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sexta-feira, 20 de março de 2020

Tempos Incertos

Mais um dia de necessária clausura nestes tempos incertos. Não temos que queremos, temos o que nos é possível. A nós cristãos, fica-nos a tristeza de não podermos celebrar comunitariamente a fé, mas leva-nos a uma reflexão e tomada de consciência dos momentos de graça divina do que tivemos até aqui e não aproveitámos. Queira Deus, fique em nós uma vontade grande e firme de nos tornarmos mais próximos de Deus, percebendo que não é em nossas mãos que está a salvação.

Hoje e amanhã era, permita-se-me que diga, é o tempo das “24 horas para o Senhor”. Não o faremos diante do santíssimo Sacramento, nas igrejas, para evitar aglomeração de pessoas, mas podemos fazê-lo no silêncio de nossas casas. Estamos a apontar para fazer adoração em privado, mas com transmissão via Facebook, na medida do que nos for possível, amanhã, dia 21, no período da manhã e também no da tarde. Permitindo, assim, que cada um, possa seguir nas suas casas e fazer silêncio orante.

Agora, que temos “todo o tempo do mundo” para rezar, e ainda sobra algum para “pasmar”, deitemos as mãos na massa e construamos um futuro diferente. Depois da tempestade vem a bonança. Não podemos, no entanto, descurar que outras tempestades surgirão.

quinta-feira, 19 de março de 2020

O Tempo Urge


É estranho, ou talvez não, mas faz pensar, isso faz!

Quando vivemos num mundo quase sem fronteiras, onde a velocidade dos aviões nos permite estar em diferentes países num mesmo dia, vemo-nos numa situação em que, quase de um momento para outro, fronteiras se fecham, não para controlar quem passa mas, simplesmente para não deixar passar;

Quando vivemos num tempo em que o dinheiro move o mundo, vemo-nos, de um momento para o outro, a correr o risco de o mundo económico abater;

Quando vivemos no mundo a querer controlar, e a fazê-lo muito já, quem pode nascer ou deve morrer antes de nascer ou depois de envelhecer, vemo-nos numa luta mundial contra a morte ou o risco de morrer;

Quando vivemos num mundo a querer ir a Marte e sendo já conhecedores já da profundidade genética do ser humano e de outros seres vivos, vemo-nos numa luta desigual contra um ser “invisível” que alastra a uma velocidade louca e gera pânico geral;

Quando vivemos num mudo que caminha para um estado de vida que seja puro gozo, vemo-nos, de um dia para o outro, limitados à quase solidão, controlados pelas autoridades, impedidos de muito mais gozo que aquilo que é básico e essencial na vida.

Julgando-nos, nós humanos, inteligentes e controladores da vida, do tempo e da história, vemo-nos paralisados, descontrolados, afastados nas nossas relações, como q eu desconfiando de tudo e de todos, emudecidos debaixo do medo de que o inimigo esteja no beijo que se dá a um filho, no aperto de mão conciliador, na camisa daquele que, a nosso lado, poderia ir à igreja rezar…

Quando passei pela Capelinha das Aparições, em Fátima, na tarde do que seria um dia cheio de gente, encontro apenas uma dúzia de pessoas sentadas, a segura distância, em bancos cheios de pó. Fez-me pensar em abandono. Pensei que ao abandono a que a nossa sociedade vota Deus corresponde a liberdade que Deus nos confere e oferece, deixando-nos ficar em nossas mãos porque é nelas que pomos nossa confiança. Fez-me pensar na facilidade com que nos afastámos das nossas igrejas, porque tivemos que afastar-nos uns dos outros. Peço a Deus que não seja isso sinal de que nos afastamos d’Ele.

Continuamos a rezar em nossas casas, a participar das celebrações da Eucaristia que os sacerdotes continuam a celebrar, pedindo a Deus que todos o façam, mesmo aqueles para quem isso sempre foi impensável.

Faz-nos pensar que não estamos mesmo em nossas mãos e esperar que aquilo que Deus permite seja, sem qualquer momento de hesitação, ocasião para nos abeirarmos d’Ele. Não, não é momento para questionarmos Deus, ou a sua justiça. É momento para, de alma e coração, e definitivamente, nos aproximarmos d’Ele. O tempo urge!

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Dízimo

O termo vem da Sagrada Escritura. Embora entre nós não se use muito, alguns grupos religiosos conhecem-no bem. Era uma exigência de Deus ao Povo de Israel: que cada família pagasse o dízimo (a décima parte) de todos os bens. Falando de bens, pensamos no que de material cada um possui, como se bens fossem apenas as materialidades que fazem parte de nossa vida.

Porque a vida é um bem, como o são a saúde, os filhos, os pais, o trabalho... Seria interessante centrarmo-nos no dízimo que devemos a Deus por todos os bens que nos concede. Sentiríamos que um décimo de nós mesmos é pertença de Deus. Sentiríamos que das 24 horas no nosso dia, 2 horas e 24 minutos seriam totalmente de Deus. Aqui é caso para que cada um se pergunte quanto tempo dedica exclusivamente a Deus. É interessante o facto de Nossa Senhora, em La Salette, França, ter pediu duas horas de oração por dia.

Não encontramos tempo nem motivações para aquilo que, interiormente, nos não diz muito. Se somos gente a procurar viver sobretudo o presente, e com toda a intensidade, é fácil percebermos que Deus não nos muito pois nos aponta a eternidade que, embora estando a ser vivenciada já, a pomos depois deste tempo de existência terrena, isto se é que na eternidade pensamos.

Uma coisa é certa: vivemos conforme, realmente, acreditamos e acabamos por acreditar conforme vivemos. Aqui se encontra toda a realidade da indecisão, porque não acreditamos, embora digamos acreditar, e vivemos a meio termo embora, falando, afirmemos, muitas vezes, valores e realidades que que nos são interiores e estão no coração.

Os "10 por cento de Deus" de que se compõe a nossa vida, não são, embora o sejam também, prata, ouro ou demais bens materiais, são uma percentagem de nós mesmos. São o nosso tempo, o nosso sorriso, a nossa caridade, o nosso perdão... Um tempo claro, diário, e exclusivamente de oração, o tempo por nós  dedicado a Deus, é nascente cuja água se vai diluindo e transformando todo o ser, toda a  vida, de modo a que, sem nos darmos conta, não apenas esse "pouco" tempo, mas todo o nosso ser se tornará oferta para Deus.

Afinal, Cristo não nos pediu 10 por cento, exigiu-nos a totalidade de nós mesmos, tudo o que somos, numa entrega que é nossa, mas fruto da sua Graça.

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Em Espera

Se pararmos um pouquinho e tivermos paciência para esperar e pensar reparamos que a vida, por mais azafamada que seja, é uma espera, uma espera permanente do que, humanamente, nunca se alcança, porque é nosso anseio ter e querer sempre mais, ir sempre mais além daquilo a que já se chegou.

O Evangelho apontava-nos como exemplo e modelo as virgens prudentes a par com as insensatas (sem juízo), modelos a seguir e a não seguir, respetivamente. Porque o noivo chegou em tempo de atraso o azeite das almotolias de umas terminou e o das outras, as sensatas, não chegaria para todas, de modo a que aquelas não puderam, depois de haverem sido convidadas, entrar na festa para a boda. Ficaram de foram porque o noivo afirmou não as conhecer. Não eram o que pareciam ser.

O Céu, a eternidade, é o festim dos festins, a plena alegria que se viverá por toda a eternidade. A vida é o tempo de espera entre o convite para as bodas, a chegada do noivo e a entrada na eternidade. Estamos em plena espera, aguardando a chamada pessoal que acontecerá em algum momento, não sabemos quando porque o noivo virá a hora e dia que não sabemos. Importa que não nos encontre adormecidos. Se assim nos encontrar, é bom que tenhamos suficiente azeite, combustível, para a candeia que nos entregou ao criar-nos. Porque a vida é esta candeia que temos em nossas mãos e que somos chamados a manter acesa pelos pensamentos, palavras e atos com que alimentamos a chama que ilumina o caminhar.

A chegada do noivo é o chamamento e ordem a que entremos, apresentando diante do Senhor todas aquelas coisas com que enchemos nossos alforges e com que quisemos manter acesa a chama dessa candeia que é a vida. Ele retirará e destruirá tudo o que, depois de todas as limpezas operadas pelo sacramento da reconciliação, ainda houver para limpar e tudo destruirá no fogo da Sua misericórdia. Deixará então nossa candeia escancarada. Se for suficiente a bagagem de combustível para entrar na festa, Ele mesmo dará o que falta acabando de encher nossas medidas. Se não for suficiente retirará o pouco que tivermos para dar a outros e dirá "Não te conheço". "Pois àquele que tem, será dado; e ao que não tem, mesmo aquilo que tem lhe será tirado" (Mc 4,25). Este é o tempo trabalhar pela salvação. (19-nov-17)