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terça-feira, 16 de outubro de 2018

Simbólica do Bem ou do Mal


Não é a primeira vez que falamos destas questões aqui, mas é preciso que continuemos a fazê-lo, talvez relembrando, para que vamos tomando consciência da Igreja que somos, porque o que um cristão é, a Igreja é-o também.


Momentos antes de ungir o peitinho da criança com óleo santo, a mãe pôs-lhe ao pescoço um fio, que meteu para dentro da roupita. Tudo normal. No momento do batismo, porque foi preciso inclinar a criança, o fio saiu e mostrou todo o seu potencial. Reparei depois de uma outra criança, creio que irmã, estava carregada com os mesmos adereços. A estrela de David (6 pontas), uma figa, um corno, uma meia lua... Era tal o emaranhado de símbolos que não deu para ver se estavam todos e se por lá haveria também um crucifixo. Provavelmente haveria de tudo. 

Ficou-me a questão sobre o porquê, e o para quê, de batizar um filho quando pais, padrinhos e avós, desde a mais tenra infância, os carregam de simbologias contraditórias, invocando sobre eles, em simultâneo, duas forças adversa, a do bem e a do mal. Deus e satanás. A vida desenrola-se num constante ato de escolha entre estas duas realidades.

A estes sinais atribui-se a sorte, o afastamento do mal. Aliás, mesmo muitos cristãos ao trazem uma cruz, não lhe atribuem simbologia diferente desta. Trazem-na, não porque seja o sinal e a lembrança de que se pertence e se está em comunhão com Deus, mas como se de um amuleto se tratasse e ele afastasse o mal. A vida não é uma questão de sorte, é vida. É dom de Deus, que se constrói como uma sequência de escolhas pessoais e que nos traz os frutos dessas mesmas escolhas.

Fomos criados para o bem, mas, atingidos pelo mal, somos permanentemente atraídos para o que é mau. A caminhada cristã é precisamente a luta que se trava no vencer o mal, luta que produz vitória pouco a pouco e numa íntima relação de comunhão com Deus, a quem se confia o viver. Andar de lado para lado ou limitarmo-nos a afastar a "má sorte", não é muito mais que dizer ao demónio que se é amigo dele e que até trazem os seus sinais. Nessas condições, é claro que ele nem precisa de se chatear. Não é sorte, são menos tentações, o que, aparentemente e no momento, nos facilita a vida. Mas a vida não é aparência nem momento, é eternidade... E Deus não nos retira a nossa liberdade.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Quem Vive Não Morrerá

“Eu sou a ressurreição e a vida. Quem acredita em Mim, ainda que tenha morrido, viverá; e todo aquele que vive e acredita em Mim, nunca morrerá. Acreditas nisto?” (Jo 11,25-26) As afirmações e a pergunta de Jesus fazem parte do diálogo com Marta, por ocasião da ressurreição de Lázaro.

No profeta Ezequiel lemos: “Vou abrir os vossos túmulos e deles vos farei ressuscitar…” (Ez 37,12). Professamos, no Credo, a fé na descida de Jesus à mansão dos mortos. O pecado tinha reduzido o ser humano à condição de condenado à morte, uma morte eterna, cortando-lhe a possibilidade de total comunhão com Deus, a possibilidade da eternidade no Céu, para a qual havia sido criado.

A ação de Deus, na entrega do Filho para reverter a situação do Homem, altera o rumo que este escolhera ao optar pela rejeição do Criador na original tentação demoníaca.

A oferta que Jesus, o Homem-Deus, faz de si, da sua vontade, da sua vida, ao Pai recupera a humanidade para a vida junto de Deus, deixando no ser humano a opção de escolha. Entre o bem e o mal, a vida e a morte, a decisão está nas suas (nossas) mãos.

“Quem acredita em Mim, ainda que tenha morrido, viverá”. Na morte de Jesus cumpre-se a profecia de Ezequiel e torna-se clara a sua afirmação à Marta, em Betânia. No morrer do corpo a alma entra na morte. Entenda-se por morte da alma, porque o é, o estado de ausência de Deus. Sendo que a alma não morre, “vivia” em estado de morte porque longe de Deus, uma vez que não tinha lugar junto Dele, em consequência do pecado. Ao morrer, Jesus entrou na morte, na “mansão dos mortos”, mas porque é Deus abriu as portas de saída e, ao ressuscitar, retirou dela todas as almas que, tendo vivido em comunhão com Deus, esperavam o momento da redenção para serem elevadas ao céu. “Vou abrir os vossos túmulos e deles vos farei ressuscitar”. Aconteceu: um Homem-Deus entrou na morte e o mesmo Homem-Deus venceu-a ressurgindo dela. A morte foi vencida, satanás perdeu. Por isso tanto se afadiga por, na recuperada liberdade dos seres humanos, os atrair a si.

“E todo aquele que vive e acredita em Mim, nunca morrerá”. Porquê? Porque as portas da morte estão fechadas para aqueles que acreditam e vivem em Jesus. Continuam abertas para aqueles que, conhecendo Deus, O recusam nesta vida terrena, que é “sala de espera” da eternidade. Compreende-se assim, que a morte do corpo seja passagem para Deus. O corpo morre mas a alma “nunca morrerá” porque não entra na “mansão dos mortos”, o seu lugar é nas “moradas eternas de Deus”.

Questionamo-nos sobre o Purgatório. Sem ser morte da alma, é uma experiência de morte, porque, tendo já visto Deus em todo o seu Esplendor, ela se vê apartada Dele, mas por um “tempo determinado” – uso a palavra tempo para me poder exprimir – e tendo já a certeza da vida em Deus.

Porque a Vida é absoluta vivência de comunhão de Amor. Já a morte, por seu lado, é absoluta falta de esperança e pleno desespero, absoluta falta de amor e plena vivência de ódio, absoluta falta de relação de comunhão e plena solidão. 

J. B. 04-04-2017