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quarta-feira, 9 de junho de 2021

Só Nos Falta Amar

É comum dizer-se que situações que nos marcam negativamente fazem doer o coração. Não que o coração doa realmente, por isso, mas porque ele é tido como centro e fonte dos sentimentos, bons ou maus, bem como da própria vida. Assim, dizer que estas situações provocam dor de coração é dizer que afetam o mais profundo, o mais íntimo de nós mesmos. 

Celebramos, sexta e sábado, dias 11 e 12, respetivamente, o Sagrado  Coração de Jesus e o Imaculado Coração de Maria. Corações intimíssimos um do outro, porque além de serem de mãe e de filho, o são numa dimensão divina, um Sagrado e outro Imaculado numa perfeita sintonia de amor.

Porque é, em essência, misericórdia, Deus fez de Maria uma criatura perfeita, tão perfeita quanto Deus pode fazer e a criatura, por força e graça divina,  o pode ser. Foi esta perfeita criatura que deu humanidade, a condição e forma humana, ao Deus que se fez carne, assumindo a nossa natureza sem a marca do pecado, porque era sem pecado a mãe que Lhe deu a humanidade, não Lhe transmitindo, assim, a pecadora condição, pois que a Deus não cabe o ser pecado.

Sem as limitações e imperfeições do pecado, Maria ama Deus e as criaturas com um tão perfeito amor quanto é possível amar. Ora, se nós, pelas condições limitadas e incapacitante que temos, não podemos amar nem acolher o amor de forma perfeita, também estamos limitados na compreensão do amor com que os corações de Jesus e Maria se amam entre si e nos amam a nós. "Perceber" e sentir o amor de Deus, em Jesus, e de Maria pressupões predisposição e capacidade interior e pessoal. Essa capacidade e predisposição acontecem tanto, e tão intensamente, quanto mais acontecer amor em nós, sendo que mais amor mais capacita e predispõe a pessoa para ser amada, receber amor,  e o ser amada capacita-a e predispõe-na mais para amar.

Como em efeito bola de neve, quanto mais se ama mais se é amado e quanto mais se é amado mais se ama... Falta-nos sempre amar mais.

sábado, 10 de outubro de 2020

Banquete de Vida

Chegámos aos incríveis tempos de ver as nossas igrejas cheias com muito pouca gente, e de ter que aumentar o número de celebrações por forma a poder permitir a participação de mais fiéis, passando pela necessidade de alguns sacramentos, os casamentos por exemplo, terem de ser celebrados sem missa.

 

Não é isso motivo para júbilo, bem pelo contrário, é ocasião que conduz à reflexão e a um interior lamento por vivermos o que vivemos, nestes tempos em que nos sentimos completamente à deriva, sem poder programar muito o amanhã porque nem no hoje há a certeza de estarmos bem. O medo corta-nos as pernas no caminhar para o encontro com os outros, corta-nos os braços fechando-os em si e impedindo-os de se darem em abraços que limitem a dor da solidão e o sofrimento de não se poderem sentir os sinais físicos do amor que é presença e contacto de comunhão.

 

De pernas e braços tolhidos, das quase certezas de que o Natal será vivido de forma restrita, da incerteza e medo de que os outros, ainda que seja um pequenino bebé a gatinhar numa creche, sejas inocentes portadores de morte para nós ou para os que nos são próximos, sentimo-nos vestidos de insegurança e não sabemos a que agarrar-nos.

 

Deixámos Deus à margem das nossas vidas precisamente quando nos sentíamos seguros nas certezas de nós mesmos, no infinito poder da ciência e das coisas que, agora, nos fugiram de debaixo dos pés, fazendo-nos tremer como artista que segue em corda bamba equilibrado por uma vara que não se prende a nada que seja seguro. Voltarmo-nos para Deus não será fácil, precisamente porque O atirámos para longe fazendo que se tornasse um desconhecido. Os desconhecidos não nos dão seguranças, não os conhecemos, não sabemos que garantias nos dão, que poder podem ter sobre os males e medos que nos assolam.

 

O mundo falseia o que são as suas certezas. Só Deus, mesmo que o não queiramos crer, pode preencher os espaços de esperança e confiança que se esvaziaram em nós. A Missa é ponto central, onde tudo se entrega, onde tudo se recebe, de onde tudo se leva. O banquete está preparado, não recusemos o divino convite.


sábado, 27 de junho de 2020

Quem Ama Chora de Alegria ou de Tristeza


Falar de amor é falar de entrega de si mesmo ao outro, da capacidade de viver em função do outro, daquele que ama. Compreende-se que o amor não se faz, como tantas vezes, confundindo amor com relações genitais, se diz e ouve dizer. Não se faz porque acontece no coração e no sentimento de quem o vive, e só quem o experimenta pode falar dele com verdade. O Amor não se faz, vive-se e dá-se, porque é pessoal e entrega de si mesmo.

Quem ama deveras sabe que ao dar-se completamente à pessoa amada, não perde a capacidade de amar os outros, antes a aumenta. Só o amor total leva à realização pessoal. Um amor dividido, disperso, deixará sempre insatisfação e dispersão. É assim que se compreende que o amor de um casal, como o de um padre, só pode ser total: esposos que se amam realmente não traem, não podem trair, porque todo o seu amor se orienta apenas num sentido: o marido, a esposa. Assim também, o padre, consagrando-se a Deus, não pode, se O ama de verdade, dedicar o seu amor, dispersando-o, a outras pessoas ou coisas. Compreende-se, pois, o casamento monogâmico (casar só com uma pessoa), como se compreende o celibato (o não sacar) dos padres, como entrega de si a Cristo.

Ao dedicar um total amor a Jesus Cristo, o cristão adquire uma ilimitada capacidade de amar e de se entregar aos outros, precisamente porque põe Deus em primeiro lugar. Entenda-se que o amor a Deus é o fim último da nossa capacidade de amar. Amando-o exclusivamente, se disso tivéssemos capacidade, levar-nos-ia a um profundíssimo amor às pessoas e a toda a obra criada, não em função delas próprias mas de Deus. Talvez entendamos melhor se dissermos que nosso o amor total a Deus é um amor que atravessa tudo e todos até repousar Nele. Ora, a intensidade com que se ama Deus será refletida na intensidade com que esse mesmo amor toca tudo o que Deus criou, precisamente porque Ele o criou.



segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Puro Ato de Bondade

Servir e amar. Esse foi o fim para que Deus  criou os Anjos. Seres que são puros espíritos nada mais fazem do que, em perfeita liberdade, estarem dispostos ao Amor para com Deus, em ato de perfeita entrega de si mesmos ao Criador e Senhor de todo o universo.

Deixemos de lado os espíritos que, livremente recusaram amar o Criador e que, por isso, optaram pela perdição, pela plena infidelidade. Também eles foram criados para servir e amar, mas o orgulho levou-os a dizer não. 

Centrando-nos agora no ser humano que somos, sintamos que fomos criados por Deus exatamente para o mesmo: para O servirmos e amarmos. Foi em ato de pura bondade de Deus que fomos pensados e criados, para que participássemos infinita perfeição que Ele é. A opção por Lhe dizermos não, no ato de pecado original, catapultou-nos para a perdição com os espíritos maus. 

Mas Deus, pura bondade, continua a amar-nos e, tendo-nos recuperado para Si, chama-nos a estarmos dispostos para O amarmos e servirmos. Entremos em nós para tomarmos consciência de que, tendo estado irremediavelmente condenados, Deus se fez um de nós, assumindo a nossa natureza e condição, e nos acolheu como filhos, capacitando-nos para o amor.

Era de justiça a nossa condenação, mas é de Misericórdia a nossa recuperação. Na certeza de que ambas estarão presentes no momento final, é em nossa liberdade que percorremos os caminhos do bem ou do mal. 

No fundo, ao mandar-nos que vivamos o mandamento do Amor, que se exprime na confiança, na entrega de nós mesmos à vontade de Deus, ao longo da vida, e na vida, que vivemos, e não depois de morrermos; ao exigir-nos o Amor, ao obrigar-nos a amar, aquilo que Deus faz é, ouso dizê-lo, "obrigar-nos" a sermos felizes, a optar pela felicidade. E nós continuamos a dizer os nossos nãos...

Sim, é na plena liberdade que atuamos. Deus não pode fazer mais por nós que aquilo que fez e faz. Não quer, de forma alguma, perder-nos. Deus nada perde de si pelas nossas recusas em O amarmos, o não querer que nos percamos é puro ato de bondade Dele. Vida ou Morte dependem de nós, nunca de Deus. 

terça-feira, 12 de junho de 2018

Coração de Mãe

O mês de junho é mês dedicado ao Coração de Jesus. Celebrámos na sexta, dia 8, o Sagrado Coração de Jesus, e no dia seguinte, sábado, o Imaculado Coração de Maria. O amor de dois corações que se celebra em união de dias. 

Quando falamos do Coração de Jesus, falamos do pleno sentimento de Misericórdia do nosso Deus, que se dá todo, até ao trespassar do seu coração, por nós. Falar do Coração de Maria é falar desse mesmo sentimento de misericórdia que Deus nos dá através de Maria, no seu coração Imaculado.

Coração Imaculado onde reside e se manifesta a plenitude do amor divino porque, em momento algum aconteceu a sua ausência, por não haver qualquer mancha de pecado. 

O coração de mãe é coração sofredor, não por si mesma mas pelo sofrimento passado, presente e futuro, que advirá como sequência das atitudes e decisões de seus filhos. Maria vive, connosco, intensamente, a nossa vida. O seu coração enche-se de alegria pelas vitórias que acontecem em cada um, sendo que vitórias são sempre as experiências de verdadeira felicidade e vida que se dão em nós. 

O seu coração enche-se de tristeza e mágoa quando, dentro da nossa liberdade, se dão, por opção e vontade pessoal, desvios do caminho e das propostas de felicidade e vida a que Deus nos chama.

Uma espada trespassou o coração de Jesus e uma espada trespassou a alma de Maria. Por alma entendamos a vida. Corações trespassados: o da Mãe e o do Filho. Corações  em intensa e profunda comunhão, sentindo um o que sente o outro, regozijando-se um com o que se regozija o outro, sofrendo um com o que sofre o outro, porque ambos são são corações transbordantes de misericórdia, corações que se desfazem de amor pela humanidade. Corações e vidas trespassados para que nossas vidas e nossos corações tenham espaço e lugar em Deus.

Num silêncio divino e profundo, somos atraídos ao coração da Mãe, que se faz caminho e ponte para o coração de Deus, onde, por fim, acontece Eternidade, onde acontecem a felicidade e o descanso eterno e pleno de Vida. (10-0-18)

Dor de um Coração de Amor

Sabemos, porque o ouvimos dizer e o dizemos que o coração é tido como a sede, fonte, onde nascem os sentimentos, como será nele também que os sentimentos podem morrer. Deixando para lá a certeza da ciência que nos diz que o coração é simplesmente um músculo, continuemos a vê-lo somo centro do amor e da falta dele, de força e ânimo e da falta deles. Por isso dizemos, e ouvimos dizer, que há gente com coração mole, gente com coração de pedra, gente com um coração de manteiga, gente com coração de fogo, gente com coração de ouro e até gente sem coração.

O que somos e mostramos na vida que vivemos, o bem e o mal que brotam de dentro de nós, o amor e o ódio que possamos sentir, atribuimo-los ao coração, que, sem descanso, bate dentro de nós. 

Dizem-nos, às vezes, que o coração não dói. Não vamos entrar por aí, deixar para lá o que nos diz a ciência, para sentirmos o que nos diz o coração. 

Deixemos que seja o coração ou não que dói e sente, para nos centrarmos na dor que nasce no peito de quem ama, aquela dor de mãe que sabe e sente a dor de um filho, que lhe faz bater acelerado o coração.

Fixemos o olhar naquele pai e naquela mãe que, se pudessem, dariam o coração por um filho doente. Quantos, durante o tempo de uma operação cirúrgica, embora o coração lhes bata acelerado do peito, esperam e aguardam com o "coração nas mãos".

Sabemos daqueles que, de dor, não suportam continuar a bater e morrem dolorosos pela dor de alguém.

Pode não ser o coração o culpado, mas é a ele que se lhes dão as consequências da culpa. Por isso, até nos "dói o coração" quando vemos o mal que era suposto nem acontecer.

Sendo pequeninos e tão limitados, sabemos o que é sofrer de coração com o sofrimento dos que amamos. E Deus? Se com infinito amor ama, que por isso deixou que Lhe trespassassem o coração, com infinito amor sofre, de coração, com o sofrimento dos filhos, que somos e sobre quem, infinitamente, derrama graças que, muitas vezes não acolhemos e, com isso, Nele provocamos dor. 

Em semana do Sagrado Coração de Jesus, aprendamos Dele o que é o Amor.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Sem Amor Perfeito

A palavra é uma, os sentidos são muitos, a sua utilização é de vezes sem conta. Tanto, e tão mal, utilizada é que se lhe perdeu o sentido. E amor passou a designar tantas coisas que acabou por definir até o que lhe é profundamente oposto. Um ato de amor perde a sua pureza amorosa quando é marcado por algum interesse, por mais pequenino que possa ser.

Percebemos que não há um ato de puro amor humano. Por muito que amemos e o queiramos fazer com puro altruísmo, perturbamo-nos se percebemos um ato menos grato da parte da pessoa amada. A mãe ama e tudo faz por seu filho mas chega a cansar-se de tanta  vez o fazer. Aí, perde parte do amor com que amou. A enfermeira cuida com o maior carinho deste mundo o doente que lhe está confiado, mas pensa no ordenado que lhe é confiado no fim de um mês de trabalho. Porque "não há almoços grátis" o convite para "beber um copo" espera sempre um ato de recompensa. Puro só o amor com que fomos, e somos, eternamente amados por Deus, que não precisa de nós, a Quem não acrescentamos nem retiramos nada porque Ele é o Tudo. Ama-nos em perfeito ato de amor porque tem em vista unicamente a nossa felicidade. Se ela é posta em causa ou em risco isso deve-se só a nós.

Porque não amamos perfeitamente, vamos deixar de amar? Não, precisamos teimar em amar sempre mais e melhor. Aqui está a questão: eu não amo em ato puro, não aceito o outro em ato de pura aceitação: Como, então, conseguir? Aqui entra Deus, que preenche com seu infinito amor o que falta em mim de amor e de aceitação. Daí que a salvação seja ato de Deus, em dom que exige de mim aquilo que eu posso e consigo ser. Tenho eu que fazer e dar o que posso, não podendo deixar de o fazer porque o dom de Deus não preenche o que me compete a mim preencher, sendo que o que faltar é sempre ato de ausência da minha parte.


Não, não amamos perfeitamente, mas porque somos amados em perfeição, Deus supre e completa o que não somos capazes de fazer, no ato de amar os irmãos, a Deus ou a nós mesmos. Quer dizer que o nosso amor se torna, podemos dizê-lo, perfeito quando amamos em Deus. Esse amor sim, dá vida, é altruísta e nunca põe em causa a vida dos outros. O que não for assim vem do maligno.

sábado, 15 de julho de 2017

Ser Homem, Ser Mulher

Dão fruto, as sementes, conforme a qualidade que têm, a qualidade do terreno onde semeadas forem, e o cuidado a ter com o terreno e com as sementes. Não é novidade nenhuma que assim seja, que se colhe o futuro do que se semeia.

A notícia saiu nestes dias: no Metro de Londres os avisos já aos serão dados a "ladies and gentlemen" (senhoras e senhores) mas a "Hello Everyone" (Olá a todos). Porquê? Para que a saudação seja de género

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Quem Vive Não Morrerá

“Eu sou a ressurreição e a vida. Quem acredita em Mim, ainda que tenha morrido, viverá; e todo aquele que vive e acredita em Mim, nunca morrerá. Acreditas nisto?” (Jo 11,25-26) As afirmações e a pergunta de Jesus fazem parte do diálogo com Marta, por ocasião da ressurreição de Lázaro.

No profeta Ezequiel lemos: “Vou abrir os vossos túmulos e deles vos farei ressuscitar…” (Ez 37,12). Professamos, no Credo, a fé na descida de Jesus à mansão dos mortos. O pecado tinha reduzido o ser humano à condição de condenado à morte, uma morte eterna, cortando-lhe a possibilidade de total comunhão com Deus, a possibilidade da eternidade no Céu, para a qual havia sido criado.

A ação de Deus, na entrega do Filho para reverter a situação do Homem, altera o rumo que este escolhera ao optar pela rejeição do Criador na original tentação demoníaca.

A oferta que Jesus, o Homem-Deus, faz de si, da sua vontade, da sua vida, ao Pai recupera a humanidade para a vida junto de Deus, deixando no ser humano a opção de escolha. Entre o bem e o mal, a vida e a morte, a decisão está nas suas (nossas) mãos.

“Quem acredita em Mim, ainda que tenha morrido, viverá”. Na morte de Jesus cumpre-se a profecia de Ezequiel e torna-se clara a sua afirmação à Marta, em Betânia. No morrer do corpo a alma entra na morte. Entenda-se por morte da alma, porque o é, o estado de ausência de Deus. Sendo que a alma não morre, “vivia” em estado de morte porque longe de Deus, uma vez que não tinha lugar junto Dele, em consequência do pecado. Ao morrer, Jesus entrou na morte, na “mansão dos mortos”, mas porque é Deus abriu as portas de saída e, ao ressuscitar, retirou dela todas as almas que, tendo vivido em comunhão com Deus, esperavam o momento da redenção para serem elevadas ao céu. “Vou abrir os vossos túmulos e deles vos farei ressuscitar”. Aconteceu: um Homem-Deus entrou na morte e o mesmo Homem-Deus venceu-a ressurgindo dela. A morte foi vencida, satanás perdeu. Por isso tanto se afadiga por, na recuperada liberdade dos seres humanos, os atrair a si.

“E todo aquele que vive e acredita em Mim, nunca morrerá”. Porquê? Porque as portas da morte estão fechadas para aqueles que acreditam e vivem em Jesus. Continuam abertas para aqueles que, conhecendo Deus, O recusam nesta vida terrena, que é “sala de espera” da eternidade. Compreende-se assim, que a morte do corpo seja passagem para Deus. O corpo morre mas a alma “nunca morrerá” porque não entra na “mansão dos mortos”, o seu lugar é nas “moradas eternas de Deus”.

Questionamo-nos sobre o Purgatório. Sem ser morte da alma, é uma experiência de morte, porque, tendo já visto Deus em todo o seu Esplendor, ela se vê apartada Dele, mas por um “tempo determinado” – uso a palavra tempo para me poder exprimir – e tendo já a certeza da vida em Deus.

Porque a Vida é absoluta vivência de comunhão de Amor. Já a morte, por seu lado, é absoluta falta de esperança e pleno desespero, absoluta falta de amor e plena vivência de ódio, absoluta falta de relação de comunhão e plena solidão. 

J. B. 04-04-2017

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Olhares Cruzados

Um menino nasceu. Estranhamente recusado entre os seus familiares, tendo em conta que São José era originário de Belém, foi numa gruta que que viu a luz do mundo, o mundo que era seu. 

Foi o silêncio da gruta, o silêncio do coração de sua mãe, a escuridão da noite e o brilho da alma e do olhar de Nossa Senhora, se aperceberam da Luz do Mundo que nascia. Almas emocionadas a de S. José e de Nossa Senhora vertiam lágrimas de alegria e gratidão pela misericórdia de Deus, que se manifestava. Parecia um sonho. Verdade que era um sonho, uma esperança de séculos de história e de vidas de um Povo.

Um "sonho" que faz acordar para a realidade. O menino chora, tem fome. E o Menino é Deus. De alma cheia de emoção, Maria alimenta com seu leite materno o filho que é seu e que é de Deus, o filho que que é Deus, que nasceu não para ser filho para Maria mas para toda a humanidade. 

Deus Pai pôs nas mãos de Maria a salvação de todos e de cada um de nós. Deus, fazendo-se quase nada, habitou no meio de nós para que possamos nós ser tudo, vivendo Nele. É assim o infinito amor de Deus.

Maria tinha essa certeza, a de que era portadora de Deus na infinitude dos seus dons. Vemo-la cheia de graça, de lágrimas de alegria por ser escolhida por Deus, mas não lhe medimos as dores, as orações ou as lágrimas provocadas por uma espada de dor que lhe trespassou a alma ao longo de toda a vida. Basta pensar na dor de lhe  ser recusada hospedagem, cidade de Belém, a dor de não poder dar um aconchego "digno" ao filho que nascia, que é Deus (mas a gruta de Belém era o mais digno, pois foi esse que Ele escolheu e quis). Espada que deixou de ferir apenas no momento da sua Assunção, e no encontro absoluto e pleno na Santíssima Trindade.

Olhemos Maria, na gruta de Belém, ternamente emudecida ao olhar o Deus alimentar-se do seu peito. Olhemos os olhares do Menino e dEla, cruzados numa total entrega: Ele, Deus, confiando-se totalmente nas mãos dEla, e Ela, Mãe humilde, sentindo que por si só nada pode, confiando-se absolutamente a si mesma nas mãos dEle, porque Ela é Mãe e filha de Deus. E nós estamos nas suas mãos também.
(8 de janeiro 2017 - Epifania)

domingo, 11 de dezembro de 2016

Um Deus Obediente

Em tempos de Natal talvez valha a pena parar um pouco e pensar no valor que estamos a dar ao mistério que celebramos. Deus, sem deixar de o ser, fez-se um de nós para nos tornar seus, resgatando-nos a preço de sangue, o sangue de Seu Filho, o seu sangue.

Por termos, dois dedos de capacidade e inteligência, dom de Deus, arvoramo-nos a ousadia e o direito de nos colocarmos no lugar de Deus, sem perceber o quanto Ele manifestou de entrega de Si mesmo, 

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Olhares com cor

Vivia numa terra estranha, segundo os nossos olhos podem ver e o pensamento pensar. Era um sítio lá longe, muito longe, onde nem os foguetões grandes conseguem ir. Tão longe, que a luz do sol, um sol mais bonito do que o nosso, nunca se apaga porque lá todos vivem sempre a sorrir e não há luas que escondam o sol da vida das pessoas, nem zangas que apaguem o brilho dos sorrisos, porque as pessoas são pequeninas por fora e muito grandes por dentro. 

O “S”, vamos chamar-lhe assim para falarmos dele, porque lá, na terra onde vive, ninguém tem nome, porque não precisam de ter nome pois não falam uns dos outros e todos se conhecem pelo brilho do sorriso e pela cor do olhar. Sim porque o sorriso tem brilho e o olhar tem cor, mesmo cá entre nós, por isso é que há sorrisos bonitos e feios e olhares que que são uma coisa ou outra, também.  O “S”, estávamos a  dizer, fechou os olhos, não para descansar porque lá as pessoas não se cansam, para ver mais fundo. E viu. Viu, lá longe, muito longe, uma bola grande dentro dos seus olhos pequeninos. Era feita de sombra. Fechou mais os olhos e viu que afinal era de uma cor azul, um azul bonito, mas nada tão bonito como o azul do olhar da sua irmã.

Fechou mais os olhos pequeninos e o olhar levou-o a voar para aquela bola. Voou, voou e foi parar ao pé de uma árvore grande, muito grande. Olhou para cima e achou que ela chegava até ao céu, e ele sorriu porque era uma árvore toda cheia de luzes a acender e a apagar e ele sorriu ainda mais porque na terra dele a luz nunca se apaga. Olhou à sua volta e viu muita escuridão, era de noite e ele não sabia o que era a noite. Recuou alguns passinhos e ficou debaixo da árvore que dava luz.

Olhou uma lâmpada pequenina. Ela brilhou e ele perguntou e os dois falaram com palavras de luz: “Olá, que mundo é este?”. “É a terra, o mundo dos humanos”. “Tão escuro!”. “Sim, nesta época acendem muitas luzes, alguns, porque outros gostam mais de andar na escuridão”. “Mas porquê?”. “Porque é Natal”. “E o que é o Natal?”. “Não sei, prenderam-me a estes fios para segurarem a minha luz. Eu queria sair e descobrir o que é mas não posso”. “Eu vou descobrir e depois passo para te contar”.

E o “S” saiu a querer encontrar e saber o que era o Natal. Andou e perguntou,  mas não conseguiu perceber tudo. Continuou a andar dando passos muito rápidos com o pensamento. E Disseram-lhe que o Natal, era tempo de alegria, e ele viu tantas crianças sem o afeto de um pai e uma mãe; disseram-lhe que o Natal é paz e ele viu maridos e esposa a discutir; disseram-lhe que o Natal é partilha de vida e ele viu gente deitada nas ruas, sem nada, quase sem vida; disseram-lhe que o natal é luz e ele viu os olhares escuros dos velhinhos tristes porque os filhos se esqueceram deles sozinhos em casa; disseram-lhe que o Natal é o nascimento de Deus e ele viu gente cheia de ódio  e ouviu dizer mal dos outros e ouviu músicas bonitas a sair de corações tristes, e viu igrejas onde Deus estava sozinho; disseram-lhe que o natal é numa noite, a noite mais mágica, e ele encontrou essa noite e sentiu-a a noite mais triste, porque não viu gente nas ruas e viu jantares ricos e achou que o Natal ia acabar quando acabassem os jantares.

E chorou, nessa noite. Chorou lágrimas de tristeza, e ele só conhecia as lágrimas de alegria. E ficou mais triste porque as lágrimas de tristeza sabem mal, porque são salgadas. E o vento, o vento que se levantou ligeiro, trouxe-lhe um pedaço de papel e ele deitou-se em cima dele porque estava cansado. Neste mundo as pessoas cansam-se. Adormeceu. As letras pretas daquele papel, um pedaço de jornal, entraram-lhe na mente e ele leu uma notícia, mesmo a dormir: “Jovem apresentadora de televisão, com 24 anos, morreu de cancro, um mês depois de dar à luz, por se recusar a fazer quimioterapia para não prejudicar o bebé”. Pensou que estava a sonhar, mas outra notícia entrou a correr e interrompeu-lhe o pensamento: “Em Londres, jovem estudante pede a um mendigo dinheiro para o autocarro e ele dá-lhe as 3 libras que tinha”. E outras, e outras noticias que leu, deixaram-no a sorrir por dentro, mesmo a  dormir.  

E acordou, acordou quando um raio de luz, do sol da terra dos humanos, lhe aqueceu a vontade de correr, e correr ainda mais, para ir contar à pequenina lâmpada presa na árvore de natal o que era realmente o Natal. Mas ela estava sem luz, era dia, e ele percebeu que a luz só voltaria a estar presa naquela lâmpada num próximo Natal, porque os humanos só pensam no Natal quando é dezembro. Estava tão feliz que pediu à lâmpada que no próximo ano dissesse à luz que ele iria voltar.

Sentiu um afago de mão de mãe, daqueles que só as mães sabem dar. Abriu os olhos e naquele mesmo instante estava lá na terra dele, lá muito longe, onde a luz do sol nunca se apaga e as pessoas não têm nome e não falam das outras. Sorriu com o olhar e disse: “Sabes mãe, encontrei o Natal da terra dos humanos, mas acho que muitos deles ainda não o viram.

                                                                                                                                                       Natal de 2014

domingo, 10 de março de 2013

Uma Lágrima Furtiva (21)


Voltou-se e viu atrás de si, um homem enorme, fardado, e percebeu uma voz que dizia “are you crazy”?. Pensou: “estou feita”.. Mas que é que foi”? Num inglês de americano zangado, o polícia manifesta bem a insensatez que ela estava a cometer ao atravessar uma passadeira com semáforo vermelho para peões. Tinha consciência de que de nada lhe valeria a pena estar a tentar explicações.

Aquele homem, mal encarado e a debitar “perdigotos” da boca à mistura com um linguajar stressado, dava bem a entender que não havia lugar para qualquer tipo de desculpas. Ainda disse, para não ficar calada, que por distracção, não tinha reparado, mas não se livrava de uma multa, que acolheu com um simpático “I’m sorry”.

Esperou, ao lado do americano, que o sinal passasse a verde e, de porte elevado e nariz alçado, em jeito de humor, atravessou a rua muito direitinha enquanto sorria e pensava “tinha-me feito jeito a oferta do galã da ponte. Vai bem o dia: um que, fazendo-se ao piso, me oferece mundos e fundos e outro que, logo a seguir, me tira algum do pouco que vou tendo. Estes gajos não existem”.

Continuou, passeio a cima. O telefone que toca. Pára e procura-o na bolsa. O medo de perder a chamada sem sequer ver de quem era fá-la mexer rapidamente todas as coisas.

Reinicia a caminhada e prime a tecla verde do telemóvel. Um encontrão no braço de alguém deixa-a parada e a rir-se: mais um americano, agora um com uma caixinha de comida “fast food” na mão e, certamente, tão distraído como ela. “Já não se fazem americanos como os portugueses” disse ela para o telefone, sentindo a saudade entrar-lhe na alma.

Do outro lado do oceano escutou um “que é que se passa?”  e viu, sem ver com o olhar, um sorriso aberto e cheio de ternura. “não importa, nada de jeito, só me interessa que te estou a ouvir”. Parou. Encostou-se ao mastro da bandeira de Portugal no Rockfeller Center e deixou-se encantar pela voz e pela conversa. Uma criança que cai na pista de gelo, umas gargalhadas silenciosas e uma mão de mãe que a levanta para que continue a patinar naquele pedaço de gelo artificial.

Uma paz que desliza lenta e profunda pela alma e se transmite ao corpo vai-se apoderando dela. Uma lágrima furtiva que sai e a tecla vermelha premida. Uma chamada desligada. Um beijo no telefone. Um coração cheio e uma paz divina que sente dentro de si.

Está em Nova York, a cidade que não dorme. Milhões de pessoas stressadas e impacientes que não reparam nela, que não sabem o que é ter paz interior e sentir-se amado e amar de verdade, e “é tão bom!”, pensa.

Cai a noite. Um dos milhares de sem-abrigo que rastejam pela vida, está ali…

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Se o Nosso Amor Permanecer... (20)


Pegou o livro e saiu tentando não ser muito agressiva nesse retirar forçado livraria onde foi procurar um livro que lhe desse umas luzes sobre o problema da bipolaridade. Queria embrenhar-se um pouco mais nessa questão, de que  ouvira falar numa das aulas quando ainda estava em Portugal. Sabia que tinha a ver com o humor de algumas pessoas que, de um momento para outro, sem ninguém perceber como nem porquê, muda radicalmente o seu proceder, ao ponto de nunca se saber bem de que lado estão.

Saiu e foi seguida. O jovem, bem parecido, vestido com roupas de marca e um sorriso luminoso a inundar-lhe o rosto apressou o passo e foi no seu encalço numa tentativa clara e, pelo menos na aparência, sincera de a conhecer. A aura que dela emanava encantou-o, como disse.

Ela, numa descrente dúvida, parou e esforçou-se por que não saísse de dentro de si qualquer pequeno sinal de acolhimento, como também não queria que ele se sentisse recusado à partida. Tentou, e conseguiu, ser terna porque isso lhe estava no sangue e os seus gestos eram disso sinal. Aura? De que estaria ele a falar? Para mais num inglês rápido que lhe causava insegurança pelo receio de não se fazer entender ou de não entender aquilo que por outros fosse dito.

A Estátua da Liberdade em fundo e os barcos deslizando na agua parada que banha a cidade, dão ao ambiente um tom de acalmia geral. Uma brisa  bafejara-os, fresca, como se tivesse atravessado a Brooklyn Bridge e refrescado com a água do canal. Um odor a Água Brava preenche-lhe as narinas e invade-lhe o corpo numa recordação quente de um passado recente.

Por momentos, esqueceu completamente que tinha uma pessoa diante de si e a sua mente pairou em terras lusas na recordação de um Homem que amava.

Abriu os olhos à realidade e viu diante de si um jovem encantador e a Estátua da Liberdade lá mais ao fundo. Sorriu e pediu desculpa, depois de ouvir uma declaração e uma data de promessas de mundos e fundos. Disse estar comprometida e não ter a mínima intenção de mudar o seu modo de lhe querer bem.

Com um sorriso aberto, despediu-se e caminhou para casa, parecendo agora que as ruas de Nova York eram menos pesadas no meio dos mamarrachos que as ladeiam. Passando em plena Wall Street recordou as promessas que acabara de ouvir de um jovem que parecia ser o dono da bolsa de valores ali ao lado.

Sorriu sozinha e disse de si para si. “Estou muito bem assim. Pode não ter muito mais que um banco de madeira para me oferecer, e se só isso ele tiver, ficaremos os dois, um dia, aí sentados, lado a lado, a olhar a vida a acontecer. Se o nosso amor permanecer isso me basta”.

Atravessou a rua encantada sem reparar num semáforo vermelho. Um briiiii de apito furioso, atrás de si, assustou-a.  

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Olhar Cheio de Luz (19)

Umas braçadas na água. A água fria arrepiou-o por momentos. Água parada num tom de cor cinzento-azulado. Muitas vezes ali havia tomado banho e naquele momento recordou muitos dos momentos de pura felicidade que as gargalhadas de criança que pareciam continuar ali perpetuando-se no tempo. 

Entrou dentro da água o mais que pôde e deixou que o corpo aliviado do stress subisse à tona e amortecido ali se manteve. Os olhos fechados e a respiração funda encheram de oxigénio e felicidade o sangue e o espírito. Desejou, nesse momento, transformar-se em nada ou em água e deixar que uma onda o transferisse sem tempo para o outro mundo. 

Encheu, forte, os pulmões e aliviou-os da pressão esvaziando-os lentamente meditando no seu sonho. Esboçou um sorriso ao pensar no sonho americano, o dele, que era tão diferente do das histórias de cowboys que na adolescência devorara. Simplesmente queria estar perto da pessoa que insistia em lhe invadir a mente e o coração. Abriu os olhos e voltou a cerrá-los porque o sol os inundara de luz directa. 

Saiu da água, deixou-se secar por momentos, ansioso por que a água se evaporasse quanto antes, não fosse chegar alguém e o encontrasse ali praticamente nu. Sabia que sendo feriado alguém poderia ter escolhido aquele espaço para passear à beira rio. O sol foi generoso e enxugou-o num ápice. 

Sentia-se pairar de felicidade. O amor era isso mesmo, pensava, estar longe de quem se ama mas não deixar de viver cada momento de coração palpitante. Amar exige morte de si mesmo  para que a pessoa amada possa sentir-se livre para fazer escolhas, para crescer, para fazer caminho, mas sentindo-se sempre protegida por um escudo invisível e de alta segurança, a energia positiva a que se chama amor. O sentido da palavra tão pronunciada e banalizada, hoje em dia, despe-se completamente de sentido de cada vez que quem julga amar se busca mais a sim mesmo, aos seus desejos, apetites e vontades, que ao outro. É por isso que o amor não se faz mas se constrói e se vive: se constrói subindo, degrau a degrau, as escadas de encanto ou desencanto, apoiando-se sempre  na certeza de se viver para o outro e por causa dele. Hoje sabia-se consciente de que amava verdadeiramente. 

Desembrulhou algumas das memórias na sua mente guardadas e viu a diferença do que agora sentia e de tantas outras vezes em que disse amar, mais sentindo prazer na voz, no olhar e no corpo, de algumas outras mulheres, que no querer que elas fossem livres e caminhassem com ele, a seu lado, não como ele queria. 

Sentiu-se despida por um olhar indiscreto. Rangeu os dentes. Pegou o livro…

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Estava viva e amava-o (16)

Num momento passou-lhe pela mente a imagem de morte numa certeza absoluta de que ela era real e numa certeza absoluta e confusa de que estaria a sonhar porque esse momento não podia ser real. Envolveu-o  a imagem de uma ninfa esmagada pelos rodados grossos do camião.

Parou petrificado e assim ficou até ao momento em que o roncar daquele mostro se fizeram ouvir mais intenso, enquanto  negras massas de fumo se iam desvanecendo para trás. Ela caminhava com o cabelo esvoaçando ao vento  e essa imagem fê-lo readquirir forças e, num passo hesitante, caminhar no sentido em que ia antes.

Queria sentir-se em paz, e a paz só era possível porque sabia que ela estava viva e que o levava dentro de si, e que iria para longe, mas que voltaria, e que, lá longe, não deixaria de o lembrar e que, se o lembrava era porque ele não lhe era indiferentes e que isso era a prova provada de que ela o amava.

Mas a vida continuava e o tempo não era de se ficar parado a ver passar a história, porque o amor move os corações, faz ferver de energia, e transforma a vida de quem ama.

A Paz voltara a descer sobre ele. Eram mil e uma emoções fortes, bem fortes, as que estava a viver nos últimos dias: a morte de um ente bem querido e a certeza de que ele faz parte da eternidade, a certeza de que alguém o ama, a certeza de que, pelo menos aparentemente, nada pode destruir tanta felicidade. Era quase palpável a energia que se fazia sentir sobre ele.

Era essa força, essa energia, que havia de segurá-lo tantas vezes de pé sem sucumbir diante do fracasso, do medo e de tantas dores que pelo tempo além a vida havia de trazer-lhe. Mas isso não importava.

Um pontapé numa pedra, que rolou rapidamente estrada além, e um pequeno passarinho assustado que levantou voo. Um sorriso vivo e o esquecimento definitivo de algumas mulheres que fizeram parte da sua história e do seu imaginário. Um salto por cima de um marco e um ramo verde que arranca, traiçoeiro, de um arbusto.

Entrou em casa a trautear uma melodia de Strauss. A ponta da camisa fora do sítio, desfraldado, como lhe  dizia, tantas vezes, a mãe.

Sentido novo, vida nova, encanto marcado por um espírito diferente.  “É o Espírito Santo que anda muito atento comigo”, brincou ele interiormente ao perceber-se assim feliz. Ficou mais feliz por dentro ao pensar-se amado por Deus. 

Fazia-lhe bem, muito bem, a fé que mantinha desde a infância.                        

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Saudades de ti (14)


Não tinha uma flor para lhe oferecer. Só palavras lhe poderiam sair do peito para começar a exprimir o que nesse momento sentia.

Antecipando-se, sem sequer pensar no que poderia ele estar a querer tirar de dentro de si, disse ela, dando um solene tom de entusiasmo ao acontecimento que anunciava. O tão sonhado  momento de poder vir a  estagiar nos Estados Unidos iria concretizar-se: finalmente tinha-lhe sido concedida a bolsa de estudo pela qual sempre lutou e que, em reconhecimento pelas excelentes classificações na faculdade, lhe traria a possibilidade de vir a completar o curso num país estrangeiro. Os Estados Unidos eram o seu sonho: sempre a fascinara a América, sobretudo porque era lá que melhor se poderia preparar para o futuro que para si almejava.

Boquiaberto, ouviu dela tudo sem se atrever a pronunciar palavra como se a fonte das palavras secasse dentro de si. Esboçou um sorriso amarelo e  ficou perdido na desilusão que sentiu ao perceber que iria perder o que ainda nem sequer tinha encontrado. “Como é que eu posso ter andado tão longe, pensou, para não me ter apercebido da beleza, dos sonhos e do encanto, que  há nesta mulher”? Tentou, sem conseguir minimamente, disfarçar em alegria a mágoa que estava a sentir.

A perspicácia feminina, presente em qualquer mulher atenta,  e talvez mais nela, agora, por também ela não estar a ser indiferente à diferença que nele hoje se podia sentir, fê-la pensar. Muitas vezes o olhara e fixara com interesse mas sem qualquer fixação mais forte.

Percebendo a mal disfarçada aflição que vira nele, atalhou rapidamente para dizer que achava que não ia aguentar lá muito tempo sem vir à sua terra ver os seus, sentir a vida e o lugar onde sempre viveu. “E acho que também vou ter saudades tuas” disse, inclinando-se um pouco para diante, como quem quer dizer um segredo, e deixando que  a sua mão perdida descansasse apenas sobre a mão trémula que ele tinha, meio perdida, sobre a mesa do café.
Estava feito. O que ele não teria tido coragem para pronunciar logo ali, ela afirmara-o claramente com meias palavras e um gesto forte de quem ama. 

O toque das duas mãos reacendeu a força e a fé dentro dele e esmagaram as dúvidas que baralhavam, atordoadas, as ideias e os gestos. Embrenhou-se nele a certeza de que o futuro que ela estava a preparar para si poderiam vir a ser futuro vivido a dois. Percebeu-se amado, perdeu o medo e acreditou que a separação de milhares de quilómetros não evitaria o sofrimento da distância mas seria apenas ausência de corpos porque ambos estariam em comunhão de sentimentos.

Olhou-a bem fundo e sorriu...

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Amor e Paixão (13)

A porta semi-aberta do café forçou a que, cavalheirescamente, ele recuasse um passo para deixar a Ninfa entrar primeiro. Uma fragrância com tom de uma qualquer especiaria, para ele desconhecida, penetrou-lhe as narinas para se embrenhar no cérebro, agora aliviado e disponível para se deixar marcar por novas experiências de vida. 

A atracão que minutos antes tinha sentido pela Ninfa, de seu nome próprio, Cristina, parecia intensificar-se a cada passo e em cada gesto daquela Mulher, de quem sempre viveu tão próximo, mas também, percebia agora, tão distante.As palavras paixão e amor cruzaram-se-lhe na mente, enquanto ajeitava uma cadeira para que ela se sentasse. Sempre lhe causaram confusão aquelas palavras. Sabia que não significavam o mesmo. Uma e outra vez foi portador de sentimentos diferentes em relação ás mulheres que vinham fazendo parte da sua vida. Amor era  termo demasiado forte para definir o que sentia por uma qualquer mulher. Tinha consciência de que isso era o que sentia por sua mãe e por sua irmã. 

Sensações parecidas sentira-as algumas vezes por outras mulheres, mas aí havia mais confusão porque estava muito atento também fosse ao modo e vestir, ao jeito de andar, ao perfume usado, às palavras que diziam ou ao corpo que tinham. Já antes pensara como era estranhamente interessante e belo que aquelas, a mãe e a irmã, eram mulheres diferentes. Crescera com elas, conhecia-as  ao ponto de não precisar de nada que comprovasse que as amava, bastava-lhe sentir que tudo faria, que a vida daria, se necessário, para que uma e outra estivessem bem. 

Conhecia-lhes o sorriso de alegria, o sorriso disfarçado, o sorriso de dor. Muitas vezes as vira chorar por dentro sem deixarem que as lágrimas  saíssem para fora. Sabia perfeitamente que, como ele, elas dariam a vida para que ele estivesse bem.Agora estava meio perdido ao perceber interiormente que alguns desses sentimentos se manifestavam, mais que tenuemente, pela mulher de sorriso claro que, na sua frente, bebia um café dulcificado por meio pacote de açúcar. Olhou-a nos olhos e sentiu medo, vergonha e encanto. Será que a amava? Atracção sentira-a muita vez. Seriam, agora, apenas sentimentos passageiros. Que fazer?

Um quadro com flores pintadas fazia de fundo, como que emoldurando a cabeça da ninfa. Pensou nas rosas, e no que sentia, quando, no Dia da Mãe, as oferecia à mulher que verdadeiramente amava. Amar era bem mais que oferecer uma rosa, mas a rosa era um pequeno sinal do que sentia por sua mãe. Apeteceu-lhe ter uma rosa para oferecer à Ninfa.

Desejou muito, nesse momento, ouvir o som “quefrô?”…


sábado, 10 de novembro de 2012

Nunca tinha reparado que eras tão bela (12)


Sentia-se com uma capacidade incrível de mudar o mundo todo de uma só vez. Era realmente um homem novo, cheio de sonhos e entusiasmos. Caminhava de cabeça erguida e batida por uma leve brisa, que lhe dava um ar de frescura. Tudo dava a entender que quase voava.

Um pensamento. A mão levada ao bolso. A carteira que lá não estava. Esquecera-se dela em casa. A ideia de ir beber um café, e a constatação de que não levava carteira, despoletara nele uma resma de sentimentos. Inverteu caminho enquanto invertia também o seu humor.

Uma topada numa pedra e um quase cair no chão. Uma palavra, dessas que sua avó tantas vezes tinha chamado de feias. Se antes parecia voar, agora já tinha perdido as asas que o faziam planar de entusiasmo. “Porque diabo, havia de haver sempre alguma coisa a correr mal?” Voltou a casa. Barafustava por dentro e por fora.

Um gafanhoto pousou-lhe sobre o peito. Olhou-o sorrindo e num gesto brusco apanhou-o. Percebeu a força que um tão pequeno bicho exercia com um único intuito: libertar-se das agigantadas mãos que o haviam aprisionado. Abriu a mão e viu-o voar para longe.

A aragem trouxe-lhe pensamentos novos: num momento o gafanhoto está preso e noutro voa para longe. Num momento, ele estava fervilhando de alegria e no outro estava a dizer “palavras feias”, simplesmente porque se tinha esquecido das moedas com que havia de pagar o café. Em simultâneo nasceu-lhe no rosto um inquieto sorriso e a lembrança certa de que a vida é como uma roseira. Belas flores e sonhos que brotam lá no alto e espinhos e dores que impedem que sejam alcançadas num ápice. “O que é belo e bom, leva tempo a conseguir-se”  pensou.

Já saía de casa, novamente, enquanto meditava na certeza de que Deus dá pão e peixe mas não nos isenta a nós de participarmos na elaboração da refeição. Quer os nossos pães e os nossos peixes para que a refeição, como a vida, tenha um sabor humano-divino.

Mergulhado em desabituais pensamentos não se apercebeu de que a Ninfa, alcunha por que era mais conhecida, chegara bem perto dele. Percebeu, isso sim, que estava, hoje, bonita como nunca. Fez-lhe perceber isso. Ela reagiu, franzido o sobrolho, chamando-lhe tonto e garantindo que estava muito normal, até porque nem tinha feito maquilhagem. “Nunca tinha reparado que eras tão bela”, disse-lhe ele, escondendo o facto de que ele é que, nesse momento, se sentia como nunca.

Olhou-a nos olhos, desviou dela o olhar, tinha mesmo que ser, e convidou-a para beber um café. “Não há dúvida de que olhamos sempre os outros segundo o nosso estado de espírito interior”, pensou.

Entravam no café. A porta, apenas semi-aberta,…           

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Viveria com intensidade (11)


Era diferente o sentimento que o preenchia desde a morte do pai. Os momentos de dolorosos calafrios por que fora obrigado a passar fizeram-no revolver o pensamento e a forma de ver e assumir as coisas: sem saber por que força era movido, os dias tornaram-se mais solarengos e as pessoas pareciam mais alegres. 

Vivia uma fé de forma um tanto quanto morna e quando lhe falavam em aprofundá-la, em vivê-la com um pouco mais de intensidade, achava, embora na maior parte das vezes o não dissesse, que isso era pura demagogia e, mentalmente, concordava com Karl Marx, que afirmava que “A religião é o ópio do povo”. Meia dúzia de conversas e tretas que meio mundo inventa para manter alienados os pensamentos e ideias dos mais doutos. Embora não renegasse, também não defendia que a fé, como a oração, tivesse qualquer valor no viver feliz do ser humano.

“És muito tolo” exclamou ao fixar os seus próprios olhos enquanto, nessa manhã, se barbeava diante de um espelho salpicado de pequenas gotas de água. Falou de si para si, como se um outro eu o estivesse a censurar por ter vivido uma data de anos longe de si mesmo e da fé que, pais e catequistas, haviam tentado incutir-lhe desde a mais tenra infância.

Sorriu por sentir que esses tempos já lá iam e que o importante era o agora, o hoje em que se sente cheio de força e ânimo para achar que muitas das coisas do passado, sem deixarem de ser minimamente boas, podiam ter sido bem mais entusiasmantes e ter sido fonte de uns bons sorriso, gargalhadas mesmo, e umas “patifarias” num qualquer grupo de jovens, de vários, para os quais foi convidado a participar. “Que me interessa isso, agora?”- pensou.

Tinha razão. O passado era passado e passaria a ser mera reminiscência no futuro porque o presente iria abafar o que de menos bom pudesse haver dos tempos idos. E isso que lera um dia num livro que, por breves momentos, folheara enquanto aguardava que uma colega de escola viesse com meia dúzias de cábulas que ele lhe pedira para um teste de matemática?

Recordou que a ideia impressa naquelas páginas lhe gravara levemente a certeza de que a vida somos nós que a construímos e que não há que lamentar passados nem que empolar futuros porque o que importa mesmo é o momento presente, porque é esse que importa, porque é esse, simplesmente esse, que existe. “Tinha razão Chiara Lubich”- pensou. 

Sentia, agora, que importava o muito que ainda teria para viver. Fá-lo-ia com intensidade, e não deixaria de se manifestar positivamente diante fosse de quem fosse.

Pegou na chave do carro, alisou o cabelo e, em passo de dança, saiu.