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sábado, 15 de junho de 2013

Acabei com a Minha Vida (25)

Carinhosamente pousou a mão sobre a dela e sentiu-a agarrada e apertada como se aquela jovem encontrasse, finalmente, algo em que lançar âncora no mar revolto da sua vida.
Mãos que falam, mas os olhares não se cruzaram. Bastava-lhe, pensou a Ninfa, sentir que tinha alguém que lhe desse a mão.  “Hi” - disse. A resposta foi um olhar fixo e mais lágrimas a correr.

“My father is…” disse, parando a frase ao ver que na bolsa da Ninfa figurava um pequeno emblema com a bandeira de Portugal.  Olhou-a bem nos olhos, apertou-lhe a mão e perguntou: “És portuguesa?” ao ouvir um sim envolvido num sorriso, tentou um sorriu também e continuou: “Também sou, vim, há dois anos, com meus pais.

Somos da zona das Caldas da Rainha, de um lugarzinho de Alvorninha. Tinhamos uma vida tranquila, sem grandes posses, mas vivíamos do pouco que nos era possível, nunca nos faltando nada se não a paz, que o meu pai nunca  nos conseguiu dar. Era um homem ganancioso, ávido de ter sempre mais, sem perceber que nem mesmo a nós, a minha mãe e os meus irmãos, ainda tinha.  Quando surgiu a hipótese de vir para os EUA, não pensou duas vezes, só via dólares diante dele, esquecendo que não era só ele, mas que tinha uma família e que todos nós tínhamos um olhar  diferente sobre o mundo e a vida.

Viemos, porque ele praticamente nos forçou a vir. Tinham conseguido trabalho para ele e para a minha mãe. Nós, os filhos, viemos por arrasto, deixando  em Portugal as nossas vidas, que eram feitas de trabalho, de escola, de amigos, de alegria.

Aqui, meu pai não via mais nada que trabalho. Não parava para descansar, não sabia o que era recusar um pequeno trabalho  por precisar de descansar ou para estar com a família, ou para vir  passar um dia connosco aqui em Nova York, simplesmente para estarmos juntos.
Em dois anos nunca fomos à Estátua da Liberdade porque era caro e porque ele tinha que trabalhar e porque era preciso poupar e porque (as lágrimas voltaram abruptas) nos não sabia amar.

Há dias, quando, de noite, voltavas cansado e esgotado pelo trabalho, num cruzamento de estradas, a falta de os reflexos impediu-o de evitar um camião  que rodava, barulhento, na 95, e, num instante, o meu pai perdeu até a vida, a pouca vida, que tantas vezes nós lhe dissemos que ele tinha.

Sabes, tantas vezes pensei que não tinha um pai, tantas vezes me não senti amada, tantas vezes tive vontade de desistir de tudo… e agora estou completamente perdida, não sei como lutar, não sei como aguentar, não sei como conseguir.


”Baixou a cabeça e chorou desconsoladamente.  Depois, a voz saiu-lhe frágil, sumida, apavorada, afogada: “Há 5 meses, «acabei» com a minha vida.”

domingo, 10 de março de 2013

Uma Lágrima Furtiva (21)


Voltou-se e viu atrás de si, um homem enorme, fardado, e percebeu uma voz que dizia “are you crazy”?. Pensou: “estou feita”.. Mas que é que foi”? Num inglês de americano zangado, o polícia manifesta bem a insensatez que ela estava a cometer ao atravessar uma passadeira com semáforo vermelho para peões. Tinha consciência de que de nada lhe valeria a pena estar a tentar explicações.

Aquele homem, mal encarado e a debitar “perdigotos” da boca à mistura com um linguajar stressado, dava bem a entender que não havia lugar para qualquer tipo de desculpas. Ainda disse, para não ficar calada, que por distracção, não tinha reparado, mas não se livrava de uma multa, que acolheu com um simpático “I’m sorry”.

Esperou, ao lado do americano, que o sinal passasse a verde e, de porte elevado e nariz alçado, em jeito de humor, atravessou a rua muito direitinha enquanto sorria e pensava “tinha-me feito jeito a oferta do galã da ponte. Vai bem o dia: um que, fazendo-se ao piso, me oferece mundos e fundos e outro que, logo a seguir, me tira algum do pouco que vou tendo. Estes gajos não existem”.

Continuou, passeio a cima. O telefone que toca. Pára e procura-o na bolsa. O medo de perder a chamada sem sequer ver de quem era fá-la mexer rapidamente todas as coisas.

Reinicia a caminhada e prime a tecla verde do telemóvel. Um encontrão no braço de alguém deixa-a parada e a rir-se: mais um americano, agora um com uma caixinha de comida “fast food” na mão e, certamente, tão distraído como ela. “Já não se fazem americanos como os portugueses” disse ela para o telefone, sentindo a saudade entrar-lhe na alma.

Do outro lado do oceano escutou um “que é que se passa?”  e viu, sem ver com o olhar, um sorriso aberto e cheio de ternura. “não importa, nada de jeito, só me interessa que te estou a ouvir”. Parou. Encostou-se ao mastro da bandeira de Portugal no Rockfeller Center e deixou-se encantar pela voz e pela conversa. Uma criança que cai na pista de gelo, umas gargalhadas silenciosas e uma mão de mãe que a levanta para que continue a patinar naquele pedaço de gelo artificial.

Uma paz que desliza lenta e profunda pela alma e se transmite ao corpo vai-se apoderando dela. Uma lágrima furtiva que sai e a tecla vermelha premida. Uma chamada desligada. Um beijo no telefone. Um coração cheio e uma paz divina que sente dentro de si.

Está em Nova York, a cidade que não dorme. Milhões de pessoas stressadas e impacientes que não reparam nela, que não sabem o que é ter paz interior e sentir-se amado e amar de verdade, e “é tão bom!”, pensa.

Cai a noite. Um dos milhares de sem-abrigo que rastejam pela vida, está ali…