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domingo, 19 de maio de 2024

Ação em Deus pelo Espírito

Assim o tinha prometido, assim o fez, como faz sempre. Dez dias depois da sua Ascensão, o Espírito Santo é enviado pelo Pai e pelo Filho. Veio para recordar o que Jesus tinha dito e dar a conhecer coisas novas; veio para dar ânimo, gerando vida divina em nós, e para ser força no caminhar para Deus; veio para fazer de nós morada divina.

Talvez passemos pela vida sem nos apercebermos de toda a força e ação que o Espírito Santo exerce nela. Depois do pecado original, perdendo-se a graça, que nos fazia verdadeira imagem e semelhança de Deus, o nosso ser passou a agir essencialmente seguindo as suas frágeis capacidades humanas (claro que a ação de Deus em nós não deixou de acontecer).

O pecado fez-nos perder a capacidade divina para atuar, incapacitando-nos para o reencontro com Ele. Só a divindade de Cristo, intimamente unida à nossa natureza humana, permitiu a reconciliação Deus/humanidade. Ora, a nossa frágil natureza humana continua incapacitada para a vida da graça, pois ficou irremediavelmente fragilizada pelo pecado. Mas Deus, na sua incalculável misericórdia, não nos salvou apenas, fez de nós morada sua, na pessoa do Espírito Santo e, se o permitirmos, pois temos a liberdade de o não fazer, essa presença do Espírito capacita-nos para a ação em Deus, para a vida divina, vivificando e engrandecendo as nossas ações. Quer isto dizer que, por graça divina sempre, nós podemos a partir de Deus, em Deus e por Deus.

É aqui que entra a nossa vontade, o nosso querer, fazendo que tudo possa acontecer humana ou divinamente: a mesma atitude pode limitar-se a ser mera ação humana, e embora sendo boa é pobre e frágil, ou tornar-se “divina”, se estivermos na graça e atuarmos como participantes de Deus. Aí, a ação,   ainda que por si seja pobre e frágil torna-se grandiosa, divina e eterna porque o Espírito Santo, santificando-a, a eleva a essa condição.

Entende-se, assim, que não podemos fazer o bem no verdadeiro sentido do termo, se não tivermos o Espírito em nós e O deixarmos atuar. A ação boa será meramente humana, não participando do bem e do mérito divino, por não ser participação do Bem Supremo, que Deus é.

sábado, 10 de outubro de 2020

Banquete de Vida

Chegámos aos incríveis tempos de ver as nossas igrejas cheias com muito pouca gente, e de ter que aumentar o número de celebrações por forma a poder permitir a participação de mais fiéis, passando pela necessidade de alguns sacramentos, os casamentos por exemplo, terem de ser celebrados sem missa.

 

Não é isso motivo para júbilo, bem pelo contrário, é ocasião que conduz à reflexão e a um interior lamento por vivermos o que vivemos, nestes tempos em que nos sentimos completamente à deriva, sem poder programar muito o amanhã porque nem no hoje há a certeza de estarmos bem. O medo corta-nos as pernas no caminhar para o encontro com os outros, corta-nos os braços fechando-os em si e impedindo-os de se darem em abraços que limitem a dor da solidão e o sofrimento de não se poderem sentir os sinais físicos do amor que é presença e contacto de comunhão.

 

De pernas e braços tolhidos, das quase certezas de que o Natal será vivido de forma restrita, da incerteza e medo de que os outros, ainda que seja um pequenino bebé a gatinhar numa creche, sejas inocentes portadores de morte para nós ou para os que nos são próximos, sentimo-nos vestidos de insegurança e não sabemos a que agarrar-nos.

 

Deixámos Deus à margem das nossas vidas precisamente quando nos sentíamos seguros nas certezas de nós mesmos, no infinito poder da ciência e das coisas que, agora, nos fugiram de debaixo dos pés, fazendo-nos tremer como artista que segue em corda bamba equilibrado por uma vara que não se prende a nada que seja seguro. Voltarmo-nos para Deus não será fácil, precisamente porque O atirámos para longe fazendo que se tornasse um desconhecido. Os desconhecidos não nos dão seguranças, não os conhecemos, não sabemos que garantias nos dão, que poder podem ter sobre os males e medos que nos assolam.

 

O mundo falseia o que são as suas certezas. Só Deus, mesmo que o não queiramos crer, pode preencher os espaços de esperança e confiança que se esvaziaram em nós. A Missa é ponto central, onde tudo se entrega, onde tudo se recebe, de onde tudo se leva. O banquete está preparado, não recusemos o divino convite.


sábado, 23 de novembro de 2019

O Senhor é Rei

Coroado de ignomínia pelos corações e pela coroa de espinhos que lhe cravaram na cabeça, Jesus é ultrajado da forma mais vil que poderia pensar-se. 

A grandeza e a sublimidade da sua realeza manifestaram-se ainda mais aí que em qualquer  um  dos outros momentos de sua vida. Sendo Criador, Rei  e Senhor, de todo o Universo, assumiu o mais vil dos ultrajes não em forma de fraqueza mas de infinita dignidade e misericórdia. Em nada, em nada mesmo, foi a sua realeza ferida. Foi ferido o Coração de onde jorram infinitas graças e infinito amor. Ferido por nós, ferido por causa de nós, porque não nos abrirmos a Ele, acolhendo os dons que nos conduzi-riam à vida na Glória, essa vida que a que nos chama e que nos oferece. O sofrimento de Deus não O fecha em Si mesmo, por não ser egoísta, mas precisamente por ser plenamente altruísta, sofre por nós, por nos ver sofrer nesta vida, e por nos ver a percorrer caminhos que conduzirão a um sofrimento eterno e sem um único momento de alívio, como nos diz o Livro do Apocalipse.

O sofrimento de Deus está no nosso sofrimento, sofrimento que advém do nosso não vivermos como nos manda, de O recusarmos no nosso pecado. Sofre por nos ver perdidos sem nos poder retirar do caminho de perdição quando, por opção pessoal e livre, por ele optamos.

Pecadores somos, sem que alguém com verdade o possa negar. Perdidos não estamos, a não ser que voluntariamente queiramos afastar-nos de Deus e da misericórdia que em permanência derrama sobre nós. Deixou-nos os remédios de cura e fortalecimento: os sacramentos. Não os viver, desde o batismo à unção dos doentes, é não querer recorrer aos meios de que dispomos para a caminhada. É desperdiçar graças que por eles nos são conferidas com a infinita gratuitidade de Deus. Querer chegar à meta de Deus, aceitar e viver segundo as regras que Ele mesmo nos apresenta, é estar a caminho da casa do Pai.

Celebramos hoje Jesus Cristo Rei do Universo. Celebramo-lO no último domingo do ano litúrgico dizendo claramente que além se der princípio Ele é o fim de todas coisas, O Senhor virá para reinar com justiça, acolhendo no seu Reino todos os que, vivendo comunhão com Ele neste mundo de tribulação, Lhe são fiéis, O aceitam e querem em suas vidas. Nada nem ninguém pode evitar o seu Poder.