Mostrar mensagens com a etiqueta Souto. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Souto. Mostrar todas as mensagens

sábado, 26 de novembro de 2022

Jesus - Único Sentido

 A vida é uma permanente expetativa. Vivemos cada momento presente com o pensamento que há de vir, no que há de acontecer, no que será o dia de amanhã, o futuro. 

Damos, hoje, início ao Advento, que é preparação para a chegada d'Aquele que há de vir. O Natal acontecerá tanto quanto, e só na medida em que, estivermos interiormente preparados, dispostos a deixar Jesus nascer. Sim, Ele faz-se presente dentro, não fora de nós. O tê-l'O na vida fará que seja levado a quem de nós se aproximar.

É muito grande o anseio de que tudo, as coisas e as pessoas, mude. A transformação acelerada em que a nossa sociedade está submersa, mostra a necessidade que temos de transformação e mudança. Mudam-se os valores, a conceção das coisas e dos acontecimentos, passando a ser bom e normal o que era impensável que alguma vez o fosse. Esta alteração do sentido e do valor das realidades está a fazer-nos perder o caminho: buscamos algo que queremos, mas, desvirtuando a verdade das coisas e das pessoas, nunca encontraremos a verdade de nós mesmos e, assim, nunca encontraremos a satisfação que saciar-nos. Antes, quanto mais   nos desviarmos do reto caminho, mais insatisfeitos nos encontraremos e mais quereremos transformar até chegarmos a um beco sem saída e tudo, até a vida, perderá sentido.

O Advento é o tempo propício para que se inicie a verdadeira transformação, aquela que nos leve ao encontro pessoal com Cristo, aquele que é a origem, a fonte e o sentido da vida. Precisamos convencer-nos de que Ele é o Homem, a que só Ele viveu plenamente o ser pessoa. Para além do mais, Ele é Deus. As duas naturezas, humana e divina, unem-se e existem numa só pessoa. As duas  dimensões, material e espiritual, coexistindo num único ser são a mais perfeita das comunhões. Só Ele, entendemos isso, é caminho, verdade e vida, sendo que só Ele dá sentido e razão de ser ao passado, ao presente e ao futuro.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

Ser Família

Este é dia (26-12-2021) dedicado à celebração da Sagrada Família de Nazaré.

Sendo o Natal o mistério da Encarnação do Filho de Deus, é mistério que não pode dizer-se por palavras, apenas ser contemplado e amado. Este mistério divino acontece no seio de uma Mulher, no seio de uma Família, naquele silêncio de tudo o que não

pode dizer-se, apenas contemplar-se e amar-se. Olhamos a família de Nazaré e facilmente nos fixamos na sua beleza artística, passageira e fugaz, dependente da sensibilidade de cada um, diferente para todos.

Não se vê de olhos abertos, contempla-se nos olhos fechados, no olhar da mente em estreita comunhão com o coração. Aí, só aí, encontra-se a real beleza de uma comunhão familiar que é, por si e na envolvência de Deus, mistério que, como o de Deus, não pode também falar-se por palavras, só no íntimo de nós mesmos, na luz que as fragilidades humanas permitem que o coração e o amor possam ver.

José, apanhado desprevenido num mistério de salvação que só a revelação divina, através do seu Anjo, pôde fazê-lo entender, ou, mais que entender, fazê-lo amar com uma intensidade de que o coração só por graça é capaz.

Maria, a jovem mulher cheia de Graça, a viver em divina comunhão, sendo a mais humilde das criaturas, superada só pela humildade de Deus aos fazer-se Homem, estremece diante do Anjo que Lhe faz anúncio de que será a Mãe do Filho de Deus. Não teme porque Deus a fortalece e porque se sabe plenamente nas mãos de Deus, embora sentindo-se a mais indigna, assume-se como escrava ao serviço dos planos do Senhor. Não, não pode passar-nos pela mente o sentimento de amor que acontece nesta mulher para com José e, sobretudo para com seu Filho, o próprio Deus.

Jesus, o Tudo que em plena humildade, só contemplável à luz da Misericórdia, assume o "nada" da nossa natureza e se dispõe a ser acolhido, amado e cuidado por José e Maria. Um Deus que aceita o "risco" de viver a nossa humanidade. Mas sim, assume esse "risco" no seio daquela que é uma família de amor elevado à intensidade de ser mistério que só na fé pode entender-se.


terça-feira, 30 de novembro de 2021

Esvaziar-se


 

Iniciamos o Advento. Vivê-lo é já fazer Natal. Os dois tempos não podem ser separados, porque o Natal acontece realmente, apenas e só, quando o Advento acontece também. O ambiente comercial manifesta isso muito bem. Tudo o que cheire a um pouco de negócio está já embrulhado em luzes e cores natalícias.

Nós, cristãos, olhamos, queira Deus que sim, os tempos do ano com um olhar diferente. O Advento é preparação interior, e pessoal, para o acolhimento do Salvador. Ele quer nascer, permanente, em nossas vidas. Se há dois mil anos assumiu a natureza humana para estar entre nós, hoje, o seu nascimento acontece dentro, na vida, daqueles que se dispõem a acolhê-l'O Aqui é bom pararmos um pouquinho e percebermos que Deus nos é íntimo, faz-se presença em cada um. Isso tem que levar-nos a vê-l'O presente em nós mesmos e nos outros.  Deus ama-se nos irmãos e os irmãos amam-se em Deus. Daí vem a certeza de que quanto mais amamos Deus, mais amaremos os irmãos. Só ama Deus quem O tem em si mesmo.

Sentir o Advento com verdade é tomar consciência da fragilidade da vida  que somos, e que envolvemos na ilusão das grandiosidades da capacidade humana e do poder económico, e, no mesmo olhar, sentir a absoluta grandiosidade de Deus e tomar consciência da plena humildade que manifestou, assumindo a nossa natureza e condição. Deus é o Eterno, nós somos uma passagem. A tentação é assumirmo-nos como deuses abdicando de Deus. Querendo subir, assim, além das nossas capacidades entramos em situação de queda abrupta e mortal.

Em primeiro dia de Advento somos chamados à vigilância, ao necessário prestar de atenção para que a vida e o tempo nos não passem ao lado. Nem a vida nem o tempo voltam ou se repetem, cada momento acontece de forma única. Um momento que não se viveu segundo o plano que Deus traçou para a vida que nos dá é momento perdido.

Viver Advento é entrar dentro de nós mesmos, vasculhar tudo, e deitar no saco da misericórdia divina o que não presta, ocupa lugar e faz pó, para repor Deus em todas as dimensões do ser que somos.

segunda-feira, 16 de agosto de 2021

O Céu Reaberto

As minhas leituras dos últimos tempos tem-me levado a reformular um pouco a visão que temos da participação de Nossa Senhora na História da Salvação. Chego a pensar que somos severamente mesquinhos ao apresentar Maria como uma mulher "normal" como "qualquer outra", querendo, com isso, fazer dela modelo ao alcance de cada um de nós. Esquecemos que Ela é absolutamente extraordinária (não é normal o que é extraordinário), mas, sendo-o, viveu, ao olhar humano, uma vida normal, como era de esperar, uma vez que o fez na mais extraordinária das humildades.

Hoje celebramos a sua elevação ao Céu. Viveu alguns anos depois da morte de seu Filho, e por fim também Ela "adormeceu" para que, humanamente, tudo fosse "normal". Sorrio com emoção ao pensar como Deus se desfaz em misericordioso amor por mim, por nós. Com a Ascensão de Jesus acontece a "reabertura" do Céu fechado à humanidade depois do pecado de Adão. Sendo Maria perfeita criatura, Ela pertence ao Céu, não à terra. Não, a Santíssima Trindade não ""viveria" sem Maria no tempo que medeia entre a Ascensão e a Assunção? Deixemos, por agora, a tentativa de compreender a eternidade, onde não há tempo nem ausência). A primeira, porque a única perfeita, criatura a cruzar as portas do Paraíso teria que ser Maria. Abertas por Jesus (gerado, não criado), só Maria as poderia cruzar para, com a Santíssima Trindade, receber as almas libertas do poder das trevas e que, com a ascensão de Jesus, foram elevadas ao Céu. Acredito que Maria foi elevada ao Céu e coroada Rainha Universal no primeiro "momento" de "Céu aberto".

Limitamos o poder de Deus e, por isso, reagimos à ideia de que Maria possa ter sido elevada ao Céu, vivendo ainda na terra e sem nela deixar de estar visível e presente. Não, não ficou no Céu, e aqui está misericórdia de Deus e de Maria. «E vi descer do Céu, de junto de Deus, a cidade santa, a nova Jerusalém, já preparada, qual noiva adornada para seu esposo (...) Esta é a morada de Deus entre os homens). Ap 21, 2.  Voltou, já Rainha da Igreja e do universo, para "ajudar" com sua presença maternal a lançar e fortalecer, como embaixadora de Deus, os fundamentos da Igreja instituída por Cristo.

sábado, 28 de novembro de 2020

Ele Vai Nascer

Iniciamos um novo ano litúrgico. O Advento celebra exatamente o tempo de expetativa, o tempo de espera do Salvador. Vivemos uma situação que leva, os que creem, a uma intensificação do pedido a que o Senhor venha a nós com sua força salvadora; para  muitos daqueles que “nem sim nem não” será ocasião de maior afastamento em relação a Ele. Direi que estamos em tempo de discernimento, de claro sim, ou não, a Deus.


Para quem opta por um sim e uma maior aproximação à salvação que Deus nos oferece, é preciso que não se caia num certo engano de buscar e querer de Deus apenas a “salvação” e libertação daquilo que é a pandemia e outras situações materiais e físicas. Esperar a salvação de Deus é, antes de mais, e essencialmente, querer a salvação da vida na relação com o bem e o mal; é querer que o Senhor nos liberte do mal, que pode conduzir a uma perdição eterna. As doenças, as guerras… passarão, deixarão e apoquentar-nos, mais dia menos dia, após a morte do corpo. Primeiro há que acolher Deus em nossas vidas para que nos liberte dos poderes do mal. Então, depois do encontro pessoal com Ele, peçamos ardentemente, que no livre destes males terrenos, pedindo que, acima de tudo, se faça a sua vontade em nós e que tudo saibamos ver como ocasião de remissão e oportunidade para mais O acolher em nós.


Preparamos o Natal. Já se veem luzes a cintilar por aí, mostrando um Natal que não diz muito. O Senhor quer nascer e crescer em nós, dentro de nossas vidas para preencher os espaços que quisermos oferecer-Lhe. Só fará parte daquilo em que O deixarmos entrar: na nossa esperança, na nossa confiança, nos nossos medos, nos nossos pecados. Sim Deus quer entrar aí para preencher de misericórdia e graça, o que em nós é desencanto, incerteza, angústia, doença, pecado.


Viver o Advento é ir deixando que tudo aquilo que em nós é ausência de Deus vá dando lugar Àquele que é Criador e nos oferece vida constante, Àquele que é Salvador, nos liberta do pecado, e dá vida em abundância, Àquele que é Santificador e nos enche de vida plena. Deus vais nascer se deixarmos que o possa fazer.

 

sábado, 31 de outubro de 2020

Ser Santo é Para Todos

 

Está bastante difundida a ideia de que ser santo é algo quase de outro mundo, ou então de que os santos são seres extraordinários, gente fora do comum, como se o chamamento a ser santo não fosse feito a cada um. Ser santo é viver os grandes e os pequenos momentos da vida em comunhão com Deus, ou seja, segundo a sua vontade. Alguns fazem-no de forma extraordinária, indo para além daquilo que é vida comum, na sua capacidade de intimidade  e de entrega de si mesmos a Deus, no sofrimento por exemplo.

Ser santo não é ser reconhecido pela Igreja e estar nos altares. É deixar-se amar por Deus ao ponto de ser por Ele acolhido em eternidade. A Igreja, pelos sinais de vida vivida de forma extraordinária por alguns, declara que estão no Céu. Não é por isso que são santos, é por serem santos que a Igreja os declara como tal. 

A verdade é que só Deus sabe quem são os santos, pensemos nos do Céu e nos do Purgatório. Qualquer um de nós pode apontar umas e outras pessoas que acreditamos estarem em Deus, mas só Deus o sabe. Não ns cabe a nós julgar nem na vida nem na morte e só Deus conhece a plenitude da vida que cada um é. Quantos pensamos bons e são maus e quantos julgamos por maus quando são verdadeiros santos!? Percebemos porque é que não nos cabe a nós julgar, condenar ou absolver ninguém. Todo o juízo humano é falacioso, enganador. Perceba-se também a razão por que não temos o direito de dizer4 mal de alguém, precisamente porque não conhecemos as razões e o interior de cada um. 

Celebrar os santos, sejam já participantes da plenitude do Céu, ou estejam ainda nas moradas purificadoras do Purgatório, é, antes demais., cantar a glória divina, viver em atitude de ação de graças por aqueles que são santos e pela ação de intercessão que fazem por nós. Em relação às almas do purgatório é petição ao Senhor para que as leve a contemplar definitivamente a sua Glória no Céu. Como não sabemos quais são umas e outros, assumamos uma atitude de louvor e gratidão por todos aqueles que já partiram rumo ao Pai.

 

quarta-feira, 23 de setembro de 2020

Espiritualidade Sem Deus

O estado de pandemia em que vivemos  é revelador de muito daquilo que somos,  em todos os aspetos, também na dimensão religiosa. Não vamos entrar em lamentação ou julgamento, mas apenas buscar uma reflexão que, tanto quanto possível, nos leve a pensar na condição de cristãos que somos e que nos advém do facto de sermos batizados. 


Um vírus está a tomar conta da sociedade que  somos, ou que éramos, e a controlar aquilo que queríamos ser. Percebemos como a vida está em causa e como o mundo está a limitar uma das realidades mais básicas das sociedades democráticas, a liberdade, para conter o avanço deste vírus em nossas vidas.


Somos cristãos, digo somos porque vivemos num ambiente quase totalmente composto de batizados. Sabemos como as gerações mais novas de vêm embrenhando sempre mais nas realidades do mundo e afastando da espiritualidade cristã, que é de facto um afastamento em relação a Deus, substituindo-o por “entidades” espirituais que leva a pessoa a centrar-se sobre si como centro e razão de ser do mundo. As gerações de mais idade viveram muito um cristianismo centrado na tradição, não tanto numa relação pessoal com Deus, o que levou a uma educação desenraizada de um Deus em relação pessoal com cada um. Isto leva a que continuemos a viver de uma fé assente em tradição, mas sem ser concretizada na vida.


Não fazendo parte da essência do viver da pessoa, com toda a facilidade, e perante a primeira oportunidade favorável, Deus é posto à margem da vida, porque não é importante nela. Guarda-se apenas como mais um “ser” a quem se recorre nos momentos de aflição, particularmente nos que são pessoais, não tanto naquilo que se referem aos outros, precisamente porque nos centramos em nós mesmos e não vemos Deus como pai e os outros como irmãos


Falo das aflições pessoais porque, se repararmos bem e lá no fundo, o que leva a recorrer a Deus é o medo pessoal de entrarmos em fragilidade ou da fragilidade de outros, do medo de perder, aqueles que por qualquer razão acabam por nos fazer falta. Nós sempre no centro.

Temos uma real necessidade de um encontro pessoal com Deus. Enquanto o vírus for impedimento para isso, não nos teremos posto em marcha e deixamos que fique ainda mais distante.

terça-feira, 1 de setembro de 2020

Vai-te daqui, Satanás

 


Satanás não é propriamente o mais simpático de se chamar a alguém, mas foi o que Jesus chamou a Pedro, quando reagiu como reagiu ao ouvir Jesus dizer que havia de morrer às mãos dos “grandes” de Jerusalém.

Satanás tão somente aquele que se opõe e comanda toda a oposição a Deus. Toda a sua vontade e todo o seu agir vão no sentido de impedir que se realize o projeto salvador de Deus. Porque contra Deus não pode nada, atua junto das criaturas livres, o ser humano, para nos levar a negar, a impedir e a recusar a salvação operada e oferecida por Deus. Deus salva, o diabo quer que não chegue a nós essa salvação. 

Embora não se dando conta, S. Pedro estava a deixar-se guiar por vontade diabólica procurando levar Jesus a não se entregar à morte, precisamente porque seria nessa entrega que aconteceria a salvação, como de facto sucedeu. S. pedro está a reagir com a melhor das intenções querendo evitar a morte de Jesus - “Deus Te livre de tal, Senhor, isso não há de acontecer” - Se tal não acontecesse, não aconteceria a Salvação, os planos de Deus seriam frustrados. Esse era, continua a ser, o plano de satanás. Porque estava a agir por meros intuitos humanos, recusando que a ação de Deus se operasse, estava a ser intermediário do mal, e Jesus identifica-o com o próprio mal.

É assim mesmo que ele atua: discretamente; fazendo passar por bom aquilo que é mau; atraindo para a ilusão de vida aquilo que a ela não conduz; criando indiferença em relação a Deus; destruindo as bases das relações de amor, como é o caso da família; sexualizando as relações entre pessoas; levando a transpor os valores da vida humana para os animais, desvalorizando-os nas pessoas; destruindo a vida pelo aborto e a eutanásia, fazendo passar por valores aquilo que é exatamente o seu contrário… Tenha-se em conta que, como norma, ele não atua diretamente, mas através das pessoas, e sempre que se faz a sua vontade ele ganha terreno e quem perde somos nós. Ele nada perde porque só há sentimento de algo que é bom, e ele é condenado e nada há nele que não seja mal.

Foi das suas mãos, do seu poder, do seu domínio, que Jesus nos libertou ao morrer na cruz. É dele que Deus quer libertar-nos. Está em nós a escolha.

sábado, 6 de junho de 2020

Profundíssimo Mistério


Sem a solenidade diocesana que habitualmente lhe damos, celebraremos na próxima quinta Feira a “Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Jesus”. Esta é a mais solene expressão de fé na misteriosa e insondável presença de Jesus entre nós. Fechar o olhar exterior e sentir, contemplando, a realidade presente naquele pedaço de pão consagrado facilmente leva à emoção porque Deus está ali presente, tão presente, real e verdadeiro como está no Céu, e de quem transbordam a glória e o esplendor.

Não veremos a sua Glória, pois disso somos incapacitados, porque o nada que somos é impeditivo de ver o tudo que Ele é. Não veremos a Glória, mas, porque O vimos atuar e salvar-nos em seu nascimento, vida, morte e ressurreição, perceberemos um pedaço do oceano de misericórdia que jorra de seu Divino Coração, trespassado para que todo se derramasse, até à última gota, e nele nada restasse, além de uma porta aberta (pela lança do soldado) e a  ilimitada e infinita vontade de querer nele acolher-nos. 

Vamo-nos distraindo nas radicais posições acerca de comungar na mão ou na boca, e nas inúteis discussões sobre qual dos membros é mais digno para O receber. No meio de tudo isto, é deixada de lado a necessidade que O adorarmos em “espírito e verdade”. Tem, claro que tem importância o modo exterior como comungamos (e eu prefiro dar a comunhão na boca), mas a banalização da comunhão também se vai mostrando por aí. Nas circunstâncias em que vivemos, sobretudo tendo em conta quem comunga a seguir, apelo a que se receba Jesus na mão. Custa-me, isso sim, ver sacerdotes afirmarem negar a a comunhão a alguém que se ajoelhe para a receber, como se “o seu espírito e verdade” fosse mais reto que o da pessoa que toma a atitude de O receber assim, de joelhos.

Vem aí o “Corpo de Deus”… Também a Igreja é Corpo Místico de Cristo… Vivendo a comunhão, saibamos encontrar tempos para pedir ao Senhor que nos leve a aumentar o amor para com Jesus Sacramentado, sem nos esquecermos de Lhe dar tempo para que isso aconteça, sabendo fazer silêncio no silêncio do profundo mistério da presença de Jesus na Eucaristia.


domingo, 1 de março de 2020

O MUNDO, O DEMÓNIO E A CARNE


Estão na memória de muitos de nós os chamados “inimigos da Alma”, seja dizer-se: os inimigos da Salvação. Mundo, demónio e carne. Reportando-nos ao que nos diz a Escritura sobre o tempo de Jesus no deserto, façamos uma breve aproximação entre Jesus e estes inimigos da alma que, nós tão tranquilamente descuramos.

1.  O mundo não é mais que a mundanidade, o viver distanciados de Deus, pondo no lugar que Lhe compete as realidades mundanas, coisas e pessoas, a que tanto valor damos. Para Deus adota-se o mundo. Jesus retira-se do mundo das coisas e das pessoas, para o encontro com Deus, em retiro, no deserto;

2. Demónio: a força do mal, o príncipe do mundo, como Jesus lhe chama, que tudo faz e se serve para enganar, seduzir, desviar e afastar de Deus as pessoas e a obra da Criação divina. Discreta ou descaradamente, nos envolve e atrai, com ilusões e enganos, fazendo parecer ser bom e meritório o que realmente é mau, condenável e à condenação conduz. É tão fácil ceder que nem é preciso dar passos, tranquilamente se desliza para dentro da “cantiga” com que nos encanta. Jesus afastou-se dele, recusando-o, não cedendo, vencendo-o com a Palavra de Deus, impondo-se a Si mesmo como Senhor da sua vontade e do seu querer fazer a vontade do pai e só a Ele adorar;

3. Carne: são os prazer que se buscam pelo prazer. Nosso corpo é bom, se de equilíbrio e a harmonia se compõe. A sociedade que somos tem como princípio e pano de fundo do existir o “carpe diem” (vive, goza, a vida). Talvez mais do que nunca, nos centramos em nós, na prossecução dos nossos prazeres e tudo orientamos para a realização e o consolo pessoal. O rumo que se vai percorrendo está a orientar-se no sentido de tudo ser lícito e bom, desde que concretize os nossos, por vezes loucos, desejos. Não comemos para viver, mas por enfartar o prazer; não celebramos dentro da alegria, mas buscamos alegra-nos, no exagero do álcool e das drogas, para pensarmos que somos felizes. Jesus jejuou, consagrando o esforço do controle cada um de nós é chamado a ter de si, vivendo como senhores de nós mesmos e não, deixando-nos ser controlados pelo parecer, pelo ter, pelo poder.

sábado, 1 de fevereiro de 2020

Aceitar o Dom que é Dado


Jesus é apresentado no Tempo. Sabemos que era pertença de Deus o primogénito, o primeiro macho nascido, tanto dos humanos como dos animais. A Apresentação não é um mero ato de “mostrar” o menino, no caso dos humanos. É um ato de entrega. Entenda-se: “aqui to entrego, porque Te pertence”. Fazia-se, então, o resgate do menino, que era “trocado” por um novilho ou um casal de aves (para os mais pobres).

Sendo, embora, o próprio Deus, Jesus assume para si o que está prescrito para qualquer ser humano. A oferta de Jesus no Templo é muito mais do que um simples exemplo para nós.  Nesta  atitude, como na de Maria na Purificação, que acontecia no mesmo dia, Jesus não nos dá simplesmente exemplo. Há n’Ele um perfeito ato de entrega de Si mesmo, embora achemos nós que não seria necessário, por ser Ele o próprio Deus.

Este ato de entrega é um assumir e acolher a humana natureza de que estava revestido. É ato de plena humildade porque, sendo Ele todo pertença de Deus e assumindo a plena realização da vontade do Pai, entrega-se em tudo e sempre, fazendo da entrega de Si mesmo a entrega de toda a humanidade. Neste ato, Jesus está a salvar-nos, como acontece, aliás, em todos os seus atos, pensamentos e palavras. Mais do que salvar-nos num ou noutro momento, Ele é a salvação.

Por Jesus toda a humanidade é colocada nas mãos de Deus em ato salvador. Pelo batismo, aqueles que são batizados, assumem para si e acolhem, sempre n’Ele, a salvação que lhes é oferecida. Assumir e acolher a salvação é aceitar a entrega que de nós foi feita por Jesus e vivê-la em permanente ato pessoal de entrega de nós mesmos nas mãos do Pai. O batismo é o momento de acolhimento da vida de Deus e o compromisso a viver n’Ele.

Sendo Deus, humildou-se assumindo a fragilidade da nossa natureza e deu-nos dando-se a Si por nós. Pede-nos isso que é o mínimo que podemos fazer: a oferta de nós mesmos no viver como Ele viveu, para que não deixe de produzir efeito em nós toda a entrega de Si. Tanto e tão intensamente no ama, ao ponto de dar a vida para que n’Ele vivamos eternamente, e nós corremos o risco de, nem ao menos por gratidão, aceitarmos dar-Lhe o nosso querer sermos salvos.

sábado, 23 de novembro de 2019

O Senhor é Rei

Coroado de ignomínia pelos corações e pela coroa de espinhos que lhe cravaram na cabeça, Jesus é ultrajado da forma mais vil que poderia pensar-se. 

A grandeza e a sublimidade da sua realeza manifestaram-se ainda mais aí que em qualquer  um  dos outros momentos de sua vida. Sendo Criador, Rei  e Senhor, de todo o Universo, assumiu o mais vil dos ultrajes não em forma de fraqueza mas de infinita dignidade e misericórdia. Em nada, em nada mesmo, foi a sua realeza ferida. Foi ferido o Coração de onde jorram infinitas graças e infinito amor. Ferido por nós, ferido por causa de nós, porque não nos abrirmos a Ele, acolhendo os dons que nos conduzi-riam à vida na Glória, essa vida que a que nos chama e que nos oferece. O sofrimento de Deus não O fecha em Si mesmo, por não ser egoísta, mas precisamente por ser plenamente altruísta, sofre por nós, por nos ver sofrer nesta vida, e por nos ver a percorrer caminhos que conduzirão a um sofrimento eterno e sem um único momento de alívio, como nos diz o Livro do Apocalipse.

O sofrimento de Deus está no nosso sofrimento, sofrimento que advém do nosso não vivermos como nos manda, de O recusarmos no nosso pecado. Sofre por nos ver perdidos sem nos poder retirar do caminho de perdição quando, por opção pessoal e livre, por ele optamos.

Pecadores somos, sem que alguém com verdade o possa negar. Perdidos não estamos, a não ser que voluntariamente queiramos afastar-nos de Deus e da misericórdia que em permanência derrama sobre nós. Deixou-nos os remédios de cura e fortalecimento: os sacramentos. Não os viver, desde o batismo à unção dos doentes, é não querer recorrer aos meios de que dispomos para a caminhada. É desperdiçar graças que por eles nos são conferidas com a infinita gratuitidade de Deus. Querer chegar à meta de Deus, aceitar e viver segundo as regras que Ele mesmo nos apresenta, é estar a caminho da casa do Pai.

Celebramos hoje Jesus Cristo Rei do Universo. Celebramo-lO no último domingo do ano litúrgico dizendo claramente que além se der princípio Ele é o fim de todas coisas, O Senhor virá para reinar com justiça, acolhendo no seu Reino todos os que, vivendo comunhão com Ele neste mundo de tribulação, Lhe são fiéis, O aceitam e querem em suas vidas. Nada nem ninguém pode evitar o seu Poder.