quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Estava viva e amava-o (16)

Num momento passou-lhe pela mente a imagem de morte numa certeza absoluta de que ela era real e numa certeza absoluta e confusa de que estaria a sonhar porque esse momento não podia ser real. Envolveu-o  a imagem de uma ninfa esmagada pelos rodados grossos do camião. Parou petrificado e assim ficou até ao momento em que o roncar daquele mostro se fizeram ouvir mais intenso, enquanto  negras massas de fumo se iam desvanecendo para...

domingo, 9 de dezembro de 2012

Corações Ardentes (15)

Estava decido. Ela iria partir e ele, por muita vontade que tivesse, não iria sequer manifestar-lhe o desejo de que não fosse. Sabia que o amor não era fazer o que ele queria, era mais o ele querer o que ela desejava para si mesma, o estar presente junto dela. E havia tantos modos de o fazer! Sairam do café de coração a arder. Foram poucos, mal imaginavam que isso iria acontecer mil e uma vez daí em diante, os momentos que estiveram juntos, mas tinham...

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Saudades de ti (14)

Não tinha uma flor para lhe oferecer. Só palavras lhe poderiam sair do peito para começar a exprimir o que nesse momento sentia. Antecipando-se, sem sequer pensar no que poderia ele estar a querer tirar de dentro de si, disse ela, dando um solene tom de entusiasmo ao acontecimento que anunciava. O tão sonhado  momento de poder vir a  estagiar nos Estados Unidos iria concretizar-se: finalmente tinha-lhe sido concedida a bolsa de estudo...

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Amor e Paixão (13)

A porta semi-aberta do café forçou a que, cavalheirescamente, ele recuasse um passo para deixar a Ninfa entrar primeiro. Uma fragrância com tom de uma qualquer especiaria, para ele desconhecida, penetrou-lhe as narinas para se embrenhar no cérebro, agora aliviado e disponível para se deixar marcar por novas experiências de vida.  A atracão que minutos antes tinha sentido pela Ninfa, de seu nome próprio, Cristina, parecia intensificar-se...

sábado, 10 de novembro de 2012

Nunca tinha reparado que eras tão bela (12)

Sentia-se com uma capacidade incrível de mudar o mundo todo de uma só vez. Era realmente um homem novo, cheio de sonhos e entusiasmos. Caminhava de cabeça erguida e batida por uma leve brisa, que lhe dava um ar de frescura. Tudo dava a entender que quase voava. Um pensamento. A mão levada ao bolso. A carteira que lá não estava. Esquecera-se dela em casa. A ideia de ir beber um café, e a constatação de que não levava carteira, despoletara nele...

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Viveria com intensidade (11)

Era diferente o sentimento que o preenchia desde a morte do pai. Os momentos de dolorosos calafrios por que fora obrigado a passar fizeram-no revolver o pensamento e a forma de ver e assumir as coisas: sem saber por que força era movido, os dias tornaram-se mais solarengos e as pessoas pareciam mais alegres.  Vivia uma fé de forma um tanto quanto morna e quando lhe falavam em aprofundá-la, em vivê-la com um pouco mais de intensidade, achava,...

sábado, 20 de outubro de 2012

O Céu falou (10)

Noite de sábado para domingo. O vendaval fez-se presente com frio chuva e vento. Noite terrível. O dia de domingo amanheceu chuvoso. O funeral estava marcado. O tempo parecia não querer colaborar. Os amigos vieram às centenas. Era um homem benquisto lá na terra. Uma da tarde, chegam as primeiras pessoas. A chuva pára. Tudo está preparado para o  momento da última despedida cá na terra. Uma hora depois, o padre vem e o silêncio torna-se...

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Silêncio Sepulcral (9)

... saiu com uma alegria semi-contida, eu diria, mais interior que exterior: pensamentos e sentimentos tristes numa mistura de alegria por saber que não tinha embarcado na ideia de dinheiro fácil que o homem gordo e feio do jornal lhe havia, aparentemente, mostrado. O dia iria ser longo, muito longo mesmo, na história dos anos futuros. Não tinha ainda virado a esquina do café. Depois de ter levantado o braço para saudar alguém que passava de...

domingo, 7 de outubro de 2012

Mundo de explorados (8)

… Uma caiu-lhe sobre a camisa azul-bebé e deixou-lhe uma marca. Recordou-se, como se estivesse em dia de más memórias, de quando ouviu comentar, lá na sua terra, que uma jovem dos seus tempos de escola havia sido violentada fisicamente, numa tentativa de abuso por parte de dois desconhecidos. Marcou-o tanto o facto, simplesmente porque nutria, nesse tempo, um sentimento profundo de amizade a que ele não hesitava em chamar amor. Nesse dia uma...

domingo, 30 de setembro de 2012

Costas voltadas a quem ama (7)

De telemóvel ao ouvido, escutava a “tuuu… tuuu” indicador de que a chamada estava a efectuar-se normalmente segundo as leis do mundo digital. O tremor e o suor do corpo faziam-no sentir-se inquieto e perturbado, como se um sonoro despertador abanasse dentro dele. Por graça de algum anjo que o acompanhasse, do outro lado ninguém o atendeu. Desligou. Percorreu-o a certeza de que esse era o sinal positivo de que o que estava prestes a fazer...

domingo, 16 de setembro de 2012

Um sonho e uma ilusão (6)

…Três dias depois nascia o bebé. A notícia não demorou a divulgar-se. Era um menino esperado.        O sonho da mãe, que não teria mais que 23 anos, assim se realizava. Mas aquele menino foi o encanto não só dela, mas de toda a família.        Haviam passado já 20 anos, que mais pareciam uma eternidade, sem que se sentisse a alegria do nascimento de uma criança naquela família.       ...

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Amo-te Muito (5)

Ela olhou-o bem fixamente nos olhos aguardando com expectativa o que ele iria dizer. Ouviu-lhe sair da boca um “Amo-te muito”.  Eram eles os únicos filhos daquele casal que, havia já muitos anos, tinham vindo do norte, para se fixarem a trabalhar na periferia de Lisboa. Com a perspectiva da partida do irmão atrás de amores virtuais e desenraizados da realidade da vida, ela sentia-se aterrorizada com a ideia de ter que vir a cuidar...

domingo, 26 de agosto de 2012

O menino saltou (4)

O homem levantou-se, olhou a criança, depois a mãe, encheu de ar o peito e disse em tom decidido e carregado de alívio: - vou para casa, tenho gente que me ama e me espera. No momento de partir não consegui escutar ninguém, a nenhum deles dei ouvidos. Parei a tempo, não sei que força me prendeu a este banco - disse fixando o olhar frio no banco de madeira - mas isso não é importante, o que interessa é que agora estou decidido a voltar para trás,...

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Os homens também choram (3)

Passos sonoros de tacão longo, chamado de salto alto, fazem-se ouvir na laje fria da estação.  Uma criança pequenina corre curiosa e pára, à entrada, para percorrer tudo com o olhar como que a descobrir o mundo ali dentro. Terá talvez menos de dois anos, uns olhitos bem abertos e a respirar vida. Como qualquer criança pensa que todo aquele espaço está ao seu dispor. Num movimento rápido e ainda meio descoordenado, corre e pára diante de...

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

O Vazio (2)

Um homem veio. Tinha saído do comboio que por momentos parara e num instante retomara a viagem sob a ordem da bandeira vermelha, suja e enrolada num pedaço de madeira velha. O olhar lançou-se sobre o homem sentado no banco: a ponta do atacador de um dos sapatos estendia-se no chão dando a perceber que a ordem e a desordem se debatiam na sua mente. O olhar vago dirigia-se para o infinito e por isso não enxergava o mundo que à sua volta girava...