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quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Maria em Espera

O que acreditamos é o que queremos, aquilo por que ansiamos e pelo qual lutamos. Conscientemente ou não, os desejos que temos, o sentido de vida e o caminho que percorremos, vão dar àquilo que é tesouro do coração.

Um egoísta concentra-se em si mesmo. Ainda que o seu olhar passe pelos outros, a profundidade e os fins de suas ações, embora possam parecer altruístas, não se dirigem senão a si mesmas, buscando e sentindo consolo no que faz. Quer consolação pessoal e para tal "serve-se" da ideia de fazer bem aos demais. Verdade que pode ter feito muito bem, mas fê-lo em autorrealização.

Um altruísta, aquele que sai de si para encontrar a felicidade dos outros, não busca realização pessoal, o que faz fá-lo com o sentido dos outros, mais ainda, com o sentido de Deus. Não se buscando a si mesmo, acaba por encontrar uma realização e felicidade interiores muitos maiores que aquelas que alcança atua a pensar em si mesmo. A verdadeira felicidade está, de facto e sem dúvida, no facto que fazermos que os outros sejam felizes.

Claro que é preciso estar-se atento e fazer da entrega de si mesmo um ato contínuo, tanto quanto o permitirem as nossas limitações e amor próprio. Fazer pelo outro é já largo caminho para se alcançar aquela felicidade por que profundamente se anseia. Fazer por Deus é caminho de perfeição, o único que realmente pode conduzir a esse estado de plena harmonia interior. Não, humanamente não se consegue, por isso o Céu começa a acontecer nesta vida, mas so se alcança após a morte.

Depois deste longo preâmbulo, talvez possamos entender um pouquinho mais o amor com que Maria se confiou à vontade de Deus: Ela, mais que ninguém, e isso recebeu-o de seus pais e como graça de Deus, ansiava a libertação, a salvação, da humanidade. tendo sido criada, sem o saber, isenta de qualquer mancha de pecado, vivia, por graça de Deus, em estado de perfeição, sendo a sua vida uma plena oferta de si mesma pela salvação de cada pessoa das garras da morte. Por especial dom de Deus esta salva e, naturalmente, queria (quer) a salvação de todos. Mais que qualquer um de nós, mais que todos nós juntos, esperou, ansiou e, por isso, Nela se realizou e aconteceu a salvação do género humano. (03-12-17)

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Em Espera

Se pararmos um pouquinho e tivermos paciência para esperar e pensar reparamos que a vida, por mais azafamada que seja, é uma espera, uma espera permanente do que, humanamente, nunca se alcança, porque é nosso anseio ter e querer sempre mais, ir sempre mais além daquilo a que já se chegou.

O Evangelho apontava-nos como exemplo e modelo as virgens prudentes a par com as insensatas (sem juízo), modelos a seguir e a não seguir, respetivamente. Porque o noivo chegou em tempo de atraso o azeite das almotolias de umas terminou e o das outras, as sensatas, não chegaria para todas, de modo a que aquelas não puderam, depois de haverem sido convidadas, entrar na festa para a boda. Ficaram de foram porque o noivo afirmou não as conhecer. Não eram o que pareciam ser.

O Céu, a eternidade, é o festim dos festins, a plena alegria que se viverá por toda a eternidade. A vida é o tempo de espera entre o convite para as bodas, a chegada do noivo e a entrada na eternidade. Estamos em plena espera, aguardando a chamada pessoal que acontecerá em algum momento, não sabemos quando porque o noivo virá a hora e dia que não sabemos. Importa que não nos encontre adormecidos. Se assim nos encontrar, é bom que tenhamos suficiente azeite, combustível, para a candeia que nos entregou ao criar-nos. Porque a vida é esta candeia que temos em nossas mãos e que somos chamados a manter acesa pelos pensamentos, palavras e atos com que alimentamos a chama que ilumina o caminhar.

A chegada do noivo é o chamamento e ordem a que entremos, apresentando diante do Senhor todas aquelas coisas com que enchemos nossos alforges e com que quisemos manter acesa a chama dessa candeia que é a vida. Ele retirará e destruirá tudo o que, depois de todas as limpezas operadas pelo sacramento da reconciliação, ainda houver para limpar e tudo destruirá no fogo da Sua misericórdia. Deixará então nossa candeia escancarada. Se for suficiente a bagagem de combustível para entrar na festa, Ele mesmo dará o que falta acabando de encher nossas medidas. Se não for suficiente retirará o pouco que tivermos para dar a outros e dirá "Não te conheço". "Pois àquele que tem, será dado; e ao que não tem, mesmo aquilo que tem lhe será tirado" (Mc 4,25). Este é o tempo trabalhar pela salvação. (19-nov-17)

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Pegou um Pedaço de Ar (23)


A pergunta instalou-se  e, teimosamente, foi-se-lhe aflorando ao pensamento, como se tivesse vida e não quisesse ser esquecida. Em jeito de quem exige uma resposta, insistia em não abandonar o seu pensamento. “Que estou eu a fazer da minha vida?”, era a mensagem que pesava em sua mente quando se sentou no sofá, desligou a televisão e fechou os olhos para pensar.

Deslizando como fantasmas, as memórias do passado dançaram-lhe em confuso movimento de fuga rápida. Por momentos, algumas delas paravam e o rosto da Ninfa manifestava o que lhe diziam, mais exactamente, o que lhe faziam recordar: sorrisos espontâneos e claros, bem como tristes tensões de face, e até mesmo algumas furtivas lágrimas.

O tempo passou e o filme da sua vida continuava a ser-lhe projectado por dentro: as traquinices com direito a umas palmadas duras por parte da mãe; as maçãs roubadas e as fugas de quem não quer ser visto, muito menos apanhado; as vinganças de criança sentida e magoada; os temas tabu, que nem o silêncio barulhento da mente fechada em si mesma permitia que viessem muito à baila; a presença da mãe e a compreensão magoada do pai, quando se viu metida em apuros; os sem-abrigo de Nova York ou de Lisboa… tudo foi ocasião para crescer e ser hoje a mulher que é. 

Sabia-se forte, sensível, decidida e palpitante de vida. Tinha consciência também de que muito do tempo da sua vida havia sido passado, mesmo desperdiçado, em coisas fúteis, vãs ou simplesmente menos essenciais, acabando, em muitas delas,  por se sentir vazia e pouco satisfeita consigo própria.

Tinha a impressão, quase pura, de que muitas correrias de lado para lado, muitos desejos de querer chegar lá bem longe, muita vontade de querer chegar depressa, a tinham feito caminhar mais ou menos sozinha, embora o barulho que ouvia de tanta outra gente a “correr” da mesma forma, lhe transmitisse a ilusão de que corria num pelotão de inúmeros corredores que buscam a vitória.

Os minutos longos, muito longos, que passou de olhos cerrados, absorta de tudo o mais, sentada no sofá a desfolhar a vida dos anos idos, deixaram-na mais leve, parecia, agora, ter pequenas asas e respirar um ar diferente, mas puro. Tinha escutado, tinha-se escutado a si mesma e à voz que, não sabe de onde, parecia fazer-se ouvir dentro de si.

A noite ia já adiantada, mas as luzes da rua criavam a ilusão de um dia quase de sol. Pegou numa bolsa com documentos e num pedaço de ar, ar que inspirou profundamente, e saiu para a rua e para o mundo..

terça-feira, 6 de março de 2012

A Espera (1)


A Espera

Um dia à espera. Chegou pela manhã, sentou-se no banco de madeira no interior da estação. Esperava o comboio que o havia de levar a Paris. Era lá que estava a namorada, e ele sonhava cada dia e cada noite com o momento de a conhecer.
Tinham tido o primeiro contacto via internet. Ela apenas lhe tinha mandado uma foto em que a máquina a apanhara um pouco de lado. Percebiam-se feições belas no jogo de luz que o fotógrafo artisticamente havia conseguido.

O olhar, esse olhar que ele imaginava sedutor, num misto de tristeza e encanto no reflexo dos olhos que ela tinha dito serem de um verde esbatido. Ele imaginava-a de olhos grandes, abertos e rodeados por um fino fio de tom escurecido com que cada manhã ela procurava enaltecer a beleza natural com que Deus a bafejara no momento da sua concepção, olhos com luz brilhando na noite dos seus sonhos.

Sim, todas as noites ele a via no seu pensamento, mas nunca pôde descortinar-lhe o olhar ou qualquer outra feição do corpo, porque, por mais que a buscasse em sua mente, ela estava lá, distante, e as imagens que criara no pensamento eram fugidias como raios de luz que vão e vêm deixando apenas reflexos e algumas marcas de dor gravadas pela saudade.

A voz, tinha-a escutado uma vez, apenas, e numa má ligação, num desses dias em que o programa de comunicação do computador, para mal dos seus pecados, parecia estar entupido. Ouviu-a e quase não disse nada. As lágrimas correram-lhe pelo rosto. Traziam do coração o que nele encontraram: uma alegria onde borbulhava a certeza de que lá longe alguém o amava e uma saudade escura onde a tristeza nascia, essa tristeza que lhe trazia vontade de deitar mãos à cabeça e arrancar os cabelos um a um como se cada um deles fosse um pedaço de vida a morrer.

As lágrimas saíram quando o aveludado da voz lhe chegou aos ouvidos e um arrepio frio lhe subiu o corpo e o fez tremer num suspiro quente. Por momentos pôde sentir o aroma do perfume de côco com que, nos sonhos de cada noite, ele a impregnava.

Um sorriso lhe saíra dos lábios quando percebeu que estava de novo dentro da realidade e que aquilo não fora mais que um rápido momento de encanto. Sorriu por se sentir uma criança a viver um mundo de ilusão. Mas, a voz dela ainda se fazia ouvir expressando um português atraiçoado pelo facto de ter nascido em França e de ter aprendido a língua dos pais numas curtas lições de escola e nas brincadeiras com os primos, durante as férias. Barafustou quando a ligação caiu. Nunca mais tinham falado de viva voz.

De cabeça baixa, no banco da estação, espera.