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sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Em Perfeita Harmonia

Encontramos hoje um Deus cuja vida depende das duas mais pobres, simples, e humildes criaturas. José e Maria têm em suas mãos, em seu cuidado, o próprio Deus, a salvação da humanidade. Pesa sobre eles a responsabilidade da redenção universal. Não havia outros, alguém mais digno e capaz de assumir tal missão!

Chega a ponto de emoção a contemplação da plena entrega que fazem de si mesmos ao serviço da humanidade, quase ao nível de Deus que, em infinita misericórdia, se entrega para que em mim, em ti, haja vida, vida plena.

Criamos da Sagrada família uma imagem muito à semelhança das famílias que conhecemos, em que vivemos. Não abstraímos de nós mesmos para chegar mais além na compreensão da grandiosidade desta família, tão excelsa quanto modelar por ser constituída do mais digno pai, S. José, da Imaculada Mãe, Maria, do Divino Filho, Jesus. Perfeita imagem humana da eterna comunhão da Trindade santíssima.

Sem querermos retirar a Jesus, Maria e José, toda a humanidade que há neles, não podemos, também, deixar de lhes reconhecer tudo o que de graça divina neles se realiza. Se a Graça é dom de Deus, neles há a ativa capacidade de acolhimento dessa mesma Graça. Mais que pensarmos na família de Jesus um pouco á imagem da nossa, é preciso que olhemos a nossa à luz da sua por forma a percebermos o quanto há a transformar no que somos e vivemos.

Pensamentos, palavras, gestos, olhares, decisões… sempre os necessários, nunca de mais, nunca de menos, sempre o necessário, num equilíbrio educacional, de respeito e serviço, que se tornavam geradores de Deus, intensificando sempre mais, de momento a momento, a presença e a força Deus.

Pensamentos, palavras, gestos, olhares, julgamentos… em nós, condenam, magoam, ferem, matam e destoem a presença de Deus no seio familiar.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

Este é o Tempo...

Este é, para muitos, tempo e ocasião para viver um profunda solidão e tristeza, sentimentos que advêm de uma, mais ou menos real, certeza de que este é, por natureza, tempo de verdadeira felicidade para todos, o que acentua mais ainda os aspetos que marcam  menos positivamente a vida de cada um, as vidas de tantos.

Lia um artigo afirmativo de que esta é a época mais hipócrita do ano. É-o de facto, não por si, mas pelo que dela fazemos. As épocas, os tempos ou as coisas, não são hipócritas, somo-lo nós que, hipocritamente, somos  e vivemos  cada época do tempo que a vida nos proporciona.
Este é o tempo mais belo que pode ser vivido, seja por quem for, o que não quer dizer que todos assim o vivam: este é o tempo, o único tempo que existe. O passado passou e foi o que dele fizemos, o futuro será o que hoje somos e o que amanhã formos.

Este é tempo em que Deus nasce e dá fecundidade à vida daqueles que preparam "terreno" para que a semente do Verbo possa gerar e dar fruto; este é o tempo em que Deus, oferecendo-se na aceitação da vontade do Pai, se dá e salva aqueles que sabem curar as feridas da falta de sentido de vida, as feridas de pecado, com a Palavra que guia, o Corpo e o Sangue que alimentam; este é o tempo favorável do encontro com o Deus criador que nos recria, o Deus Salvador que nasce, se entrega, e salva, o Deus santificador que move aqueles que se tornam dóceis à sua voz para que vivam e façam de toda a sua existência uma época de encontro com a plenitude divina e dela sejam portadores para aqueles com quem cruzam suas vidas.

Este é o tempo, o melhor, porque o único tempo, para que uns e outros, todos: ricos e pobres, saudáveis e doentes, pequenos e grandes, iludidos com a vida ou com ela desiludidos, abram coração e mente, tudo o que são, para que Deus possa nascer, crescer e salvar: para que aconteça mesmo Natal, vivido sem hipocrisia, só em verdade e, então sim, possa ser natal todos os dias. 

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Envolvidos Num Abraço

Era pequenino, apenas uma criança, um bebé. Era moreninho, de olhos grandes e cheios de vida. Saía à mãe. Um bebé lindo. E ela olhou-O. Olhou-O, adormecido em seu colo. Ficaram rasos seus olhos e o olhar toldou-se de lágrimas. O coração, esse estremecia de gratidão só de O olhar tão cheio de paz, tão tranquilo, tão divino.

O pai, adotivo porque o Menino era de outro pai gerado, olhou Mãe e Filho e sentou-se porque fraquejaram as pernas de emoção. Não falou, não pensou, apenas se sentiu indigno da missão para que fora escolhido, velar pelo filho e pela mãe. Elevou os olhos ao Céu e numa prece pediu luz e força para ser capaz. E o Menino chamou-lhes pai e mãe. E Ele era Deus. E Ele é Deus.

Não temos tempo para contemplar as crianças pequeninas, tranquilas a dormir e não sabemos medir e ver os sinais da paz, os caminhos da Vida. Temos os olhos turvados não de lágrimas de emoção mas de pó dos caminhos, de desejos de prazer e poder, de cheiro a dinheiro e a egoísmo. E o Menino Deus cai-nos dos braços porque não sabemos segurá-lO em   nossas vidas. Perdendo-O, perdemos não a Ele mas a nós mesmos, e pode ser para sempre.

Podemos tê-lO em nossos braços porque Ele mesmo disse: "Todo o que fizer a vontade de meu Pai... esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe" (Mt 12,50). E estamos nas mãos da Mãe, a Sua Mãe, porque Ele no-la ofereceu" (Jo 19,27). Insensatos e ingratos é o que facilmente conseguimos ser. Insensatos porque deixamos perder o maior tesouro que temos em mãos, o próprio Deus que se fez homem, para nos cativar como criança, para nos salvar dando a vida por nós. Insensatos que não abrimos os olhos à Vida que há em nós, que está em nossas mãos, em nossa liberdade. Ingratos por isso mesmo, e porque pela frieza de nosso viver, pela indiferença de filhos que somos, ferimos a Mãe ao escaparmo-nos de seus braços, de seu colo, de seu abraço materno e divino. (30-12-17)