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segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Um Deus Louco

Omnipotente. Assim é o Senhor Deus, Todo-poderoso. 

Aquele que tudo pode e sabe, é um louco de amor pelas pobres criaturas que nós so-mos, loucamente pobres por haver em nós a capacidade de, com consciência, fazer o mal. É assim, nesta natureza fragilíssima e pecadora, que nos ama loucamente ao ponto de se fazer um de nós, assumindo as nossas fragilidades todas, menos aquela de sermos pecadores.

Preparou, ao longo da história, um povo que Lhe fosse fiel, e no meio de todas as infidelidades desse povo, Ele permaneceu fiel. Preparou um céu na terra: o ventre sagrado da vida pura de uma mulher imaculada. Nesse céu se fez vida humana e santificou a vida desde o momento primeiro da sua conceção, e ela se tornou sagrada. Nesse céu se deslocou, pequenino embrião ainda, a santificar Santa Isabel, e S. João, o Baptista, no seu seio. 

Por Ele, e Ele permitiu, centenas de crianças, pequeninas ainda, com menos de dois anos, sem saberem, deram a vida às mãos de um homem louco por vingança. Não se perdeu uma gota sequer, porque Deus dá vida plena aos que Lhe oferecem a vida que têm. Santos, inocentes, os mais pequeninos e primeiros se deram e Ele os aceitou e agora vivem para sempre.

Ele, pequenino, com alguns dias apenas, poucos, se escondeu em terra estrangeira: no Egito foi refugiado. Uma mãe e um pai, amedrontados mas confiantes, O guardaram e protegeram das mãos do malvado de coração odioso que queria matar Deus, porque Deus não abandona os que são seus. Livraram-se Ele e o pequenino João, primo seu, porque haviam de dar a vida, eles também às mãos de um outro Herodes, em loucura igual ao primeiro, mas apenas depois de testemunharem e ao mundo falarem do amor de Deus, que é misericórdia.

Fez-se homem: recolheu-se nas mãos de um pai e uma mãe a quem obedeceu, de quem aprendeu e a quem santificou e, neles, santificou também a família e a vida que dela nasce e nela cresce. Nele tudo se santifica.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Pegou um Pedaço de Ar (23)


A pergunta instalou-se  e, teimosamente, foi-se-lhe aflorando ao pensamento, como se tivesse vida e não quisesse ser esquecida. Em jeito de quem exige uma resposta, insistia em não abandonar o seu pensamento. “Que estou eu a fazer da minha vida?”, era a mensagem que pesava em sua mente quando se sentou no sofá, desligou a televisão e fechou os olhos para pensar.

Deslizando como fantasmas, as memórias do passado dançaram-lhe em confuso movimento de fuga rápida. Por momentos, algumas delas paravam e o rosto da Ninfa manifestava o que lhe diziam, mais exactamente, o que lhe faziam recordar: sorrisos espontâneos e claros, bem como tristes tensões de face, e até mesmo algumas furtivas lágrimas.

O tempo passou e o filme da sua vida continuava a ser-lhe projectado por dentro: as traquinices com direito a umas palmadas duras por parte da mãe; as maçãs roubadas e as fugas de quem não quer ser visto, muito menos apanhado; as vinganças de criança sentida e magoada; os temas tabu, que nem o silêncio barulhento da mente fechada em si mesma permitia que viessem muito à baila; a presença da mãe e a compreensão magoada do pai, quando se viu metida em apuros; os sem-abrigo de Nova York ou de Lisboa… tudo foi ocasião para crescer e ser hoje a mulher que é. 

Sabia-se forte, sensível, decidida e palpitante de vida. Tinha consciência também de que muito do tempo da sua vida havia sido passado, mesmo desperdiçado, em coisas fúteis, vãs ou simplesmente menos essenciais, acabando, em muitas delas,  por se sentir vazia e pouco satisfeita consigo própria.

Tinha a impressão, quase pura, de que muitas correrias de lado para lado, muitos desejos de querer chegar lá bem longe, muita vontade de querer chegar depressa, a tinham feito caminhar mais ou menos sozinha, embora o barulho que ouvia de tanta outra gente a “correr” da mesma forma, lhe transmitisse a ilusão de que corria num pelotão de inúmeros corredores que buscam a vitória.

Os minutos longos, muito longos, que passou de olhos cerrados, absorta de tudo o mais, sentada no sofá a desfolhar a vida dos anos idos, deixaram-na mais leve, parecia, agora, ter pequenas asas e respirar um ar diferente, mas puro. Tinha escutado, tinha-se escutado a si mesma e à voz que, não sabe de onde, parecia fazer-se ouvir dentro de si.

A noite ia já adiantada, mas as luzes da rua criavam a ilusão de um dia quase de sol. Pegou numa bolsa com documentos e num pedaço de ar, ar que inspirou profundamente, e saiu para a rua e para o mundo..

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Olhar Cheio de Luz (19)

Umas braçadas na água. A água fria arrepiou-o por momentos. Água parada num tom de cor cinzento-azulado. Muitas vezes ali havia tomado banho e naquele momento recordou muitos dos momentos de pura felicidade que as gargalhadas de criança que pareciam continuar ali perpetuando-se no tempo. 

Entrou dentro da água o mais que pôde e deixou que o corpo aliviado do stress subisse à tona e amortecido ali se manteve. Os olhos fechados e a respiração funda encheram de oxigénio e felicidade o sangue e o espírito. Desejou, nesse momento, transformar-se em nada ou em água e deixar que uma onda o transferisse sem tempo para o outro mundo. 

Encheu, forte, os pulmões e aliviou-os da pressão esvaziando-os lentamente meditando no seu sonho. Esboçou um sorriso ao pensar no sonho americano, o dele, que era tão diferente do das histórias de cowboys que na adolescência devorara. Simplesmente queria estar perto da pessoa que insistia em lhe invadir a mente e o coração. Abriu os olhos e voltou a cerrá-los porque o sol os inundara de luz directa. 

Saiu da água, deixou-se secar por momentos, ansioso por que a água se evaporasse quanto antes, não fosse chegar alguém e o encontrasse ali praticamente nu. Sabia que sendo feriado alguém poderia ter escolhido aquele espaço para passear à beira rio. O sol foi generoso e enxugou-o num ápice. 

Sentia-se pairar de felicidade. O amor era isso mesmo, pensava, estar longe de quem se ama mas não deixar de viver cada momento de coração palpitante. Amar exige morte de si mesmo  para que a pessoa amada possa sentir-se livre para fazer escolhas, para crescer, para fazer caminho, mas sentindo-se sempre protegida por um escudo invisível e de alta segurança, a energia positiva a que se chama amor. O sentido da palavra tão pronunciada e banalizada, hoje em dia, despe-se completamente de sentido de cada vez que quem julga amar se busca mais a sim mesmo, aos seus desejos, apetites e vontades, que ao outro. É por isso que o amor não se faz mas se constrói e se vive: se constrói subindo, degrau a degrau, as escadas de encanto ou desencanto, apoiando-se sempre  na certeza de se viver para o outro e por causa dele. Hoje sabia-se consciente de que amava verdadeiramente. 

Desembrulhou algumas das memórias na sua mente guardadas e viu a diferença do que agora sentia e de tantas outras vezes em que disse amar, mais sentindo prazer na voz, no olhar e no corpo, de algumas outras mulheres, que no querer que elas fossem livres e caminhassem com ele, a seu lado, não como ele queria. 

Sentiu-se despida por um olhar indiscreto. Rangeu os dentes. Pegou o livro…

domingo, 9 de dezembro de 2012

Corações Ardentes (15)


Estava decido. Ela iria partir e ele, por muita vontade que tivesse, não iria sequer manifestar-lhe o desejo de que não fosse. Sabia que o amor não era fazer o que ele queria, era mais o ele querer o que ela desejava para si mesma, o estar presente junto dela. E havia tantos modos de o fazer!

Sairam do café de coração a arder. Foram poucos, mal imaginavam que isso iria acontecer mil e uma vez daí em diante, os momentos que estiveram juntos, mas tinham sido intensos e só o nervosismo e o bloqueio que advinha do respeito que ali sentiram um pelo outro os impediram de manifestar tudo aquilo que de dentro queria sair em catadupa.

Estranho, mas depois de perceberem que se desejavam um ao outro o silêncio pairou e pousou sobre aquela mesa de café, onde duas chávenas sujas, marcadas pelos lábios de um e de outro, permaneciam frias e serenas. Só os olhos e os sorrisos falavam, cúmplices de mensagem que se não podiam ouvir.

Faltavam poucos dias. Teria que organizar muita coisa em pouco tempo. Uma carta havia marcado a mudança de rumo da sua vida. Ía partir para longe, e agora parecia doer, ainda, um pouquinho mais.
Quando parecia que os amigos e a família iam ficar para trás, encontrou mais alguém a quem, como por magia, se agarrou como uma lapa de águas salgadas. Pararam. Olharam. Calaram e sentiram energia e força que se cruzava como vertigem que atrai para o abismo.
Ela percebeu sofrimento no olhar dele. Com uma mão acariciou-lhe o rosto enquanto dizia: “eu vou mas levo-te comigo, acredita, e vou voltar sem te esquecer porque quero que estejas onde eu estou como quero estar onde  tu estás. Não fiques triste porque não me vais perder. 
Hoje ganhámo-nos um ao outro e, certamente, o tempo e a distância não vão causar separação” Ele sorriu e ela brincou: “estou a falar bem, nem sei onde fui tirar estas palavras.”

Abraçaram-se por momentos e ele percebeu o quanto ela o amava, ainda que a palavra amor não tenha saído de seus lábios. Um e outro, sem saberem, sentiam ser quase sagrada essa palavra, por isso a não pronunciaram para que acontecesse em momento ainda mais especial.
Seguiram, cada qual para sua casa, a rebentar de felicidade. Voltaram-se, num derradeiro cruzar de olhares e sorrisos.
Pneus de um camião chiaram na estrada. Aterrado pelo medo o corpo tornou-se frio. Voltou-se num gesto brusco e louco de pavor. Não a viu. 

As pernas tremeram. No peito, o coração quis rebentar. Sentiu-se desfalecer…


segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Saudades de ti (14)


Não tinha uma flor para lhe oferecer. Só palavras lhe poderiam sair do peito para começar a exprimir o que nesse momento sentia.

Antecipando-se, sem sequer pensar no que poderia ele estar a querer tirar de dentro de si, disse ela, dando um solene tom de entusiasmo ao acontecimento que anunciava. O tão sonhado  momento de poder vir a  estagiar nos Estados Unidos iria concretizar-se: finalmente tinha-lhe sido concedida a bolsa de estudo pela qual sempre lutou e que, em reconhecimento pelas excelentes classificações na faculdade, lhe traria a possibilidade de vir a completar o curso num país estrangeiro. Os Estados Unidos eram o seu sonho: sempre a fascinara a América, sobretudo porque era lá que melhor se poderia preparar para o futuro que para si almejava.

Boquiaberto, ouviu dela tudo sem se atrever a pronunciar palavra como se a fonte das palavras secasse dentro de si. Esboçou um sorriso amarelo e  ficou perdido na desilusão que sentiu ao perceber que iria perder o que ainda nem sequer tinha encontrado. “Como é que eu posso ter andado tão longe, pensou, para não me ter apercebido da beleza, dos sonhos e do encanto, que  há nesta mulher”? Tentou, sem conseguir minimamente, disfarçar em alegria a mágoa que estava a sentir.

A perspicácia feminina, presente em qualquer mulher atenta,  e talvez mais nela, agora, por também ela não estar a ser indiferente à diferença que nele hoje se podia sentir, fê-la pensar. Muitas vezes o olhara e fixara com interesse mas sem qualquer fixação mais forte.

Percebendo a mal disfarçada aflição que vira nele, atalhou rapidamente para dizer que achava que não ia aguentar lá muito tempo sem vir à sua terra ver os seus, sentir a vida e o lugar onde sempre viveu. “E acho que também vou ter saudades tuas” disse, inclinando-se um pouco para diante, como quem quer dizer um segredo, e deixando que  a sua mão perdida descansasse apenas sobre a mão trémula que ele tinha, meio perdida, sobre a mesa do café.
Estava feito. O que ele não teria tido coragem para pronunciar logo ali, ela afirmara-o claramente com meias palavras e um gesto forte de quem ama. 

O toque das duas mãos reacendeu a força e a fé dentro dele e esmagaram as dúvidas que baralhavam, atordoadas, as ideias e os gestos. Embrenhou-se nele a certeza de que o futuro que ela estava a preparar para si poderiam vir a ser futuro vivido a dois. Percebeu-se amado, perdeu o medo e acreditou que a separação de milhares de quilómetros não evitaria o sofrimento da distância mas seria apenas ausência de corpos porque ambos estariam em comunhão de sentimentos.

Olhou-a bem fundo e sorriu...

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Amor e Paixão (13)

A porta semi-aberta do café forçou a que, cavalheirescamente, ele recuasse um passo para deixar a Ninfa entrar primeiro. Uma fragrância com tom de uma qualquer especiaria, para ele desconhecida, penetrou-lhe as narinas para se embrenhar no cérebro, agora aliviado e disponível para se deixar marcar por novas experiências de vida. 

A atracão que minutos antes tinha sentido pela Ninfa, de seu nome próprio, Cristina, parecia intensificar-se a cada passo e em cada gesto daquela Mulher, de quem sempre viveu tão próximo, mas também, percebia agora, tão distante.As palavras paixão e amor cruzaram-se-lhe na mente, enquanto ajeitava uma cadeira para que ela se sentasse. Sempre lhe causaram confusão aquelas palavras. Sabia que não significavam o mesmo. Uma e outra vez foi portador de sentimentos diferentes em relação ás mulheres que vinham fazendo parte da sua vida. Amor era  termo demasiado forte para definir o que sentia por uma qualquer mulher. Tinha consciência de que isso era o que sentia por sua mãe e por sua irmã. 

Sensações parecidas sentira-as algumas vezes por outras mulheres, mas aí havia mais confusão porque estava muito atento também fosse ao modo e vestir, ao jeito de andar, ao perfume usado, às palavras que diziam ou ao corpo que tinham. Já antes pensara como era estranhamente interessante e belo que aquelas, a mãe e a irmã, eram mulheres diferentes. Crescera com elas, conhecia-as  ao ponto de não precisar de nada que comprovasse que as amava, bastava-lhe sentir que tudo faria, que a vida daria, se necessário, para que uma e outra estivessem bem. 

Conhecia-lhes o sorriso de alegria, o sorriso disfarçado, o sorriso de dor. Muitas vezes as vira chorar por dentro sem deixarem que as lágrimas  saíssem para fora. Sabia perfeitamente que, como ele, elas dariam a vida para que ele estivesse bem.Agora estava meio perdido ao perceber interiormente que alguns desses sentimentos se manifestavam, mais que tenuemente, pela mulher de sorriso claro que, na sua frente, bebia um café dulcificado por meio pacote de açúcar. Olhou-a nos olhos e sentiu medo, vergonha e encanto. Será que a amava? Atracção sentira-a muita vez. Seriam, agora, apenas sentimentos passageiros. Que fazer?

Um quadro com flores pintadas fazia de fundo, como que emoldurando a cabeça da ninfa. Pensou nas rosas, e no que sentia, quando, no Dia da Mãe, as oferecia à mulher que verdadeiramente amava. Amar era bem mais que oferecer uma rosa, mas a rosa era um pequeno sinal do que sentia por sua mãe. Apeteceu-lhe ter uma rosa para oferecer à Ninfa.

Desejou muito, nesse momento, ouvir o som “quefrô?”…