quinta-feira, 22 de dezembro de 2022

Uma Nova Criação

Imagem e semelhança de Deus, assim foi a criação do ser humano. Essa  obra, a mais bela da Criação, caiu por terra quando cedeu à tentação do Maligno. O seu lugar no paraíso foi-lhe retirado, a humanidade passou a ser posse do Mal e a marca, o pecado, ficou para não mais acabar. Todos os humanos nasceram com esse defeito de origem. 

Deus não abandona obra criada, muito menos aquela peça que era imagem e semelhança sua, ainda que com a marca do pecado. É preciso reparar esta brecha que marca cada um de nós. Ao jeito de um pai, um pai de verdade, deus decide "começar de novo", refazendo a obra original, partindo do princípio.

Celebrámos, há dias, a Imaculada Conceição de Maria. Ela é a obra original da nova Criação. É ainda mais excelsa que a primeira, pois não permitir, nunca, que o pecado A atinja. A par com a obra antiga, está a gerar-se uma nova obra. Maria, Verdadeira imagem e semelhança de Deus, tem, por graça divina, uma missão impensável e impossível para a humana natureza: ser Mãe de Deus. Como poderá isso ser possível? Ação misericordiosa de Deus.

É de tal alcance a misericórdia de Deus que não põe de lado a humanidade manchada pelo pecado, mas Ele mesmo vem para, numa mulher (A Mulher) se fazer homem, assumindo a nossa natureza de modo a poder salvar-nos. Não se deitou fora o que não prestava, reparou-se (o próprio Criador o fez) o que estava "irremediavelmente" perdido e deu-se-lhe nova dimensão, que eu digo ser ainda mais excelsa que a primeira. Das criaturas pecadoras, Deus, por dom gratuito, fez filhos seus. De peças com defeito, Deus fez Filhos, únicos, originais. Sem nos retirar a liberdade que leva em si a marca da possibilidade do pecado, este Pai confia em nós sempre e até ao momento último da nossa existência. Não confia como ainda se dá, no Espírito Santo, para ser guia e força que nos faz permanecer no caminho da Graça.

sábado, 26 de novembro de 2022

Jesus - Único Sentido

 A vida é uma permanente expetativa. Vivemos cada momento presente com o pensamento que há de vir, no que há de acontecer, no que será o dia de amanhã, o futuro. 

Damos, hoje, início ao Advento, que é preparação para a chegada d'Aquele que há de vir. O Natal acontecerá tanto quanto, e só na medida em que, estivermos interiormente preparados, dispostos a deixar Jesus nascer. Sim, Ele faz-se presente dentro, não fora de nós. O tê-l'O na vida fará que seja levado a quem de nós se aproximar.

É muito grande o anseio de que tudo, as coisas e as pessoas, mude. A transformação acelerada em que a nossa sociedade está submersa, mostra a necessidade que temos de transformação e mudança. Mudam-se os valores, a conceção das coisas e dos acontecimentos, passando a ser bom e normal o que era impensável que alguma vez o fosse. Esta alteração do sentido e do valor das realidades está a fazer-nos perder o caminho: buscamos algo que queremos, mas, desvirtuando a verdade das coisas e das pessoas, nunca encontraremos a verdade de nós mesmos e, assim, nunca encontraremos a satisfação que saciar-nos. Antes, quanto mais   nos desviarmos do reto caminho, mais insatisfeitos nos encontraremos e mais quereremos transformar até chegarmos a um beco sem saída e tudo, até a vida, perderá sentido.

O Advento é o tempo propício para que se inicie a verdadeira transformação, aquela que nos leve ao encontro pessoal com Cristo, aquele que é a origem, a fonte e o sentido da vida. Precisamos convencer-nos de que Ele é o Homem, a que só Ele viveu plenamente o ser pessoa. Para além do mais, Ele é Deus. As duas naturezas, humana e divina, unem-se e existem numa só pessoa. As duas  dimensões, material e espiritual, coexistindo num único ser são a mais perfeita das comunhões. Só Ele, entendemos isso, é caminho, verdade e vida, sendo que só Ele dá sentido e razão de ser ao passado, ao presente e ao futuro.

quarta-feira, 6 de julho de 2022

"À Minha Maneira"

 Um Deus à nossa maneira, à nossa semelhança. É convicção bastante generalizada a de que Deus "construção humana" para tentar apaziguar, explicar e justificar o nosso modo de ser. Um Deus "construído" é inexistente, se o é, não tem razão de ser o acreditar Nele. Justificamo-nos com esta ideia quando não acreditamos ou não buscamos razões para acreditar.

A fé é dom e é caminhada pessoal. Para quem acredita, é bom sentir e ver quando há realmente, questionamento acerca de Deus. Esse é sinal de que, ao menos, há uma relação de dúvida e, ainda que seja de dúvida, há uma relação com Deus, possibilitando o encontro pessoal com ele. Sim, porque, ou há encontro pessoal, ou nunca se encontrará de facto.

Olhando as coisas em perspetiva diferente, e se acreditamos, há em nós a convicta certeza de que, nós sim, somos imagem e semelhança de Deus, por Ele assim criados. Porquê e para quê imagem e semelhança de Deus? Precisamente para participarmos da sua ontologia (o seu ser). Fomos criados para participarmos do ser de Deus e, assim. Ele poder partilhar connosco, criaturas, aquilo que Ele é, a vida e a glória que há Nele. Complicando a linguagem, em Deus não nada, haver é acrescentar alguma coisa. Deus é vida, luz, beleza, bondade (bem)... não é morte, escuridão, fealdade, maldade... estas características não existem por si, são ausência dos seus opostos. Entenda-se: a pessoa, em si, não é feia, o que ela não é, é bela (há nela ausência de beleza), e aqui aplica-se em todos os sentidos. 

Ora, a nossa participação no ser de Deus, participação que, depois do pecado, acontece pelo batismo, faz de nós pessoas de esperança e enche de sentido a vida que somos e vivemos, precisamente porque existimos não em função de nós ou de uma passagem, mais ou menos breve, pela vida, mas, porque vivemos em função da eternidade em Deus.

Sabendo-nos participação de Deus, não queremos nem exigimos explicações, somos felizes "porque sim", porque somos de Deus e vivemos em função dele. Tudo tem sentido, até a cruz se enche dele.

domingo, 16 de janeiro de 2022

Ébrios de Deus

 

Um casamento com vinho novo e bom, vindo da água simples, boa, mas sem sabor. Jesus está lá. Santifica o ato do matrimónio e a alegria da festa. Uma mãe solícita percebe que falta o que dá sentido à festa, o vinho. Recorre a quem pode alguma coisa fazer, o Filho. Ainda não tinha chegado a sua hora. Deus tem horas, tem o seu "tempo", a Eternidade que se manifesta no nosso tempo. Maria entende esse tempo. Conhece perfeitamente o Filho. Dá instruções aos serventes, aqueles que O servem. "Fazei tudo o que Ele vos disser".

Famílias sem o "vinho da alegria". A viver na solidão da pressa, nos tempos que a agenda marca; no correr para chegar e estar em todo o lado, sem tempo para um olhar longo que manifeste comunhão. Perdidos, cada um, nas suas coisas, sem tempo para celebrar, para beber um copo. E o tempo de Deus já chegou, porque o seu tempo é o presente. A água transformou-se em vinho, a morte foi vencida pela vida, o vinho novo está ao alcance dos que o querem, dos que, provando-o, percebem que "é o melhor" e não deixam de o querer sempre. Uma Mãe solícita está presente, atenta sempre a uns e a outros, os que têm na mão a taça do vinho bom, mas o seu olhar e preocupação fixa-se naqueles que levam na mão a taça de amargura do vinho velho e amargo. Chama-os à festa das bodas de Cristo com a Sua Igreja, naquele apelo: "Fazei tudo o que Ele vos disser".

"Fazei tudo o que Ele vos disser" são as últimas palavras que a Escritura Sagrada nos deixa de Maria. Todas as que disse depois foram dignas de ser escutadas, porque a Mãe não diz palavras em vão, mas é com aquelas que o Pai quer que fiquemos em mente. Somos os serventes, servidores à mesa da Palavra, à mesa do testemunho, à mesa do serviço, chamados a deixarmo-nos inebriar pelo "vinho bom" e a sermos portadores de taças cheias, que brilhem aos olhos do mundo e embebam a vida de cada um dos seres humanos. Todos são chamados à festa, ao banquete. Distraídos com o brilhar das taças do terrenas, muitos não atenderemos o "Fazei tudo o que Ele vos disser".

quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

Ser Família

Este é dia (26-12-2021) dedicado à celebração da Sagrada Família de Nazaré.

Sendo o Natal o mistério da Encarnação do Filho de Deus, é mistério que não pode dizer-se por palavras, apenas ser contemplado e amado. Este mistério divino acontece no seio de uma Mulher, no seio de uma Família, naquele silêncio de tudo o que não

pode dizer-se, apenas contemplar-se e amar-se. Olhamos a família de Nazaré e facilmente nos fixamos na sua beleza artística, passageira e fugaz, dependente da sensibilidade de cada um, diferente para todos.

Não se vê de olhos abertos, contempla-se nos olhos fechados, no olhar da mente em estreita comunhão com o coração. Aí, aí, encontra-se a real beleza de uma comunhão familiar que é, por si e na envolvência de Deus, mistério que, como o de Deus, não pode também falar-se por palavras, só no íntimo de nós mesmos, na luz que as fragilidades humanas permitem que o coração e o amor possam ver.

José, apanhado desprevenido num mistério de salvação que só a revelação divina, através do seu Anjo, pôde fazê-lo entender, ou, mais que entender, fazê-lo amar com uma intensidade de que o coração só por graça é capaz.

Maria, a jovem mulher cheia de Graça, a viver em divina comunhão, sendo a mais humilde das criaturas, superada só pela humildade de Deus aos fazer-se Homem, estremece diante do Anjo que Lhe faz anúncio de que será a Mãe do Filho de Deus. Não teme porque Deus a fortalece e porque se sabe plenamente nas mãos de Deus, embora sentindo-se a mais indigna, assume-se como escrava ao serviço dos planos do Senhor. Não, não pode passar-nos pela mente o sentimento de amor que acontece nesta mulher para com José e, sobretudo para com seu Filho, o próprio Deus.

Jesus, o Tudo que em plena humildade, só contemplável à luz da Misericórdia, assume o "nada" da nossa natureza e se dispõe a ser acolhido, amado e cuidado por José e Maria. Um Deus que aceita o "risco" de viver a nossa humanidade. Mas sim, assume esse "risco" no seio daquela que é uma família de amor elevado à intensidade de ser mistério que só na fé pode entender-se.


terça-feira, 30 de novembro de 2021

Esvaziar-se


 

Iniciamos o Advento. Vivê-lo é fazer Natal. Os dois tempos não podem ser separados, porque o Natal acontece realmente, apenas e só, quando o Advento acontece também. O ambiente comercial manifesta isso muito bem. Tudo o que cheire a um pouco de negócio está embrulhado em luzes e cores natalícias.

Nós, cristãos, olhamos, queira Deus que sim, os tempos do ano com um olhar diferente. O Advento é preparação interior, e pessoal, para o acolhimento do Salvador. Ele quer nascer, permanente, em nossas vidas. Se há dois mil anos assumiu a natureza humana para estar entre nós, hoje, o seu nascimento acontece dentro, na vida, daqueles que se dispõem a acolhê-l'O Aqui é bom pararmos um pouquinho e percebermos que Deus nos é íntimo, faz-se presença em cada um. Isso tem que levar-nos a vê-l'O presente em nós mesmos e nos outros.  Deus ama-se nos irmãos e os irmãos amam-se em Deus. Daí vem a certeza de que quanto mais amamos Deus, mais amaremos os irmãos. Só ama Deus quem O tem em si mesmo.

Sentir o Advento com verdade é tomar consciência da fragilidade da vida  que somos, e que envolvemos na ilusão das grandiosidades da capacidade humana e do poder económico, e, no mesmo olhar, sentir a absoluta grandiosidade de Deus e tomar consciência da plena humildade que manifestou, assumindo a nossa natureza e condição. Deus é o Eterno, nós somos uma passagem. A tentação é assumirmo-nos como deuses abdicando de Deus. Querendo subir, assim, além das nossas capacidades entramos em situação de queda abrupta e mortal.

Em primeiro dia de Advento somos chamados à vigilância, ao necessário prestar de atenção para que a vida e o tempo nos não passem ao lado. Nem a vida nem o tempo voltam ou se repetem, cada momento acontece de forma única. Um momento que não se viveu segundo o plano que Deus traçou para a vida que nos dá é momento perdido.

Viver Advento é entrar dentro de nós mesmos, vasculhar tudo, e deitar no saco da misericórdia divina o que não presta, ocupa lugar e faz pó, para repor Deus em todas as dimensões do ser que somos.