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sábado, 26 de novembro de 2022

Jesus - Único Sentido

 A vida é uma permanente expetativa. Vivemos cada momento presente com o pensamento que há de vir, no que há de acontecer, no que será o dia de amanhã, o futuro. 

Damos, hoje, início ao Advento, que é preparação para a chegada d'Aquele que há de vir. O Natal acontecerá tanto quanto, e só na medida em que, estivermos interiormente preparados, dispostos a deixar Jesus nascer. Sim, Ele faz-se presente dentro, não fora de nós. O tê-l'O na vida fará que seja levado a quem de nós se aproximar.

É muito grande o anseio de que tudo, as coisas e as pessoas, mude. A transformação acelerada em que a nossa sociedade está submersa, mostra a necessidade que temos de transformação e mudança. Mudam-se os valores, a conceção das coisas e dos acontecimentos, passando a ser bom e normal o que era impensável que alguma vez o fosse. Esta alteração do sentido e do valor das realidades está a fazer-nos perder o caminho: buscamos algo que queremos, mas, desvirtuando a verdade das coisas e das pessoas, nunca encontraremos a verdade de nós mesmos e, assim, nunca encontraremos a satisfação que saciar-nos. Antes, quanto mais   nos desviarmos do reto caminho, mais insatisfeitos nos encontraremos e mais quereremos transformar até chegarmos a um beco sem saída e tudo, até a vida, perderá sentido.

O Advento é o tempo propício para que se inicie a verdadeira transformação, aquela que nos leve ao encontro pessoal com Cristo, aquele que é a origem, a fonte e o sentido da vida. Precisamos convencer-nos de que Ele é o Homem, a que só Ele viveu plenamente o ser pessoa. Para além do mais, Ele é Deus. As duas naturezas, humana e divina, unem-se e existem numa só pessoa. As duas  dimensões, material e espiritual, coexistindo num único ser são a mais perfeita das comunhões. Só Ele, entendemos isso, é caminho, verdade e vida, sendo que só Ele dá sentido e razão de ser ao passado, ao presente e ao futuro.

terça-feira, 30 de novembro de 2021

Esvaziar-se


 

Iniciamos o Advento. Vivê-lo é já fazer Natal. Os dois tempos não podem ser separados, porque o Natal acontece realmente, apenas e só, quando o Advento acontece também. O ambiente comercial manifesta isso muito bem. Tudo o que cheire a um pouco de negócio está já embrulhado em luzes e cores natalícias.

Nós, cristãos, olhamos, queira Deus que sim, os tempos do ano com um olhar diferente. O Advento é preparação interior, e pessoal, para o acolhimento do Salvador. Ele quer nascer, permanente, em nossas vidas. Se há dois mil anos assumiu a natureza humana para estar entre nós, hoje, o seu nascimento acontece dentro, na vida, daqueles que se dispõem a acolhê-l'O Aqui é bom pararmos um pouquinho e percebermos que Deus nos é íntimo, faz-se presença em cada um. Isso tem que levar-nos a vê-l'O presente em nós mesmos e nos outros.  Deus ama-se nos irmãos e os irmãos amam-se em Deus. Daí vem a certeza de que quanto mais amamos Deus, mais amaremos os irmãos. Só ama Deus quem O tem em si mesmo.

Sentir o Advento com verdade é tomar consciência da fragilidade da vida  que somos, e que envolvemos na ilusão das grandiosidades da capacidade humana e do poder económico, e, no mesmo olhar, sentir a absoluta grandiosidade de Deus e tomar consciência da plena humildade que manifestou, assumindo a nossa natureza e condição. Deus é o Eterno, nós somos uma passagem. A tentação é assumirmo-nos como deuses abdicando de Deus. Querendo subir, assim, além das nossas capacidades entramos em situação de queda abrupta e mortal.

Em primeiro dia de Advento somos chamados à vigilância, ao necessário prestar de atenção para que a vida e o tempo nos não passem ao lado. Nem a vida nem o tempo voltam ou se repetem, cada momento acontece de forma única. Um momento que não se viveu segundo o plano que Deus traçou para a vida que nos dá é momento perdido.

Viver Advento é entrar dentro de nós mesmos, vasculhar tudo, e deitar no saco da misericórdia divina o que não presta, ocupa lugar e faz pó, para repor Deus em todas as dimensões do ser que somos.

sábado, 28 de novembro de 2020

Ele Vai Nascer

Iniciamos um novo ano litúrgico. O Advento celebra exatamente o tempo de expetativa, o tempo de espera do Salvador. Vivemos uma situação que leva, os que creem, a uma intensificação do pedido a que o Senhor venha a nós com sua força salvadora; para  muitos daqueles que “nem sim nem não” será ocasião de maior afastamento em relação a Ele. Direi que estamos em tempo de discernimento, de claro sim, ou não, a Deus.


Para quem opta por um sim e uma maior aproximação à salvação que Deus nos oferece, é preciso que não se caia num certo engano de buscar e querer de Deus apenas a “salvação” e libertação daquilo que é a pandemia e outras situações materiais e físicas. Esperar a salvação de Deus é, antes de mais, e essencialmente, querer a salvação da vida na relação com o bem e o mal; é querer que o Senhor nos liberte do mal, que pode conduzir a uma perdição eterna. As doenças, as guerras… passarão, deixarão e apoquentar-nos, mais dia menos dia, após a morte do corpo. Primeiro há que acolher Deus em nossas vidas para que nos liberte dos poderes do mal. Então, depois do encontro pessoal com Ele, peçamos ardentemente, que no livre destes males terrenos, pedindo que, acima de tudo, se faça a sua vontade em nós e que tudo saibamos ver como ocasião de remissão e oportunidade para mais O acolher em nós.


Preparamos o Natal. Já se veem luzes a cintilar por aí, mostrando um Natal que não diz muito. O Senhor quer nascer e crescer em nós, dentro de nossas vidas para preencher os espaços que quisermos oferecer-Lhe. Só fará parte daquilo em que O deixarmos entrar: na nossa esperança, na nossa confiança, nos nossos medos, nos nossos pecados. Sim Deus quer entrar aí para preencher de misericórdia e graça, o que em nós é desencanto, incerteza, angústia, doença, pecado.


Viver o Advento é ir deixando que tudo aquilo que em nós é ausência de Deus vá dando lugar Àquele que é Criador e nos oferece vida constante, Àquele que é Salvador, nos liberta do pecado, e dá vida em abundância, Àquele que é Santificador e nos enche de vida plena. Deus vais nascer se deixarmos que o possa fazer.

 

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

Este é o Tempo...

Este é, para muitos, tempo e ocasião para viver um profunda solidão e tristeza, sentimentos que advêm de uma, mais ou menos real, certeza de que este é, por natureza, tempo de verdadeira felicidade para todos, o que acentua mais ainda os aspetos que marcam  menos positivamente a vida de cada um, as vidas de tantos.

Lia um artigo afirmativo de que esta é a época mais hipócrita do ano. É-o de facto, não por si, mas pelo que dela fazemos. As épocas, os tempos ou as coisas, não são hipócritas, somo-lo nós que, hipocritamente, somos  e vivemos  cada época do tempo que a vida nos proporciona.
Este é o tempo mais belo que pode ser vivido, seja por quem for, o que não quer dizer que todos assim o vivam: este é o tempo, o único tempo que existe. O passado passou e foi o que dele fizemos, o futuro será o que hoje somos e o que amanhã formos.

Este é tempo em que Deus nasce e dá fecundidade à vida daqueles que preparam "terreno" para que a semente do Verbo possa gerar e dar fruto; este é o tempo em que Deus, oferecendo-se na aceitação da vontade do Pai, se dá e salva aqueles que sabem curar as feridas da falta de sentido de vida, as feridas de pecado, com a Palavra que guia, o Corpo e o Sangue que alimentam; este é o tempo favorável do encontro com o Deus criador que nos recria, o Deus Salvador que nasce, se entrega, e salva, o Deus santificador que move aqueles que se tornam dóceis à sua voz para que vivam e façam de toda a sua existência uma época de encontro com a plenitude divina e dela sejam portadores para aqueles com quem cruzam suas vidas.

Este é o tempo, o melhor, porque o único tempo, para que uns e outros, todos: ricos e pobres, saudáveis e doentes, pequenos e grandes, iludidos com a vida ou com ela desiludidos, abram coração e mente, tudo o que são, para que Deus possa nascer, crescer e salvar: para que aconteça mesmo Natal, vivido sem hipocrisia, só em verdade e, então sim, possa ser natal todos os dias. 

domingo, 9 de dezembro de 2018

Porta Que Leva ao Caminho

Temos, hoje em dia, muito facilitadas as formas de encontrar o caminhos para onde quer que nos dirijamos, "basta comprar um GPS" e, mais coisa menos coisa, ele vai levar-nos ao lugar certo. 

Estamos em caminho, não de um lugar mas de um estado, de uma forma de ser, a caminho da eternidade, na glória de Deus. O caminho está aberto e é claro: nascemos de Deus e para Ele somos chamados a caminhar e viver. Caminho há só um: Cristo. Mas é preciso percorrê-lo. Ele deu, antes de nós, os necessários passos a dar. Liberalizou estações de reabastecimento de energias e graça: os sacramentos. Enviou-nos sem pesos e cargas, mandando-nos sacudir até o pó do mal que possa pegar-se ao calçado.

Vai connosco, connosco caminho e para nós se faz caminho, não nos deixando sós, por um pequeno momento que seja. Faz-se sede em nosso interior para que Dele sintamos desejo e vontade, porque só caminha quem a algum lado ou a alguém quer chegar. 

Aqui entra a dificuldade: sabermos se há em nós um real desejo de Deus. Não acontecerá, porventura, que, cheios de nós mesmos e de nossas coisas, não tenhamos espaço para Ele?

Maria, a soberana Senhora, foi aquela que mais profunda e intensamente  desejou, esperou, e orou para que o Senhor Deus enviasse ao mundo o Salvador., tal e tão intenso era o seu desejo de que a humanidade fosse salva. Por sua profunda humildade, não Lhe passava em mente que fosse achada digna de ser a Mãe do Salvador. Não sabia que era Imaculada, simplesmente se entregou a si mesma ao projeto salvador de Deus e, incessantemente, orou para que esse projeto se realizasse quanto antes. 

Sua condição de Imaculada levou-A à total entrega de si mesma, pelo que um "não" à vontade de Deus seria impensável nesta mulher que era toda, e só, de Deus. Ainda assim, Deus não Lhe retirou a liberdade, sabia, no então em quem confiava: um Deus que se confia "todo" no "Sim" e na vida de uma jovem mulher!

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Maria, Farol e Vigia

E estamos em Advento... Começa um novo ciclo litúrgico. Convocados pela Igreja a celebrarmos com adequada preparação o Natal, iniciamos este tempo assumindo a necessidade de nos dispormos a permitir que Jesus se torne realidade em nossas vidas.

No próximo sábado celebramos a Imaculada Conceição da Virgem Maria. Especialmente preparada por Deus, que a isentou de toda a macha de pecado, fazendo dela um ser humano único, absolutamente predisposta para que Jesus pudesse encarnar, assumindo a nossa humanidade. O ventre de Maria tornou-se o céu. O seu "Faça-se" foi ato de plena entrega de si mesma, um pleno assumir de todas as consequências do ser Mãe do Salvador e um acolher em suas mãos o projeto divino de salvação da obra criada.

Hoje, a liturgia da palavra, faz um veemente apelo à vigilância em todo o tempo e momento. Vigiar é ser reflexo de Maria: a mulher que, porque cheia de graça,  por graça divina e vontade sua, se tornou o mais atento e acolhedor ser de toda a grandeza de Deus. Nela não havia impedimento à plena entrega de si mesma à vontade de Pai, esse impedimento que o pecado provoca em nós, impedimento tanto maior quanto maior for a falta de graça (a desgraça) em nosso ser.

Maria, sem que alguma vez lhe passasse pela mente a ideia de poder ser a  Mãe do Salvador, a extrema humildade de que se revestia fazia-A sentir-se a mais indigna de todas as criaturas, tornou-se, por seu amor à humanidade, a única que pedia gerá-Lo em seu ventre por ser Ela a única capacitada para tal acolhimento, por ser a única desprovida de qualquer sombra de pecado. Ela foi, e não haverá ninguém mais, a única que podia receber em si a força, a luz, que é o próprio Deus, em toda a sua intensidade.

Maria, tornou-se, assim o farol irradiador de graça e de luz que fortalece e ilumina qualquer pecador, no seu pequeno e incapacitado desejo de comunhão com Deus. Estar vigilante é olhar, querer e desejar, Deus através de Maria, a Mãe atenta e vigilante.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Maria em Espera

O que acreditamos é o que queremos, aquilo por que ansiamos e pelo qual lutamos. Conscientemente ou não, os desejos que temos, o sentido de vida e o caminho que percorremos, vão dar àquilo que é tesouro do coração.

Um egoísta concentra-se em si mesmo. Ainda que o seu olhar passe pelos outros, a profundidade e os fins de suas ações, embora possam parecer altruístas, não se dirigem senão a si mesmas, buscando e sentindo consolo no que faz. Quer consolação pessoal e para tal "serve-se" da ideia de fazer bem aos demais. Verdade que pode ter feito muito bem, mas fê-lo em autorrealização.

Um altruísta, aquele que sai de si para encontrar a felicidade dos outros, não busca realização pessoal, o que faz fá-lo com o sentido dos outros, mais ainda, com o sentido de Deus. Não se buscando a si mesmo, acaba por encontrar uma realização e felicidade interiores muitos maiores que aquelas que alcança atua a pensar em si mesmo. A verdadeira felicidade está, de facto e sem dúvida, no facto que fazermos que os outros sejam felizes.

Claro que é preciso estar-se atento e fazer da entrega de si mesmo um ato contínuo, tanto quanto o permitirem as nossas limitações e amor próprio. Fazer pelo outro é já largo caminho para se alcançar aquela felicidade por que profundamente se anseia. Fazer por Deus é caminho de perfeição, o único que realmente pode conduzir a esse estado de plena harmonia interior. Não, humanamente não se consegue, por isso o Céu começa a acontecer nesta vida, mas so se alcança após a morte.

Depois deste longo preâmbulo, talvez possamos entender um pouquinho mais o amor com que Maria se confiou à vontade de Deus: Ela, mais que ninguém, e isso recebeu-o de seus pais e como graça de Deus, ansiava a libertação, a salvação, da humanidade. tendo sido criada, sem o saber, isenta de qualquer mancha de pecado, vivia, por graça de Deus, em estado de perfeição, sendo a sua vida uma plena oferta de si mesma pela salvação de cada pessoa das garras da morte. Por especial dom de Deus esta salva e, naturalmente, queria (quer) a salvação de todos. Mais que qualquer um de nós, mais que todos nós juntos, esperou, ansiou e, por isso, Nela se realizou e aconteceu a salvação do género humano. (03-12-17)