quarta-feira, 9 de junho de 2021

Só Nos Falta Amar

É comum dizer-se que situações que nos marcam negativamente fazem doer o coração. Não que o coração doa realmente, por isso, mas porque ele é tido como centro e fonte dos sentimentos, bons ou maus, bem como da própria vida. Assim, dizer que estas situações provocam dor de coração é dizer que afetam o mais profundo, o mais íntimo de nós mesmos. 

Celebramos, sexta e sábado, dias 11 e 12, respetivamente, o Sagrado  Coração de Jesus e o Imaculado Coração de Maria. Corações intimíssimos um do outro, porque além de serem de mãe e de filho, o são numa dimensão divina, um Sagrado e outro Imaculado numa perfeita sintonia de amor.

Porque é, em essência, misericórdia, Deus fez de Maria uma criatura perfeita, tão perfeita quanto Deus pode fazer e a criatura, por força e graça divina,  o pode ser. Foi esta perfeita criatura que deu humanidade, a condição e forma humana, ao Deus que se fez carne, assumindo a nossa natureza sem a marca do pecado, porque era sem pecado a mãe que Lhe deu a humanidade, não Lhe transmitindo, assim, a pecadora condição, pois que a Deus não cabe o ser pecado.

Sem as limitações e imperfeições do pecado, Maria ama Deus e as criaturas com um tão perfeito amor quanto é possível amar. Ora, se nós, pelas condições limitadas e incapacitante que temos, não podemos amar nem acolher o amor de forma perfeita, também estamos limitados na compreensão do amor com que os corações de Jesus e Maria se amam entre si e nos amam a nós. "Perceber" e sentir o amor de Deus, em Jesus, e de Maria pressupões predisposição e capacidade interior e pessoal. Essa capacidade e predisposição acontecem tanto, e tão intensamente, quanto mais acontecer amor em nós, sendo que mais amor mais capacita e predispõe a pessoa para ser amada, receber amor,  e o ser amada capacita-a e predispõe-na mais para amar.

Como em efeito bola de neve, quanto mais se ama mais se é amado e quanto mais se é amado mais se ama... Falta-nos sempre amar mais.

sábado, 1 de maio de 2021

Dizer MÃE

Não sei se sim se não, mas acredito, não faz mal se estiver enganado, que a realidade expressa pela nossa palavra “Mãe” será a mais pronunciada à face da terra.

Balbucia-se quando ainda não se diz mais nada nem se sabe a lógica do pensar ou sequer o significado do “mamã” que que se solta dos lábios tenros da criança de berço. Os braços da mãe são o berço que se molda para, em simultâneo, aconchegar, aquecer e amar o filho que, em momentos de desconforto corre e se aninha, porque é ninho também, no abraço dos braços da mãe. Ela está lá, primeiro que o pai, no coração e na mente do filho, porque ela gerou e em dores á luz entregou esse ser frágil, pequenino, cujas feridas um beijo de mãe sabe curar, porque o amor também cura. Cura as feridas do medo e da incerteza, faz brilhar a noite da dor no beijo que a mãe dá, por mais nada, só por amor.

Só a mãe tem um corpo todo ouvidos, que ouve o chamar irritado de um filho, como ouve o silêncio de um olhar e a lágrima invisível que corta o coração do filho até atingir e ferir o da mãe, só porque o coração dela nunca se conseguiu desprender, um pedaço sequer, do filho que é dela e que ela deu, oferecendo-o, ao mundo, sem nunca deixar de ser escudo e de as dores e aflições aparar. É forte o pai, e herói, mas… é sensível, compreensiva e dos problemas solução, a mãe.

Não é mãe o monstro que vive tão escondido e embrenhado no corpo da mulher que, por vontade e querer seus, ousa destruir-se quando mata um filho, grande que seja ou embrião que ainda não se veja… Perde, mas não sabe o que perde, toda a vida que se aperta no abraço, mais de amor que de força feito, de um filho que diz “amo-te” e deixa cair uma lágrima quente de emoção só porque um abraço não pode dizer tudo. Não pode saber o que é viver aquela que, por querer, um filho mata e não deixa nascer.

Continua a ter a força e o peso do mundo a palavra “mãe” quando, no silêncio que rodeia uma alma esmagada pela dor ou a saudade, se diz a meia voz e ninguém ouve, ninguém, mais ninguém, senão aquela que é nossa mãe e que Deus já levou para Si.

Gratidão já, na palavra, no gesto, no agir, é o menos que pode fazer um filho por tudo o que de visível e invisível a mãe fez, ou faz, por ele. Vezes sem conta, o ato de gratidão vem mais depois da morte que durante a vida. É tarde, muito tarde, para a mãe e para o filho, porque, se a vida que na mãe se dá cresce na medida da dádiva, a gratidão que o filho dá, preenche a vida de ambos e não morre nunca, por ser princípio de eternidade.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

Abençoado Natal

 

São muitos os lamentos porque se não pode celebrar a quadra natalícia segundo os trâmites normais. Acontecem lamentos face à impossibilidade do encontro e tomar de refeições em grandes ajuntamentos familiares, como acontecem porque economicamente a coisa não está nada fácil. Verdade seja dita que também acontecem lamentos porque as celebrações religiosas não podem seguir o tom festivo habitual.

 Deixando os lamentos e a dimensão que dizemos negativa, só porque não vai ao encontro do nosso querer, desejo e tradição, pensemos no quanto de bom temos para viver nestes dias. Temos vida, uma família, alguém com quem partilhamos ou gostaríamos de partilhar afetos, sim, se temos alguém com quem gostaríamos de estar… temos alguém, não somos solidão. Pensamos, por acaso, em dar graças a Deus por tanta coisa boa que nos tem sido concedida ao longo deste ano? Pois..., provavelmente, a nossa mente delicia-se em pensamentos e palavras esmagadas sob tanta coisa que foi “má”. O mal dos outros não pode, em situação alguma, trazer-nos alegria (não digamos, por isso, “com o mal dos outros posso eu bem”), mas o facto de sabermos as tremendas condições de tanta gente por esse mundo além tem que dar-nos motivação para sermos agradecidos por estarmos bem. Ótimo será quando, estando menos bem, formos capazes de nos olharmos com esperança e aproveitarmos o momento para buscar Deus e, com Ele, acreditarmos na oportunidade de amar a cruz caminhar para Ele.

 

O Natal é tempo de alegria e esperança certa de que Deus se fez Homem para nos arrancar de um mundo de perdição para, morrendo por nós, nos levar à Eternidade na plena comunhão com Ele. Não pode ser de lamentos este Natal, porque é uma oportunidade purificadora dos extremos a que se chegou nos últimos tempos: é oportunidade de encontro de núcleos familiares, em que se pode dar muito mais atenção a cada pessoa presente, sem o barulho e a algazarra da “multidão” familiar, como é oportunidade para “breve” paragem para uma palavra com Aquele cujo nascimento celebramos.

sábado, 28 de novembro de 2020

Ele Vai Nascer

Iniciamos um novo ano litúrgico. O Advento celebra exatamente o tempo de expetativa, o tempo de espera do Salvador. Vivemos uma situação que leva, os que creem, a uma intensificação do pedido a que o Senhor venha a nós com sua força salvadora; para  muitos daqueles que “nem sim nem não” será ocasião de maior afastamento em relação a Ele. Direi que estamos em tempo de discernimento, de claro sim, ou não, a Deus.


Para quem opta por um sim e uma maior aproximação à salvação que Deus nos oferece, é preciso que não se caia num certo engano de buscar e querer de Deus apenas a “salvação” e libertação daquilo que é a pandemia e outras situações materiais e físicas. Esperar a salvação de Deus é, antes de mais, e essencialmente, querer a salvação da vida na relação com o bem e o mal; é querer que o Senhor nos liberte do mal, que pode conduzir a uma perdição eterna. As doenças, as guerras… passarão, deixarão e apoquentar-nos, mais dia menos dia, após a morte do corpo. Primeiro há que acolher Deus em nossas vidas para que nos liberte dos poderes do mal. Então, depois do encontro pessoal com Ele, peçamos ardentemente, que no livre destes males terrenos, pedindo que, acima de tudo, se faça a sua vontade em nós e que tudo saibamos ver como ocasião de remissão e oportunidade para mais O acolher em nós.


Preparamos o Natal. Já se veem luzes a cintilar por aí, mostrando um Natal que não diz muito. O Senhor quer nascer e crescer em nós, dentro de nossas vidas para preencher os espaços que quisermos oferecer-Lhe. Só fará parte daquilo em que O deixarmos entrar: na nossa esperança, na nossa confiança, nos nossos medos, nos nossos pecados. Sim Deus quer entrar aí para preencher de misericórdia e graça, o que em nós é desencanto, incerteza, angústia, doença, pecado.


Viver o Advento é ir deixando que tudo aquilo que em nós é ausência de Deus vá dando lugar Àquele que é Criador e nos oferece vida constante, Àquele que é Salvador, nos liberta do pecado, e dá vida em abundância, Àquele que é Santificador e nos enche de vida plena. Deus vais nascer se deixarmos que o possa fazer.

 

sábado, 31 de outubro de 2020

Ser Santo é Para Todos

 

Está bastante difundida a ideia de que ser santo é algo quase de outro mundo, ou então de que os santos são seres extraordinários, gente fora do comum, como se o chamamento a ser santo não fosse feito a cada um. Ser santo é viver os grandes e os pequenos momentos da vida em comunhão com Deus, ou seja, segundo a sua vontade. Alguns fazem-no de forma extraordinária, indo para além daquilo que é vida comum, na sua capacidade de intimidade  e de entrega de si mesmos a Deus, no sofrimento por exemplo.

Ser santo não é ser reconhecido pela Igreja e estar nos altares. É deixar-se amar por Deus ao ponto de ser por Ele acolhido em eternidade. A Igreja, pelos sinais de vida vivida de forma extraordinária por alguns, declara que estão no Céu. Não é por isso que são santos, é por serem santos que a Igreja os declara como tal. 

A verdade é que só Deus sabe quem são os santos, pensemos nos do Céu e nos do Purgatório. Qualquer um de nós pode apontar umas e outras pessoas que acreditamos estarem em Deus, mas só Deus o sabe. Não ns cabe a nós julgar nem na vida nem na morte e só Deus conhece a plenitude da vida que cada um é. Quantos pensamos bons e são maus e quantos julgamos por maus quando são verdadeiros santos!? Percebemos porque é que não nos cabe a nós julgar, condenar ou absolver ninguém. Todo o juízo humano é falacioso, enganador. Perceba-se também a razão por que não temos o direito de dizer4 mal de alguém, precisamente porque não conhecemos as razões e o interior de cada um. 

Celebrar os santos, sejam já participantes da plenitude do Céu, ou estejam ainda nas moradas purificadoras do Purgatório, é, antes demais., cantar a glória divina, viver em atitude de ação de graças por aqueles que são santos e pela ação de intercessão que fazem por nós. Em relação às almas do purgatório é petição ao Senhor para que as leve a contemplar definitivamente a sua Glória no Céu. Como não sabemos quais são umas e outros, assumamos uma atitude de louvor e gratidão por todos aqueles que já partiram rumo ao Pai.

 

sábado, 10 de outubro de 2020

Banquete de Vida

Chegámos aos incríveis tempos de ver as nossas igrejas cheias com muito pouca gente, e de ter que aumentar o número de celebrações por forma a poder permitir a participação de mais fiéis, passando pela necessidade de alguns sacramentos, os casamentos por exemplo, terem de ser celebrados sem missa.

 

Não é isso motivo para júbilo, bem pelo contrário, é ocasião que conduz à reflexão e a um interior lamento por vivermos o que vivemos, nestes tempos em que nos sentimos completamente à deriva, sem poder programar muito o amanhã porque nem no hoje há a certeza de estarmos bem. O medo corta-nos as pernas no caminhar para o encontro com os outros, corta-nos os braços fechando-os em si e impedindo-os de se darem em abraços que limitem a dor da solidão e o sofrimento de não se poderem sentir os sinais físicos do amor que é presença e contacto de comunhão.

 

De pernas e braços tolhidos, das quase certezas de que o Natal será vivido de forma restrita, da incerteza e medo de que os outros, ainda que seja um pequenino bebé a gatinhar numa creche, sejas inocentes portadores de morte para nós ou para os que nos são próximos, sentimo-nos vestidos de insegurança e não sabemos a que agarrar-nos.

 

Deixámos Deus à margem das nossas vidas precisamente quando nos sentíamos seguros nas certezas de nós mesmos, no infinito poder da ciência e das coisas que, agora, nos fugiram de debaixo dos pés, fazendo-nos tremer como artista que segue em corda bamba equilibrado por uma vara que não se prende a nada que seja seguro. Voltarmo-nos para Deus não será fácil, precisamente porque O atirámos para longe fazendo que se tornasse um desconhecido. Os desconhecidos não nos dão seguranças, não os conhecemos, não sabemos que garantias nos dão, que poder podem ter sobre os males e medos que nos assolam.

 

O mundo falseia o que são as suas certezas. Só Deus, mesmo que o não queiramos crer, pode preencher os espaços de esperança e confiança que se esvaziaram em nós. A Missa é ponto central, onde tudo se entrega, onde tudo se recebe, de onde tudo se leva. O banquete está preparado, não recusemos o divino convite.


quarta-feira, 23 de setembro de 2020

Espiritualidade Sem Deus

O estado de pandemia em que vivemos  é revelador de muito daquilo que somos,  em todos os aspetos, também na dimensão religiosa. Não vamos entrar em lamentação ou julgamento, mas apenas buscar uma reflexão que, tanto quanto possível, nos leve a pensar na condição de cristãos que somos e que nos advém do facto de sermos batizados. 


Um vírus está a tomar conta da sociedade que  somos, ou que éramos, e a controlar aquilo que queríamos ser. Percebemos como a vida está em causa e como o mundo está a limitar uma das realidades mais básicas das sociedades democráticas, a liberdade, para conter o avanço deste vírus em nossas vidas.


Somos cristãos, digo somos porque vivemos num ambiente quase totalmente composto de batizados. Sabemos como as gerações mais novas de vêm embrenhando sempre mais nas realidades do mundo e afastando da espiritualidade cristã, que é de facto um afastamento em relação a Deus, substituindo-o por “entidades” espirituais que leva a pessoa a centrar-se sobre si como centro e razão de ser do mundo. As gerações de mais idade viveram muito um cristianismo centrado na tradição, não tanto numa relação pessoal com Deus, o que levou a uma educação desenraizada de um Deus em relação pessoal com cada um. Isto leva a que continuemos a viver de uma fé assente em tradição, mas sem ser concretizada na vida.


Não fazendo parte da essência do viver da pessoa, com toda a facilidade, e perante a primeira oportunidade favorável, Deus é posto à margem da vida, porque não é importante nela. Guarda-se apenas como mais um “ser” a quem se recorre nos momentos de aflição, particularmente nos que são pessoais, não tanto naquilo que se referem aos outros, precisamente porque nos centramos em nós mesmos e não vemos Deus como pai e os outros como irmãos


Falo das aflições pessoais porque, se repararmos bem e lá no fundo, o que leva a recorrer a Deus é o medo pessoal de entrarmos em fragilidade ou da fragilidade de outros, do medo de perder, aqueles que por qualquer razão acabam por nos fazer falta. Nós sempre no centro.

Temos uma real necessidade de um encontro pessoal com Deus. Enquanto o vírus for impedimento para isso, não nos teremos posto em marcha e deixamos que fique ainda mais distante.

terça-feira, 1 de setembro de 2020

Vai-te daqui, Satanás

 


Satanás não é propriamente o mais simpático de se chamar a alguém, mas foi o que Jesus chamou a Pedro, quando reagiu como reagiu ao ouvir Jesus dizer que havia de morrer às mãos dos “grandes” de Jerusalém.

Satanás tão somente aquele que se opõe e comanda toda a oposição a Deus. Toda a sua vontade e todo o seu agir vão no sentido de impedir que se realize o projeto salvador de Deus. Porque contra Deus não pode nada, atua junto das criaturas livres, o ser humano, para nos levar a negar, a impedir e a recusar a salvação operada e oferecida por Deus. Deus salva, o diabo quer que não chegue a nós essa salvação. 

Embora não se dando conta, S. Pedro estava a deixar-se guiar por vontade diabólica procurando levar Jesus a não se entregar à morte, precisamente porque seria nessa entrega que aconteceria a salvação, como de facto sucedeu. S. pedro está a reagir com a melhor das intenções querendo evitar a morte de Jesus - “Deus Te livre de tal, Senhor, isso não há de acontecer” - Se tal não acontecesse, não aconteceria a Salvação, os planos de Deus seriam frustrados. Esse era, continua a ser, o plano de satanás. Porque estava a agir por meros intuitos humanos, recusando que a ação de Deus se operasse, estava a ser intermediário do mal, e Jesus identifica-o com o próprio mal.

É assim mesmo que ele atua: discretamente; fazendo passar por bom aquilo que é mau; atraindo para a ilusão de vida aquilo que a ela não conduz; criando indiferença em relação a Deus; destruindo as bases das relações de amor, como é o caso da família; sexualizando as relações entre pessoas; levando a transpor os valores da vida humana para os animais, desvalorizando-os nas pessoas; destruindo a vida pelo aborto e a eutanásia, fazendo passar por valores aquilo que é exatamente o seu contrário… Tenha-se em conta que, como norma, ele não atua diretamente, mas através das pessoas, e sempre que se faz a sua vontade ele ganha terreno e quem perde somos nós. Ele nada perde porque só há sentimento de algo que é bom, e ele é condenado e nada há nele que não seja mal.

Foi das suas mãos, do seu poder, do seu domínio, que Jesus nos libertou ao morrer na cruz. É dele que Deus quer libertar-nos. Está em nós a escolha.