse de si para si enquanto marcava um número de
telefone. Sinal de chamada. O seu corpo tremia...
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