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terça-feira, 23 de junho de 2020

Uma Vida, um Vazio


Vivemos uma situação completamente fora daquilo a que estávamos habituados. Não sabemos até onde isto vai chegar, como será o dia de amanhã.

Vivemos a medo: uns sem medo e sem respeito, outros temerosos demais ao ponto de, penso eu, não arriscarem viver. A vida, que é vida, é um  risco. Cada  passo que damos é o  correr do risco de dar um passo em frente. Fecharmo-nos em casa, cobertos por uma manta de medo, é deixarmo-nos abafar e adoecer no mofo da falta de arejamento interior.

Sim, com cuidado e respeito por nós e pelos outros… mas é preciso abrirmos portas e coração para aquilo que nos diz alguma coisa.

Olhando as nossas celebrações, percebemos a redução para cerca de metade do que era habitual. Não é de estranhar e é para entranhar a realidade que isso manifesta. Acredito que o ficar em casa seja, em parte, medo e precaução. Compreenderia isso se acontecesse por aqueles que são “gente de risco”, mas a verdade é que são exatamente esses, os de mais idade que regressaram.

Não creio que, na grande maioria das situações, a razão de fundo para o deixar de participar passe pela precaução e o medo. Deixaram de participar os de meia idade, que ainda vinham a toque da participação dos filhos, mas esses deixaram de estar também. Não é preciso descavar muito para ir à raiz do problema e perceber qual o vírus que a ataca: a indiferença. Sim, a indiferença em relação a Deus, não digo às questões religiosas, que deixámos de ver e sentir como Pai, perdendo mo que é fundamental: a relação pessoal de nós com Ele.

Estamos perante a mais ténue das provações e já estamos a ceder em grande escala, retirando a Deus o pouco espaço que ainda Lhe dedicávamos. Como fino pó, entranha-se em nossas vidas a força que é ausência de Deus. A sujeira está aí mas ainda não a vemos porque lhe passamos um para de pó por cima, que deixa mais lixo ainda. Embora não parecendo, é muito cinzenta a vida sem Deus.



terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Nem ele se entendia a si mesmo (17)


Ela partira havia um pouco mais de oito dias. Desde então, ele não parecia o mesmo. No dizer de uma vizinha, aquele rapaz era muito fácil em deixar-se ir abaixo rapidamente, na tristeza, mas com qualquer boa notícia, parecia subir aos céus como se a vida não tivesse quase a obrigação de nos ir cravando na carne uns espinhos que façam lembrar o quanto se é pequeno e limitado.

De um entusiasmo esfuziante passou a uma tristeza melancólica. Ninguém o entendia, pensava ele, como sentia também não se entender ele a si próprio. Ela partia na busca da realização de um sonho seu, porque haveria ele de ficar a lamentar-se pelos cantos como se isso representasse quase o fim do mundo?

O olhar e o beijo com que, no aeroporto, se tinham despedido gravou nele a certeza de que, naquele momento, tudo sentiam um pelo outro. Mas o levantar sonoro do avião levou para longe, bem longe, um pedaço de si. O coração, meio lamechas, tinha-se partido e metade fora com ela para os Estados Unidos e o espaço que dele ficou tornou-se vazio e escurecido pela saudade.

“Levanta-te, homem!” ouviu a mãe dizer, quando chegou a casa vinda de uma consulta médica. “Andas para aí meio morto, olha que um homem é um homem e um bicho é um bicho! Vais ficar eternamente anestesiado de saudades só porque a mulher que amas foi estudar para longe? Ai filho - continuou - o que seria de ti se fosses tu a estar nas minhas vezes quando o meu pai, o teu avô foi alistado para o Ultramar! Sabes que são as mágoas que arreigam as forças humanas, espetam-nos as raízes no coração e na vida e nós ficamos mais fortes! Vá lá, deixa arribar essa alegria e em vez de pensares em ti agora acredita em vocês os dois daqui a meia dúzia de anos. Se o amor existir, nada vos pode separar.”

Atirou-lhe com o resto da água que ficava no copo em que acabava de beber. Molhou-a, deu uma gargalhada sonora e, enquanto se esquivava a umas simpáticas palmadas com que a mãe parecia ameaça-lo por tê-la molhado, disse: “tenho a  melhor mãe do mundo.” E esgueirou-se porta fora.                             

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

O Vazio (2)




Um homem veio. Tinha saído do comboio que por momentos parara e num instante retomara a viagem sob a ordem da bandeira vermelha, suja e enrolada num pedaço de madeira velha. O olhar lançou-se sobre o homem sentado no banco: a ponta do atacador de um dos sapatos estendia-se no chão dando a perceber que a ordem e a desordem se debatiam na sua mente. O olhar vago dirigia-se para o infinito e por isso não enxergava o mundo que à sua volta girava em cada dia. Quem o conhece mais de perto sabe que vive a vida como um zumbi, meio alheado na ilusão virtual de uma vida entre o real e a ficção, ao jeito da mulher que lhe toldou a razão e contrai o coração.


O homem que acabara de chegar, depois de passar o olhar pelo relógio, abriu o fecho do saco que trazia ao ombro e tirou um jornal que, por momentos atirou sobre o banco de madeira, para se sentar, pesadamente, logo de seguida.

Um olhar fugidio sobre as parangonas do jornal, permitiu ver em título que o “défice custa 1380,00€ a cada português”. “Uma vergonha, pensou, afinal de contas para onde vai este país? Insegurança, pobreza, justiça tardia e inconclusiva sobretudo quando estão em causa os grandes, os poderosos”. Abanou a cabeça e fechou os olhos como se quisesse sacudir e esquecer o que acabava de ler e pensar. “Bom dia” - Ouviu a saudação que lhe era dirigida e respondeu com um “bom dia” morno e arrastado, em jeito de quem não parece minimamente interessado em estabelecer qualquer tipo de comunicação com aquele desconhecido transeunte de barba por aparar e sorriso que lhe sai mais da expressão que dos lábios.

Voltando aos seus negativos pensamentos, vociferou em silenciosa antipatia “Como é que esta gente tem disposição para dizer bom dia a gente que nunca viu mais gorda nem mais magra?”. Sentiu-se ainda mais cheio de si mesmo e fechado num mundo onde nada mais cabia, além dele próprio e da desconhecida beldade, por causa de quem estava ali taciturnamente sentado num banco de madeira e à espera de um comboio que o levaria não se sabe onde e, sinceramente, nem porquê.

O outro levantou-se, anónimo, e partiu com o jornal debaixo do braço. Levava no rosto o seu sorriso, que não pôde partilhar, e no coração, mais que na mente, um ranchinho de três filhos e uma esposa que há seis meses não via. Saiu e já os braços se abriam em arco e a voz os envolvia num quente “Oláááá” revelador de um amor e saudade que a distância e o tempo não apagam, antes solidificam e enraízam.

E ele continuou ali sentado à espera do que não encontrava, à escuta do que não se ouvia.

Som estridente de ferro contra ferro, um comboio parou.