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quarta-feira, 9 de junho de 2021

Só Nos Falta Amar

É comum dizer-se que situações que nos marcam negativamente fazem doer o coração. Não que o coração doa realmente, por isso, mas porque ele é tido como centro e fonte dos sentimentos, bons ou maus, bem como da própria vida. Assim, dizer que estas situações provocam dor de coração é dizer que afetam o mais profundo, o mais íntimo de nós mesmos. 

Celebramos, sexta e sábado, dias 11 e 12, respetivamente, o Sagrado  Coração de Jesus e o Imaculado Coração de Maria. Corações intimíssimos um do outro, porque além de serem de mãe e de filho, o são numa dimensão divina, um Sagrado e outro Imaculado numa perfeita sintonia de amor.

Porque é, em essência, misericórdia, Deus fez de Maria uma criatura perfeita, tão perfeita quanto Deus pode fazer e a criatura, por força e graça divina,  o pode ser. Foi esta perfeita criatura que deu humanidade, a condição e forma humana, ao Deus que se fez carne, assumindo a nossa natureza sem a marca do pecado, porque era sem pecado a mãe que Lhe deu a humanidade, não Lhe transmitindo, assim, a pecadora condição, pois que a Deus não cabe o ser pecado.

Sem as limitações e imperfeições do pecado, Maria ama Deus e as criaturas com um tão perfeito amor quanto é possível amar. Ora, se nós, pelas condições limitadas e incapacitante que temos, não podemos amar nem acolher o amor de forma perfeita, também estamos limitados na compreensão do amor com que os corações de Jesus e Maria se amam entre si e nos amam a nós. "Perceber" e sentir o amor de Deus, em Jesus, e de Maria pressupões predisposição e capacidade interior e pessoal. Essa capacidade e predisposição acontecem tanto, e tão intensamente, quanto mais acontecer amor em nós, sendo que mais amor mais capacita e predispõe a pessoa para ser amada, receber amor,  e o ser amada capacita-a e predispõe-na mais para amar.

Como em efeito bola de neve, quanto mais se ama mais se é amado e quanto mais se é amado mais se ama... Falta-nos sempre amar mais.

sábado, 1 de maio de 2021

Dizer MÃE

Não sei se sim se não, mas acredito, não faz mal se estiver enganado, que a realidade expressa pela nossa palavra “Mãe” será a mais pronunciada à face da terra.

Balbucia-se quando ainda não se diz mais nada nem se sabe a lógica do pensar ou sequer o significado do “mamã” que que se solta dos lábios tenros da criança de berço. Os braços da mãe são o berço que se molda para, em simultâneo, aconchegar, aquecer e amar o filho que, em momentos de desconforto corre e se aninha, porque é ninho também, no abraço dos braços da mãe. Ela está lá, primeiro que o pai, no coração e na mente do filho, porque ela gerou e em dores á luz entregou esse ser frágil, pequenino, cujas feridas um beijo de mãe sabe curar, porque o amor também cura. Cura as feridas do medo e da incerteza, faz brilhar a noite da dor no beijo que a mãe dá, por mais nada, só por amor.

Só a mãe tem um corpo todo ouvidos, que ouve o chamar irritado de um filho, como ouve o silêncio de um olhar e a lágrima invisível que corta o coração do filho até atingir e ferir o da mãe, só porque o coração dela nunca se conseguiu desprender, um pedaço sequer, do filho que é dela e que ela deu, oferecendo-o, ao mundo, sem nunca deixar de ser escudo e de as dores e aflições aparar. É forte o pai, e herói, mas… é sensível, compreensiva e dos problemas solução, a mãe.

Não é mãe o monstro que vive tão escondido e embrenhado no corpo da mulher que, por vontade e querer seus, ousa destruir-se quando mata um filho, grande que seja ou embrião que ainda não se veja… Perde, mas não sabe o que perde, toda a vida que se aperta no abraço, mais de amor que de força feito, de um filho que diz “amo-te” e deixa cair uma lágrima quente de emoção só porque um abraço não pode dizer tudo. Não pode saber o que é viver aquela que, por querer, um filho mata e não deixa nascer.

Continua a ter a força e o peso do mundo a palavra “mãe” quando, no silêncio que rodeia uma alma esmagada pela dor ou a saudade, se diz a meia voz e ninguém ouve, ninguém, mais ninguém, senão aquela que é nossa mãe e que Deus já levou para Si.

Gratidão já, na palavra, no gesto, no agir, é o menos que pode fazer um filho por tudo o que de visível e invisível a mãe fez, ou faz, por ele. Vezes sem conta, o ato de gratidão vem mais depois da morte que durante a vida. É tarde, muito tarde, para a mãe e para o filho, porque, se a vida que na mãe se dá cresce na medida da dádiva, a gratidão que o filho dá, preenche a vida de ambos e não morre nunca, por ser princípio de eternidade.

terça-feira, 6 de agosto de 2019

1ª Pedrinha

Acontece há já 38 anos que, supostamente, Nossa Senhora vem aparecendo numa povoação da Bósnia-Herzegovina, Medugorje. Os videntes são seis, as aparições são individuais, cada um deles tem missão específica. Todas as mensagens assentam sob "cinco pedrinhas" que são a base da conversão cristã.
As peregrinações a Medugorje estão já autorizadas, as aparições não são ainda reconhecidas pela Igreja, o que acontece por estarem ainda a acontecer.
Estivemos lá e vimos os frutos, muitos e bons frutos. Estou convicto de que Nossa Senhora realmente aparece, ainda que não apareça, pelos frutos espirituais, sociais, humanitários... ali estão presentes, são mais que muitas as razões para se peregrinar a Medugorje.
Como primeira pedrinha surge "a oração com o coração: o rosário". Nossa Senhora insiste, aqui, como em Lourdes e em Fátima, com um veemente apelo a que se reze: "rezai, rezai, rezai". Pede que se prepare a celebração da missa com a oração do terço. Por isso, no santuário, antes da celebração da missa às 19:00, rezam-se dois terços. Rezar com o coração é rezar com interioridade e sentido, disponibilizando a nossa vontade e fazendo oração consciente, não fazer apenas por fazer. Não cabe aqui um "já está". Rezar com o coração pressupõe que não  "faz" oração mas se "vive em" oração. Queiramos ou não, é preciso também dispor de tempo "para" Deus. Parar para entrar em intimidade com Deus é fundamental para o encontro  com Ele. Sim, temos tempo. Temos tempo para tudo, menos para Ele, o que quer dizer que com facilidade pomos tudo acima Dele. Não O sentiremos deveras enquanto não invertermos a situação para O pormos em primeiro lugar a Ele.
Quando rezarmos com o coração, perceberemos que o terço não é oração monótona, muito pelo contrário. Ele é oração de contemplação tanto das orações que fazemos como dos mistérios da salvação que somos convidados a meditar. Claro que será difícil concentrarmo-nos quando o rezamos, ou qualquer outra oração, com o pensamento em sete o oito coisas ao mesmo tempo. 
Rezar com o coração: o rosário.

terça-feira, 12 de junho de 2018

Coração de Mãe

O mês de junho é mês dedicado ao Coração de Jesus. Celebrámos na sexta, dia 8, o Sagrado Coração de Jesus, e no dia seguinte, sábado, o Imaculado Coração de Maria. O amor de dois corações que se celebra em união de dias. 

Quando falamos do Coração de Jesus, falamos do pleno sentimento de Misericórdia do nosso Deus, que se dá todo, até ao trespassar do seu coração, por nós. Falar do Coração de Maria é falar desse mesmo sentimento de misericórdia que Deus nos dá através de Maria, no seu coração Imaculado.

Coração Imaculado onde reside e se manifesta a plenitude do amor divino porque, em momento algum aconteceu a sua ausência, por não haver qualquer mancha de pecado. 

O coração de mãe é coração sofredor, não por si mesma mas pelo sofrimento passado, presente e futuro, que advirá como sequência das atitudes e decisões de seus filhos. Maria vive, connosco, intensamente, a nossa vida. O seu coração enche-se de alegria pelas vitórias que acontecem em cada um, sendo que vitórias são sempre as experiências de verdadeira felicidade e vida que se dão em nós. 

O seu coração enche-se de tristeza e mágoa quando, dentro da nossa liberdade, se dão, por opção e vontade pessoal, desvios do caminho e das propostas de felicidade e vida a que Deus nos chama.

Uma espada trespassou o coração de Jesus e uma espada trespassou a alma de Maria. Por alma entendamos a vida. Corações trespassados: o da Mãe e o do Filho. Corações  em intensa e profunda comunhão, sentindo um o que sente o outro, regozijando-se um com o que se regozija o outro, sofrendo um com o que sofre o outro, porque ambos são são corações transbordantes de misericórdia, corações que se desfazem de amor pela humanidade. Corações e vidas trespassados para que nossas vidas e nossos corações tenham espaço e lugar em Deus.

Num silêncio divino e profundo, somos atraídos ao coração da Mãe, que se faz caminho e ponte para o coração de Deus, onde, por fim, acontece Eternidade, onde acontecem a felicidade e o descanso eterno e pleno de Vida. (10-0-18)

Dor de um Coração de Amor

Sabemos, porque o ouvimos dizer e o dizemos que o coração é tido como a sede, fonte, onde nascem os sentimentos, como será nele também que os sentimentos podem morrer. Deixando para lá a certeza da ciência que nos diz que o coração é simplesmente um músculo, continuemos a vê-lo somo centro do amor e da falta dele, de força e ânimo e da falta deles. Por isso dizemos, e ouvimos dizer, que há gente com coração mole, gente com coração de pedra, gente com um coração de manteiga, gente com coração de fogo, gente com coração de ouro e até gente sem coração.

O que somos e mostramos na vida que vivemos, o bem e o mal que brotam de dentro de nós, o amor e o ódio que possamos sentir, atribuimo-los ao coração, que, sem descanso, bate dentro de nós. 

Dizem-nos, às vezes, que o coração não dói. Não vamos entrar por aí, deixar para lá o que nos diz a ciência, para sentirmos o que nos diz o coração. 

Deixemos que seja o coração ou não que dói e sente, para nos centrarmos na dor que nasce no peito de quem ama, aquela dor de mãe que sabe e sente a dor de um filho, que lhe faz bater acelerado o coração.

Fixemos o olhar naquele pai e naquela mãe que, se pudessem, dariam o coração por um filho doente. Quantos, durante o tempo de uma operação cirúrgica, embora o coração lhes bata acelerado do peito, esperam e aguardam com o "coração nas mãos".

Sabemos daqueles que, de dor, não suportam continuar a bater e morrem dolorosos pela dor de alguém.

Pode não ser o coração o culpado, mas é a ele que se lhes dão as consequências da culpa. Por isso, até nos "dói o coração" quando vemos o mal que era suposto nem acontecer.

Sendo pequeninos e tão limitados, sabemos o que é sofrer de coração com o sofrimento dos que amamos. E Deus? Se com infinito amor ama, que por isso deixou que Lhe trespassassem o coração, com infinito amor sofre, de coração, com o sofrimento dos filhos, que somos e sobre quem, infinitamente, derrama graças que, muitas vezes não acolhemos e, com isso, Nele provocamos dor. 

Em semana do Sagrado Coração de Jesus, aprendamos Dele o que é o Amor.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Limpando o Pó

Devagar, muito devagarinho e sem que alguém se dê conta. Percebe-se quando a luz do sol bate de feição, ou quando um dedo passa e a passagem deixa marca. O pó, esse permanente infiltrado, a exigir que frequentemente se passe o pano, se se quer que não se acumule e entranhe de vez a deixar marca não de pó mas de real sujidade. Pó não é imundície mas nela pode transformar-se.

"Não tenho pecados" é expressão  de adolescente que, sem nada fazer, garante à mãe que "a prateleira não té pó". Estamos em Quaresma, e não ter pecados é o caminho mais seguro e certo para que as falhas, os "pequenos" pecados se vão acumulando na alma e ainda que se não transformem e imundície de pecado grave, abrem-lhe caminho e estendem-lhe a passadeira por forma a que possa entrar tranquilamente e a instalar-se na alma e na vida sem ser notado.

O pó cria habituação, não se vê, e quando nele se vive até o asseio mete impressão. O corpo adapta-se e a mente vai-lhe no encalço. Claro que se fica com a sensação, certa, de que os demais não se adaptam àquele que é o nosso pó, o nosso lixo, o que leva a que nos vamos isolando no nosso mundo e fechando-nos num ambiente se sujidade onde crescem vermes que corroem e nos impedem de ver o bem e a harmonia do que está realmente limpo.

O pecado cria habituação, não se vê, e quando nele se vive até a santidade mete impressão. Corpo e mente adaptam-se e a alma retorce-se de inquietação interior, porque não se adapta, o Espírito geme interiormente e move a pessoa para o bem, confiando-a à sua liberdade pessoal para que possa optar pelo pecado ou pela Graça.

O pecado, ainda que leve, vai fragilizando a ação da graça que Deus oferece e derrama sobre cada um de seus filhos, e o mal grassa sempre mais na vida do pecador. Naturalmente, a vida não é feita só de pecados, também momentos bons, frutos do acolhimento dos dons de Deus. Esses são momentos de graça que destroem o mal que se vem impondo. Diria que são panos que limpam o pó do pecado instalado na alma e na vida.

Sejam mais os momentos, as ocasiões, purificadores, mas não fique por fazer uma limpeza geral, sempre que se sinta ser necessária, para que o "pó" não ofusque o brilho da alma. 

sábado, 4 de novembro de 2017

Tempo da Misericórdia

Falando de Deus, falaremos sempre conforme as nossas capacidades e entendimento. Falamos de tempo e de eternidade: o tempo é o que medeia entre um momento e outro, a eternidade é o que não tem principio nem fim. Vivemos no tempo e, pela morte, seremos integrados na eternidade de Deus. Tivemos um princípio, fomos criados, não teremos fim, porque viveremos em Deus ou no estado de ausência de Deus.

Se o viver em Deus, o viver a que Ele nos chama e atrai, é de plena felicidade, o viver na Sua ausência é a plena infelicidade. Não conseguimos, ao menos, conceber a ideia do que é sofrimento, solidão, em plenitude, sem qualquer sensação de bem, como não conseguimos ter a ideia da felicidade plena, sem qualquer sensação de mal-estar. Fazemos apenas pequenas experiências de um e de outro estados. Um deles será definitivamente eterno para cada um.

É aqui que Deus intervém, querendo para nós o estado de pleno bem. Para que tal nos seja possível entregou o Seu Filho ao mais alto estado de sofrimento até, lentamente, chegar à morte. Fez o que, na sua Misericórdia, tinha que ser feito. Agora está em nossas mãos seguir um ou outro caminho, o da vida ou o da morte, sendo que na eternidade em que entraremos há "dois tempos", falemos assim para nos entendermos, um da Justiça divina ("temporário"), o da pena, o Purgatório, e um outro "definitivamente eterno": o Céu, a Vida, ou o Inferno, a Morte. Proximamente dedicaremos algum tempo ao "Tempo da Justiça". Agora falemos do tempo da Misericórdia, este em que vivemos.


Sendo tempo de escolha, de opção por aceitar ou recusar Deus, vamos acumulando frutos de bem ou de mal, e a "sentença final" vais sendo "escrita". Atua, então a Misericórdia divina na medida em que, depois de atos merecedores de consequências castigadoras, estamos ainda a tempo de reparar o atos maus com atos bons e de pedir a Deus que tenha compaixão e que, no seu Amor e perante o nosso querer não voltar a fazer o mesmo, ainda que a queda aconteça, uma, duas... mil vezes, nos perdoe e mude a pena a cumprir. Por misericórdia fá-lo-á e a "sentença" estará permanentemente a ser reescrita até ao momento da morte, até que termine o tempo da Misericórdia. (05-11-17)

terça-feira, 16 de maio de 2017

Jesus, uma Autoestrada


Mais que um simples caminho diria que Jesus é uma verdadeira autoestrada por onde circulam nossos corações, como se de automóveis vermelhos se tratasse. 

Estrada   ------------------------

Autoestrada
Separadores centrais e protetores laterais Automóvel
Saídas
Postos de abastecimento
Combustível
Restaurantes
Placas de trânsito

Carro fraco em bom caminho chega longe, mesmo devagar; carro bom em caminho mau pode não chegar a lado nenhum, se o caminho o não permitir. 

“Caminho”, via rápida, única, sem buracos, lombas ou cruzamentos. Controle de velocidade mínima e máxima.

Com separadores centrais e barras laterais, protetores que geram confiança nos que nelas passam e ajudam na condução segura. Seguindo as regras avança com segurança, sem risco de perda ou acidente. 

Os excessos de velocidade, o não cumprimento das regras de trânsito, levam a que separadores e protetores sejam barreiras que provocam acidentes e mortes. 

Caminho com um único sentido, o sentido inverso faz-se por vias opostas. Não se passa “automaticamente” de um para outro. 

É preciso sair e voltar a entrar. Prestar atenção máxima às indicações, para não perder a entrada, o sentido a tomar e a saída desejada no destino. 

A existência de postos de abastecimento a espaços regulares para que os veículos possam ser abastecidos rolar sem percalços e paragens desnecessárias por falha de combustível. Pneus calibrados mantêm adequada aderência à estrada. 

Áreas de descanso permitem relaxamento de músculos, alívio do sono e stress gerado pela velocidades, pelo cuidado a ter na condução, pelo cansaço que gera irritabilidade e torna mais perigosa a condução. 

Porque são longas as distâncias, é preciso que de espaços a espaços haja lugares e momentos para recuperar forças físicas através de uma refeição, momento de os ocupantes do veículo, e da mesma estrada, se olharem olhos nos olhos e partilharem risos, alegrias e dores, encantos e desencantos.

Não deve pôr-se a caminho um automóvel com danos internos de motor, e sem todos os óleos, necessários e líquidos de sistemas de arrefecimento, sem garantias de poder vir a chegar ao fim da viagem. Por mais polida e encerada que esteja a chapa, se o motor não for observado, cuidado, reparado, por um bom mecânico, de um momento para o outro gripa e toda a viagem se perde. Só um automóvel bem cuidado, ainda que riscado e amolgado chegará ao fim da longa viagem. 

Pode conduzir-se na faixa da direita, ainda que seja proibido, mas não fazer-se no meio da autoestrada, os separadores centrais estão lá e não nos deixam fazê-lo. Ou vamos num sentido ou vamos no outro.

É caminho, que não vai a lado nenhum, fica estático, para ser percorrido.

“Eu sou o Caminho”, é a resposta de Jesus à pergunta de Tomé: “Não sabemos para onde vais, como podemos nós saber o caminho? (Jo 14,5). Em 1Pedro 2,6-8 lemos: “Vou pôr em Sião uma pedra angular, escolhida e preciosa; e quem nela puser a sua confiança não será confundido». (…) Para os incrédulos, porém, «a pedra que os construtores rejeitaram tornou se pedra angular», «pedra de tropeço e pedra de escândalo». (note-se que é liturgia da Palavra do V Domingo Pascal do Ano A).

E jeito de paráfrase comparativa


Jesus   ---------------------------

Caminho
Pedra de confiança e de tropeço
Coração 
Conversão 
Sacramentos 
Oração 
Eucaristia 
Palavra de Deus 

Questionadas algumas crianças sobre o que é mais importante para chegar longe, se um bom caminho se um bom carro, a resposta foi direta e sem hesitação: o caminho. 

Jesus não se compadece com meias medidas: Quem não O preferir a tudo o mais, não é digno de ser seu discípulo. 

Pedra angular, escolhida, preciosa, única para garantir que se chega a bom porto, sendo que o lugar em vista é a eternidade, no Céu. “Quem nela puser a sua confiança não será confundido”, segue no caminho certo. 

“Pedra de tropeço e pedra de escândalo” para os incrédulos. Porque não acreditaram na sua Palavra. A Palavra ajuda a discernir entre o bem e o mal, a vida e a morte. 

Quem não é por Jesus é contra Ele. “Quem não está comigo está contra mim; e quem não junta comigo, dispersa” (Lc 11,23).

A Conversão, a mudança de sentido dado à vida , acontece na meditação, na descoberta do Pai, no abandona das vias do pecado e no acolhimento da vida da Graça. 

Caminhar em Jesus exige paragens momentos regulares de frequência dos sacramentos para que não esmoreça a fé e não se deixe vencer pelo desânimo. A oração pessoal é elo que mantém a pessoa em comunhão relacional com Deus. 

A meditação, o silêncio, o retirar-se do dos afazeres constantes, do stress e dos barulhos interiores, levam a uma tomada de consciência de que estamos em Deus, fonte segura de tranquilidade e paz. 

A Eucaristia, o entrar no Mistério da paixão, Morte e Ressurreição de Jesus, vivida na união de toda a comunidade e na comunhão do Corpo e Sangue de Jesus, é fundamento sem a qual não há vida. Quem crê não caminha só, fá-lo em comunhão de vida com os outros que percorrem o mesmo caminho. 

Um coração desesperado, um coração que não esteja envolto e lubrificado com a força do Espírito, com a certeza do Amor de Deus, não consegue caminhar. Se envolvido no egoísmo do pecado, por mais que brilhem os óleos de beleza corporais, por mais que se cuide da imagem exterior, é coração que estoura porque lhe falta a vida. Só a Misericórdia Divina garante que uma vida, mesmo escurecida pelo pecado, levará o Homem à alegria plena no fim ddesta caminhada na terra. 

Pode seguir-se o mal, ainda que não aconselhável, mas não pode andar-se com Jesus e contra Ele. Está lá o “Sim, sim; não não” (Mt 5,37). Por isso é que não há católicos “não praticantes”.

É caminho que caminha com o caminhante e com ele faz caminhada.

16-5-2017

terça-feira, 28 de março de 2017

Próximos do Fim

Os tempos correm. Parece que cada vez mais, no avanço da idade, os anos se tornam mais curtos. São apenas 40 dias. Começou a contagem há pouco tempo e temo-los quase passados.
A Quaresma é tempo que Deus nos dá para abrirmos os olhos e olharmos com olhos de ver o passado que fomos, o presente que

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Pegou um Pedaço de Ar (23)


A pergunta instalou-se  e, teimosamente, foi-se-lhe aflorando ao pensamento, como se tivesse vida e não quisesse ser esquecida. Em jeito de quem exige uma resposta, insistia em não abandonar o seu pensamento. “Que estou eu a fazer da minha vida?”, era a mensagem que pesava em sua mente quando se sentou no sofá, desligou a televisão e fechou os olhos para pensar.

Deslizando como fantasmas, as memórias do passado dançaram-lhe em confuso movimento de fuga rápida. Por momentos, algumas delas paravam e o rosto da Ninfa manifestava o que lhe diziam, mais exactamente, o que lhe faziam recordar: sorrisos espontâneos e claros, bem como tristes tensões de face, e até mesmo algumas furtivas lágrimas.

O tempo passou e o filme da sua vida continuava a ser-lhe projectado por dentro: as traquinices com direito a umas palmadas duras por parte da mãe; as maçãs roubadas e as fugas de quem não quer ser visto, muito menos apanhado; as vinganças de criança sentida e magoada; os temas tabu, que nem o silêncio barulhento da mente fechada em si mesma permitia que viessem muito à baila; a presença da mãe e a compreensão magoada do pai, quando se viu metida em apuros; os sem-abrigo de Nova York ou de Lisboa… tudo foi ocasião para crescer e ser hoje a mulher que é. 

Sabia-se forte, sensível, decidida e palpitante de vida. Tinha consciência também de que muito do tempo da sua vida havia sido passado, mesmo desperdiçado, em coisas fúteis, vãs ou simplesmente menos essenciais, acabando, em muitas delas,  por se sentir vazia e pouco satisfeita consigo própria.

Tinha a impressão, quase pura, de que muitas correrias de lado para lado, muitos desejos de querer chegar lá bem longe, muita vontade de querer chegar depressa, a tinham feito caminhar mais ou menos sozinha, embora o barulho que ouvia de tanta outra gente a “correr” da mesma forma, lhe transmitisse a ilusão de que corria num pelotão de inúmeros corredores que buscam a vitória.

Os minutos longos, muito longos, que passou de olhos cerrados, absorta de tudo o mais, sentada no sofá a desfolhar a vida dos anos idos, deixaram-na mais leve, parecia, agora, ter pequenas asas e respirar um ar diferente, mas puro. Tinha escutado, tinha-se escutado a si mesma e à voz que, não sabe de onde, parecia fazer-se ouvir dentro de si.

A noite ia já adiantada, mas as luzes da rua criavam a ilusão de um dia quase de sol. Pegou numa bolsa com documentos e num pedaço de ar, ar que inspirou profundamente, e saiu para a rua e para o mundo..

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Atirou-se ao Rio (18)


Saíra de casa com ar de galhofeiro pela partida que pregara à mãe. Era feriado e por isso não tinha que ter ido trabalhar. Fez o que, desde a morte do pai, fazia, sempre que não tinha que ir trabalhar: umas saídas de casa, uns dedos de conversa com um ou outro amigo, umas cervejas frescas, que apelidava de loiras.

Na conversa, com “os três jeitosos”, como lhes chamou quando os vira descambou para a má língua. Palavra puxa palavra, e Gaby, roída de inveja, e sempre de língua preparada para cortar na vida fosse de quem fosse, lança a farpa do mal.

Não imaginando sequer que alguém ali presente se estivesse a sentir morrer de paixão pela Ninfa, lançou para o ar o viperino veneno dizendo que ela tinha partido para as Américas para fugir de uma gravidez indesejada. “Tás doida?” pergunta-lhe a Andreia, enquanto o Henrique franze o sobrolho e pensa “lá volta ela a atacar quem consegue singrar na vida”.

As entranhas revolveram-se-lhe e sentiu um ódio frio subir-lhe o corpo. Os olhos humedeceram-se, os lábios semi-cerrados deram ênfase ao “v” quando lhe disse: “Víbora. Tens tanto veneno, Gabriela, que sem te dares conta a tua vida acabará afogada nele” e saiu para não arrancar um par de estalos e lhe marcar a cara com eles para sempre.

Chorou, caminhando sem reparar onde punha os pés, nos odores que as flores exalavam, ou na vida que continuava a acontecer. Pensava no rancor que sentia pela Gabriela: se já a não “gramava”, acabava-se de vez, nunca mais lhe dirigiria a palavra.

Estava decidido a nunca falar mal de ninguém “como se pode ser tão injusto, que interesse tem esta gente em criticar, em fazer mal? Como é que as pessoas não têm coragem ou capacidade para julgar, em princípio, bem as pessoas? Será que alguém lucra alguma coisa com o mal que, entre dentes, ou descaradamente se levanta sobre os outros? Gente hipócrita…” pensava.

O coração só acalmou o ritmo das batidas ao pensar na certeza que tinha de que ela, a mulher que amava, partira por ter tido capacidade, por ter lutado e conseguido chegar um pouco mais longe na vida que ”aquela parva” que nunca foi capaz de sair da cepa torta”  O ritmo cardíaco voltou a acelerar.

Como era seu hábito desde a transformação que nele se operara pela morte do pai, rebuscou a memória o procurou a Palavra de Deus e que lhe diria ela sobre o que estava a viver. 

Pensou na mulher adúltera, na trama que se gerou à sua volta e na reacção de Jesus. Ficou aliviado. Olhou à volta, ninguém via, ganhou coragem, preparou-se e atirou-se ao rio.



domingo, 9 de dezembro de 2012

Corações Ardentes (15)


Estava decido. Ela iria partir e ele, por muita vontade que tivesse, não iria sequer manifestar-lhe o desejo de que não fosse. Sabia que o amor não era fazer o que ele queria, era mais o ele querer o que ela desejava para si mesma, o estar presente junto dela. E havia tantos modos de o fazer!

Sairam do café de coração a arder. Foram poucos, mal imaginavam que isso iria acontecer mil e uma vez daí em diante, os momentos que estiveram juntos, mas tinham sido intensos e só o nervosismo e o bloqueio que advinha do respeito que ali sentiram um pelo outro os impediram de manifestar tudo aquilo que de dentro queria sair em catadupa.

Estranho, mas depois de perceberem que se desejavam um ao outro o silêncio pairou e pousou sobre aquela mesa de café, onde duas chávenas sujas, marcadas pelos lábios de um e de outro, permaneciam frias e serenas. Só os olhos e os sorrisos falavam, cúmplices de mensagem que se não podiam ouvir.

Faltavam poucos dias. Teria que organizar muita coisa em pouco tempo. Uma carta havia marcado a mudança de rumo da sua vida. Ía partir para longe, e agora parecia doer, ainda, um pouquinho mais.
Quando parecia que os amigos e a família iam ficar para trás, encontrou mais alguém a quem, como por magia, se agarrou como uma lapa de águas salgadas. Pararam. Olharam. Calaram e sentiram energia e força que se cruzava como vertigem que atrai para o abismo.
Ela percebeu sofrimento no olhar dele. Com uma mão acariciou-lhe o rosto enquanto dizia: “eu vou mas levo-te comigo, acredita, e vou voltar sem te esquecer porque quero que estejas onde eu estou como quero estar onde  tu estás. Não fiques triste porque não me vais perder. 
Hoje ganhámo-nos um ao outro e, certamente, o tempo e a distância não vão causar separação” Ele sorriu e ela brincou: “estou a falar bem, nem sei onde fui tirar estas palavras.”

Abraçaram-se por momentos e ele percebeu o quanto ela o amava, ainda que a palavra amor não tenha saído de seus lábios. Um e outro, sem saberem, sentiam ser quase sagrada essa palavra, por isso a não pronunciaram para que acontecesse em momento ainda mais especial.
Seguiram, cada qual para sua casa, a rebentar de felicidade. Voltaram-se, num derradeiro cruzar de olhares e sorrisos.
Pneus de um camião chiaram na estrada. Aterrado pelo medo o corpo tornou-se frio. Voltou-se num gesto brusco e louco de pavor. Não a viu. 

As pernas tremeram. No peito, o coração quis rebentar. Sentiu-se desfalecer…