segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Um Deus Louco

Omnipotente. Assim é o Senhor Deus, Todo-poderoso. 

Aquele que tudo pode e sabe, é um louco de amor pelas pobres criaturas que nós so-mos, loucamente pobres por haver em nós a capacidade de, com consciência, fazer o mal. É assim, nesta natureza fragilíssima e pecadora, que nos ama loucamente ao ponto de se fazer um de nós, assumindo as nossas fragilidades todas, menos aquela de sermos pecadores.

Preparou, ao longo da história, um povo que Lhe fosse fiel, e no meio de todas as infidelidades desse povo, Ele permaneceu fiel. Preparou um céu na terra: o ventre sagrado da vida pura de uma mulher imaculada. Nesse céu se fez vida humana e santificou a vida desde o momento primeiro da sua conceção, e ela se tornou sagrada. Nesse céu se deslocou, pequenino embrião ainda, a santificar Santa Isabel, e S. João, o Baptista, no seu seio. 

Por Ele, e Ele permitiu, centenas de crianças, pequeninas ainda, com menos de dois anos, sem saberem, deram a vida às mãos de um homem louco por vingança. Não se perdeu uma gota sequer, porque Deus dá vida plena aos que Lhe oferecem a vida que têm. Santos, inocentes, os mais pequeninos e primeiros se deram e Ele os aceitou e agora vivem para sempre.

Ele, pequenino, com alguns dias apenas, poucos, se escondeu em terra estrangeira: no Egito foi refugiado. Uma mãe e um pai, amedrontados mas confiantes, O guardaram e protegeram das mãos do malvado de coração odioso que queria matar Deus, porque Deus não abandona os que são seus. Livraram-se Ele e o pequenino João, primo seu, porque haviam de dar a vida, eles também às mãos de um outro Herodes, em loucura igual ao primeiro, mas apenas depois de testemunharem e ao mundo falarem do amor de Deus, que é misericórdia.

Fez-se homem: recolheu-se nas mãos de um pai e uma mãe a quem obedeceu, de quem aprendeu e a quem santificou e, neles, santificou também a família e a vida que dela nasce e nela cresce. Nele tudo se santifica.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

Este é o Tempo...

Este é, para muitos, tempo e ocasião para viver um profunda solidão e tristeza, sentimentos que advêm de uma, mais ou menos real, certeza de que este é, por natureza, tempo de verdadeira felicidade para todos, o que acentua mais ainda os aspetos que marcam  menos positivamente a vida de cada um, as vidas de tantos.

Lia um artigo afirmativo de que esta é a época mais hipócrita do ano. É-o de facto, não por si, mas pelo que dela fazemos. As épocas, os tempos ou as coisas, não são hipócritas, somo-lo nós que, hipocritamente, somos  e vivemos  cada época do tempo que a vida nos proporciona.
Este é o tempo mais belo que pode ser vivido, seja por quem for, o que não quer dizer que todos assim o vivam: este é o tempo, o único tempo que existe. O passado passou e foi o que dele fizemos, o futuro será o que hoje somos e o que amanhã formos.

Este é tempo em que Deus nasce e dá fecundidade à vida daqueles que preparam "terreno" para que a semente do Verbo possa gerar e dar fruto; este é o tempo em que Deus, oferecendo-se na aceitação da vontade do Pai, se dá e salva aqueles que sabem curar as feridas da falta de sentido de vida, as feridas de pecado, com a Palavra que guia, o Corpo e o Sangue que alimentam; este é o tempo favorável do encontro com o Deus criador que nos recria, o Deus Salvador que nasce, se entrega, e salva, o Deus santificador que move aqueles que se tornam dóceis à sua voz para que vivam e façam de toda a sua existência uma época de encontro com a plenitude divina e dela sejam portadores para aqueles com quem cruzam suas vidas.

Este é o tempo, o melhor, porque o único tempo, para que uns e outros, todos: ricos e pobres, saudáveis e doentes, pequenos e grandes, iludidos com a vida ou com ela desiludidos, abram coração e mente, tudo o que são, para que Deus possa nascer, crescer e salvar: para que aconteça mesmo Natal, vivido sem hipocrisia, só em verdade e, então sim, possa ser natal todos os dias. 

domingo, 9 de dezembro de 2018

Porta Que Leva ao Caminho

Temos, hoje em dia, muito facilitadas as formas de encontrar o caminhos para onde quer que nos dirijamos, "basta comprar um GPS" e, mais coisa menos coisa, ele vai levar-nos ao lugar certo. 

Estamos em caminho, não de um lugar mas de um estado, de uma forma de ser, a caminho da eternidade, na glória de Deus. O caminho está aberto e é claro: nascemos de Deus e para Ele somos chamados a caminhar e viver. Caminho há só um: Cristo. Mas é preciso percorrê-lo. Ele deu, antes de nós, os necessários passos a dar. Liberalizou estações de reabastecimento de energias e graça: os sacramentos. Enviou-nos sem pesos e cargas, mandando-nos sacudir até o pó do mal que possa pegar-se ao calçado.

Vai connosco, connosco caminho e para nós se faz caminho, não nos deixando sós, por um pequeno momento que seja. Faz-se sede em nosso interior para que Dele sintamos desejo e vontade, porque só caminha quem a algum lado ou a alguém quer chegar. 

Aqui entra a dificuldade: sabermos se há em nós um real desejo de Deus. Não acontecerá, porventura, que, cheios de nós mesmos e de nossas coisas, não tenhamos espaço para Ele?

Maria, a soberana Senhora, foi aquela que mais profunda e intensamente  desejou, esperou, e orou para que o Senhor Deus enviasse ao mundo o Salvador., tal e tão intenso era o seu desejo de que a humanidade fosse salva. Por sua profunda humildade, não Lhe passava em mente que fosse achada digna de ser a Mãe do Salvador. Não sabia que era Imaculada, simplesmente se entregou a si mesma ao projeto salvador de Deus e, incessantemente, orou para que esse projeto se realizasse quanto antes. 

Sua condição de Imaculada levou-A à total entrega de si mesma, pelo que um "não" à vontade de Deus seria impensável nesta mulher que era toda, e só, de Deus. Ainda assim, Deus não Lhe retirou a liberdade, sabia, no então em quem confiava: um Deus que se confia "todo" no "Sim" e na vida de uma jovem mulher!

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Maria, Farol e Vigia

E estamos em Advento... Começa um novo ciclo litúrgico. Convocados pela Igreja a celebrarmos com adequada preparação o Natal, iniciamos este tempo assumindo a necessidade de nos dispormos a permitir que Jesus se torne realidade em nossas vidas.

No próximo sábado celebramos a Imaculada Conceição da Virgem Maria. Especialmente preparada por Deus, que a isentou de toda a macha de pecado, fazendo dela um ser humano único, absolutamente predisposta para que Jesus pudesse encarnar, assumindo a nossa humanidade. O ventre de Maria tornou-se o céu. O seu "Faça-se" foi ato de plena entrega de si mesma, um pleno assumir de todas as consequências do ser Mãe do Salvador e um acolher em suas mãos o projeto divino de salvação da obra criada.

Hoje, a liturgia da palavra, faz um veemente apelo à vigilância em todo o tempo e momento. Vigiar é ser reflexo de Maria: a mulher que, porque cheia de graça,  por graça divina e vontade sua, se tornou o mais atento e acolhedor ser de toda a grandeza de Deus. Nela não havia impedimento à plena entrega de si mesma à vontade de Pai, esse impedimento que o pecado provoca em nós, impedimento tanto maior quanto maior for a falta de graça (a desgraça) em nosso ser.

Maria, sem que alguma vez lhe passasse pela mente a ideia de poder ser a  Mãe do Salvador, a extrema humildade de que se revestia fazia-A sentir-se a mais indigna de todas as criaturas, tornou-se, por seu amor à humanidade, a única que pedia gerá-Lo em seu ventre por ser Ela a única capacitada para tal acolhimento, por ser a única desprovida de qualquer sombra de pecado. Ela foi, e não haverá ninguém mais, a única que podia receber em si a força, a luz, que é o próprio Deus, em toda a sua intensidade.

Maria, tornou-se, assim o farol irradiador de graça e de luz que fortalece e ilumina qualquer pecador, no seu pequeno e incapacitado desejo de comunhão com Deus. Estar vigilante é olhar, querer e desejar, Deus através de Maria, a Mãe atenta e vigilante.

quinta-feira, 22 de novembro de 2018

A Mais Alta Dignidade

Conhecemos todos o modo de pensar desta sociedade que somos, no que se refere, de modo geral, naturalmente, a Deus e a tudo o que Lhe diz respeito. Invertemos valores: pusemos o homem no lugar de Deus, e perdemos o senti-do do que somos; agora estamos em processo rápido de profunda perda de dignidade humana, quando pomos os animais acima das pessoas. A consequência de nos pormos acima de Deus levou-nos a ficar abaixo dos animais.

Perdidos numa forma de pensar que nos afasta de Deus, reagimos da forma mais infeliz quando uma criança, adolescente, ou jovem manifesta o interesse por se consagrar a Deus no sacerdócio. Digo ser a forma mais infeliz porque, além de não se respeitar a pessoa, se desmotiva e arrasa "em modo (uso a palavra da moda) bulliyng, um projeto de vida pessoal, e, mais grave ainda, pode estar-se a impedir um projeto de Deus, o mais dignificante do ser humano: ser integrado, por escolha divina, no ministério do próprio Jesus Cristo.

Bem sei que só quem acredita e vive da fé pode entender e dar valor ao que escrevo: outros veriam nisto, se o lessem, uma oportunidade de escárnio e maldizer. Quem dera que acontecesse só com quem se diz não cristão! A dificuldade maior está em que a atitude desmotivadora e negativa acontece dentro da própria casa, na família, como nos cristãos em geral. 

Muito se diria, mas ficam apenas pensamentos que mostrem um pouco da grandeza da vocação sacerdotal e da vida que, exercendo-se bem, se gera no próprio sacerdote e à sua volta. Tem pecados? Sim. Como qualquer pessoa deve não viver neles. Não sendo o sacerdócio uma "profissão", mas uma vocação, o Senhor chama os que quer e investe-os do seu próprio poder para que possam atuar Nele.

Nos sacramentos, particularmente na Eucaristia e na reconciliação atua o próprio Deus. Jesus eleva a uma tão alta dignidade o sacerdote, que chega ao ponto de depender dele para atuar. Se o sacerdote não quiser, a Eucaristia não acontece. Sendo uma responsabilidade muitíssimo grande, o ser padre é uma dignidade infinita, que deve levar o sacerdote a uma profunda humildade. É digníssimo ser sacerdote, como o é ter um filho que o seja. 

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Sinais de Deus

Pode chegar a cansar o facto de andar-mos todos os anos a falar do assunto, repetindo, naturalmente, as questões, as razões, os quês e os porquês. Cada ano a Semana dos Seminário se repete em jeito de recordação, lembrança, mas, acima de tudo, de apelo.

O problema pode não nos afetar muito, porque nos não "inclinamos" sobre ele. O Seminário é uma realidade que nos passa ao lado, na medida em que estamos alheados das preocupações que têm a ver com a nossa fé. Ainda não sentimos, de facto, as consequências da falta de sacerdotes. Até agora têm dado para as "encomendas". Assim acontece porque não é muito o que buscamos de Deus, através deste mistério ( e Ministério) inefável do sacerdócio que Jesus instituiu. 

O mais dramático não é a não necessidade de sacerdotes, o verdadeiro problema está em que não sentimos necessidade de Deus. Acreditamos bastarmo-nos a nós mesmos e, como tal, Deus acaba por ser perfeitamente descartável. Pelo menos até ao momento da dor, da angústia. Aí sim, buscamo-lO, mas numa grande percentagem das vezes, fazemo-lo para O acusarmos dos males que em nós, nos outros, e no mundo acontecem. Sobre Ele descarregamos, atirando-Lhe as culpas de tudo o que de menos bom vai sucedendo.

Há uma necessidade urgente de que nós, cristãos, percebamos o sentido de Deus em nossas vidas. Ousaria chamar para aqui o sentido político da humanidade: não está em causa que seja numeroso, sem limites, o povo de Deus; não está em causa o número de militantes que a Ele aderem para que seja a maior força de poder. Em causa está a salvação, a vida, não a de Deus porque é Ele a própria Vida, mas a nossa, aquela para que fomos criados e que podemos estar a deixar escapar na indiferença da vida que somos e vivemos. Porque a força de Deus se manifesta na fraqueza, nos mais "pobres", naqueles homens e mulheres que, por serem e se sentirem pobres de si mesmos, se deixam encher e enriquecer de Deus.

Rezar pelos seminários é ser Igreja, sinal e presença de Deus no mundo.

domingo, 4 de novembro de 2018

Comunhão de Santos

Falando, ainda, de Almas, porque o mês é a elas dedicado, é importante refletirmos, pensando na relação e na comunhão de santos que se estabelece entre todos aqueles que  pelo batismo acolheram a filiação divina e, ao longo da vida, buscam ser fiéis a Deus.

Somos pessoas. Como tal, somos constituídos de corpo e alma. Os animais são um corpo, os anjos são espíritos, a pessoa é corpo e espírito, alma. Ao dar a vida, Jesus remiu toda a obra da criação. Centremo-nos é nós para dizer que não salvou a nossa alma, salvou a pessoa que somos: corpo e alma. Pela morte do corpo a alma é ascende junto de Deus e, num primeiro julgamento, é-lhe concedido o Céu, o Purgatório (purificação), ou a condenação, se esse foi o caminho que escolheu. 
Acreditamos que Jesus virá, no fim dos tempos para julgar os vivos e os mortos. As almas retomarão o seu corpo, agora glorioso, e viverão em Deus definitivamente. Porque somos pessoas, de corpo e alma, assim viveremos em Deus (ou não).  

As almas que estão na glória não têm necessidade de oração, mas a oração que por elas façamos não se perde: glorifica Deus, e Deus confiará seus frutos onde eles forem necessários. Elas intercedem por nós.

As Almas do Purgatório estão em estado de purificação, porque no Céu entra só quem é puro como Deus. Este estado acontece para purificação das almas. Estas não podem fazer nada por si mesmas, podem interceder, isso sim, por nós. Beneficiam das nossas orações e intercedem por nós, particularmente por aqueles que por elas rezam.

Em qualquer destas situações, quem primeiro recebe graças é aquele que reza e dá glória a Deus.

Dos condenados, não vale a pena falar, nada há a fazer por eles.

Geralmente, pelas Almas, oferecemos a Eucaristia, mas toda a nossa vida pode ser vivida em ato de oferta. A via-sacra, concretamente, e o jejum, são meios muito proveitosos. Não desistamos de oferecer a nossa vida a Deus.

domingo, 28 de outubro de 2018

Mês das Almas

Este é já o último domingo do mês de outubro. Mês de Rosário e de Missões, termina 31 dias depois de ter começado, mas a necessidade de oração do terço é premente, todos os dias, assim é pedido por Nossa Senhora. E o mundo precisa de Deus, está nas mãos dos verdadeiros missio-nários esse levar Deus ao mundo.

Passam os dias e chega novo mês. Vai ser novembro, este dedicado às Almas. Ora bem, fixando-nos por aqui, convém (re)parar e pensar um pouco. Celebram-se os santos e os defuntos, aqueles que os celebram, pois muitos, dizendo-se cristãos, prestam culto a criaturas más, que põem em lugar de Deus. Muito por alto: os "Santos" são aqueles defuntos que se encontram já a viver na Glória de Deus; os "Defuntos" são aqueles (santos também) que estão ainda em processo de purificação no Purgatório. É mais ou menos assim que a nossa linguagem identifica aqueles que, de modo particular em novembro, recordamos.

Mas os santos que o são depois desta vida terrena, construiram santidade, vivendo-a pessoalmente em vidas comuns, sem grandes aparatos visíveis, discretos, fechada a porta dos seus quartos, em comunhão com Deus. Entregaram-se como pais, mães, filhos, irmãos... numa na busca constante de Deus e num desejo, sempre maior, de O conhecerem, e Lhe serem fiéis, amando-O nos pequenos e grandes momentos, bons e maus, de suas vidas.

Os santos "fazem-se" com vida prática na participação nos atos voluntários de caridade para com os irmãos, nos atos de respeito de cuidado da natureza, atos sempre de interior voluntariado, ainda que, por aparência, sejam uma obrigação. Atos de amor que passam sempre, necessariamente por Deus, para que Lhe sejam confiados e por Ele santificados, e não permaneçam apenas no mundo do humanismo, é bom mas é pouco. 

É Deus quem nos santifica, o que acontece quando a Ele nos confiamos, quando, pessoalmente, celebramos, acolhendo as graças que nos são conferidas nos sacramentos, quando rezamos. É pela vida que vivemos em Deus que Ele pode salvar-nos. Vale aquilo que cada um de nós vive, muito mais que aquilo que os outros, depois da morte rezem por nós.